Escola, eu te detesto!

(António Guerreiro, in Público, 30/04/2021)

António Guerreiro

Temos assistido, no nosso tempo, a “revisões” históricas e a uma aceitação mais ou menos consensual de que não é possível defender hoje comportamentos e ideias que faziam parte de códigos culturais, sociais e políticos do passado. O que é menos consensual é o modo de reparação das injustiças cometidas no passado e o modo de olhar retrospectivamente para outras épocas históricas (próximas ou longínquas) e para os seus protagonistas usando os utensílios mentais do presente.

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Esta questão foi discutida e desenvolvida pelo historiador francês Lucien Febvre, num livro onde defendia que falar de um Rabelais ateu, apesar do fortíssimo pendor herético e muitas vezes obsceno da sua obra literária, era um anacronismo. Esse livro era não apenas uma refutação desse anacronismo, mas também um tratado de metodologia da investigação histórica.

O esclavagismo, o racismo, o anti-semitismo, a tutela e a violência exercida pelos homens sobre as mulheres, a discriminação e perseguição dos homossexuais e dos indivíduos transgénero, a pedofilia — tudo isto e muito mais tornou-se objecto de condenação veemente. Não quer dizer que, por exemplo, o racismo e o machismo tenham sido erradicados definitivamente. Longe disso, como sabemos muito bem. Mas já não podem contar, sem serem contestados, com os antigos discursos de legitimação. Já não fazem parte de uma “visão do mundo” naturalmente aceite. As revisões e reparações que daqui decorrem nem sempre têm sido isentas de violência e, certamente, de algumas injustiças. As revoluções, mesmo as que se dão no domínio das ideias e das mentalidades, nunca são movimentos pacíficos nem inteiramente controlados. Toda esta questão torna-se bastante mais controversa e cheia de equívocos quando se começa a exigir que até a literatura e a arte em geral estejam do lado do Bem e poupem aos leitores e espectadores ideias e atitudes que não devem hoje ser partilhadas na vida social e política.

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Em tempo de reparações e de assumpção de injustiças colectivas, ainda ninguém veio reivindicar que seja reparado, ou pelo menos nomeado, o crime cometido sobre as crianças e adolescentes na escola de antigamente, quando as sevícias faziam parte dos métodos pedagógicos. Quem frequentou a escola ou os liceus nesse tempo (acho que o 25 de Abril constituiu, também aqui, uma cesura, mas não sei se foi imediata e generalizada) sabe bem que muitos professores tinham métodos sádicos e comportamento de carrascos. Não sou certamente o único que tem uma memória da escola primária como uma instituição de terror, um lugar a que sobrevivi a custo, mas que me deixou marcas que a memória reactiva com mais força à medida que o tempo passa. Percebo hoje que essa escola era profundamente medíocre (quando a frequentei tinha apenas uma muito vaga noção de que era odiosa) e, dela, havia os que se salvavam e os que submergiam (bem sei que estas palavras são uma ilegítima e perigosa citação, mas como deixar de ver essa escola como um “espaço concentracionário”?). Aí, a arbitrariedade era absoluta e os castigos infligidos às crianças eram semelhantes aos de uma colónia penal. Numa época em que não havia o controlo que há hoje e as crianças iam em grupo, a pé, para a escola, alguns “fugiam à escola” e ficavam escondidos, até à hora do regresso a casa, para escaparem à tortura. Recordo alguns nomes e rostos de colegas “fugitivos”, que depois tinham que enfrentar os pais; e que eram vistos como potenciais delinquentes e socialmente falhados. Recordo-os e interrogo-me se eles nunca pensaram em pedir contas pelo mal que lhes fizeram, por terem sido condenados ao falhanço por gente criminosa. Interrogo-me também se eles, já adultos, conseguiram cruzar-se com esses antigos professores sem os insultarem ou sentirem uma enorme aversão.

