A Gronelândia já era – Parte II

(Zé-António Pimenta de França, in Facebook, 21/01/2026)

A capital da Gronelândia na Primavera/Verão, com pouca neve, estamos fartos de neve!…

É impossível a Europa defender a Dinamarca porque as armas europeias são controladas pelos EUA.


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A Europa não pode dizer não aos EUA em nada. Uma guerra entre os EUA e a Europa não é só improvável, é impossível. E não é só porque as forças militares europeias são muito inferiores em tamanho e qualidade de armamento às dos EUA. A verdadeira razão é técnica.

Vamos aos factos: atualmente, todos os países da União Europeia e da NATO consomem, utilizam ou dependem de armamento americano em todos os domínios, seja nos aviões de combate, sistemas de defesa aérea e outros, electrónica militar, software de todos os tipos, sistemas de comando, comunicações por satélite essenciais ao comando e controlo de mísseis. 

Para usar um exemplo recente relativo ao caso da Dinamarca e o diferendo com os EUA sobre a Gronelândia. Nos últimos anos a Dinamarca multiplicou as encomendas de F-35, um dos caças de quinta geração mais avançados do mundo, apresentado como o cúmulo da tecnologia ocidental.

Mas existe aqui um fator que poucos conhecem: os F-35 (tal como os F-16 e todos os outros aviões vendidos pelos EUA) não são totalmente utilizáveis pelos seus proprietários. O seu funcionamento depende de uma “chave eletrónica” fornecida pelos EUA e renovada de 48 em 48 horas. Sem essa “chave eletrónica” devidamente atualizada a cada dois dias o avião não descola, não se mexe para nada, mesmo em caso de crise, em caso de guerra. Não se trata de uma opção, é uma condição inscrita no contrato de compra e obrigatoriamente aceite por todos aqueles que quiserem dotar as suas forças aéreas com F-35. Estas condições não se aplicam só aos F-35, aplicam-se a todos os sistemas de armas vendidos pelos americanos.

Esta dependência tem um nome: ITAR – International Traffic in Arms Regulations, que é uma norma americana que estabelece um princípio simples e brutal: em qualquer sistema de armas que disponha de um componente americano, os EUA têm obrigatoriamente um direito de veto/aprovação quanto à sua utilização. Trata-se de um direito jurídico, contratual. Para poderem comprar estas armas aos EUA, os estados devem conceder aos EUA um direito de veto político à sua utilização.

Ou seja, por exemplo, Arábia Saudita e esses estados todos do Golfo que têm poderosas forças aéreas cheias de aviões americanos, se lhes passar pela cabeça defender-se ou atacar Israel, verão que os seus aviões não voam, os seus mísseis não saem dos lançadores, a sua defesa aérea fica paralisada ante ataques israelitas. É assim com todas as armas americanas. Só podem ser utilizadas se não incomodarem os interesses americanos.

Na UE, só um país tenta contornar este sistema, a França, que pode dar-se a esse luxo porque é o único que dispõe ainda (a muito custo) de um complexo militar-industrial próprio. As forças militares de todos os outros países da UE e NATO optaram por comprar americano, por isso estão totalmente à mercê de Washington. Em consequência, as suas forças armadas são compatíveis entre si e com as dos EUA, mas não são soberanas.

Resumindo, já não interessa quem é que tem mais soldados ou mais armas, o que interessa é quem controla as chaves eletrónicas, as autorizações para utilizar os armas.

A realidade nua e crua é esta: os EUA controlam as armas de todos os estados europeus (e Austrália, Nova Zelândia, Canadá) porque controlam as atualizações tecnológicas dessas armas, os satélites, as informações, as redes de comando. Quem controla tudo isto controla a guerra.

Sendo assim, uma guerra entre os EUA e a Europa é impossível. Mesmo que os europeus quisessem opor-se a decisões catastróficas dos EUA (como estamos agora a ver com a Gronelândia, amanhã quiçá com a Islândia, depois eventualmente com os Açores, ambos na mira de Washington) não podem porque as suas armas não funcionarão, as redes de satélites estarão indisponíveis, não terão informações nem telecomunicações que possam apoiar qualquer ação militar. Não terão qualquer hipótese técnica para se opor.

