Obrigado, Bangladesh

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/01/2026)

O que Ventura não suporta é que o jornalismo desfaça a sua tese insultuosa de que os imigrantes vivem de subsídios e que, pelo contrário, demonstre que ele é que vive de mentiras.


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À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva — “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) — e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Obrigado, Bangladesh
Hugo Pinto

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não — sossega, Ventura —, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega — ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura — devia ser bonito! Porque o Algarve — que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas — dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

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Em Lisboa vou a um lar da terceira idade — por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras — que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura —, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado — e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) — e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia — a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

21 pensamentos sobre “Obrigado, Bangladesh

  1. Descansa vil escravo que se diz alforriado que também a extrema direita nunca vai desiludir os patrões.
    Essa e a razão do massivo apoio financeiro que lhes são e que compra as principescas campanhas eleitorais que teem feito.
    Mas não passarão.
    Vai mas e colar cartazes que o vento pode levar os outdoors.

  2. Ena tantos!
    Todos contentes por um homem-do-sistema, ser contra o candidato, que se opões ao SEU candidato, o zézinho-sem-ideias.

    Afinal a Felicidade é possível e é barata, um pouco de circo chega-lhes. O pão esse, não é para eles. Já o MST quando tiver fome, chama o abexim e come um ‘sushi’ (digo eu, que não faço ideia o que é que eles entregam).

    A esquerda, esta esquerda de pacotilha que aqui está representada pela sua ‘elite’ esclarecida a comentar, contenta-se com pouco.

    Basta-lhe como disse Pessoa:
    “…
    Baste a quem baste o que lhe basta
    O bastante de lhe bastar!
    …”
    (O da Quinas, Mensagem, …)

    Basta-lhe votar no que ganha, é o “seu” candidato. Tapa a cara e coloca a cruz no quadrado, como lhe mandou fazer o filho-da-burguesia, que teve como profissão, ser secretário-geral-único toda a sua vida.

    O problema é que, quem trabalha tem o ‘dumping’ importado, pela mão do PS e pelo ministro SS e o seu pacto permanente, seguro e organizado.

    Os patrões agradeceram, nunca fora desiludidos quando o PS foi governo.
    A esquerdalha, os idiotas úteis de quem se diz que Lenine falou, mas que não há referência a tal, saltam felizes.

    Olhando para os resultados, vemos que morto o SGU, o partido entrou em processo de insolvência.

    Mas os ferrenhos acólitos continuam a sonhar com o bacalhau-a-pataco (logo agora que a Geopolítica diz que ele vai mudar de dono).

    Este senhor refere-se ao PSD, mas se trocarmos PSD por esquerda (toda ela), parece que o retrato está correcto.
    https://folhanacional.pt/2026/02/01/militante-numero-2-do-psd-anuncia-apoio-a-andre-ventura/

    Continuem que vão no caminho certo.

    Quem tem a perder e não tem tido defensor, é o POVO, nestes 50 anos de arranjos entre dois gangues maçónicos, a EXPO 98 é o melhor exemplo disso. Algum já acordou e mudou-se.

    Os tempos que estão a chegar não são para sonsos.
    Daqui a algum tempo veremos, se os defensores do zézé agora, estarão contentes, como estão agora com o indiano que lhes virou as costas.
    https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2927232/costa-mostra-com-orgulho-passaporte-indiano-ao-lado-de-modi

  3. Não tenho nada contra o velhinho regresso às fronteiras nacionais para impedir que os capitais fujam para paraísos fiscais em vez de estar onde devem.
    A engrossar os impostos que pagamos de forma a que os hospitais públicos possam ter os meios que merecemos.
    Mas não quero o regresso ao tempo em que a minha avó precisava de ter um passaporte para atravessar uma fronteira que ficava a 500 metros da sua casa.
    Tem que haver aqui um meio termo entre isso e a fuga de capitais.
    Tem de haver um meio termo entre isso e o racismo dos anos da troika que nos mataram gente.
    Tem de haver um meio termo entre isto e o tentar aceder a um canal noticioso e receber a mensagem que o mesmo esta censurado por via de um qualquer regulamento comunitário.
    Tem de haver um meio termo entre isso e a ameaça de que um veneno se poderá tornar obrigatório em todo o território de um bloco de mais de 400 milhões de pessoas a partir dos 60 anos.
    Ninguém pode deixar nos entre a mala e o caixão.
    Porque era precisa fugir antes de ter essa idade.
    Para quem sabia que mais uma dose daquilo o mataria era preciso fugir antes disso.
    Enquanto noutro lado ainda achavam que servia para alguma coisa. Nem que fosse para varrer ruas em Irkutsk.
    Mas não quero o que a extrema direita quer. Isolacionismo, orgulhosamente sos e não poder daqui sair.
    E tenho a certeza que a maior parte de nos não quer isso.
    Quanto ao Miguel, peco desculpa mas não consigo ter paciência para o homem. Desde o tempo em que li num livrinho que a verdade e que todos nós andamos a roubar o Estado.
    Desde o tempo em que disse que as crianças eram a praga dos restaurantes só porque queria o seu direito a fumar lá dentro.
    Desde o tempo em que pelo menos duas vezes falou de uma crueldade russa.
    Desde o tempo em que deu aos sionistas o direito de matar quem lhes aprouvesse em atentados.
    Não gosto do homem, meto o pau no que ele diz e não e porque esse relógio parado dá horas certas uma ou duas vezes por dia que vou mudar.
    E agradecer a miséria que faz gente vir malhar com os costados aqui não lembra ao diabo.

