Ele entregou à filha de 10 anos uma tesoura e 7 mil páginas marcadas como TOP SECRET

(In Estudos Históricos, in Facebook, 21/03/2026. Revisão da Estátua)


Ele entregou à filha de 10 anos uma tesoura e 7 mil páginas marcadas como TOP SECRET. Depois disse: “Isso, provavelmente, vai colocar-me na prisão.”

Outubro de 1969. Daniel Ellsberg estava num escritório emprestado, depois da meia-noite, passando documentos confidenciais numa fotocopiadora, página por página. Cada folha era um crime federal. Cada cópia podia significar, para ele, a prisão durante toda a vida.

Ele não era um radical. Nem imprudente. Era um ex-fuzileiro naval, doutorado por Harvard, analista de alto nível do Pentágono. Tinha acesso aos maiores segredos do país.

E acabara de ler 7 mil páginas que provavam que seu próprio governo mentia há 25 anos. Os documentos ficaram conhecidos como Pentagon Papers — um acervo histórico confidencial da participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietname, encomendado pelo secretário de Defesa Robert McNamara.

O que os documentos revelavam era devastador:

Quatro presidentes — Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson — sabiam que a guerra era impossível de vencer. E ainda assim enviaram jovens para morrer. Diziam ao público que a vitória estava próxima, enquanto, em privado, admitiam que nunca viria.  Em 1969, mais de 40 mil americanos já tinham morrido.

Ellsberg tinha uma escolha: proteger a sua carreira, a sua liberdade, a sua família… ou expor a verdade.Ele escolheu a verdade.

Mas copiar 7 mil páginas sozinho, durante a noite, era lento e angustiante. Qualquer carro a passar poderia ser o fim. Então ele tomou uma decisão extraordinária: Chamou seus filhos para ajudar. Robert, 13 anos. Mary, 10. Enquanto o filho operava a fotocopiadora, Mary sentava-se no chão com uma tesoura, cortando cuidadosamente os carimbos de TOP SECRET de cada página.

Anos depois, ele explicaria: Esperava vir a ser preso em breve. Queria que os seus filhos vissem que ele fazia algo necessário — com calma, consciência e propósito. Queria que entendessem que, às vezes, a consciência exige sacrifício.

Durante dois anos, ele tentou os caminhos “oficiais”. Procurou senadores, congressistas. Todos recusaram. Então, em 1971, entregou os documentos ao The New York Times. Quando começaram a ser publicados, o governo reagiu com fúria. Pela primeira vez na história dos EUA, tentou impedir judicialmente um jornal de publicar informações. O bloqueio foi concedido.

Ellsberg respondeu entregando os documentos ao The Washington Post, e depois a outros jornais. A verdade espalhou-se mais depressa do que podia ser censurada.

O então presidente Richard Nixon não queria apenas conter o vazamento.

Queria destruir Ellsberg. Criou uma unidade secreta chamada “Plumbers”, que invadiu o consultório do psiquiatra de Ellsberg em busca de algo que pudesse desacreditá-lo. Não encontraram nada. Mas cruzaram uma linha.

Ellsberg foi acusado de espionagem, roubo e conspiração. Enfrentava até 115 anos de prisão. O julgamento começou em 1973.

Mas, aos poucos, os abusos do próprio governo vieram à tona: invasões ilegais, manipulação, tentativa de suborno do juiz. O caso desmoronou.Em 11 de maio de 1973, todas as acusações foram anuladas por má conduta governamental. Ellsberg saiu livre. O impacto foi gigantesco.

Os documentos confirmaram o que muitos suspeitavam: o governo mentiu sistematicamente sobre a guerra. A confiança pública foi abalada. A pressão aumentou.

O rumo do conflito começou a mudar. E houve uma consequência inesperada. A mesma equipe que invadiu o consultório de Ellsberg esteve envolvida depois no escândalo de Watergate — que acabaria derrubando Nixon.

Ellsberg não apenas expôs mentiras sobre a guerra. Ajudou, indiretamente, a revelar a corrupção no coração do poder. Ele viveu até 2023, até aos 92 anos, como ativista contra a guerra e defensor de denunciantes.

Nunca se arrependeu. E aquelas crianças que o ajudaram? Cresceram entendendo algo raro: Que ser cidadão, às vezes, exige coragem. Que fazer o certo nem sempre é fazer aquilo que é mais seguro. Que o pai colocou a consciência acima do conforto — e elas viram isso de perto.

Os Pentagon Papers não acabaram imediatamente com a guerra. Mas mudaram para sempre a forma como as pessoas veem o poder.

Porque, por vezes, o ato mais patriótico não é obedecer às ordens. É dizer a verdade — mesmo quando o próprio governo chama a isso traição.