Por isso, bem podem protestar e fazer voz grossa, a Gronelândia já era.

As negociações serão um teatro, uma postura, uma pose para a fotografia por detrás da qual está apenas e tão só o absoluto vazio estratégico da UE.

A Dinamarca e todos os países da UE e NATO estão todos à mercê dos americanos, com a exceção da França que, desde o tempo de general de Gaulle, sempre optou por manter uma autonomia em relação aos EUA. Mas a França sozinha também não pode nada…

Os governos europeus comprometeram totalmente a respetiva soberania durante as últimas décadas ao colocar os seus países totalmente à mercê de Washington. Os americanos têm a última palavra em tudo. Há quem diga que os responsáveis todos dos governos europeus deviam ser processados por alta traição…

Os americanos construíram os EUA a enganar e a roubar os nativos americanos (os índios, como dizíamos antigamente). Agora os índios somos nós…

NOTA: Só para lembrar que o governo português está a equacionar substituir os F-16 da nossa Força Aérea por aviões de quinta geração. Os F-35 estão entre os favoritos. Dado o acima exposto, seria uma decisão criminosa, lesiva da nossa soberania, escusado será dizer…

11 pensamentos sobre “A Gronelândia já era – Parte II

  1. Outra coisa, ver o ardina a discutir com o poeta semiótica e teoria política do Salazarismo e do Estado Novo é, mais que um bálsamo, um unguento mal cheiroso e de ingredientes repugnantes, um autêntico número de circo de horrores, um duelo de pantomineiros. Queremos mais interacções burlescas. Do género Zelensky leva raspanete de Trump na Casa Branca, ou a fuga de Corina Machado da Venezuela com a ajuda dos americanos, a Operação Dinamite Dourada.
    Quanto ao facto de ambos votarem no CU (candidato único), o bajulador do(s) Salazar(es), que eles tanto veneram, e mesmo assim conseguirem embrulhar-se em argumentações pífias, demonstra toda a sua ideia de União Nacional. Já não se fazem “patriotas” como dantes…

  2. O grande problema nem seria esse.
    O problema e a crueldade com que os norte americanos sempre fizeram as guerras.
    Os Estados Unidos não são a Rússia que só agora atacou seriamente a capital da Ucrânia nazi.
    Podia te lo feito quando a guerra acelerou em Fevereiro de há quatro anos atrás.
    Porque e que o fez agora? Talvez por tanto os Estados Unidos como Herr Zelensky terem inchado como perus apos o sequestro de Maduro. Herr Zelensky propos que o mesmo fosse feito a Putin a seguir ao sequestro, dirigentes europeus disseram que seria boa ideia, responsáveis norte americanos insinuaram que podia ser o próximo.
    Putin já foi alvo de dezenas de tentativas de assassinato. A primeira foi protagonizada pela mafia russa que não gostou de começar a ser perseguida a sério após anos de liberdade dados pelo bêbado sem préstimo do Ieltsin.
    Mas podemos estar preparados para a morte mas não estarmos para a possibilidade de apodrecer no “buraco” de uma das priores prisões dos Estados Unidos como está a acontecer com Maduro.
    E Putin de certeza que não está. Nenhum homem ainda activo e que gosta de banhos de água fria estaria.
    Quando os Estados Unidos intervieram para libertar o petróleo do Iraque das garras de um ditador que não exigia que o mesmo fosse pago em dólares, ao fim de quatro dias Bagdad, uma cidade de mais de quatro milhões de habitantes já não tinha nada. Nem água, nem luz, nem comunicações. Milhares dos seus habitantes tinham sido mortos. Famílias inteiras chacinadas.
    “Choque e pavor”.
    Kiev continuou calmamente a receber as romarias de dirigentes europeus solidários e ainda hoje o aeroporto não foi inutilizado pelo que Herr Zelensky poderá voltar com todo o sossego para o conforto do seu gerador depois de ter repetido o apelo a captura de Putin em Davos.
    Mas se a Europa se atrevesse a entrar em guerra com os Estados Unidos pela Gronelândia ou os Açores o destino de muitas das suas cidades seria o de Bagdad.
    Porque Trump já demonstrou que não respeita ninguém, tenha a cor que tenha.
    O que a Europa tem de fazer e meter o racismo no traseiro e recolher com humanidade e decência a população inuit que não queira submeter se a sobrevida sob a crueldade que caracteriza a sociedade norte americana quem quer que seja o Presidente.
    O mesmo terá de ser feito em relação a população de qualquer outra terra que esses trastes decidam abocanhar.
    Porque uma coisa e viver a sombra de uma base americana como viveu durante décadas a população da Ilha Terceira mas beneficiando das regras europeias de decência.
    Outra coisa e viver na sociedade cruel dos Estados Unidos.
    E como Trump não vai parar na Gronelândia e nisso que temos de pensar. Em acolher as vítimas.
    Porque depois de termos hostilizado a Rússia e não tendo nos sequer defesas anti aéreas que valham a pena não resta nada a fazer.