  4. Oh Miguel, tu nem fazes ideia das vezes que estou em desacordo contigo! Desta vez fizeste o favor de pôr na ponta da tua caneta tudo o que me povoa a alma sobre o assunto…pena que não tenhas substituído Ventura por Chegasno Chefe esse excelente exemplar de Venturopithecus Suinus.

  5. Quando nos aparece uma texto antirracista e anti extrema direita, e mais, um texto claro e eloquente, esperar-se-ia no mínimo que as pessoas (de esquerda) se congratulassem, embora pudessem rejeitar um ou outro aspeto com base num registo argumentativo. Mas não, o que se vê , em muitos dos comentários, é uma chusma de impropérios contra o escriba; e, se porventura se nota um vislumbre de argumentação, fica-se com a ideia de que se trata de argumentação ad hominem. Assim valham nos todos os santos, não vamos a lado nenhum.
    Porque não ocupam o vosso precioso tempo a perguntar por que há tantos ‘idiotas úteis’? Que estratégias podemos empreender para barrar um processo que só vemos aumentar numa Europa presumidamente culta e civilizada? O que é que correu e continua a correr mal? É deste tipo de reflexões que precisamos, é este tipo de debate que nos pode levar a encontrar respostas para os problemas que nos afligem.

    • Após reflexão, uma proposta: que tal, deixarmos de, presunçosamente, nos sentirmos parte de uma Europa culta e civilizada, que nos maltrata (lembra-se da troika?) Que tal deixarmos de fazer “outsourcing” legislativo e político, à UE e outras instituições estrangeiras, em matérias cruciais ao progresso económico e social popular como orçamento do estado, impostos e banca? E, sim, isso implica o regresso às velhinhas fronteiras nacionais: não para restringir à circulação de pessoas mas, principalmente, para impedir a fuga de capitais para paraísos fiscais bem como a circulação irrestrita de capitais especulativos! Isso implica o regresso à soberania monetária nacional (ao escudo) que nos foi furtada por sucessivos governos liberais. Não creio que o MST o defenda: quer a sua escapadinha cosmopolita de fim de semana a Paris ou Barcelona sem a “maçada” de trocar escudos por euros. Os patrões dele, também não, por outras razões. Nisto, até os financiadores do Chega/IL/PSD concordarão com o Miguel.

    • Percebe-se o seu repto, mas nem tudo se resolve com análises e processos racionais, sobretudo nesta sociedade de ganância, egoísmo, ignorância perversidade e maldade. Às vezes as respostas são mais emocionais, e por isso mais tortas, nem vale a pena argumentar muito de forma racional com quem não quer saber de racionalidade. O budismo zen e o taoismo têm abordagens interessantes, pesquise os koans, sobre formas não racionais de comunicação / interpelação e compreensão/ iluminação.

  6. Eu já nem fui por aí porque os textos do Miguel, que ganha balurdios para escrever isso enquanto nós só ganhamos xaringotes de outro comentadeiro que não goste do que escrevemos, sao cada cavadela minhoca.
    Mas essa da inflação a dois ou a três daria vontade de rir se não fosse trágica.
    Garantidamente o Miguel não tem as preocupações dos comuns mortais e já não deve ir a um supermercado desde pelo menos que o escudo acabou.
    Mas enfim, deixa lo lá viver com as suas ilusões.
    Não venha e agradecer a um pais pela miseria que tem e que obriga os seus filhos a vir malhar com as costas a uma terra de onde tantos ainda fogem em busca de uma vida decente.
    E onde a violência racista cresce a olhos vistos.
    Sinceramente, eu teria de estar mesmo a morrer a fome no meu país para não me borrar pelas pernas abaixo ante a simples ideia de ter que para cá vir.
    Do homem espancado e torturado durante dois dias nas masmorras de um aeroporto por funcionários do Estado, aos escravizados por policiais no Alentejo, ao miúdo que ficou sem dois dedos na escola, ao desgraçado morto em casa com um tiro, ao morto para lhe roubarem a bicicleta, motivos não faltam para isto parecer uma terra de trevas.
    E dependendo do que façamos hoje e no dia 8, pode piorar muito.

