(Francisco Louçã, in Expresso, 26/12/2023)

Esplêndida notícia, esta AD: mostra a fragilidade das direitas, incentiva a sua guerra interna e obriga o PS a dizer já o que quer fazer – ou a imitar Montenegro no fingimento de que, com a sombra do CDS, seguirá sozinho.
A formação da AD devia ser festejada pela esquerda. Foi a melhor notícia da época natalícia, em que não costuma acontecer nada – pois desta feita houve o entendimento entre o PSD e o CDS, mais uns independentes que melhor ficarão no mistério da sua identidade, dado que os nomes não impressionam o mais cândido dos eleitores, pese o esforço laudatório de um ex-presidente do PSD na SIC. Vejo três razões para esse júbilo.
Primeira, mostra a vulnerabilidade e o impasse em que vive o PSD. A sua fragilidade é evidente e, com a constituição da AD, diz-nos que sabe que nunca lá chegaria sozinho, o que já faz fraca figura. Ora, o remédio é débil: é por demais evidente que o CDS não elegeria um único deputado, dado que os seus votos há muito se esvaíram para o Chega, circunstância que leva Montenegro a explicar o acordo não pela força desse partido nem pelo fulgor das ideias coligacionistas, mas sim por um eventual efeito marginal de alguns votos que dariam aqui e ali um deputado à soma do PSD e CDS. Era difícil encontrar explicação mais chocha e menos entusiasmante para uma coligação. É uma combinação de dois partidos que se dizem fracos.
A segunda boa notícia é que o PSD quer falar a duas vozes e que uma delas terá como alvo o Chega. Conhecendo o espírito fanfarrão de Ventura, é de prever que caia na armadilha e faça da luta contra a AD o mote da sua campanha, não tanto pelas frágeis invetivas de Nuno Melo, mas antes por entender que está a ser rejeitado e que precisa de uma guerra dentro da direita para brilhar. Isso é vantajoso pela guerra em si, que fará ressaltar as outras candidaturas que, do lado oposto, falem do que interessa e proponham soluções que não sejam a contemplação embevecida do espelho da Bruxa Má. E é ainda mais vantajoso pela evidência de que a direita é incapaz de um acordo que apresente na campanha, na certeza de que o fará no dia a seguir, em podendo, como propôs Passos Coelho. A AD resultaria, a haver maioria de todas as direitas, do esforço por desaqualificar o seu próprio percurso e essa é uma das notórias características da bufonaria. Como as eleitoras e os eleitores não são estúpidos, é por demais perceptível que a fraqueza de dois partidos somados não faz uma força, e que o seu sucesso dependeria unicamente de uma mentira.
Há ainda uma terceira boa notícia e até creio que é a mais importante, a ela voltarei dentro de dias. É que a circunstância de parte da direita se coligar para fingir que não faria um acordo com a extrema-direita, na certeza de que tal aconteceria num ápice, fragiliza esses partidos mas tem outra consequência: ao mesmo tempo, ressalta que o PS, que critica o subterfúgio e este fingimento, precisaria de um topete monumental para tentar fazer o mesmo, não dizendo o que faria se vier a estar em posição de negociar uma maioria.
Assim, a AD é uma junção de restos e revela a impotência da direita, vantagem para os outros partidos. No entanto, a sua maior virtude é obrigar o PS a dizer o que quer, com quem, como e para fazer o quê. Estou-lhe grato por isso.
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O PSD e o CDS tiveram o condão de alterar os conceitos e os preceitos da época natalícia, pois com a ressuscitação do mito urbano AD e de muitas figuras desaparecidas da direita mais parece estarmos em época pascal.
A “manca” AD, pois falta-lhe o PPM, o mito urbano criado em 1979, por ter vencido as eleições legislativas da altura, comandada por Sá Carneiro, esteve para a direita, agora muito propalado centro direita, como o D. Sebastião está para o povo português… mas se este nunca regressou em dia de nevoeiro, a “manca” lá apareceu eivada de prosápia e aplaudida por uns quantos “Lázaros” também eles trazidos à vida política onde há muito se encontravam perecidos.
Nuno Melo, o mestre da arruaça verbal, lá conseguiu que o “seu” CDS-PP não desaparecesse de vez por “indecente e má figura”, como bem gosta de utilizar o novo “D. Sebastião” do PPD, pois atrelado ao PPD lá conseguirá meter uns deputados que já não tinha. O CDS-PP nada mais é agora e para sempre o PEV do PPD… sem ir atrelado nunca mais lá chega…
O tipo mais feliz com a assinatura deste acordo nupcial é, sem dúvida, Nuno Melo, até porque como nada fez na vida além da política, pelo menos nos últimos 20 anos, ele, eventualmente, lá aparecerá na lista de deputados para 10 de Março, quem sabe a encabeçar, na certeza será o número dois, a lista de deputados por Braga, pois esta é a garantia de que continuará a “mamar” na política, pois a eleição de deputados do CDS nas eleições Europeias de Junho, se fosse sozinho, seria praticamente nula. Sozinho o CDS sairia do parlamento europeu.