  3. Lamento dizer mas a informação contida neste artigo é falsa. Aliás, basta usar um bocadinho de parcimónia para duvidar seriamente da possibilidade de alguém querer comprar armas que possam ser desactivadas por outros. Por exemplo, a história das chaves electrónicas do caças. Servem apenas para comunicação, não inutilizam o aparelho se não forem renovadas. É como ter um Windows pirata. O Windows funciona na mesma, mas não se pode ligar à Microsoft para obter updates de software. A renovação a cada 2 horas parece ser por razões de segurança no caso de o avião ser capturado pelo “inimigo”. A história do ITAR é outra confusão. É mais questões de direitos comerciais, relacionados com transferência/venda, não necessariamente com a utilização. E ainda menos tem a si ligado qualquer capacidade de desactivação remota de material. Enfim, que tristeza de banha da cobra.

    • O ardina da Folha Nacional adorou o artigo, o JF diz que não passa de banha da cobra. Faz sentido, visto que o ardina adora a banha da cobra (do CU, da extrema-direita, etc), e frequentemente a divulga por aqui.
      Fica o contraditório, de qualquer modo creio que as armas e veículos americanos são pouco “user-friendly” para os aliados devido aos sistemas de segurança passiva e aos mecanismos de controlo do uso, incluindo software, que reduzem a sua autonomia de utilização, mesmo que sejam ultrapassáveis, são sempre um contratempo e limitadores da sua plena versatilidade e do seu melhor desempenho. Mesmo as armas e outros dispositivos devem ter de ser compatíveis, e a maioria serão de fabrico exclusivo norte-americano – sem eles, as funções e capacidades dos aparelhos ficam também reduzidas e tornam-se mais vulneráveis.
      Resumindo, equipamentos com preços exorbitantes, uma dependência enorme dos fornecedores americanos, e mesmo que as suas restrições de uso e capacidade não sejam totalmente impeditivas, serão sempre limitadoras de capacidade e operacionalidade.

  4. Excelente artigo.
    Clarinho como água no que toca a uma questão técnica da Guerra.
    Nem um reparo a fazer. Venham mais destes.
    Dito isto, o que foi dito no artigo, falta o resto, a parte política da Guerra. Essa está na mãos dos políticos eleitos.
    É aqui que entram a Esquerda e a Direita.
    Da Esquerda nada se espera.
    Da Direita espera-se, mas vamos ter?
    Duvido.
    Salazar está morto e o único legado que deixou, foi o anti-comunismo.
    Deveria a Direita seguir-lhe os passos, só ceder quando era impossível resistir a ingleses e americanos.
    Mas, chegada a dita democracia, correram logo a alugar a Base das Lajes. Democratas! Se amanhã os americanos se fossem embora, que não vão, até o PCP choraria a perda de empregos para o “nosso povo”.
    O autor do artigo não avançou, mas há sempre uma solução. A solução é sempre a mesma, a guerrilha, a praticada contra franceses aquando das Invasões Francesas, mas que, já um tal de Viriato praticava, ele e todos os que têm coluna vertebral, em qualquer parte do Mundo
    Foi assim no Afeganistão e é já assim que, por exemplo hoje, se fala no Canadá.

