Palestina cedilhada

(Tiago Franco, in Facebook, 28/03/2025, Revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Nunca tive grande paciência para os filmes do Manuel Oliveira. Desde logo porque, nas palavras do próprio, uma imagem quando vem é para ficar. Ou seja, quando dávamos por ela, estávamos a olhar para o mesmo chaparro durante 10 minutos.

Mas tentei, até porque a minha irmã tinha a mania que via filmes independentes e eu não queria ser o bronco da família. Com os anos fui aprendendo a falar menos e observar mais. Em miúdo era exatamente o contrário. Um irritante tagarela a quem os adultos faziam o favor de pedir para se calar (eram outros tempos, não havia ainda psicólogos).

Quando entrei na Cisjordânia pela primeira vez fiquei quieto a olhar para o muro. Uma coisa é ver imagens na televisão e discutir ângulos e outra, bem diferente, é participar no dia-a-dia por aqueles lados. “Estes gajos estão presos“, lembro-me, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Aquele muro não separa um lado do outro. Aquele muro dá a um dos lados o estatuto de prisioneiro e ao outro, o papel de carcereiro que dita as regras do jogo.

Em Gaza essa realidade é ainda pior. A concentração de pessoas é muito maior, as regras mais apertadas e a prisão ainda mais desumana. Olhar com calma para a vida daquela gente permite perceber algumas coisas e, de certa forma, formar opinião. Ter uma opinião ajuda a perceber quando nos tentam, ostensivamente, mentir.

Sei que me tentam enganar quando começam a contar a história pelo fim. O fim é o cenário que queres defender, dê por onde der. A história vai variando, de forma a que justifique sempre o fim que me queres oferecer. Quando isto acontece, sei que me estão a mentir.

O fim desta história é muito simples: Israel pode matar quantos palestinianos quiser porque não gostamos de árabes. Agora, como isto não se pode dizer…há que ir adaptando a narrativa. Venham daí que isto hoje tem cedilhas e tudo.

1 – O Hamas faz o ataque a 7 de Outubro e o mundo aceita o início da chacina em Gaza. Somos todos BringThemHome. Tudo normal. Por esta altura ninguém tem coragem de discutir a evasão da prisão e o ataque aos opressores dos 20 anos anteriores. Muito menos falar nos criadores do Hamas e os porquês. As imagens das mortes israelitas estão frescas.

2 – O número de mortos em Gaza começou a aumentar exponencialmente com todos os bombardeamentos e, por esta altura, as IDF garantiam que apenas faziam ataques cirúrgicos a esconderijos do Hamas. E afirmava-se que os mortos eram, essencialmente, combatentes.

3 – Como matavam tudo o que mexia e os números não batiam certo, a narrativa voltou a levar um pouco de óleo. De facto, estavam a matar civis, mulheres e crianças, mas era porque os cobardes do Hamas se escondiam atrás deles. Ao mesmo tempo não deixavam os civis saírem de Gaza para não perderem os guerrilheiros.

4 – Quando as mortes chegaram às 34 000, decidiram parar o contador. É que o Hamas só tinha 40000 efetivos e já não havia forma de esconder 15000 mulheres e crianças assassinadas. Foi então que o discurso levou nova afinação. Não havia civis inocentes em Gaza. Todos tinham ódio a Israel. Todos eram Hamas. Nesta fase lembro-me de ter escrito que, ao ver a família soterrada nos escombros, o que esperava a comunidade internacional da reação de um homem? Pedir desculpa a Israel ou engrossar as filas do Hamas?

5 – Durante as várias fases do genocídio, especialmente mais para o fim, usaram-se os clássicos argumentos de “nem os vizinhos os querem” e “não podemos decidir quem é o agressor com base no número de mortos“. Ora, ora, podemos sim. É exatamente isso que faz um massacre ser um massacre.

6 – Quando Trump falou na Riviera e a expulsão dos palestinianos de Gaza, uma vez mais, o mundo civilizado ficou parado. Assistiu de camarote. O cessar-fogo começou, o cessar-fogo foi interrompido e, de rajada, despacharam mais 1000. Nós já só contamos cadáveres palestinianos à centena. Menos que isso nem é estatística.

7 – Apareceu uma manifestação em Gaza a pedir que o Hamas se fosse embora. Não duvido que muitos palestinianos não gostem deles. Acho lógico até. Não eram muitos mas foram bem aproveitados. A narrativa voltou a mudar, poucos dias após os novos bombardeamentos. Os palestinianos eram novamente reféns do Hamas.

