Porque é que Trump não é Napoleão

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 09/03/2026)


Para entender o salto qualitativo da catástrofe em curso no Médio Oriente e o processo que a pode transformar numa catástrofe global é preciso recuar no tempo. Ao dar prioridade ao assassinato dos líderes religiosos e sobretudo ao líder supremo, Ali Khamenei, Israel e os EUA transformaram esta guerra numa guerra religiosa. A guerra é entre o Islão e a versão sionista do judaico-cristianismo global. De todas as religiões que foram derrotadas pelo cristianismo ocidental, o Islão foi a que mais duramente sentiu a derrota. Começou no século XI com as Cruzadas, continuou com a chamada Reconquista do Al-Andalus nos séculos XIV e XV e culminou com o fim do império Otomano depois da Primeira Guerra Mundial. Tal como o cristianismo está hoje dividido entre o catolicismo e o protestantismo, o Islão está dividido a vários níveis, mas sobretudo entre o xiismo e o sunismo. O poder religioso islâmico está menos concentrado que o poder judaico-cristão. Ninguém no Islão ocupa o lugar ou tem o poder do Papa católico. Mas, por outro lado, o conceito de religião é diferente nos dois mundos em confronto. Desde as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII e do Iluminismo Ocidental do século XVIII, ocorreu no cristianismo ocidental o processo de secularização. Ao contrário do que geralmente se pensa, o secularismo não significou a separação entre a religião e o Estado. Antes aprofundou as relações entre uma e outro, dando-lhe um novo sentido. O secularismo foi o processo através do qual se sacralizou o poder terrestre ao libertá-lo da sacralidade do poder celestial a que estava antes submetido. Com isto, a religião tornou-se um recurso estratégico para o Estado, um instrumento eficaz de dominação, como o colonialismo bem demonstra.

Este entendimento do secularismo iluminista tem em Napoleão a sua mais completa formulação. Ao iniciar a sua expedição ao Egipto em 1 de Julho de 1798, Napoleão, um jovem general de 29 anos, fez uma declaração aos egípcios surpreendente a muito títulos. Nessa declaração diz ele: “Qadi, shaykh, shorbagi, dizei ao vosso povo que nós somos verdadeiros muçulmanos. Afinal não fomos nós que destruímos o Papa que dizia só faltar fazer a guerra com os muçulmanos?” Parece uma contradição mas não é, como bem demonstra Mohamad Amer Meziane.[i] Para Napoleão, a religião é um recurso estratégico. Se no Egipto a religião da maioria é muçulmana, o Estado deve respeitar isso como política de dominação. O que Napoleão critica não é o Islão, é o poder político dos mamelucos, o poder que ele quer reservar para si. Os egípcios têm todo o direito a viver segundo a sua religião, um direito que o Estado deve respeitar. O Profeta Muhammad, longe de ser o Anticristo da cúria romana, fora apenas um legislador, uma posição que Napoleão pode agora ocupar. As relações subterrâneas entre a sharia (lei islâmica) que Napoleão conheceu no Egipto e o code civil de 1804 merecem um estudo profundo.

A declaração de Napoleão era, pois, uma mistura de mentira e de verdade. Os mamelucos foram derrotados na Batalha das Pirâmides (embora esta tivesse lugar a 15 quilómetros das pirâmides) três semanas depois de Napoleão desembarcar em Alexandria. Mas o verdadeiro objectivo de Napoleão era exercer o poder a partir da compreensão da cultura egípcia que era muito mais ampla e antiga que o Islão, tal como no Irão a cultura persa é muito mais ampla e antiga que o Islão. Para atingir os seus objectivos, Napoleão trouxe consigo na expedição 500 civis que na maioria eram cientistas, incluindo 150 biólogos, mineralogistas, linguistas, químicos, matemáticos, etc. Apesar da derrota que sofreu logo a seguir à vitória na Batalha da Pirâmides – a destruição da sua armada por parte do Almirante inglês Horatio Nelson –, Napoleão instruiu os seus cientistas (em geral, tão jovens como ele ou mesmo mais jovens) para continuarem o seu trabalho e reconstruir o material perdido com os recursos locais. Foi assim que o artista e engenheiro Nicholas-Jacques Conté inventou o lápis moderno, feito de grafite, o crayon Conté.

