Uma ‘Super Terça-Feira’ feita à medida de Biden e Sanders

(Ricardo Lourenço, in Expresso Diário, 02/03/2020)

Quem vem de fora, normalmente, acha curiosa a forma prática como os americanos lidam com a logística de umas eleições. Igrejas, pastelarias, celeiros, casas particulares, os locais de voto variam de acordo com as necessidades. “O que importa é que se participe”, diz-nos Ruth Farragher, uma voluntária do Partido Democrata, que amanhã ajudará a supervisionar as primárias no Massachusetts, um dos 14 estados (incluindo Texas e Califórnia) a ir a votos na Super Terça-Feira.

Esta etapa decisiva oferecerá um terço dos delegados que nomearão o candidato na Convenção Nacional de julho, varrendo o país de costa a costa. Da Virgínia à Califórnia, do Texas ao Tennessee, o eleitorado será bem mais diverso do que o do Iowa ou do New Hampshire (estados com mais de 90% de população branca), que iniciaram o processo a 3 e 10 de fevereiro, respetivamente.

Tamanha empreitada leva os responsáveis do Partido a lutar por cada sufrágio. De tal maneira que se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha, ou seja, as urnas irão ao encontro dos eleitores.

É o caso de quatro postos colocados em outros tantos campus universitários, no College of the Canyons (Califórnia), East Carolina University (Carolina do Norte) e Texas A&M University e Texas State University (ambas no Texas). Tudo para que os 72 mil estudantes alvo exerçam o direito cívico. Note-se, que a taxa de participação eleitoral dos sub-29 nas presidenciais de 2016 ficou abaixo dos 40%, metade dos eleitores com o dobro da idade.

Patrocinada pela MTV, a iniciativa surge como resposta à decisão de vários estados de encerrarem mais de 1600 locais de voto desde o ciclo eleitoral de 2012. “Queremos tornar os locais acolhedores e memoráveis. Não pode haver razões para abstenção”, esclareceu em comunicado um responsável das Relações Públicas do canal que, nas décadas de 80 e 90, entretinha os quarentões de hoje com os “videoclips” do momento.

“Temos de nos mobilizar, pois a fasquia está colocada bem lá no alto”, afirma ao Expresso Kathleen Sullivan, ex-presidente do Partido Democrata no estado do New Hamphire.

“Se não nomearmos um candidato forte, corremos o risco de ter mais quatro anos de Donald Trump. O país não resistirá”.

BLOOMBERG. O DIA DO ADEUS?

Com 1357 delegados em jogo, de um total de 3979, os candidatos que ainda resistem apostam tudo, especialmente em primárias como a da Califórnia e do Texas, que distribuem 415 e 228 (por esta ordem).

O senador Bernie Sanders, o favorito, líder nas sondagens naqueles dois estados populosos, montou, por exemplo, uma rede de voluntários que no último ano multiplicou-se em recolhas de fundos e em ações de campanha porta a porta.

Por falar em dinheiro, amanhã o multimilionário Michael Bloomberg entrará em jogo, após ter trocado as quatro primeiras etapas por uma massiva campanha publicitária, que o introduziu à generalidade do povo americano por um preço de 500 milhões de dólares (449 milhões de euros).

Depois de dois debates televisivos “patéticos”, como nos disse Bakari Sellers, ex-congressista da Carolina do Sul, as expectativas sobre as chances do ex-mayor de Nova Iorque caíram a pique. “Amanhã temos de esperar pelas 21h (2h de quarta-feira, em Lisboa), altura em que ele falará à nação”, conta-nos Anthony Scaramucci, o antigo diretor de Comunicações da Administração Trump. “Confirmando-se as últimas sondagens, os resultados ficarão muito aquém do desejado e ele deverá a anunciar o fim da candidatura. Resta saber quem é que irá apoiar com o seu dinheiro a partir de agora”.

O antigo vice-presidente Joe Biden vive um momento oposto, após um ressurgimento na Carolina do Sul, onde no passado sábado venceu com quase 50% dos votos. Tal ofereceu-lhe o segundo lugar na corrida, prevendo-se ainda que venha a beneficiar da desistência do terceiro classificado, Pete Buttigieg.

Biden e Buttigieg ocupam o mesmo espaço político, a ala moderada do Partido, ao contrário de Sanders, um independente rotulado de progressista, isto é, mais à esquerda. Esta manhã, o canal televisivo MSNBC indicava que ambas as campanhas estarão a negociar sinergias futuras. Desconhece-se se Biden terá oferecido o lugar de vice-presidente a Buttigieg numa eventual candidatura presidencial.

Quanto aos três nomes restantes, as senadoras Elizabeth Warren e Amy Klobuchar e a congressista Tulsi Gabbard, “a Super Terça Feira poderá ditar o adeus em definitivo”, prevê Sullivan, uma apoiante de Warren. “O dinheiro começa a escassear para quem sucessivamente não consegue bons resultados. Caso a tendência continue, a inviabilidade destas candidaturas tornar-se-á evidente”.

Ao longo do fim de semana, o Expresso perguntou a vários membros do Partido qual o cenário previsível para o rescaldo da Super Terça Feira. Um deles, Lawrence Lessig, candidato presidencial em 2016 e professor em Harvard, apontou para um duelo entre Sanders e Biden. “Têm notoriedade, dinheiro e representam duas visões políticas distintas. A escolha será bem mais clara a partir de agora”.


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