OS PARTIDOS e os “ QUEBRADOS”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/09/2017)

avulsa

Um Amigo, proprietário do BLOG “ ESTÁTUA DE SAL” que com alguma frequência tem publicado os meus textos, mandou-me hoje uma mensagem: “Então, já não escreve mais? Está de pena caída? Anime-se e regresse!”, escreveu ele. Eu respondi-lhe: “Tem razão. Talvez hoje regresse”.

A grande verdade é que, para quem muito escreve, os temas começam a repetir-se e a vontade de sobre eles escrever tende a desvanecer-se. Para quê falar de Cavaco se sobre ele já tudo disse? Para quê falar de Passos Coelho se o que mais disser só pode soar a redundante? Para quê atribuir valor a um Rangel ou a um Poiares se já antes os caracterizei? E de muitos mais? Não renego existir nem mim um certo desencanto.

Isto falando de Política e dos nossos, como é vulgar dizer-se, “ódiozinhos de estimação”, porque daqueles que apreciamos não nos surge apresentar defeitos! É da vida…

Mas a tudo o dito posso acrescentar um certo cansaço de tudo aquilo que nos vai sendo apresentado pela imprensa e televisões e que me têm levado a deixar de os ler e ouvir, pensando eu, no meu intrínseco íntimo, que tal advirá também de um certo relativismo a que me habituei na observação do mundo circundante e resultante de experiências de vida nos últimos anos sentidas.

Mas o mundo continua a girar, a vida continua a rolar e os pensamentos tendem a habituar-se a essa roda viva. Fatal como o destino e, por isso, aqui estou.

E aqui estou para teorizar acerca de um fenómeno que já não é novo mas que, agora e a propósito das Eleições Autárquicas, ganhou uma dimensão e uma exposição nunca vistas.

Nunca vistas, não só pelo fenómeno em si, mas também pelas particularidades, contradições e reflexos de um novo sentir, que uns apreciam e outros, como eu, vêm com alguma perplexidade e apreensão. É o fenómeno das “Listas Independentes”.

Poderemos perguntar-nos, “ab inicio”, da sua legitimidade, quando todos sabemos serem as Eleições Autárquicas umas eleições muito específicas, mas que tendem a representar, não o reduzido local onde todas as pessoas se conhecem, mas uma amostra nacional quando a amostra é muito mais larga ( grandes Municípios e grandes cidades e zonas urbanas) e onde, então, o “independente”, mesmo sendo conhecido, não representa por si só essa globalidade?

Essa é a questão e, por exemplo, vejo que em Lisboa, onde está neste momento a decorrer um debate na TVI, que não estou a seguir, não há nenhuma candidatura “independente”!

Quando intitulei este texto de “Partidos e Quebrados”, quis glosar com a situação e, havendo candidaturas independentes, considerar os Partidos efectivamente partidos, na sua real representação, e os Independentes “quebrados”, porque, observando a sua grande maioria, resultam da “quebra” da sua ligação a esses mesmos Partidos e tentando, sobre a capa diáfana da independência, arrebanhar os votos desse seu “quebrado” Partido!

Parece estranho o raciocínio, mas não o é. E vou dar alguns exemplos, deixando para depois a discussão acerca da importância dos Partidos na sociedade e na democracia.

E começo pela terra onde nasci, mas onde não voto, Esposende. A Câmara é e sempre foi do PSD ( o meu Pai brincando dizia que bastava colocar num espantalho uma seta virada para o céu que o espantalho ganhava) e o actual presidente naturalmente recandidata-se. Pois o anterior a ele, também do PSD, também se candidata, como Independente, claro, mas não concorre pelo PS ou qualquer outro Partido: concorre como Independente e, como quase todos eles, escolheu o óbvio slogan: “Juntos Pela Nossa Terra”!

E o que eu observo é que muita gente amiga, e até familiar, o apoiam, mesmo sendo simpatizantes de outros Partidos, inclusive de Esquerda. Porquê? Porque reconhecendo ter sido o João Cepa um bom autarca, verem nesta candidatura uma forma de acabar com aquele monopólio que atrás referi. Mas a verdade é que o João não renegou a sua filiação e não concorreu por outro Partido! Gosto dele mas não levaria o meu voto!

Como não levaria nenhum outro suposto “independente”, seja ele candidato em Oeiras, em Coimbra, em Braga, em Sintra ou no arco da velha, com uma excepção: Vila do Conde! Terra que eu conheço muito bem, aqui minha vizinha e onde, à semelhança de Matosinhos, logo a seguir, as estruturas partidárias fizeram impor a sua vontade, no caso de Matosinhos aceitável e óbvia, mas provocando rupturas e listas independentes dentro do mesmo Partido, os tais “Quebrados”, mas não o sendo no Caso de Vila do Conde.

Em Vila do Conde há um senhor, que pode ser replicado por outros lugares, que esteve durante dezenas de anos como Presidente da Câmara e que, obrigado pela lei, não tendo possibilidades de se candidatar, não aceitou aquilo a que se chama “fim de ciclo” e, candidatando-se a Presidente da Assembleia Municipal, não abdicou de nomear a sua sucessora, que venceu pelo seu Partido as eleições e governou, e bem, os últimos quatro anos.

Que sucedeu então? Sucedeu que a Drª Elisa Ferraz ousou cortar o cordão umbilical, autonomizou-se e…foi agora rejeitada pelo seu Partido a favor de um vereador “yes man” que vem agora falar em “nova vitalidade”. Claro que a Drª Elisa Ferraz, e com toda a razoabilidade, candidatou-se como Independente. E provavelmente vai vencer, como eu espero, em nome da justiça e da sanidade.

Vão todos “Juntos pela nossa terra”, a sua terra melhor dito, seja ele o Valentim, o Isaltino, o Ferreira ou, no caso do Porto, o Rui Moreira. Mas este, com requintes de suprapartidarismo afirma ser o seu partido o Porto!

Qual será, então, o meu? O certo é que não é a Póvoa onde habito e voto, não é Esposende onde nasci, nem Paredes de Coura onde vivi, nem o Porto de quem tanto gosto…

Não tenho Partido, mas não sou Independente. Mas nunca “quebrei”!

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