E pergunto: como foi possível, já depois de ter desaparecido este ambiente escolar, manter a complacência em relação a professores que foram agentes do terror? A pedofilia é um crime que não prescreve; uma escola que pratica a pedocriminalidade deveria ser julgada. Se os ditos professores agiam assim por obediência a uma concepção da escola e da pedagogia instauradas como ideologia do Estado, então o Estado devia, em algum momento, ter pedido desculpa às vítimas e assumir a responsabilidade que não poder ser pedida aos carrascos que tinha ao seu serviço. As vítimas, uma enorme multidão, têm direito, pelo menos, a uma pedido oficial de desculpa. Mesmo que em muitos os casos o mal cometido seja da ordem do irreparável.


5 pensamentos sobre “Escola, eu te detesto!

  1. Também eu vivi e aprendi nesta escola de terror, algures numa aldeia do Alto Alentejo. E o mais curioso é que foi na Escola que me tornei professora, inicialmente primária onde lecionei 14 anos e posteriormente universitária, na formação de professores do Ensino Básico.
    Ainda não saí da escola, continuo nela e, portanto, sinto-me muito à vontade para concordar em absoluto com esta opinião do A.G. Só não digo que odeio a escola porque continuo a acreditar na utopia que a escola, ou antes os professores que nela trabalha, podem transformá-la. Assisto a isso, felizmente, todos os dias e em todos os níveis educativos.

    Em nome dessa utopia que continuo a alimentar e a trabalhar com as pessoas que podem mudar a escola, apesar de todos os constrangimentos políticos e sociais, que afirmo que as humilhações, injustiças, desrespeito e discriminações a crianças não são só propriedade da escola de antigamente e das aldeias remotas deste país. Elas persistem, mais do que se possa pensar, hoje e agora aqui em Lisboa, só porque é a zona que conheço melhor.

  2. Uma boa crónica do Guerreiro que me deixa curioso sobre o que vão dizer os 2 ou 3 saudosistas do antigamente que por aqui se passeiam.