Esta cronologia foi toda dita e escrita nos meios de comunicação social portugueses. Toda.

As pessoas que o fizeram estavam e estão a mentir. O seu objetivo, único, é justificar o massacre de um povo que eles desprezam, sem correrem o risco de serem chamados por aquilo que verdadeiramente são: racistas primários.

Irrita-me a troca de narrativa para justificar o fim. É um truque barato de argumentação de quem não tem coragem de assumir as suas posições.

Certo dia um racista disse-me, sem rodeios o seguinte: “por mim deviam bombardear aquela merda toda em redor de Israel“. Embora seja uma posição asquerosa, pelo menos é honesta.

O espetáculo de flexibilidade que alguns comentadores e opinadores nos estão a dar desde o 7 de Outubro chega a ser deprimente. Assumam-se, não tenham medo de ser quem são.

Na vida, como em tudo, é bom observar, ouvir e pensar. E também é bom e honesto termos coragem de assumir o que dizemos, sem medo que nos julguem.

Por mim, como diria outro realizador que também não me enchia as medidas, depois do genocídio em Gaza, quero é que Israel se foda.

7 pensamentos sobre “Palestina cedilhada

  1. Eles também odeiam os árabes a quem estendem os tais tapetes vermelhos. O que ainda não descobriram foram maneiras de roubar tudo o que teem sem parecerem ser os ladrões e filhos de uma puta selvagem de Babilônia que são.
    O que o Ocidente, em especial a Europa, não suporta e que os recursos estejam noutros países que nao eles. Em países que nem teem a sua religião.
    Acham uma verdadeira injustiça do Universo que teem tentado corrigir com todas as infâmias possíveis.
    E uma delas foi a criação do moderno estado genocida de Israel que tem sido um foco de medo e instabilidade em todo o Médio Oriente desde o primeiro dia da sua criação.

  2. Israel, onde o anti-semitismo puro e duro é ideologia de Estado, com segregação ao estilo Apartheid, desprezo pela vida humana, sobretudo dos povos semitas que viviam naquela região bem antes da ocupação e formação do Estado actua de Israel, actualmentr nas mãos da extrema-direita sem escrúpulos, que tem o apoio (assumido ou velado) de todo o “ocidente colectivo”, dos seus estados e instituições supra-nacionais (NATO, UE), fornecendo-lhes armamento, sistemas de defesa e de ataque de longo alcance, abastecimento, financiamento, defesa e encobrimento político, talvez por eles próprios partilharem com os judeus ashkenazi (sobretudo esses, de origem centro e norte europeia, e americana após imigrarem para o Novo Mundo, que dominam o estado israelita mais que os sefarditas, os misraim ou os sabras) esse anti-semitismo primário, misturado com a aversão ao Islão.

    • *Estado actual de Israel, actualmente nas mãos da extrema-direita sem escrúpulos, que pratica um genocídio indiscriminado sobre os palestinianos, que tem o apoio (assumido ou velado) de todo o “ocidente colectivo”…