Os cientistas instalaram-se no palácio de Hassan Kashef no Cairo, e o cronista egípcio Abd al-Rahman al-Jabarti, que fez uma crítica arrasadora à declaração de Napoleão,[ii] não pôde deixar de expressar a sua admiração pela imensa biblioteca e pelo ambiente científico que Napoleão tinha criado:

“Os administradores, astrónomos e médicos viviam nesta casa, onde guardavam um grande número dos seus livros, com um guardião a cuidar deles e a organizá-los. E os estudantes entre eles reuniam-se todos os dias, duas horas antes do meio-dia, num espaço aberto em frente às prateleiras de livros, sentados em cadeiras dispostas em filas paralelas diante de uma mesa larga e comprida. Quem desejasse consultar algo num livro pedia os volumes que quisesse e o bibliotecário trazia-lhos. Depois, folheava as páginas, examinava o livro e escrevia. Durante todo esse tempo, mantinham-se em silêncio e ninguém perturbava o seu vizinho. Quando alguns muçulmanos vinham dar uma vista de olhos, não os impediam de entrar. Na verdade, traziam-lhes todos os tipos de livros impressos, nos quais havia todo o tipo de ilustrações e mapas dos países e regiões, animais, pássaros, plantas, histórias dos antigos, campanhas das nações, contos dos profetas, incluindo imagens deles, os seus milagres e feitos maravilhosos, os acontecimentos dos seus respectivos povos e coisas que confundem a mente”.[iii]

Menos de dois meses depois de desembarcar, Napoleão criava o Institut de l’Égypte (22 de Agosto de 1798), seguindo o modelo do Institut de France, ao qual ele pertencia, e na sessão do dia seguinte propôs os seguintes tópicos de investigação: 1) Como podem ser melhorados os fornos de pão? 2) Como pode ser purificada a água do Nilo? 3) Os moinhos de vento são práticos para o Cairo? 4) É possível fabricar cerveja no Egipto sem lúpulo? 5) As matérias-primas para a pólvora estão disponíveis no Egipto? 6) Qual é o sistema jurídico no Egipto e que melhorias desejam os cidadãos? Assim nascia uma nova área de conhecimento imperial: a egiptologia. Centenas de livros com milhares de ilustrações se foram publicando nas décadas seguintes.

Comparação possível entre Napoleão e Trump

Que comparação é possível entre o brilhante jovem militar Napoleão e Trump, um velho político, condenado por corrupção e provavelmente actuando sob chantagem da revelação dos seus crimes sexuais constantes dos Epstein files ou refém de sociedades secretas? Estamos num tempo propício às teorias da conspiração. São patentes os propósitos imperiais tanto de Napoleão como de Trump.

Napoleão queria destruir as rotas comerciais do império britânico com o extremo Oriente, enquanto Trump quer destruir as rotas comerciais e o acesso aos recursos naturais por parte da China. Terminarão aqui as semelhanças? Penso que não. Embora seja futurologia, é provável que Trump venha a ser derrotado, tal como o foi Napoleão, e que a derrota ocorra igualmente num curto espaço de tempo. No caso de Napoleão foram três anos.

Mas as diferenças imperiais são mais evidentes. No caso de Napoleão, as rivalidades imperiais ocorriam no seio da Europa, entre a França e a Inglaterra. Eram duas potências ocidentais com interesses em dominar o Oriente. No caso de Trump, a rivalidade é entre o Ocidente e o Oriente que, entretanto, criou condições para poder rivalizar com o Ocidente e até vencê-lo. Napoleão simboliza o imperialismo iluminista de uma burguesia europeia ascendente que pode aprender com o mundo não europeu a fim de melhor o dominar e dominar-se. A secularização do Estado napoleónico no Egipto é mais consistente que a do Estado francês.

Trump simboliza o imperialismo reaccionário de uma burguesia ocidental decadente que se vai apercebendo do seu irreversível declínio em relação ao Oriente. Por isso, o Oriente só pode ser dominado por via da destruição. O Ocidente nada tem a aprender do Oriente; o seu pânico é que o Oriente tenha já aprendido demasiado do Ocidente. Napoleão mandou cientistas, Trump manda bombas. Napoleão quis conhecer, Trump quer destruir. Napoleão sabia que não sabia (era um ignorante esclarecido), Trump não sabe que não sabe (é ignorante da sua ignorância). Os cientistas de Napoleão maravilhavam-se com a grandeza dos monumentos que encontravam, os comparsas de Trump vêem nas Trump Towers o apogeu da grandeza.

