(Por Josué Caldeira, in Facebook, 24/05/2025, Revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Na abertura do seu livro sobre a questão do valor na teoria económica, Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação e Valor Público, na University College London, lembra-nos que as lengalengas sobre as questões económicas e sociais são elementos fundamentais do exercício do poder (pelos poderosos).
Recuperando uma observação de Platão, Mazzucato sublinha que os contadores de histórias são quem governa o mundo. E o livro de Mazzucato, “O valor de tudo” (Temas e Debates, 2018), tem como objetivo, segundo a própria autora, discutir e combater as lengalengas sobre a criação de riqueza no capitalismo moderno. Vale a pena ler.
Esta nota é também sobre uma lengalenga que os poderosos aqui do retângulo têm vindo a contar, à exaustão, e que, como todas as lengalengas usadas pelos poderosos, tem motivações políticas, pretende ter efeitos políticos e, naturalmente, condicionar a ação e as opões eleitorais de cada um de nós. Falo da lengalenga que o comentariado nacional difunde sobre a alteração do mapa eleitoral do Alentejo, assente no argumento de que a quebra do eleitorado da CDU é o fator explicativo da subida galopante do Chega.
A lengalenga foi profusamente utilizada em 2024, ano do grande sobressalto causado pelo crescimento do partido de André Ventura, e continua a ser utilizada depois do passado dia 18 de maio.
Ventura, num comentário grosseiramente asqueroso, marcou o ponto na noite eleitoral: “O Chega matou o partido de Álvaro Cunhal”. Ascenso Simões alimenta a mesma leitura no seu “O Chega sempre esteve dentro do CDS, do PSD e do PCP”, publicado no Expresso online, e, em certa medida, também Pacheco Pereira vai no mesmo balanço quando escreve no Público (24.05.2025) “O mapa eleitoral do Chega é muito parecido em várias partes do país com o do PCP”.
O argumento não circula apenas no comentário político. Já na edição de 25 de abril, do jornal Público, os jornalistas Ana Bacela Begonha e David Santiago alimentaram, de forma descuidada, tal lengalenga, lançando a questão a Paulo Raimundo: “em muitos dos sítios onde a CDU precisa de recuperar representação é onde o Chega elegeu [particularmente] no Alentejo (…). O que é que a CDU pode fazer para recuperar votos que perdeu para o Chega?”.
Defenderei que esta lengalenga é um exemplo do que Mariana Mazzucato nos explica no seu livro: uma narrativa que os poderosos inventam e difundem (pela voz do comentariado de serviço) para melhor atingirem os seus objetivos políticos, isto é, de poder. Contudo, também esta lengalenga merece o selo de “aldrabice”. Certamente, uma aldrabice assumida porque tem um fim claro: criar uma ideia (sem qualquer suporte de evidência) de definhamento e apagamento da CDU até nos “tradicionais bastiões comunistas”.
Mas, sim, é uma aldrabice e esta até facilmente desmontável. A ideia do crescimento do Chega por via da quebra eleitoral da CDU não tem suporte nem nos resultados de 2024, nem nos resultados de 2025. Para não ser maçador, apresento os dados com os efeitos conjugados das eleições de 2024 e de 2025, isto é, as variações do número de votantes em cada partido entre 2022 e 2025 (cobrindo, assim, os resultados eleitorais das duas últimas eleições):
No distrito de Beja, a CDU perdeu 2.442 votos, o Chega cresceu 13.515 votos. No distrito de Évora, a CDU perdeu 2.857 votos, o Chega cresceu 13.858 votos. No distrito de Portalegre, a CDU perdeu 1.081, o Chega ganhou 11.084. E no distrito de Setúbal, a CDU perdeu, no mesmo período, 8.573 votos ao passo que o Chega ganhou 90.434 votos.
Com base nestes resultados, conseguirá o comentariado nacional sustentar, com verdade, a mentira de que o Chega sobe, de forma galopante, à custa do eleitorado CDU? Bom, se forem “gente de bem”, não (há limites para a mentira…). Se formarem um bando de aldrabões e manipuladores da opinião pública, vozes do dono, sim, conseguem, em direto e sem qualquer problema.
Contudo, vale a pena avançar na exploração das evidências disponíveis. Vou deixar de lado o comportamento da IL no Alentejo porque é irrelevante. A economia regional não tem perfil para os fanfarrões meritocráticos. Também vou deixar de lado o sidecar do PS, o Livre, por também não ser muito expressivo na região. Mas vale a pena fazer a pergunta: de onde vem, então, o crescimento do Chega e (em menor escala) da AD?
É verdade que o resultado agregado das transferências de votos é difícil de identificar no sobe e desce dos votos nos vários partidos. A coisa é mais complexa e exige trabalho de filigrana a desenvolver noutros contextos (os competentes analistas políticos tratarão, certamente, do assunto).
Mesmo assim, é curioso verificar que a configuração das variações agregadas dos eleitorados dos vários partidos no Alentejo, por distrito, produz um padrão que é perfeito e do qual resulta com particular evidência os seguintes movimentos (convido a ver os gráficos):


O somatório da subida de votos do Chega e da subida da AD é sempre acompanhado por uma brutal descida dos votos do PS e também por uma significativa subida de novos votantes (gente que estava na abstenção e novos eleitores).
Estes dois somatórios (isto é, subida do CH e da AD, por um lado, e queda do PS e subida de votantes, por outro) quase se igualam em números absolutos nos três distritos. Naturalmente isto não esgota a leitura que é necessária desenvolver.
Mas os dados disponíveis sustentam serem estes movimentos (subida do CH e da AD, descida abrupta do PS e subida de votantes) os movimentos que estruturalmente marcam a alteração da geografia eleitoral do Alentejo, criando uma configuração eleitoral (para as legislativas) em terreno totalmente desconhecido.