  3. E outra grande mentira sobre as mortes israelitas. Mais de metade foram causadas pelo exército israelita pela aplicação a civis da infame doutrina Hannibal, assim baptizada em “homenagem” ao general cartaginês que preferiu suicidar se a cair nas unhas dos romanos.
    O problema é que o tal general, que sabia que seria crucificado se caísse nas unhas de tais energumenos, tomou ele essa opção.
    O que a infame doutrina israelita diz e que e melhor que as pessoas sejam mortas do que caiam prisioneiras, por isso devem ser mortas.
    E foi isso mesmo que se fez, muita gente morreu bombardeada pelos helicópteros israelitas nas próprias casas ou quando estavam a ser levados.
    Não duvido que se quisesse matar israelitas tendo em conta o ódio que as acções israelitas atraem.
    E esta gente capaz de se pegar a porrada por chocolate do Dubai pense como seria se fosse palestiniano e vivesse naquele campo de concentração a céu aberto, sujeito a política de fome imposta por Israel.
    Não iriam de certeza ter vontade de lhes dar beijinhos.
    Mas boa parte da operação tinha mesmo como finalidade conseguir reféns.
    Subestimando a furia homicida sionista, achavam certamente que a tomada de reféns impediria os assassinos de bombardear a torto e a direito.
    Foram outros que, tal como Putin, não perceberam a força do nosso racismo que nos iria colocar logo do lado dos assassinos, como temos estado desde que achamos boa ideia lá plantar aqueles bandos de fanáticos racistas.
    E para Israel, quantos mais mortos melhor para compor a narrativa das vítimas, dos coitadinhos, dos perseguidos e aqui del rei que quem nos critica quer mandar nos de volta para Auschwitz.
    Por mim mandava os de volta para todas as terras de onde os seus avós, bisavós ou o raio que os parta saíram e quem ficasse tinha de aceitar viver num estado onde mandasse quem sempre lá viveu. Nem mais nem menos mas isso não vai acontecer. Mas não venham com a treta que os queremos mandar para as câmaras de gás que essa e velha e tem andado a justificar crimes hediondos há 80 anos.
    Porque o primeiro grande massacre e expulsão foi logo quando se instalaram lá armados ate aos dentes com as armas que as nações árabes, saídas de infames processos de descolonização não tinham.
    E assim se criou o mito dos heróis israelitas a defender se das hordas de selvagens árabes que os queriam expulsar da terra que Deus lhes tinha dado e de onde tinham sido corridos dois mil anos antes.
    Todas estas narrativas vivem de muitos e mentiras, há muitos anos.
    E e mesmo de racismo infame que se trata.
    E tratamos de esquecer convenientemente que antes de 7 de Outubro a camarilha homicida de Netanyahu já tinha amplificador a dor na Cisjordânia com centenas de mortes, milhares de feridos e milhares de deslocados. E elevado o nível de fome em Gaza. Alias, o assassino Netanyahu sempre disse que estava a por a gente de Gaza “a dieta” e também é dele a infame ideia de que não há inocentes em Gaza. Como se em Israel houvesse muito disso.
    Mas tivemos gente a dizer a atrocidade “somos todos israelitas” e até o mais alto magistrado da nação a dizer a um representante palestiniano “desta vez foram vocês que começaram”. Não sei como e que o homem não lhe deu uma barbatana de baleia no focinho. Perante uma provocação destas, quando já tinham morrido mais de 1000 pessoas em Gaza, havia milhares de feridos e tinha sido cortado o acesso a água, luz comida e com os dirigentes israelitas s prometer muito mais e preciso nervos de aço para não lhe ir as trombas. Mas o homem teve os.
    Tivemos ate a Assembleia da República iluminada com as cores da bandeira genocida, uma infâmia que ocorreu um pouco por toda a Europa. Uma vergonha sem tamanho porque era impossível que não soubessem o que ai vinha tendo em conta as declarações psicopatas e homicidas que há tinham saído da boca dos energumenos dirigentes israelitas.
    Em resumo, quero que Israel e quem os apoiar se fodam. E que pelo menos admitam que querem que os palestinianos e os vizinhos de Israel sejam todos mortos em vez de tentarem justificar a matança.
    Vão ver se o mar da Kraken.

  4. Também quero que Israel se foda tal como todos os sionistas, supremacistas, racistas.
    Por mim não tenho problema algum em dizer que Israel não tem o direito de existir, nunca teve e nunca deviam ter lá despejado bandos de fanáticos que já nos campos de concentração designavam os mortos pela fome por “muçulmanos”.
    O racismo contra muçulmanos já estava lá com todo o seu esplendor.
    Israel foi criado não por termos pena das vítimas judias ou sentimentos de culpa mas por verem o potencial de gente fanática e supremacista para desestabilizar toda uma regiao rica em “ouro negro”.
    A ser peninha também aos ciganos seria dada qualquer terra que eles achassem que lhe tinha sido dava por Deus.
    Vão ver se o mar da megalodonte, os israelitas e quem os apoiar.

    • Eles dos muçulmanos em geral, e dos árabes e palestinos no caso específico, não gostam nem um bocadinho.
      Mas já se tiverem petrodólares, aí a música é outra… portas abrem-se, aparecem os mantras “investimento estrangeiro”, “livre circulação e mercado de capitais”, e por toda a Europa, sobretudo na Velha Albion, rios de dinheiro correm e lavam as mãos aos grandes grupos bancários e da alta finança, às corporações e às instituições onde se defendem com afinco “os nossos valores e princípios”.
      Eles não gostam é dos pobres, que são descartáveis e dispensáveis, aos ricos até fazem salamaleques. Velhos hábitos morrem tarde.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.