A valentia dos guerreiros de pantalha tem dias

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 19/04/2022)

Uma guerra tem destas coisas: o espetáculo da avalancha das imagens do horror sugere a alguns espíritos a oportunidade de exibirem a sua valentia com palavras viçosas e sentenças afiadas, e, se a coisa for tão pequena como pode chegar a ser, leva a ajustes de contas sem fim. Naturalmente, os alvos desta virtude são quem é apontado por não se alinhar com o esforçado campo do maccartiminionismo. É o que explica a torrente acusatória contra opositores de Putin e da invasão da Ucrânia, como Miguel Sousa Tavares ou Constança Cunha e Sá, por se adivinhar não serem entusiastas da solução guerra mundial.

Numa polémica recente, Maria de Fátima Bonifácio explicava a sua versão da alegada não assimilação de ciganos por “não fazerem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade”; no mesmo sentido, agora são definidos novos campos de fidelidade em que é suspeito quem condene a agressão putinesca mas não jure a santidade perpétua da Casa Branca, essa nova “entidade civilizacional e cultural milenária” que percorreu o caminho desde Hiroxima até à guerra do Vietname e à do Iraque.

O dispositivo retórico desta condenação é o de sempre, nisso não há qualquer novidade: os “cobardes” são os que não entendem que a solução é a escalada, todos e em força, e os “valentes” são, modéstia à parte, os que denunciam os cobardes com a energia das suas palavras e esperam, naturalmente, que sejam outros a cumprir tão nobre função de levar as botas para o terreno.

Impressiona esta autorreferenciação moralizante, cuja óbvia intenção é delimitar a fronteira da impossibilidade argumentativa, ou seja, estabelecer um dogma, mas é assim que se usa o poder. Deve haver um momento fundador na psique de alguém que, sentado no sofá perante a crueldade infinita da guerra que vê na televisão, se proclama “corajoso” por exigir que a guerra continue e seja ampliada, sempre à prudente distância da pantalha.

E, no entanto, estes apelos são uma farsa e as autoridades europeias, que lhes dão corpo, evitaram interesseiramente respostas que teriam dificultado a guerra: como a imprensa portuguesa revelou, alguns dos Estados europeus mais poderosos continuaram a vender ilegalmente armas à Rússia até há meses, como a França de Macron, a Itália, a Alemanha e mais sete países da UE. Alguns dos governos que agora prometem mais guerra são os mesmos que venderam armas ao invasor e que receberam um cheque de Putin. Estou certo de que se consideram muito valentes.


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2 pensamentos sobre “A valentia dos guerreiros de pantalha tem dias

  1. A venda de armas à Rússia é ilegal e não contribui em nada para a paz. Certo.Já a venda de armas à Ucrânia…nada a declarar
    O Louçã nunca desilude

    • A Isabel Carvalho está a criticar sem razão nenhuma. Você é daqueles que até podem concordar com o texto, ou não ter nada para criticar, mas basta-vos ver o vermelho e marram logo. Até inventam o argumento só para depois atacar aquilo que inventaram.
      Olhe, de anti-esquerdistas primários, está a facholândia cheia, do PS até ao Chega. E quase sempre há também a sectária marradela intra-Esquerda (e aqui faço mea culpa), entre BE, Livre, e PCP. Portanto não é preciso mais um(a) a marrar. A tranqueira qualquer dia não aguenta tanto corno… E mesmo que aguentasse, o que é que o país ganha com tanta tourada?

      O texto do Francisco Louçã foi bom de incício ao fim, sempre cheio de razão. Eu discordo dele em tanta coisa sobre esta guerra, mas há que analisar o texto por si só, de forma justa. Assim há que perceber que, da mesma forma que perceber o contexto desta invasão não é sinónimo de ser Putinista, também criticar a venda de armas à Rússia não é sinónimo de elogiar a entrega de armas à Ucrânia.
      Dizer o contrário é desonestidade intelectual, ou pior, falta de intelecto para perceber o que se leu.
      O que é ainda pior, quando a acusação que faz é totalmente oposta ao sentido do texto: Louçã critica, e muito bem, quem defende o negócio do armamento e o prolongamento da guerra em vez da paz. Coloca o dedo na ferida da hipocrisia Ocidental, e desmascara o “pacifismo” de qu na realidade quer a guerra contra a Rússia.

      Mas pronto, marradas à parte, você nem é a pior que aí anda. Pelo contrário, se critica a venda de armas à Ucrânia, faz parte de uma pequeníssima parte da população Ocidental que é de facto pacifista, e como tal verdadeiramente decente. Aquela minoria que sabe que hoje teria paz se Biden não fosse Presidente, se a Ucrânia não fosse liderada por um lunático, ou se a Europa tivesse líderes decentes. Ou seja, se os acordos de PAZ de Minsk tivessem sido cumpridos, em vez de violados em nome do imperialismo da NATO/EUA.

      Ao contrário de nós, a maioria ou é belicista, ou sofreu tamanha lavagem cerebral que acha que a NATO deve servir de arma vingativa e que dar início à Terceira Guerra Mundial é a “solução” para a paz… Ou seja, há animais bem mais perigosos à solta. E parece que a boca dos Turcos (frustrados por não conseguirem mediar um acordo de paz entre os seus vizinhos e parceiros económicos) lá acabou por fugir para a verdade:

      https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/turquia-diz-que-ha-alguns-paises-no-seio-da-nato-que-querem-que-a-guerra-na-ucrania-continue

      “Há alguns países no seio da NATO que querem que a guerra na Ucrânia continue. Eles pensam que, se a guerra continuar, a Rússia ficará enfraquecida. A situação na Ucrânia pouco importa para eles”

      – Ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Çavusoglu.

      Para mim não há novidade nenhuma. Mas fica sempre um bom sabor a vindicação quando a minha suspeita é confirmada. Já os boys e girls da NATO que prestarem atenção a estas declarações, são capazes de precisar de logo a seguir tomar uma pastilha de Rennie…
      No fundo estas declarações turcas mostram que zangam-se as comadres, sabem-se as verdades. E ainda agora começou o regresso à normalidade após aquele mês do “viva o kumbaya, estamos tão unidos”…
      A verdade vem sempre ao de cima.

      E do lado da Ucrânia, a estupidez e desespero já chegou ao ponto (depois da vergonha do vídeo do nazi de Azov no Parlamento Grego) de atacar a Cruz Vermelha por esta ajudar a Rússia nos corredores humanitários.
      Atacar a Cruz Vermelha! Uma instituição cuja única coisa que faz no Mundo, é o bem.
      E fazer essa crítica a propósito de corredores humanitários (em direção à Rússia, por um caminho em que não estavam à mercê de atiradores de Azov) que salvaram com sucesso tantos civis.
      Então pergunto: Kiev amuou por perder os escudos humanos, ou por ter visto ucranianos russófonos escaparem às balas do SBU?

      Para mim já não faltavam mais provas para saber a natureza do regime de Kiev, mas esta prova diz tudo o que faltava dizer. Pelo menos até ao dia em que se souber a verdade sobre quem de facto foi o butcher de Bucha.
      Uma coisa eu sei, de certeza que não foi o regime Russo, cujas precauções em Mariupol atrasaram tanto o ataque final, com pausas e corredores humanitários e preocupação quanto à existência de possíveis escudos humanos nos pisos subterrâneos de Azovstal, que segundo o SouthFront isso já causou irritação ou incompreensão nas tropas russas, que sabem que sem tais pinças da sua liderança política, o assunto já estaria militarmente arrumado há semanas.

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