Não há risco zero

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/03/2021)

Daniel Oliveira

Amanhã, pode ficar claro que as autoridades nacionais de saúde decidiram interromper uma vacinação atrasadíssima na Europa ao sabor das ansiedades dos cidadãos. Não é preciso ser cientista para perceber que cautela sem fundamento científico não é sinal de responsabilidade, mas de desnorte. Que é impossível vencer uma pandemia com base na fantasia do risco zero. O risco zero não existe. Nem quando se sai de casa para ir ao pão. Existe apenas a ponderação entre riscos e benefícios.


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Seguindo Espanha, Itália, Alemanha, França, Noruega, Áustria, Roménia, Estónia, Países Baixos, Islândia, Lituânia, Letónia, Bulgária, Luxemburgo, Chipre, Irlanda, Dinamarca, Suécia e mais uns poucos países fora da União Europeia, Portugal suspendeu, no início desta semana, a vacinação com a AstraZeneca. Suspendeu, não. Fez “uma pausa”, como se disse, para tentar aliviar o peso da decisão. E fê-lo explicando sempre que a vacina era segura e que não tinha base científica para tal decisão, o que não deixa de ser estranho.

Não tenho bagagem para falar de vacinas. Por isso, limitei-me a ouvir cientistas. Uns cientistas foram mais cautelosos do que outros, mas todos os que ouvi foram claros ao falar da ausência de evidência científica para pôr em causa a vacina da AstraZeneca. 40 casos de eventos tromboembólicos (coágulo sanguíneo que bloqueia uma veia​) em 17 milhões de vacinas administradas é abaixo de insignificante. E sem prova de causalidade estabelecida. Se este efeito levasse (numa dimensão até mais significativa) a suspender um fármaco, as mulheres deixariam de tomar a pílula.

Há quem, mesmo sem evidências científicas, apele ao princípio da cautela. Claro que deve haver cautela, mas ela não pode ignorar a ciência ou esperar que se descubra um medicamento sem qualquer risco associado. Se for esta a exigência, podemos parar a vacinação e entregamo-nos à sorte ou azar da pandemia. Mas talvez não seja isso que o princípio da cautela nos aconselhe. Ponderado o risco da vacina (poucas dezenas de casos em muitos milhões de vacinas) com o risco de não vacinar (milhares de mortes diárias que não serão evitadas), percebe-se que está em causa outra coisa: como as mortes por covid que poderiam ser evitadas não são contabilizadas, não serão atribuídas aos governos (incluindo a de mais uns dias perdidos). Os riscos que se querem evitar são políticos.

Não vou desenvolver qualquer teoria racional sobre o que levou a esta queda de peças de dominó, em que, de forma desordenada, os países se foram imitando numa suposta inevitabilidade, para evitar o pânico (alimentando-o). Apesar de não gostar de trabalhar em teorias da conspiração, há guerras comerciais e peritos ingleses vieram passar essa ideia. Há governos paralisados pelo medo de falhar, sobretudo nos países do norte, com muitos antivacinas, desejosos por ver uma vitima para apontar o dedo às autoridades. E há o fracasso do processo europeu de vacinação, que acabou por favorecer a descoordenação entre Estados. Parece estar cada um por si.

Esta terça-feira, a presidente da Agência Europeia do Medicamento (EMA) veio repetir o que já tinha dito: “Neste momento, não há qualquer indicação que a vacinação é que provocou estas situações. (…) Embora a investigação esteja em curso, continuamos firmemente convencidos de que os benefícios da vacina AstraZeneca na prevenção da covid-19, com os riscos associados à hospitalização e morte, são superiores aos riscos de efeitos secundários.”

Apesar das tentativas de EMA e OMS para travarem a onda de pânico de políticos europeus, o mal está feito. Com a reunião da EMA desta quinta-feira, pode ficar claro que as autoridades nacionais de saúde decidiram interromper um processo de vacinação que está atrasadíssimo na Europa ao sabor das ansiedades dos cidadãos, mesmo sem evidências científicas para o fazerem. Já se a EMA mudasse de opinião em dois dias, sem dados científicos novos (como mudou a da Direção-Geral da Saúde portuguesa), seria difícil acreditar futuramente nas palavras dos seus dirigentes.

Não é preciso ser cientista para perceber que cautela sem fundamento científico não é sinal de responsabilidade, mas de desnorte. Quantas pessoas morrerão com o adiamento desta vacinação? Não é preciso ser cientista para saber que ao reagir ao medo com medo se alimenta o medo e se dá força aos que se têm dedicado a espalhar desinformação. Na Bulgária, a vacinação está a ser um fiasco por desconfiança em relação às autoridades e à própria vacina, graças a meses de teorias da conspiração, propaganda e contradições. Não é preciso ser cientista para saber que esta descoordenação assustada apenas minou um pouco mais a confiança dos cidadãos europeus nas vacinas, quando percebem que as decisões das suas autoridades estão ao sabor dos humores públicos. Não é preciso ser cientista para saber que é impossível vencer uma pandemia com base na fantasia do risco zero. O risco zero não existe. Nem quando se sai de casa para ir ao pão. Existe ponderação entre riscos e benefícios. Conseguimos viver com isto?


2 pensamentos sobre “Não há risco zero

  1. Não há risco zero realmente mas há, nas vacinas aprovadas, 100% de eficácia contra a necessidade de internamento hospitalar e risco de morte naqueles que já tendo tomado a primeira dose contraíram o vírus mesmo assim. Parece ser pouco para quem toma decisões na UE. Quem souber que explique.

  2. Em primeiro que fique esclarecido que não sou um negacionistas contra as vacinas. Tenho os pés assentes na terra. Agora aqui vai isto: O problema não está apenas nas suspeitas em relação à Astrazeneca, é que o “nascimento” desta vacina foi atribulado. Primeiro havia desconhecimento sobre a sua administração a pessoas com mais de 65 anos. Agora foi o problema de certas contraindicações. Se acompanharmos a história desta vacina apercebemo-nos que houve da parte do Reino Unido pressão para a produção da vacina mais rápido do que todos os outros para chegar ao mercado rapidamente em concorrência para obtenção de potencial lucro competindo com as suas congéneres. Coisas feitas à pressa e mal testadas com o objetivo final do lucro nunca resultaram. Tem que haver falhas. Daí que na conferência de imprensa online de ontem a EMA não conseguiu descartar a possibilidade de que exista uma relação de causa-efeito entre os casos raros de formação de coágulos sanguíneos com diminuição de plaquetas notificados em vários países, que causaram a morte de nove pessoas.

    “A recomendação é para os profissionais de saúde estarem atentos a possíveis efeitos secundários”, disse ontem Emer Cooke, diretora da EMA, adiantando que vão ser feitos mais estudos enquanto a vacinação continua.
    Vamos jogar à roleta Russa?

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