Já Montenegro, aproveita a boleia do CDS para procurar ganhar mais uns deputados, fruto da conjugação que poderá dar o acréscimo dos 89 mil votos do CDS das últimas legislativas, mas certamente serão agora muitos menos, até porque há eleitores do CDS, e serão muitos, que nunca perdoaram ao PPD muitas das tropelias políticas que lehes foram fazendo, especialmente em autarquias, em alguns círculos eleitorais, e procura a forma de não ter o CHEGA tão colado em número de votos e mandatos.
A ressuscitação da AD serve de arma de defesa ao PPD para dizer que não fará qualquer acordo pós eleitoral com o CHEGA, mas nisso não acreditamos, pois a sede de poder é tal que a versão madeirense se repetirá com toda a candura…
O Iniciativa Liberal espuma por todos os cantos da boca, pois ao ficar de fora deste acordo pré-eleitoral sente-se desvalorizado no seu papel de criticar o sistema, o PS e os restantes partidos da esquerda.
Mas este milagre “pascal” em época natalícia não excitou só Montenegro e Melo, também Marques Mendes teve o condão de mostrar toda a exaltação por tal acordo que os seus saltinhos na cadeira da SIC bem nos demonstraram. Para além dele até o “servente de cafés” das Lages, o fugitivo para a Europa de 2004, o pior presidente da Comissão Europeia, a meias com a actual D. Ursula, veio perorar sobre as virtudes da ressuscitada coligação, a mesma forma de dizer que mais um vive o êxtase da ressuscitação cá no burgo depois de ter sido renegado na Europa por, eventualmente, passear de iate com um oligarca(?) e ter ido a correr para o Banco Goldman Sachs International após ter abandonado as funções de presidente da Comissão Europeia, sem ter tido um período de nojo?…
Antes tinha sido Cavaco a deixar a Maria a fazer o jantar e foi mandar bitaites no Congresso do PPD, tendo deixado embevecido, e com uma lágrima no canto do olho, Montenegro, quando ouviu os encómios a seu respeito da boca do Ministro das Finanças da original AD e que aproveitou a morte de Sá Carneiro para abandonar esse governo, pois os país estava mal (ver: https://laurentinoregado.blogs.sapo.pt/as-falacias-sobre-a-bancarrota-7093), tendo no final deixado a comunicação social de microfone no ar, pois tinha a Maria à espera para jantar, disse o homem que para “serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes”, o tal das acções da SLN, da Casa da Coelha e que 10 mil euros não chegavam para as suas despesas.
Quem rejubila é o Ventura!
O PS tem de trilhar o caminho das pedras! Acho que deverá cingir-se a discutir política e não minudências; não deve passar o tempo a responder à AD, à IL e ao CHEGA sobre se cria um novo acordo à Esquerda, deverá, isso sim, elencar as políticas respeitantes ao Estado Social e à Economia do país de forma a garantir que o necessário a fazer será feito.
Quanto a mim, o PS deverá assumir de uma vez por todas que fará acordos com a Esquerda para governar o país, se assim for necessário.
Por muito que nos queiram fazer acreditar os fazedores de opinião televisiva e jornalística de que são os moderados e o centro os que ganham eleições e que são necessários para governar – mas que é isso de centro político? ou não é mais nem menos que um cinzento que tanto conjuga com o laranja como com o rosa ou os radicais da extrema-direita… -, pois convém a todos nós eleitores anónimos considerar que a opinião da maioria não é sinal de ser a certa ou a melhor…
A “democracia Liberal” está a mudar sorrateiramente o regime e a ideologia. A democracia torna-se uma” Lobiocracia “e o liberalismo torna-se” cutucada”, isto é,”libertação condicional”. Em suma, o melhor de todos os mundos…
A ideologia dominante é a ideologia dos ricos.
Dividir para conquistar melhor. Pessoas que governam, não é “a esquerda” ou “a direita”, é “classes/categorias sociais /poderosos /governos”, o resto é apenas “jogo de imagem”.
Estamos no fim do ciclo.