    • Já leu algo de Salazar? Duvido.
      E compreendeu?
      Escreveu:
      “As discussões tem revelado o equívoco sem esclarecer o problema; já nem se sabe o que há-de entender-se por democracia.”
      Sabe definir e caracterizar o que é?
      Junte-se com vários amigos, cada um com sua folha de papel e tentem. Depois comparem a ver o que deu.
      Aposto que pensa saber contar. Aposto que está equivocado.

    • Deixou uma dívida pública de 15% do PIB e mais de metade dessa dívida era dívida interna.
      Começou com um PIB per cápita que convergia para o dos países mais desenvolvidos e crescia de forma constante a mais 5% ao ano.
      Etc., etc.

      • Calma homem!
        Vá lá ver a tensão. Na sua idade há que ter cuidado. Quando vir escrito SALAZAR, passe de lado, não se irrite. Fique lá a ler o Manuel Tiago e o Até amanhã camaradas.
        Aqui referia-me às relações internacionais e aos Açores.
        Na outra parte, das dívidas, foi o seu democrata Soares que recebeu a bancarrota vinda da Monarquia e que a pagou em dois dias.
        Democracia?
        O que é isso, já agora?
        Explique-se lá. Votar de 4 em 4, ou de 5 em 5, em quem é escolhido pelos Chefes dos bandos?
        Escreva, pelo que percebo não está aqui limitado a140 caracteres.

        • Para mim democracia é uma palavra composta por um prefixo e um sufixo significam povo e poder.
          Um regime político será aquele em que o povo é o autor do exercício do poder: o soberano detentor e possuidor de autoridade.
          Só o povo pode ser democrata tal qual só um médico pode ser fisiatra. E por falar em médicos , sabe que o médico na sua profissão tem autoridade com poder quase ilimitado e que essa autoridade está depositada na sua honra quando atesta que alguém está incapaz de trabalhar. Para ser democrático fia mais fino. Uma matilha é um de conjunto de cães. Um bando de vira-latas não é uma matilha.
          Como é que o amigo sabe tanto de mim se não sabe de si.
          Já agora mostre-me que sabe contar. Duas dúzias de ovos como designa. É só colocar dois algarismos e responder.

  5. Durante muitos anos deu jeito.
    O primeiro ministro do Canadá deu um discurso indecente que muitos acharam o máximo.
    Socorrendo se de Havel, o checo corrupto ate a medula que só não foi preso porque parecia mal meter na cadeia o grande líder da “Revolução de Veludo” lá foi reconhecendo que os países europeus e o Canadá prosperaram a sombra da tal ordem mundial baseada em regras.
    Uma ordem que, como muita gente sabe, para boa parte do mundo, significou pilhagem, destruição e um regredir décadas em termos de condições de vida.
    A Líbia, um país cuja prosperidade rivalizava com os maiores da Europa e hoje um cenário do Mad Max com gasolina onde se traficam escravos a luz do dia. E houve outros, muitos outros.
    O Canadá participou em todos os crimes dos últimos anos do Afeganistão, ao Iraque, a Líbia e ao apoio ao nazismo ucraniano visando a destruição da Rússia. O Parlamento canadiano até aplaudiu de pé um antigo combatente nazi ucraniano.
    Por isso, se boa parte do povo não merece o destino de se tornar parte de um país sem direitos sociais, sem um sistema de saúde decente, com um sistema carcerário entre os mais crueis do mundo, com pena de morte, prisão perpétua e penas de duração indeterminada, não deixa de dar um certo gozo ver os seus dirigentes, que participaram ao lado dos americanos em tudo quanto foi operação de pilhagem disfarçada de promoção da democracia e da liberdade, estejam agora com o cu apertadinho.
    O que eles nunca pensaram e que poderiam ser tratados pelo amo como foram tratados os povos do Afeganistão, do Iraque, da Libia, da Venezuela e assim por diante. Como esses subhumanos que tínhamos o direito de matar a pretexto de levar a democracia e a liberdade aos sobreviventes.
    Agora andam a roda como uma galinha a quem cortaram a cabeça.
    Quem mandou ser racista, ladrão e não ter vergonha nenhuma no focinho?
    Agora é aguentar. Lamento pelo povo da Groenlândia a quem já devia bastar viver num clima daqueles. Não precisavam nada desta trampa.

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