(João Gomes, in Facebook, 15/05/2026)

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Quando Xi Jinping recebeu Trump e evocou a necessidade de “evitar a Armadilha de Tucídides”, não estava apenas a citar um conceito académico ou um episódio remoto da Grécia Antiga. Estava a estabelecer o tom político de toda a conversa que se seguiria. E talvez mais do que isso: estava a anunciar ao mundo que a China já não se apresentava diante dos Estados Unidos numa posição de subalternidade estratégica.
Na superfície diplomática, a frase talvez tenha parecido conciliadora, como uma advertência prudente sobre os perigos históricos da rivalidade entre potências dominantes e potências emergentes. Tucídides escrevera que foi o crescimento de Atenas e o medo que esse crescimento provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável e Xi recuperou essa ideia para afirmar que a História não precisava repetir-se. Mas a política internacional raramente vive apenas da superfície das palavras.
Ao invocar Tucídides naquele momento, Xi Jinping fazia algo muito mais profundo: colocava os Estados Unidos e a China no mesmo plano histórico. Não como mestre e discípulo. Não como império e periferia. Não como vencedor da Guerra Fria e potência em ascensão obrigada a aceitar regras alheias. Mas como dois centros de poder civilizacional obrigados a negociar um novo equilíbrio.
Esse é decisivo. Durante décadas, Washington habituou-se a falar com o mundo a partir de uma posição de supremacia quase incontestável – militar, financeira, tecnológica e cultural. A China, por sua vez, cresceu dentro dessa ordem internacional, beneficiando dela enquanto preparava o momento em que pudesse alterar o próprio eixo da balança global.
A referência à Armadilha de Tucídides é, portanto, simultaneamente um gesto com diplomacia e uma declaração de soberania estratégica. Xi quis dizer a Trump: “Podemos evitar o conflito. Mas apenas se os Estados Unidos aceitarem que o mundo deixou de ser unipolar.”
E talvez tenha sido precisamente essa a frase não pronunciada o mais importante de toda a visita. Porque a verdadeira questão nunca foi apenas comercial. Muito se falou das tarifas, dos défices, da tecnologia, das fábricas e da concorrência industrial. Mas por detrás desses temas encontra-se uma disputa muito maior: quem define as regras do século XXI? Quem controla as cadeias energéticas, os semicondutores, as rotas marítimas, as moedas de reserva, as infraestruturas digitais e os corredores comerciais que ligam continentes inteiros?
A China percebeu há muito tempo que o confronto moderno já não depende apenas de exércitos. Um bloqueio tecnológico pode ser tão destrutivo quanto um bloqueio naval. Uma sanção financeira pode ter o mesmo efeito de um míssil. E uma guerra prolongada no Médio Oriente pode desorganizar cadeias energéticas inteiras, provocar inflação global e travar o crescimento das economias dependentes da estabilidade comercial.
E é aqui que a questão de Taiwan e do Irão ganham significado. Quando Xi fala em evitar a Armadilha de Tucídides, não está apenas a falar da relação bilateral entre Pequim e Washington. Está também a enviar um sinal sobre a arquitetura global do conflito.
A China observa a sua região e o Médio Oriente não apenas como regiões marcadas por crises recorrentes, mas como peças vitais da sua segurança estratégica e económica. A história de Taiwan e o petróleo iraniano, as rotas energéticas do Golfo, os corredores marítimos e os projetos ligados à Nova Rota da Seda fazem parte de uma lógica estratégica central para Pequim.
Nesse contexto, a mensagem implícita tornou-se mais clara. A China não parece disposta a assistir passivamente a uma sucessão interminável de confrontos, sanções e intervenções que desestabilizem regiões fundamentais para o seu crescimento económico. E menos ainda a aceitar que crises internacionais sejam conduzidas exclusivamente segundo os interesses geopolíticos de Washington.
Quando Xi fala de “programas sem sentido”, ou quando Pequim critica políticas de confrontação contínua, o que está verdadeiramente em causa é a ideia de que o sistema internacional não pode continuar eternamente subordinado à lógica da guerra permanente ou da pressão estratégica unilateral. Pequim sabe que uma escalada regional envolvendo o Irão teria efeitos globais profundos: aumento brutal do preço da energia; instabilidade financeira internacional; perturbação do comércio marítimo; aceleração da militarização global; e fragmentação ainda maior da economia mundial.
Tudo isso ameaça diretamente aquilo que a China considera essencial: estabilidade para continuar a crescer, exportar, investir e consolidar a sua influência. Por isso, a frase de Xi teve uma densidade muito superior à aparência protocolar. Ela funcionou como aviso histórico, mas também como linha vermelha diplomática.
A China afirmou que não aceitaria ser empurrada para uma posição defensiva dentro de uma ordem internacional desenhada exclusivamente pelos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, procurou deixar claro que qualquer tentativa de contenção absoluta da ascensão chinesa poderia gerar precisamente aquilo que todos afirmam querer evitar: uma espiral de confronto sistémico.
Todos dizem querer evitar a Armadilha de Tucídides. Mas quase todos os movimentos estratégicos do presente parecem empurrar o mundo para dentro dela. Os Estados Unidos reforçam alianças militares no Indo‑Pacífico, restringem tecnologias sensíveis e tentam reduzir dependências industriais da China. Pequim expande a sua marinha, acelera a autonomia tecnológica, fortalece laços energéticos e financeiros alternativos e aproxima‑se de países pressionados pelo Ocidente.
Cada lado afirma agir defensivamente. Cada lado vê o outro como potência revisionista. E cada passo dado para garantir segurança acaba por aumentar a insegurança do adversário. Foi exatamente isso que Tucídides descreveu há mais de dois mil anos.
Talvez por isso a frase de Xi Jinping tenha ecoado tão fortemente. Porque nela existia simultaneamente prudência e desafio. Prudência, ao reconhecer que uma colisão entre grandes potências seria desastrosa para o planeta.
Desafio, ao afirmar que a China já não aceita um lugar secundário na hierarquia global. No fundo, a Armadilha de Tucídides não é apenas uma teoria sobre guerras. É uma teoria sobre o medo. O medo de perder poder. O medo de ver surgir uma nova ordem. O medo de que o futuro pertença a outro.
E talvez seja precisamente esse medo – mais do que qualquer ideologia – que hoje molda silenciosamente o destino do século XXI.
Era preciso que o homem não estivesse a falhar com um grunho que provavelmente não sabe quem foi o primeiro presidente dos Estados Unidos quanto mais quem foi Tucídides e muito menos porque disse o que disse.
E deixar de tentar dominar o mundo e coisa que os Estados Unidos provavelmente nunca farão.
Nunca deixarao de acreditar no destino manifesto.
Pelo que o gesto diplomático da China nao vai servir de nada.
Mas efectivamente e melhor tentar tudo para evitar uns guerra de consequências imprevisíveis em vez de fazer o que a revanchista Europa fez em relação a Rússia.
Foi uma atitude decente mas que o Ocidente, que sempre foi rapace e supremacista nunca será capaz de entender.
Isto tem tudo para correr mal.