    • O MST detesta funcionários públicos mas não advoga a privatização das Polícias. Os financiadores dos Chega/IL/PSD, também não. De todo modo, ainda que todos os policias sejam funcionários públicos nem todos os funcionários públicos (nem de longe!) são policias ou andam armados. De resto, não me parece que o movimento zero, o gangue 1143 e afins queiram infiltrar os quadros de pessoal de uma rede pública de lares (ou de creches, ou do SNS, ou…) como o fazem com as forças de segurança, forças armadas e militarizadas. As palavras-chave são “força” e “armadas”.

  7. Até parece mal desafinar mas aqui vai (a começar pelo óbvio disparate): afirma MST as “pensões de reforma são actualizadas anualmente acima do valor da inflação”, só porque acredita nas proclamações dos sucessivos governos; se pagasse prestações da casa ou renda ao senhorio, olhasse para as contas da luz e água ou, simplesmente, fosse à farmácia e ao supermercado não confundiria aumento do custo de vida com propaganda oficial.
    Depois, Francisco não disse que “este” capitalismo matava; denunciou a “economia que mata” (a capitalista?). Francisco, depois, também disse: “são os comunistas que pensam como os cristãos” mas, enfim, é de MST que falamos…
    Depois, bem se lamenta MST do estado a que chegou o negócio privado dos lares de 3.a idade mas nunca o veremos pugnar por um serviço público de apoio à velhice: vão de retro, funcionários públicos!
    Ainda, a confusão (raivosa?) entre Ventura e “católicos portugueses”: apre! e nem sou religioso…
    Finalmente, o fim das fronteiras com o Mercosul não vai prejudicar os empresários “negreiros” e demais amigos e financiadores do Chega/IL/PSD. Lá estarão os vários benefícios fiscais, descidas de IRC e toda a panóplia de subsídios europeus “à produção” para os ajudar. E, sempre, existirão pobres ainda mais pobres como mão-de-obra para explorar. Sabemos quem, imediatamente, ganha: a grande distribuição que importará mais barato e venderá ao mesmo preço. Não haverá, é evidente, controlo administrativo de preços neste “mercado Livre”. Quem pagará “o pato” vão ser os trabalhadores, com salários estagnados e cada vez menos direitos: na UE, o emprego e o salário serão, sempre, as variáveis de ajustamento.
    Ok

  8. O quadro que M.S.T tao bem descreve é realmente confrangedor e basicamente pode ser sintetizado de uma forma simples: um grande número de pessoas, que nem sequer pertencem a extratos sociais favorecidos, bem ao contrario, exercem a função de ‘idiotas uteis’, porque essas pessoas têm tudo para não apoiarem nem votarem em partidos de extrema direita, defensores, como bem sabemos e como historicamente evidenciado, dos interesses das elites privilegiadas, não do povo. Ora essas pessoas funcionam como idiotas uteis porque são alvo de um processo de idio-subjetivação = formação de sujeitos idiotas.
    O problema está em estudar-se a preceito este processo e encontrar o que se encontra na origem deste tipo de subjetividades , como são criadas, qual o quadro cultural que as alimenta e como se poderá intervir, pelo menos para o mitigar. Esta será a forma cientifica de olhar para o fenómeno enquanto efeito de uma sequência causal. Claro que eu percebo que estamos perante uma cadeia causal tao complexa que é difícil de deslindar, mas, se não começarmos a pensar a sério sob esta perspetiva, temo que a situação só se agudize.
    Especialistas na matéria poderiam analisar o discurso populista, desmontá-lo e construir um discurso acessível às maiorias que se lhe opusesse de forma eficaz. Aqui nao podemos/devemos esquercer que a retórica é uma arma, tanto mais necessária quanto mais se constata que a maiora das pessoas pouco lê, pouco escreve, tem vocabulário reduzido, etc, etc. Nao podemos esquecer que pensamos com palavras, com linguagem verbal, e que se esta existir num nivel raso, o nosso pensamento tambem será raso.

    • Numa entrevista a Sandra Felgueiras, oiço o rato de sacristia (católico, mas não cristão, como bem assinala MST) choramingar que os imigrantes querem tirar os crucifixos das escolas portuguesas. E o que lhe diz a jornalista? Esperava eu que lhe recordasse que vivemos num Estado laico e que não há crucifixos na escola pública portuguesa. Mas não. Não só não o “esclareceu” como acrescentou que também era católica! Isto está complicado.