Napoleão significa a maior afirmação da secularização imperial. Significa uma mudança de regime (regime change) que visa fomentar a compatibilidade do governo eurocêntrico com a crença religiosa da maioria da população. Por isso, é necessário conhecer a cultura e a história do Egipto, aliás, muito mais antigas e brilhantes que as ocidentais. No caso de Trump, o regime change implica lutar contra as crenças religiosas, não só da maioria da população do Irão, como da maioria da população de todo o Médio Oriente. É por isso que se tem de afirmar como guerra religiosa. E ninguém pode protagonizar melhor essa guerra que um Estado religioso, o Estado judeu sionista de Israel e os seus aliados do sionismo judaico-cristão global. Este sionismo vê-se como o legítimo herdeiro das Cruzadas. Tal como então, o Islão, na sua origem, é tão ocidental quanto o cristianismo ou o judaísmo. O Islão é o Ocidente que o Ocidente judaico-cristão orientalizou. Por isso, o Islão é agora uma pequena parte do Oriente. O Oriente são as culturas ancestrais em relação às quais a cultura ocidental é, não só uma cultura recém-chegada, como tem as suas raízes nelas, na Pérsia, em Alexandria e na Casa da Sabedoria de Bagdade do século IX.

Guerras por procuração (proxy wars) e mudança de regime (regime change)

Por estarmos perante uma guerra religiosa, a estratégia das guerras por procuração inverteu-se. A guerra EUA-Irão é agora a guerra por procuração com vista à criação do Grande Israel. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Mas como o Grande Israel só pode nascer das cinzas do pequeno Israel, é de prever que o grande desastre em curso tenha ainda de ser maior. Note-se que desde 2024 já saíram de Israel mais de 170.000 pessoas. Com a intensificação da guerra, o pequeno Israel (com menos de dez milhões de habitantes) já se tornou demasiado grande para os israelitas que o abandonam.

A farsa do regime change revela-se agora com extrema crueldade. Não conhecemos nenhum caso de êxito da política do regime change. Êxito em termos do aumento do bem-estar das populações, o proclamado propósito do regime change. Em vez de aumento do bem-estar, temos visto destruição, fragmentação territorial e pilhagem de recursos naturais. Afinal, que regime change houve na Venezuela, se a “ditadura chavista” foi mantida no poder? O regime change foi apenas o disfarce para confiscar a política petrolífera da Venezuela. Uma vez obtido o confisco mediante a prisão do Presidente Nicolas Maduro e da sua esposa, mantidos como reféns, a “ditadura chavista” desapareceu.

Mas o Irão não é a Venezuela. Porque a guerra foi concebida por Israel como guerra religiosa com vista à criação do Grande Israel, não faria sentido prender o aiatola Ali Khamenei e levá-lo preso para Nova Iorque. Era preciso assassiná-lo e aos líderes religiosos que estavam com ele. O confisco dos recursos naturais e o bloqueio da China estarão sempre no horizonte, mas os caminhos para lá chegar terão de ser muito mais destrutivos.

Acresce que qualquer intenção mais credível de regime change implicaria tropas no terreno. Se tivermos em conta a população de Israel e a resistência do povo norte-americano a envolver a vida dos seus soldados em guerras distantes contra países que não podem conceber como constituindo uma ameaça à sua segurança, é de prever que esta guerra será perdida por Israel e, em consequência, será o fim do Estado de Israel. Mas, dado que a potência militar mais poderosa do mundo está envolvida nesta proxy war, é possível que a guerra regional evolua para uma guerra global. Se ainda haverá império norte-americano, ou mesmo mundo, depois dessa guerra – é uma questão em aberto.

Conclusão

Em face disto, angustia-me não poder concordar com a proposta de um grande historiador que muito admiro, Ilan Pappé. No seu último livro, Israel on the Brink (2025), admite a possibilidade da descolonização da Palestina e de uma nova coexistência entre o mundo judaico e o mundo muçulmano nas próximas décadas. Para isso ser possível seria necessário travar de imediato Netanyahu e Trump e todos os que se escondem atrás deles. Será possível?