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6 pensamentos sobre “Ele entregou à filha de 10 anos uma tesoura e 7 mil páginas marcadas como TOP SECRET

  1. Sendo que a minha simpatia pelo tal do Joe Kent não e nenhuma.
    O sujeito era a da favor dos ataques terroristas de bater e fugir apoiando barbaridades como o assassinato de Qassem Soleimani, sendo que nem o nome próprio do assassinado o bandalho sabia escrever.
    Mas o caso mostra bem os tentáculos do fascismo Trumpiano e como hoje seria impossível a alguém como Ellsberg chegar a velho no seu país.
    Seria preso se não se conseguisse exilar como fez Edward Snowden e talvez aparecesse suicidado tempos depois.
    A verdade e que quem se opuser ao Trumpismo está metido num grande sarilho.
    E nem ser também fascista lhe vale.

  2. Nos dias que correm, são os nossos Primeiros-Ministros, aspirantes a cargos de relevância na União Europeia, no FMI, na banca e finança e nas corporações internacionais, que permitem que os nossos dados pessoais, do registo civil, assim como outras informações (biométricas, médicas, de hábitos, círculos familiares e de amigos, etc) sejam recolhidos para serem entregues às agências de informação que supervisionam o “mundo livre”, normalmente com sede no “maior país do mundo, farol das democracias”, ou naquele estado enquistado à força no Levante, que até já leva pela trela o hiPOpoTamUS na Casa Branca, seja ele qual for. E são bem recompensados para o fazer, até facilitam o registo civil a potências estrangeiras, subvertendo princípios constitucionais e as próprias “liberdades e garantias” dos seus cidadãos.
    A sabujice hoje é um estilo de vida, e é vê-los aí a desfilar as suas vaidades, maus hábitos e ignorância estrutural.
    “Eles estarem a defenderem os nossos valores e a demo-cracia”…

    • A soberania dos países “aliados”, na realidade vassalos, é triturada todos os dias em benefício das grandes instituições supra-nacionais, controladas pelo Grande Irmão, e quando não, rejeitadas, desfiguradas ou até mesmo desmanteladas por este.
      A NATO é vendida como garante de defesa da soberania de cada um dos seus membros, quando na realidade e na prática, se transformou num instrumento de diminuição e supressão da soberania dos países constituintes. Por falar em constituintes, as Constituições nacionais são agora letra morta, perante organizações como a UE, subsidiária da NATO. Leis que não são democraticamente avaliadas, quando muito a nível nacional, sobrepõe-se às Constituições dos países, rasurando a História e a Ciência Política.
      É a ascensão dos monopólios e da concentração de poder, à margem da grande e esmagadora maioria da sociedade civil, que só serve para suportar a inflacção, os impostos, as rendas, os contratos de serviços, pagar aos bancos e às seguradoras, e trabalhar por cada vez menos retorno, e cada vez menos coesão social e direitos.
      A Carta dos Direitos Humanos é também ela letra morta, pois há uns que são mais iguais do que outros, dentro deste neo-liberalismo selvagem, belicista e imperialista, para continuar a mover as engrenagens do capitalismo em esteróides, que definha como sistema, perdendo a capacidade da redistribuição da riqueza no seu modelo social-democrata, de tanta iniquidade, concentração e ganância.

  3. Se fosse hoje o homem teria mesmo sido encarcerado por muitos anos.
    Não seria por isso, claro, mas por outra qualquer acusação inventada.
    Mas o poder americano aprendeu com os erros.
    O longo suplício de Julian Assange começou por um alegado caso de abuso sexual.
    Joe Kent, o chefe de contra terrorismo que se demitiu por não concordar com a guerra contra o Irão está na mira do FBI.
    Assim que se demitiu surgiram alegações por parte do FBI de que já o estariam a investigar há meses por fugas de informação e foi por isso que se demitiu.
    O FBI, agora no bolso do governo fascista de Trump tratou já de por ainda mais na carta.
    Foi abertamente acusado de paranóico por ter procurado eventuais ligações estrangeiras ao assassinato de Charlie Kirk.
    Nada mais normal que um chefe de contra terrorismo procurasse ligações estrangeiras ao assassinato de alguém que espalhava ódio contra tanta gente e arrastava multidões.
    Mas para o FBI isso era paranóia e uma tentativa de fazer o assassino passar impune.
    Como se provar que foi por ordem de um governo ou organização estrangeira que alguém agiu o tornasse impune.
    O FBI sabe que mente mas nos Estados Unidos de hoje a verdade simplesmente deixou de interessar.
    E alguém como Ellsberg nos Estados Unidos de hoje iria suicidar se na prisão ou ter um acidente.
    Como já aconteceu a outros.

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