A estupidez não é ameaça à liberdade de imprensa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 12/05/2015)

         Daniel Oliveira

                           Daniel Oliveira

Já muitos carateres se escreveram sobre o SMS que o líder do PS, António Costa, enviou ao diretor adjunto do Expresso João Vieira Pereira. Recebi vários apelos, quase todos maldosos, para que escrevesse sobre o assunto. Como tenho uma relação profissional com um dos envolvidos – foi até a pessoa que me convidou, há uns anos, para escrever diariamente no Expresso Online – não tinha grande vontade de tratar disto. Gosto do distanciamento pessoal para escrever sobre um tema. Mas ele tem um interesse para além do episódio concreto e acabo por não poder resistir.

Vamos ao conteúdo do SMS: “Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito. António Costa”

António Costa põe em causa a idoneidade profissional de quem o criticou, o que é grave, apesar de legítimo – já o fiz com jornalistas e políticos. A questão da injustiça desse ataque não se põe aqui, porque, por mais que se discorde, está no domínio da subjetividade de quem o faz. Lamenta a imunidade de insultar, o que é contraditório com os insultos que dirige ao jornalista. Chama cobarde a quem escreve um artigo assinado, o que é absurdo. Põe em causa a legitimidade de um colunista lhe julgar o caráter, o que, mais uma vez, não faz qualquer sentido quando está ele próprio a julgar o caráter de quem o atacou com bastante mais serenidade. Informa que não o vai processar e explica quem enviou o SMS, para que o jornalista não tivesse dúvidas sobre o que ele pensa a seu respeito, o que é arrogante, já que parte do princípio que a sua opinião é relevante para o jornalista. Dito tudo isto, não há, no SMS, qualquer ameaça pessoal, profissional ou outra nem qualquer dado que permita pensar que, depois daquele ato idiota, alguma coisa sucederá.

O SMS É ASSUNTO. MAS O ASSUNTO É O TEMPERAMENTO DE COSTA, NÃO É SEGURAMENTE A LIBERDADE DE IMPRENSA

Da mesma maneira que jornalistas e colunistas têm o direito a expressar, com maior ou menor truculência, a sua opinião sobre este ou aquele político, os políticos têm direito a reagir e a serem truculentos nessa reação. Seja publicamente, seja por via mais direta. Desde que não haja uma ameaça de utilização de meios ilegítimos para limitar a liberdade de opinião e o exercício profissional do jornalismo ou ameaças pessoais de qualquer espécie, estas reações fazem parte dos ossos do ofício. Cada um ficará mais ou menos indignado com elas, mas mal estaria a liberdade de imprensa se fosse abalada por tão pouco. Colunistas e jornalistas têm, por natureza, carapaça para estas coisas.

O que o SMS de António Costa revela é um político colérico, impulsivo e com dificuldade em lidar com a crítica. É um dado que pode ser politicamente relevante. Mas não havendo qualquer ameaça ou intimidação, nada tem a ver com a liberdade de imprensa. Se um ataque mais agressivo de um jornalista a um político eleito não põe em causa a democracia, um ataque mais agressivo de um político a um jornalista não põe em causa a liberdade de imprensa. O que põe em causa a liberdade de imprensa é a limitação, pela coação, ameaça ou outro meio, do exercício do jornalismo e da critica. Não parece ter sido o caso. E por isso, não faz qualquer sentido a superlativa indignação de Paulo Rangel que fala de “um golpe duríssimo, incompreensível e inadmissível na liberdade de expressão” e exige a intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Entretanto, João Vieira Pereira decidiu, enquanto colunista e a título pessoal, divulgar o SMS de António Costa. Não se conhecendo, não se tratava de uma mensagem pessoal. Achou que tal SMS seria relevante para os leitores compreenderem melhor a personalidade do líder do PS e candidato a primeiro-ministro. O SMS que António Costa enviou demonstra falta de sangue frio, dificuldade em controlar a ira e relação difícil com a crítica. Tudo dados a que os eleitores podem dar relevância e por isso podem conhecer. Publicar a mensagem é uma escolha absolutamente legítima e aceitável. Mas dificilmente chega para alimentar um escândalo.