      • Nem de propósito , o comentário de M. Albertina acrescenta algo de significativo ao texto que todos lemos; de facto se (muitos/muitas) jornalistas deste e de outros países são coniventes com um discurso fake e reacionário de extrema direita – que não denunciam como tal – talvez possamos começar a levantar um véu sobre o que está por detrás da produção de ‘sujeitos idiotas’ e esse véu aponta, por um lado, para a comunicação social e, por outro, para uma formação universitária equivocada que ainda tem uma visão utópica liberal e ainda não percebeu que as verdadeiras fontes do poder são, como escreveu Paul Ricoeur, a propriedade, o dinheiro e a violência. (Vide texto de Outras Palavras – Universidade: Protopia para a era digital)

  9. Nunca me passaria pela cabeça agradecer a um país por as condições de vida lá serem tão cruéis que os seus filhos teem de vir para cá aguentar todas as indignidades e exploração, serem o saco de pancada da extrema direita e até poderem ser mortos a facada para lhe roubarem a bicicleta.
    Mas o Miguel já disse pior. Humanidade já se mostrou que não tem muita e este agradecimento s miseria do mundo e só mais um exemplo.
    Digamos que tanto Portugal como o Bangladesh teem os seus problemas.
    No Bangladesh tem há o problema que se repete em todas as antigas colónias.
    Uma elite local que tomou o lugar de colonizadores de crueldade extrema, a Grande Fome de Bengala foi lá, e se esta nas tinhas para o povo. E antigos colonizadores que se não continuarem a sacar ao preço que querem os recursos que lá há depressa arranjam uma intervenção humanitária para pôr as coisas no devido lugar.
    No caso do Bangladesh o grande recurso e a população. A mao de obra.
    Do Bangladesh vem boa parte da roupa que vestimos. Produzida em fábricas sem condições nenhumas por mão de obra, a maior parte dela feminina, sem direito a nada.
    Os homens vêem ser explorados aqui e noutros países europeus.
    Esse e o problema do Bangladesh.
    O nosso e um que veio de longe.
    A alergia que os patrões portugueses e os estrangeiros que se instalam por cá teem a pagar salários.
    Mas para o Miguel o problema resume se a que os portugueses não querem trabalhar e por isso teem de agradecer por alguém estar disposto a vir fazer o que eles não querem.
    Para governo do Miguel nos temos cerca de quatro milhões lá fora, boa parte dos quais a fazer o que os desafortunados do Bangladesh fazem aqui.
    E que estupidamente votam na extrema direita porque acham que se “os gajos do turbante” forem todos corridos eles podem vir para cá fazer esses trabalhos porque os patrões vão ser obrigados a pagar mais.
    Porque também eles preferiam viver aqui e não onde apanham neve pelos cornos abaixo.
    Ora isso é mesmo ou não ter ido a escola ou ter passado sempre “cortado” a história.
    Porque no tempo da Outra Senhora, quando os bengalis éramos nós, indo a salto para França, os salários eram uma pele de batata, ainda mais que hoje.
    E se a extrema direita conseguir o que quer, que saiamos da União Europeia e sejamos novamente impedidos de daqui sair a coisa não vai melhorar.
    Porque nunca foi melhor.
    A mentalidade exploradora não muda e por isso melhor e até continue como está.
    Para que quem não estudou para ser doutor, a única maneira de em Portugal ter um salário decente, continue a poder ir fazer na Alemanha, Suiça ou França o que os bengalis fazem aqui.
    Preferindo de certeza estar na sua terra onde não há uma besta a usa los como bode expiatório para fazer a nossa vida regredir cinco décadas.
    Mas alguém acredita mesmo que os imigrantes vivem de subsídios?
    Tenham juízo porque no dia em que daqui não puderem sair e que vao ver como elas mordem.

  10. Ainda ontem Sábado passe no jardim do avião para quem n ao sabe isto é em Leiria, quem encontro a limpar o dito jardim eram africanos, os restantes eram imigrantes não sei de que países sei que alguns falavam com o “R” bem carregado, a limpeza das ruas vejo esses imigrantes a varrerem e a limpar as ervas, e em quantas mais cidades isto não acontece?, aos que falam a mandarem os imigrantes para as suas terras deixo a pergunta no ar, e estão dispostos fazerem o trabalho que esses imigrantes fazem?Tanto em limpeza das nossas ruas, como na construção civil até a Uber a grande maioria são imigrantes tanto africanos como brasileiros, e nem falo dos imigrantes que trabalham nos supermercados, cafés lares da 3ª idade, etc. etc. etc.

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