(João Gomes, in Facebook, 16/01/2026)

A Venezuela é do seu povo.
Há gestos que dispensam explicação porque se explicam a si próprios. Quando Maria Corina estende a mão e nela coloca um Prémio Nobel da Paz para o “oferecer” a Trump, não estamos perante diplomacia, mas perante uma cena de teatro político de quinta categoria. Um teatro pobre, previsível e, sobretudo, profundamente revelador.
O Nobel, símbolo supostamente universal de ética, paz e autonomia moral, é ali reduzido a moeda de troca. Não para o povo venezuelano, não para a democracia interna, mas para o altar do poder imperial. Não é um gesto de gratidão; é uma tentativa de compra. Compra de reconhecimento, compra de tutela, compra de um poder que não nasce do voto nem da rua, mas do despacho de um gabinete em Washington.
Maria Corina não entrega apenas uma medalha. Entrega uma ideia: a de que a Venezuela não se governa a partir de Caracas, mas a partir da Casa Branca. Entrega a soberania embrulhada em simbolismo barato e chama-lhe “liberdade”.
Do outro lado, no Parlamento venezuelano, Delcy Rodríguez fala. E o contraste é evidente. Não há prémios, não há genuflexões, não há selfies imperiais. Há um discurso duro, incómodo para o Ocidente, mas politicamente coerente: a Venezuela tem problemas, tem crise, tem feridas abertas – mas não está à venda.
Rodríguez não promete submissão. Promete resistência. Não promete obediência externa. Promete fidelidade a um projeto político que, goste-se ou não dele, continua a ser reconhecido por uma parte substancial do povo venezuelano como expressão da sua identidade histórica. A revolução bolivariana surge ali não como nostalgia, mas como linha vermelha: negociar, sim; render-se, não.
É aqui que a diferença entre as duas mulheres deixa de ser pessoal e passa a ser estrutural. Maria Corina representa a velha elite latino-americana que sempre acreditou que o poder se herda ou se pede emprestado ao império. Delcy Rodríguez representa – com todos os limites – a ideia de que o poder se disputa internamente, com conflito, com custo, com dignidade.
O mais inquietante, porém, não está apenas em Caracas. Está nas redações europeias, nos chanceleres ocidentais, nos comentadores que aplaudem este teatro grotesco como se fosse normal que um país soberano precise de bênção estrangeira para existir. Trump surge como maestro deste circo tardio, distribuindo legitimidades como quem distribui sanções, transformando a política internacional num reality show de chantagem e submissão.
E o Ocidente continua dócil, cúmplice, ajoelhado, até com medo. Em nome da “democracia”, aceita-se a humilhação simbólica de um povo inteiro. Em nome da “ordem internacional”, normaliza-se o rapto de presidentes, o estrangulamento económico, a ingerência descarada. É por isso que este momento exige algo mais do que indignação venezuelana. Exige uma resposta latino-americana. A história da América Latina é uma história de países isolados, derrotados um a um. A lição é antiga e clara: quando um cai sozinho, todos aprendem a obedecer.
Hoje é a Venezuela. Amanhã será outro. O contributo das nações latino-americanas não é retórico; é estratégico. Cooperação regional, defesa mútua da soberania, rejeição coletiva da tutela externa. Não como gesto ideológico, mas como instinto de sobrevivência política. Porque países que aceitam que outros sejam vendidos acabam, mais cedo ou mais tarde, por aparecer também na montra.
E a Venezuela lembra algo que o Ocidente preferia esquecer: os povos não são prémios, nem as nações são moedas.
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Corina será o que parece; só não sei se Delcy não parecerá o que não é.
MR
Assim seja..
.