Dez coisas que eu sei sobre ela (a crise)

(Pacheco Pereira, in Público, 30/10/2021)

Pacheco Pereira

O ponto sem retorno que Costa e Jerónimo criaram da possibilidade de acordos PS-PCP-BE não se alterou: a direita só governará se tiver uma maioria absoluta.


Há crise? Claro que há. Há crise política e, por arrasto, a potencialidade de uma crise económica e social. Todas as fragilidades institucionais do nosso sistema político-partidário estão à vista: dificuldades em haver governos estáveis sem maiorias absolutas, dificuldades de coligações, acentuação da dicotomia esquerda-direita, crise do centro, excessos e exageros de linguagem impeditivos de entendimentos, intervencionismo excessivo do Presidente, mudanças de opinião e mobilização política sem expressão na representação política, crise generalizada dos grandes partidos de poder – fragmentação do PSD, excesso de obediência no PS –, com perda significativa do seu peso eleitoral, etc.

As eleições são a única forma de sair da crise? Não são a única, mas são a melhor em democracia.

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Apesar disso, é possível que não alterem significativamente os dados da correlação de forças actual. Mesmo assim, por pequenas que sejam as mudanças, é melhor defrontar os problemas de Outubro de 2021, em Janeiro de 2022, depois de eleições.

Há fim de um ciclo político? Depende de que “fim” estamos a falar. Se nos referirmos à forma de entendimento que tem havido nos últimos dois anos com um PS sem maioria absoluta e dependente de acordos orçamentais (pessimamente geridos) pontuais com o PCP, sim, acabou este ciclo. Se nos referirmos à solução chamada habitualmente como “geringonça”, a resposta é não. Pode vir a ser repetida, em particular, se se tratar de impedir governos de direita. Por muito que a actual crise fragmente a esquerda, o ponto sem retorno que Costa e Jerónimo criaram da possibilidade de acordos PS-PCP-BE não se alterou: a direita só governará se tiver uma maioria absoluta.

Mas há um aspecto relevante em que não há provas ainda de “fim de ciclo” que é saber se existe uma significativa deslocação de voto do PS para o PSD, a única a que podemos chamar “mudança de ciclo”. Veremos os estudos de opinião, mas tudo indica que não existe, para já.

A data das eleições vai ser muito relevante pelos processos de fractura interna no PSD e no CDS. Mas será muito difícil que o Presidente ceda a propostas como a que fez Rangel de atirar as eleições para fim de Fevereiro, quando PS – a opinião que do ponto de vista institucional tem mais peso – PCP, PSD (é ainda Rio que fala pelo PSD) e CDS querem eleições o mais depressa possível. Aliás, será difícil ao Presidente ignorar a sua própria afirmação da gravidade da crise e adiar as eleições para além do prazo constitucional mínimo. A consideração dos conflitos internos no PSD e CDS é de carácter partidário, e não é nem constitucional nem nacional.

Rangel parte no conflito interno no PSD com vantagem no aparelho partidário, Rio só pode competir através da decisão livre dos sindicatos de voto, e precisa de mobilização dos militantes e de debates alargados. Por isso, a proposta de Rangel de antecipar as eleições prejudica essa mobilização e debate e prejudica Rio e fragiliza o resultado final, se este lhe for favorável.

Nas eleições no PSD não se trata neste contexto de escolher apenas o líder do partido, mas o candidato a primeiro-ministro. Esta dimensão tem sido esquecida pela agressividade do confronto e pelo desequilíbrio do tratamento da comunicação social, claramente favorável a Rangel. Também aqui será interessante ver, com a falibilidade conhecida, que resposta dão os estudos de opinião a Rio ou a Rangel, na perspectiva não de agradar ao PSD, ou de “fazer melhor oposição”, mas de revelarem, fora do partido, para o grande eleitorado, quem se entende poder vir a ser melhor primeiro-ministro.

O PS tem muito a perder, porque o desgaste governativo e a depressão pós-Lisboa diminui a possibilidade de manter a força dos dias de hoje, mesmo que ganhe as eleições.

Costa e o PS ficaram genuinamente surpreendidos pela votação contra o Orçamento, o que é, em política, um erro de avaliação. Apesar das teses conspirativas de que tudo aconteceu porque o PS queria ir a eleições, que servem para “desculpar” o PCP e o BE, o PS tem muito a perder, porque o desgaste governativo e a depressão pós-Lisboa diminui a possibilidade de manter a mesma força dos dias de hoje, mesmo que ganhe as eleições. Do mesmo modo, PCP e BE podem perder posições, ficando enfraquecidos.

O único partido que se pode prever com alguma segurança que cresça é o Chega. Tudo depende da capacidade que o PSD tenha para bipolarizar as eleições com o PS. Se tal não acontecer, os partidos das margens à direita, o Chega e a Iniciativa Liberal, podem crescer talvez menos do que pensam, mas mesmo assim crescer. O CDS não conta para nenhum cálculo sério. Como o Chega é, a julgar pelas declarações politicamente correctas anteriores às eleições, “incoligável”, a capacidade de haver um governo à direita será muito difícil. Mas, como as coisas só são o que são depois das eleições, os únicos prognósticos válidos são o fim do jogo.

Historiador


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