  3. Querem acabar com a Escola Pública:
    O artigo de opinião de Baptista Bastos de hoje no DN fez-me lembrar também o meu tempo na Escola Pública. Não fui para além da quarta classe enquanto jovem, tendo feito a sexta classe autoproposto aos trinta e nove anos. E como Baptista Bastos recorda os seus professores dizendo que tudo o que é a eles lhes deve também comigo acontece o mesmo.
    O quanto grato estou ao Professor Francisco Valente pelos três anos que me ensinou – da primeira à terceira classe – e depois a Professora Adelina na quarta classe. Com eles tínhamos de saber o ABC e a Tabuada de uma ponta a outra.
    Também recordo as minhas idas matinais à Cantina Escolar – só tinha aula da parte da tarde – tomar o leite em pó e de vez em quando comer queijo amarelo. Por tudo isto estou, como diz Baptista Bastos, agradecido à Escola Pública. Sei que os Rankings que os jornais nos apresentam não estão correctos. Equivalem realidades diferentes. E estou como fazem muitos senhores do dinheiro quando adoecem. Procuram primeiro os hospitais privados para depois irem morrer nos públicos.
    Escrevi este intróito a ressalvar e concordar com o artigo de Baptista Bastos que abaixo exponho e como meio de recordar as Escolas Amarelas, o Professor Francisco Valente, a Professora Adelina e as carteiras escolares daquela época. Ali sentou o “rabo” o inteligente e o burro, o pobre e o rico, sendo que alguns desta última classe social, optaram por o sentar noutras carteiras mais chiques, mas não foram elas que lhes deram mais inteligência. Esta nasce com a pessoa. Não se compra.
    A minha escola pública:
    Tudo o que sou e sei devo-o à escola pública, à abnegada dedicação de professores, cujas memórias retenho com emoção e saudade. Não é mau ter saudade: é manter o lastro de uma história que se entrecruza com a dos outros, de muitos outros. É sinal de uma pertença que transforma as relações em laços sociais, frequentemente para toda a vida. Da primária ao secundário, e por aí fora, a presença desses homens e dessas mulheres foi, tem sido, a ética e a estética de uma procura do próprio sentido da vida. O débito que tenho para com eles é insaldável. A paciência solícita, o cuidado e a atenção benevolente do tratamento dispensado aos miúdos desbordavam de si mesmos para ser algo de grandioso. Ah! Dona Odete, como me lembro de si, da sua beleza mítica, da suavidade da sua voz, a ensinar-nos que o verbo amar é transitivo. Também lhe pertenço, e àqueles que falavam das coisas vulgares das ruas e dos bairros, da cadência melancólica das horas e dos dias, com a exaltação de quem suspira uma reza ou compõe uma épica.
    Depois, foram os meus três filhos, instruídos em cantinas escolares republicanas, e aí estão eles, no lado justo das coisas, nesse regozijo dos sentidos que obriga ao grito e à cólera quando a repressão se manifesta. Escrevo destas coisas banais para designar o verdete e o vómito que me provocam o ministro Crato e o seu sorriso de gioconda de trazer por casa, quando, por sistema e convicção, destrói a escola republicana, aduzindo-lhe, com rankings e estatísticas coxas, a falsa menoridade da sua acção. Este ministro é um mentiroso, por omissão deliberada e injunção de uma ideologia de que é paladino. Não me interessa se abjurou dos ideais de juventude; se tripudiou sobre “O Eduquês”, um ensaio dignificante; ou se mandou às malvas o debate que manteve com o professor Medina Carreira, num programa da SIC Notícias. Sei, isso sim, que os homens de bem devem recusar apertar-lhe a mão.
    Ele não diz que a escola pública está aberta a toda a gente, e que a escola privada (com dinheiro nosso, dos contribuintes) é extremamente selectiva. Oculta que a escola pública acolhe os miúdos com fome, de pais desempregados, de famílias disfuncionais e desestruturadas, que vivem em bairros miseráveis e em casas degradadas, entregues a si mesmos e à raiva que os alimenta.
    Não diz que a escola pública é a imagem devolvida da sociedade que ele próprio prognostica e defende. Uma sociedade onde uma falsificada elite, criada nos colégios, tende a manter-se e a exercer o domínio sobre os outros. Oculta, o Crato, que, apesar desse inferno sem salvação, fixado nos rankings numa humilhação atroz, ainda surgem alunos admiráveis, com a tenacidade e a dimensão majestosa de quem afronta a injúria e a desgraça. E esta imprensa, muito solícita em noticiar trivialidades, também encobre a natureza real do grande problema. Tapa os ouvidos, os olhos e a boca como o macaco da fábula”.

    Crónica escrita em Novembro de 2013

  4. Concordo que a Escola que este jornalista freqwuentou falhou…,, não conseguiu educá-lo de forma a não ser mais um cretino hipócrita e cobarde que usa o ditatorial e inpune Poder de escrever sem Direito so Contraditório. Preocupado com a “pedocriminalidade” de ontem. E não se preocupa com a de hoje quando há crimes de sangue onde alunos e professores além de torturados e humilhados publicamente, são assassinados como acontece uhá pouco com um adolescente de 15 anos por outro de 18? Devia de ter VERGONHA!!!

  5. De facto uma das coisas que mais me enoja nos jornalistas e comentadeiros que exploram e dramatizam ao máximo os efeitos do confinamento (apelando indiretamente à violação do mesmo) é a treta monstruosa que ter aulas em casa é “roubar a infância às crianças”.

    No meu tempo a maior parte das crianças ficava contentíssima quando não tinha de ir à escola.

    E da ultima vez que lá andei aquilo continuava a funcionar como uma prisão.

    Já não há castigos físicos, mas putos são confinados atrás de muros, andam ás ordens de profs e “continos”, obrigados a permanecer sentados e imóveis grande parte do dia forçados a levar com matérias que em 90% não lhes vão servir para patavina nas suas vidas, grande percentagem são sujeitos a bullyng, assaltos de gangs etc.

    Não frequentar esta prisão é “roubar a infância” ?

    Pelo amor de deus…

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