Não excluo a hipótese de deslocação eleitoral da CDU para o CH. A perda de votos da CDU continua a constituir um problema no Alentejo. Contudo, a dimensão desta perda de votos não consegue explicar (nem torcendo as estatísticas eleitorais) a subida de votos do CH.
O Alentejo vestiu a camisola do Chega mas não é da CDU a camisola que ficou no chão.
Mas esta é a lengalenga que os poderosos, pela boca do comentariado nacional, continuarão a contar. Porque “os contadores de histórias são quem governa o mundo”. O que fazer neste quadro? Bom… o comunicado do Comité Central do PCP, estabelece um guião de luta a prosseguir.
Há uma questão fulcral que, no seguimento do que vem acontecendo h á 40 anos, não faz parte das preocupações das Direcções do Partido – a discussão das causas do brutal declínio eleitoral nos últimos 40 anos.
O problema, infelizmente, não é só o resultado da CDU nas eleições de 18/5/2025.
Vem, pelo menos, de forma mais acentuada, desde 1985.
O PCP, em 1975, nas eleições para a Assembleia Constituinte, teve 711.935 votos (12,46%). Nas eleições legislativas sguintes- 1976 – subiu para 786.701. Nas legislativas de 1979 subiu para 1.129. 322 e manteve mais de UM MILHÃO DE VOTOS em 1980 e 1983.
A partir de 1985 começou o descalabro. Entre 1985 e 1991, perdeu quase 400.000 votos.
O movimento descendente continua até às mais recentes – 180.000 votos (3,03%).
Mas, a par da gravidade da perda de votos (perda de apoio popular), ocorreu a proporcional perda de influência do Partido na sociedade portuguesa, e a todos os níveis – político, ideológico, social, sindical e cultural.
Tal situação, analisada dialeticamente, só podia ter conduzido, há muitos anos, a uma profunda discussão e análise de TODAS as suas causas.
NÃO HÁ EFEITO SEM CAUSA.
Mas isso deixou de acontecer desde 1985.
O que se passou foi uma mudança muita má – o Partido deixou de ser um partido de militantes que também pensam pela sua cabeça e que contribuem activamente para a elaboração das orientações políticas, ideológicas e programáticas.
O Partido passou a ser um partido de crentes, de aderentes acríticos que seguem cegamente as posições de uma Direcção que se revelou incapaz de mobilizar os militantes para a discussão em todo o Partido, no sentido de encontrar os caminhos para travar e inverter o rumo negativo.
Em minha opinião, é aqui que nos devemos focar.
Sobre análises sobre as transferências de votos, as suas causas e as suas consequências, temos de alargar o período de análise para os 50 anos de democracia e de eleições. Porque partimos de um ponto que não correspondeu às nossas expectativas, mas conseguimos subir quase 500.000 votos. E só depois começou o declínio.
Mas discutamos isto com o método de análise dos comunistas, dos marxistas – o materialismo dialético e histórico, com as suas 3 leis inseparáveis.
Ainda bem que o Josué ficou contente com os resultados da CDU no Alentejo…
Há quem pretenda que a perda eleitoral do PCP (e seus aliados) se deverá ao facto de o partido ter cristalizado, não conseguir acompanhar as dinâmicas sociais de hoje.
Mas será, efetivamente, assim ou isso, pelo menos, não explicará tudo?
Vejamos, com recurso à seguinte metáfora:
À parte mais esclarecidos na matéria, os demais só darão valor à saúde, procuram cuidar dela, quando um mal os afeta, lhes bate à porta. A partir desse momento, então, já começam a preocupar-se com o colesterol, as diabetes, etc.
Ora, aqueles que pós 25 de Abril passaram a votar no PCP tinham sofrido (ou viram sofrer) do mal do fascismo , sofrimento pelo qual os nascidos depois dessa data não passaram (ou puderam observar).
Assim, como bem assinalou a Piedade Roberto, tendo vindo, pela lei da vida, a desaparecer os primeiros, compreender-se-á melhor a perda eleitoral que o PCP tem vindo a registar, só se fazendo votos de que os segundos não tenham, também eles, de vir a sofrer do mal do fascismo, para, só depois, darem valor à democracia (digna desse nome, feita de verdadeira justiça social).
Muitos dos que antes votavam CDU já partiram e os novos são uma geração criada com facilidades , que no fundo foram conquistados pelos predecessores .
Realmente, e preciso ter uma falta de vergonha no focinho de todo o tamanho.
E essa histórias da treta servem também para alimentar a narrativa de que comunismo e fascismo são a mesma coisa, extremos que se tocam e tanto assim e que o eleitorado de um se transfere para o outro.
Que interessa que os fascista tenham crescido sobretudo a custa dos partidos maiores e que tinham mais eleitores para transferir?
Se essa gente das trevas tivesse crescido so a conta da CDU ou maioritariamente a custa da CDU nem 10 por cento do eleitorado tinha, cambada de chocos.
E depois dizem se de esquerda quando tudo o que fazem e denegrir as forças a sua esquerda.
Vão ver se o mar da choco.
E há um dirigente energúmeno do PS, Ascenso Simões, que vem dizer para a comunicação social que os eleitores do chega são principalmente provenientes, entre outros, da CDU!!!!
Livre, «sidecar» do PS, Ventura, «4.º Pastorinho», Diana Soller, «Diana Solérias»… Enfim, que em dias de negritude, se salve, ao menos, o humor! 🤓
Entenda-se, naturalmente, «dias de negritude» metaforicamente, como dias sombrios, difíceis ou tristes!