Regra geral, devemos decidir primeiro que tipo de sociedade queremos: que tipo de cuidados, de educação, de transportes públicos, de serviços públicos, reformas, seguro de desemprego, segurança etc. Depois, devemos adaptar as receitas às nossas necessidades. E depois adaptamos as receitas: adaptamos o montante e a base dos impostos e das contribuições à sociedade que queremos. Neste momento, estamos a fazer tudo ao contrário: começamos por reduzir cegamente as receitas e depois dizemos: não há recursos suficientes, temos de cortar nas despesas…
Todas as nossas vidas são baseadas na saúde e, se esta pedra angular falhar, tudo colapsa. O que causa o aumento dos preços é, na dinâmica da oferta e da procura, a escassez do produto. Os médicos não devem ser raros, deve haver muitos deles numa sociedade saudável.
Duvido que muitos queiram ter filhos numa sociedade em que a saúde seja um luxo.
Portugal é, acima de tudo, uma sociedade de agenda ….. Se não conhecermos alguém no ramo que queremos, nunca entraremos em nenhum sector (mesmo que tenhamos todas as qualificações necessárias). Excepto nos mais ingratos e menos procurados.
Há, claro, casos especiais, que serão sempre abundantemente apresentados pelo sistema, para o justificar e dar um pouco de esperança às pessoas.
Muitas vezes, os grandes meios de comunicação social mostram-nos raras excepções, como alguns( muito poucos), por exemplo, para nos fazer acreditar que qualquer pessoa pode subir na escala social, se tiver a motivação para atingir o nível mais alto.
De facto, como podemos ver na realeza, ou em certas classes como a burguesia ou o mundo do cinema, quando se pertence a estes círculos abastados, será mais fácil subir rapidamente na escala social, porque os seus meios financeiros permitem-lhe estudar e comprar estudos e professores , sem ter de assumir trabalhos de estudante que consomem o tempo de estudo e a energia física e mental, o que pode por vezes levar ao abandono total dos estudos, por exaustão ou miséria social.
Estas classes sociais altas colocam os seus descendentes num casulo que favorece ao máximo o sucesso, para que a sua posição social se perpetue de geração em geração.
Para evoluir em torno de pessoas que acreditam muito na meritocracia (portanto, do centro ou do centro-direita), é acima de tudo um ideal: o sonho de ter um sistema de justiça social (sim, sim) que recompensa as pessoas de acordo com os seus méritos, o seu trabalho e/ou os seus esforços, e não de acordo com a sua herança ou a sua posição de partida.
Não conheço ninguém que considere o sistema actual uma meritocracia, mas a ideia é corrigi-lo e aproximar-se o mais possível dele. Agora, podem ver isto como um ideal vaidoso, mas afinal, os ideais de muitas pessoas aqui também estão muito, muito longe de se tornarem realidade…
É sempre fascinante verificar que os mais fervorosos defensores da meritocracia são, na sua maioria, aqueles que não mereceram a sua posição… A não ser que roubos, heranças, “esquemas” e outras fraudes degradantes façam parte da sua “estranha” visão do que é o mérito… Traços que muitas vezes são políticos, diga-se de passagem.
Mas sejamos objectivos e lembremos que, apesar de tudo, há algumas excepções no mundo do trabalho, e haverá sempre alguma pseudo-inveja descabida em certos casos (mas cuidado com a desculpa da inveja que é lançada com demasiada facilidade, eh).
O grande problema é que vivemos numa “inaptocracia”, que é um sistema de governo em que os menos capazes de governar são eleitos pelos menos capazes de produzir, e em que os outros membros da sociedade menos capazes de se sustentar ou de ter sucesso são recompensados com bens e serviços que foram pagos através do confisco da riqueza e do trabalho de um número cada vez menor de produtores.
Paradoxalmente, a situação agravou-se na mesma proporção que a falta de qualidade do ensino.
O método global de aprendizagem da leitura, o método reformado e cada vez mais medíocre de aprendizagem da matemática.
O homem inteligente é sempre odiado pela sua sociedade..
Estamos tão imersos no mérito que é quase como um síndroma de Estocolmo. A ideia do mérito é muito apelativa, porque está cheia de esperança e liberdade, de certa forma. O nosso resultado depende apenas de nós e das nossas escolhas. Implica que somos livres de fazer as nossas próprias escolhas e de tomar as nossas próprias medidas. É emancipatório. Mas não é essa a realidade. Estou a ser um pouco exigente, mas o mérito é uma ideia do liberalismo.
A questão é:quem tem a capacidade para ser governante em Portugal?
«Estamos no fim do ciclo.», comp estivemos nos primeiros anos da década de 70/XX, com Tomás e Marcello, incapazes de corrigir a linha dos ultras com o Ultramar.
Agora?
“As Configurações do Fim-Estrtura de fim de época e estrutura de fim de regime” conferência de Joaquim Aguiar, presente Adriano Moreira.