Por mais que isso seja estranho para o cidadão comum, os jornalistas são obrigados a ter relações bastante próximas com políticos (e empresários, desportistas, atores, etc.). Tão mais próximas quanto mais pequeno é o país. Às vezes relacionam-se bem demais, outras mal demais. A relação é, porque assim tem de ser para quem não publica apenas citações de comunicados, mais ou menos informal. E políticos e jornalistas ganham hábitos de relacionamento que nem sempre são fáceis de gerir. Mesmo quando não se conhecem – e ao que parece, Vieira Pereira e António Costa não se conheciam –, a marca de uma relação tensa está lá sempre. Há, no entanto, fronteiras que não se passam. Não se passa a fronteira que Sócrates passou, quando tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão que não lhe era simpático. Não se passa a fronteira que Miguel Relvas passou, quando ameaçou divulgar a vida privada de uma jornalista que o estava a incomodar. Fora casos extremos, os jornalistas sabem viver com esta tensão. O SMS é assunto. Mas o assunto é o temperamento de Costa, não é seguramente a liberdade de imprensa.

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5 pensamentos sobre “A estupidez não é ameaça à liberdade de imprensa

  1. Quando é que o P. Ministro José Sócrates usou o Estado para perseguir um
    canal de televisão? O que se sabe por queixa do antigo diretor do “Expresso”
    é que Sócrates abusou da confiança que este lhe dava pois, deixava-se tratar
    por tu e, em certo momento esteve uma hora inteira a “tortura-lo” pelo telefone
    para o influênciar na não publicação de uma notícia sobre a polémica do curso!
    É por esta e outras que os cronistas acabam por ser “maltratados” e sentem-se
    limitados na liberdade de expressão … tudo na desportiva!!!

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  2. “António Costa põe em causa a idoneidade profissional de quem o criticou, o que é grave, apesar de legítimo – já o fiz com jornalistas e políticos. A questão da injustiça desse ataque não se põe aqui, porque, por mais que se discorde, está no domínio da subjetividade de quem o faz. Lamenta a imunidade de insultar, o que é contraditório com os insultos que dirige ao jornalista. Chama cobarde a quem escreve um artigo assinado, o que é absurdo. Põe em causa a legitimidade de um colunista lhe julgar o caráter, o que, mais uma vez, não faz qualquer sentido quando está ele próprio a julgar o caráter de quem o atacou com bastante mais serenidade. Informa que não o vai processar e explica quem enviou o SMS, para que o jornalista não tivesse dúvidas sobre o que ele pensa a seu respeito, o que é arrogante, já que parte do princípio que a sua opinião é relevante para o jornalista. Dito tudo isto, não há, no SMS, qualquer ameaça pessoal, profissional ou outra nem qualquer dado que permita pensar que, depois daquele ato idiota, alguma coisa sucederá.”
    Note-se a pouca subtileza do do para defender o amigo que lhe garantiu emprego e ambos subservientes do ti balsemão patrão de ambos. Vejamos,
    1. do diz que AC pôs em causa a idoneidade profissional do jornalista contudo os ataques de falta de coragem, ou seja de cobardia, e outros mimos atribuídos pelo jornalista a AC do diz nada; provavelmente acha que a idoneidade profissional de AC só tem a ganhar bastando para tal que seja referido pelo grande jornalista do “expresso” e amigo de do.
    2. do diz que AC lamenta a imunidade de insultar …Aqui do torce a interpretação para fazer jogos florais; o que AC lamenta é a impunidade de ser insultado por um jornalista pois que sabe de antemão que tal pulhice se escudará na “liberdade de imprensa” e terá toda a classe e meios de comunicação e jurisprudência para o defender de sua arbitrária canalhice, como habitual.
    3. do diz que é absurdo chamar cobarde a quem escreve um “artigo assinado”; e a resposta de AC mão era assinada? O jornalista pode ter a opinião legítima e inatacável de chamar cobarde a AC mas a mesma opinião de AC acerca do jornalista é censurável porquê, a sua opinião carece de legitimidade? Sendo alguém a opinar num jornal é “artigo de opinião” e sendo um SMS de opinião de um político acerca do dito jornalista é caso de cólera, impulsividade e falta de saber lidar com a crítica.
    4. E, claro, tinha de vir com as comparações fazendo uso da mesma técnica fraudulenta usada por pacheco pereira e cm acerca de Sócrates; o que dói a do, pp, cm, e outros é o facto de ser Sócrates o 1º PM que não aceitou ser enxovalhado, insultado e lapidado diariamente por quem faz “opinião” à maneira dos jvp e do deste país.
    E AC também não aceita, e bem, que o jornalista e o jornalismo se transforme em democracia, ao jeito dos magistrados, numa classe com o monopólio da opinião e que, tal como os ditos magistrados, um dia se assumam
    e instituam como únicos a ter direito de opinião para fazerem assassinatos de carácter sobre quem se opõe aos seus interesses.

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    • Interessante comentário José Neves. Concordo com muitos pontos. O essencial que quis destacar com a publicação do artigo foi o ridículo ulular da Direita dizendo que a liberdade de imprensa tinha sido posta em causa.

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