Notas Soltas – junho/2018

(Carlos Esperança, 02/07/2018)

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Carlos Esperança

Itália – A posse do primeiro-ministro de compromisso, inexperiente e com referências académicas falsas, entregou o poder aos dois vice-presidentes, um do partido populista, outro de extrema-direita. Talvez o poder impeça o pior, de que ambos são capazes.

Espanha – Pedro Sánchez tornou-se PM, numa cerimónia presidida pelo rei Felipe VI, e dispensou a Bíblia e o crucifixo, gesto inédito em 40 anos de Estado laico. Foi um ato de respeito pela laicidade, símbolo republicano e democrático.

Brasil – A paralisação do país com veículos pesados, injustamente designada por greve dos camionistas, foi uma provocação dos proprietários que, com descarado impudor, apelaram à restauração da ditadura militar.

Ucrânia – O Estado simula o assassinato de um espião e acusa o suspeito do costume, a Rússia. Esta desmente, a UE solidariza-se contra a Rússia, e o presidente declara que foi genial o embuste. O PR aldrabão é perdoado e a UE engole a humilhação.

Marques Mendes – O Conselheiro de Estado, comentador avençado, faz a síntese entre os interesses do PSD e a vontade de Belém, num equilíbrio difícil em que o adversário, além do Governo, é Rui Rio, detestado por Passos Coelho e sem a simpatia de Marcelo.

Comunicação Social – A comparação do Governo de Espanha com o português, sendo o PSOE muito mais frágil do que o PS, é a esperança da direita portuguesa para, após a eventual queda, se for rápida, criar o alento que lhe falta.

Cimeira de G7 – O homem capaz de destruir o mundo com o dedo no botão nuclear, e não é único, conseguiu arruinar a confiança entre os Estados Unidos e a Europa, quando removeu, com um tweet, o apoio ao acordo final da cimeira de G7, no Canadá.

Paulo Pedroso – O ex-governante e deputado, preso com a TV a filmar a afronta à AR, não foi julgado. Não havia provas. O Tribunal Europeu (TEDH) criticou a decisão do juiz e condenou o Estado Português, mas não há reparação possível para a humilhação.

Lula da Silva – O candidato brasileiro, preso por um juiz militante partidário, impedido de vencer as eleições presidenciais, viu a Justiça vetar-lhe a visita do assessor do Papa, um choque para os defensores dos direitos humanos e religiosos.

EUA – Enganam-se os que pensam que Trump, por insuficiência ética e política, estará condenado a fracassar. Enquanto dominar o meio de pagamento internacional, o US$, e dispuser de hegemonia militar, o mais imbecil PR os EUA, tem as vitórias asseguradas.

União Europeia – A ausência da integração económica, social e política, conduziu-a à irrelevância e abriu caminho ao despertar da extrema-direita, enquanto a tenaz Rússia / EUA a coloca à mercê de forças que querem redesenhar fronteiras e arruinar o euro.

Argentina – O Parlamento aprovou finalmente, por parca maioria, a IVG, depois de as ruas lhe terem conferido ampla aceitação. Falta agora a confirmação do Senado no país que impedia a autodeterminação sexual da mulher e o seu direito à saúde reprodutiva.

Cimeira de Singapura – A reunião de dois líderes que desprezam os direitos humanos, foi um espetáculo sem conteúdo, com Trump a encenar a vitória, a desnuclearização da península coreana a manter-se improvável e a China, ausente, a aguardar dividendos.

Donald Trump – A sedução por Kim é coerente com a que nutre por Putin, Erdogan, Viktor Orbán ou Duterte, e à simpatia revelada por Le Pen e todos os racistas europeus, enquanto hostiliza as democracias da UE e do vizinho Canadá, velhos e fiáveis aliados.

Espanha_2 – O novo governo, com um elenco de maioria feminina e assaz competente, montou a maior operação humanitária de sempre para acolher refugiados rejeitados, e trasladará os ossos de Franco para converter o Vale dos Caídos em museu da memória.

Turquia – O Governo usa as prerrogativas do estado de emergência para encarcerar os opositores, encerrar associações e silenciar a imprensa, na crescente deriva autoritária onde bastam denúncias de vizinhos para conduzir à prisão os adversários de Erdogan.

Imigração – O exemplo mais indigno vem do presidente dos EUA, inculto e amoral, ao separar crianças dos pais, muitas já sem paradeiro conhecido, transformando os infelizes em órfãos da Casa Branca. A vileza e a insensibilidade estão à altura do autor.

Hungria – A criminalização de qualquer ajuda a imigrantes ou refugiados foi a última medida de um governo de extrema-direita, que punirá com prisão a mais leve ajuda de natureza humanista, numa provocação à cultura e civilização europeias.

PSD – O grupo parlamentar, de Relvas, Marco António e Passos Coelho, é oposição ao Governo a reboque do CDS, e a Rui Rio, eleito pelos militantes, por vontade própria. O líder, insuspeito de corrupção, é a ameaça que muitos temem.

Arábia Saudita – A autorização às mulheres para conduzirem automóveis e acederem a estádios de futebol representa um perigo para o Islão. Qualquer dia é interdito lapidá-las ou, simplesmente, chicoteá-las, e os homens serão impedidos de as comprar aos pais.

Javier Solana – O distinto diplomata e político, ex-secretário-geral da Nato (1995/99) e Alto Representante da Política Externa e Segurança da UE (1999/2009) foi impedido de entrar nos EUA, por causa das novas regras de imigração da administração Trump.

Santana Lopes – O ex-PM, que Passos Coelho quis ver na liderança do PSD, pretende fundar um novo partido. O Governo sentirá a falta deles para manter a coesão do apoio parlamentar que o sustenta, de que qualquer deles era uma sólida garantia.

António Vitorino – A eleição do diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, lugar tradicional de um norte-americano é, sobretudo, uma vitória pessoal, mas é também um triunfo do País, da sua diplomacia e do Governo.

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Um pensamento sobre “Notas Soltas – junho/2018

  1. A escolha de António Vitorino, é mais uma vitória da direita, na sua luta de esvaziamento da esquerda e mais uma prova de que há pessoas que usam a esquerda para alcançar um lugar ao sol.
    São muito democratas e amigos dos trabalhadores, mas depois de ganharem os votos, estão sempre encostados aos capitalistas!
    Os que ainda possam ter dúvidas, apesar dos exemplos como o do Mário Centeno que foi comprado com o lugar de Presidente do Eurogrupo, olhem para o caso recente da Câmara Municipal de Lisboa no contrato de estacionamento privativo para os 15 carros da Madona, que vai pagar mensalmente por cada um, do que eu pago pelo meu por uma hora no Parque do Martim Moniz.

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