NOTAS

[i] Des empires sous la terre. Paris: La Decouverte, 2021.

[ii] Cf. Boaventura de Sousa Santos, Se Deus fosse um activista de Direitos Humanos. Coimbra: Almedina, 2013.

[iii] Bob Brier “Napoleon in Egypt” Archaeology, Maio/Junho 1999, Vol. 52, No. 3, 44-53, p. 48.

Fonte aqui

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

2 pensamentos sobre “Porque é que Trump não é Napoleão

  1. O primeiro parágrafo do texto, ao entrar em generalizações, é bastante impreciso e até erróneo.
    Houve várias cruzadas, algumas delas nem chegaram ä terra santa, como a dos pobres e a das crianças. No fim, as que o fizeram acabaram derrotadas e expulsas, e o Islão venceu o Cristianismo, ao contrário do que é dito? BSS nunca ouviu falar ou ler sobre Saladino? Ou o filme Reino dos Céus, entre outros?

    Outro ponto, o Cristianismo tem muito mais divisões que a da Reforma (protestante) e da Contra-Reforma (católica). Nos primórdios do Cristianismo houve muitas divisões e discussões, até porque, ao contrário do Islão, que teve o profeta Maomé a defini-lo e torná-lo uma religião unificada e dominante durante muitos anos, até à sua morte (onde se dá a cisão entre xiitas e sunitas, por causa da sucessão), o cânone cristão teve muitas variações e nunca foi estipulado por Cristo, que não deixou obra escrita (o único Evangelho segundo Jesus Cristo é uma obra de ficção escrita no século XX, já os suras, os versículos do Corão foram ditados e escritos por Maomé após as suas revelações pelos anjos).
    Houve, antes da Reforma, a separação da Igreja Católica Apostólica Romana com a Igreja Bizantina do Oriente, hoje Ortodoxa, com várias ramificações (grega, russa, etc) e chegou a haver 2 papas a Ocidente.
    Temos ainda a Igreja Anglicana, cujo representante máximo é o monarca inglês.

    De resto, os restantes parágrafos parecem ter menos generalizações imprecisas e terem maior precisão histórica, e o artigo é interessante. Mas tinha de referir alguns pontos erróneos ou vagos que se concentraram no parágrafo inicial.

  2. Trump e uma besta ignorante que de orgulha de o ser.
    Uma besta de crueldade extrema e um racista degenerado que despreza todos os povos do mundo e até o seu.
    Todos aqueles que não se curvam a ele para ele merecem a morte e a destruição.
    Embora o exército de Napoleão, a boa maneira do Século XIX tenha cometido a sua conta de atrocidades a Franca conseguiu captar lealdades nos paises ocupados.
    Porque tinha mais a oferecer que simplesmente bombas e guerra.
    Prometia libertação das tiranias feudais que ainda eram uma realidade em boa parte da Europa, da tirania religiosa que também afectava muita gente.
    Por isso foi tão difícil derrotar Napoleão. Porque ele conquistou o coração de muitos.
    Talvez porque também ele não vinha das elites. Era corso, de uma ilha ocupada, de um povo todo tido como contrabandista e malfeitor.
    Ao contrario de Trump, um filho da riqueza conseguida sabe Deus como, um mafioso, um empresário sem quaisquer escrúpulos nem moral e provavelmente até pedófilo e canibal.
    Comparar Napoleão com semelhante animal nem que seja para mostrar porque e que não são iguais até pode corporizar o crime de ofensa a memória de pessoa falecida previsto e punido no Código Penal Português.
    Este último parágrafo e só ironia.
    Trump não quer conquistar corações. Não quer levar nada de bom a ninguém. Quer causar terror, destruição e morte para pilhar recursos ou destruir bons exemplos de governação como é o caso de Cuba.
    E por tudo isso que essa besta não e Napoleão mas Hitler e os cruéis guerreiros hebraicos da antiguidade.
    E não há um tiro que o veja bem visto.
    A ele e ao seu nefasto gémeo da Ásia Ocidental.
    Que grande sarilho em que estão metidos todos os que não se curvam a esta dupla animalesca.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.