O Syriza e o luto da direita

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 11/02/2015)


“A direita está preocupada, isso sim, porque o governo grego é o primeiro a confrontar directamente os mecanismos de subjugação a que tem vindo a ser sujeito o seu povo e porque o seu exemplo tem um enorme potencial de alastramento.”


Alexandre Abreu

Alexandre Abreu

O que ainda há pouco tempo parecia impossível aconteceu. O Syriza ganhou mesmo as eleições gregas, formou mesmo governo e começou mesmo a aplicar o seu programa. As medidas anunciadas nos primeiros dias quiseram-se simbólicas: congelamento das privatizações; recusa de negociação com os emissários técnicos da troika; aumento do salário mínimo; remoção das barreiras de segurança à frente do Parlamento; concessão de nacionalidade grega aos filhos de imigrantes nascidos na Grécia; reposição do 13º mês das pensões abaixo de 700€; reposição das pensões mínimas para os camponeses que não descontaram ao longo da vida; eliminação da taxa de 1€ sobre as receitas médicas; reintegração gradual dos funcionários públicos despedidos, especialmente nas escolas e universidades.

Do ponto de vista macroeconómico, o que o novo governo grego tem anunciado como posição negocial (saldos primários equilibrados ou até ligeiramente positivos, serviço da dívida em função do crescimento da economia) não tem nada de radical, como aliás muitos comentadores têm referido. É um mínimo de bom senso. Os enormes cortes na despesa pública levados a cabo nos últimos anos provocaram uma tal contracção da economia que o fardo da dívida pública não parou de aumentar: andava pelos 125% do PIB em 2010, quando tiveram início os programas de austeridade, anda actualmente pelos 175%. Não apesar da austeridade, mas por causa dela.

Neste plano, o governo grego não pretende mais do que o fim da insistência num absurdo: a imposição ao longo das próximas décadas de superávites primários constantes num país com uma economia deprimida e uma sociedade devastada. Uso o termo devastada com propriedade: trata-se de um país em que, entre 2008 e 2013, a percentagem da população em situação de privação materialgrave aumentou de 11,2% para 20,3%  (em Portugal também aumentou, mas de 9,7% para 10,9%) e em que a austeridade deixou um milhão de pessoas sem acesso a cuidados de saúde, fazendo disparar a taxa de mortalidade infantil . É disto que falamos quando falamos da Grécia, mesmo que muitos não o saibam ou não o queiram saber.

Mas não é no plano macroeconómico que as propostas do Syriza constituem uma ameaça para as elites europeias. É que a dívida é um instrumento e não um fim. Aquilo que de mais central está em causa não é a dívida e o seu reembolso, mas a sua utilização como instrumento de dominação. O que não pode ser posto em causa do ponto de vista das elites não é o montante da dívida ou o seu calendário de pagamento: a esse nível, como se tem visto nos últimos dias, pode sempre haver cedências. O que não pode ser posto em causa, em contrapartida, são os eixos centrais da dominação: a compressão dos salários e pensões, as “reformas estruturais” no mercado de trabalho, o esvaziamento do Estado social, as privatizações.

Sucede, porém, que é precisamente isso que o novo governo grego ameaça pôr em causa. E é precisamente por isso que, pela Europa fora como em Portugal, a direita e os seus porta-vozes – os intelectuais públicos dos grupos dominantes – não suportam o Syriza e o que ele representa, e têm reagido à sua subida ao poder na Grécia com o choque e atordoamento com que se faz um luto ou reage a uma tragédia.

Primeiro foi a negação, a construção de uma realidade fantasiosa mas mais suportável. O Syriza está mais moderado, já não é o que era há dois anosA sua retórica é meramente simbólica. Tsipras não passa de um novo HollandeEm todo o caso, só ganharam devido à desorientação do eleitorado.

Em seguida, a raiva desorientada. Não tiveram mais que 36% e a abstenção foi superior. Aliaram-se à extrema-direita, vêem? Não têm mulheres no executivo, tão progressistas que eles sãoTsipras não merece respeito: chamou Ernesto ao filho.

E depois a negociação, à medida que a nova realidade começa aos poucos a ser aceite como inevitável, ainda que não na plenitude das suas implicações: Muito bem, podemos até acabar com a troika. Ceda-se nos juros, nos prazos e, quem sabe?, até mesmo no montante total da dívida. Desde que o Sr. Tsipras deixe cair o seu socialismo lunático , claro está.

Negação, raiva, negociação. Que luto é este que as elites europeias e os seus porta-vozes estão a fazer?

É o luto pela sua própria hegemonia no momento em que esta começa a ser seriamente contestada. Habituadas nas últimas décadas a uma História de sentido único, à constitucionalização das suas estruturas de dominação nos tratados europeus, à irrelevância das escolhas democráticas, ao sucesso na persuasão da maioria de que “não há alternativa”, as elites reagem agora em choque perante a constatação de que a sua capacidade de produção de consensos em torno da sua própria dominação não é absoluta ou eterna e começa afinal a ser contestada.  alternativas, que não só reúnem apoio popular crescente como até já começam a conquistar o poder.

Entendamo-nos, pois: a direita não podia estar menos preocupada com a participação da suposta ‘extrema-direita’ no governo grego ou com o número de mulheres no novo executivo. E também não está preocupada com as políticas do Syriza por achar que são melhores ou piores para os gregos, cujo bem-estar seguramente não lhe rouba o sono. Aliás, as elites europeias nem sequer estão preocupadas com o Syriza por causa do receio de sofrerem maiores ou menores perdas enquanto credores de uma dívida que em termos europeus representa pouco e que, em qualquer dos casos, todos sabem que não será reembolsada.

A direita está preocupada, isso sim, porque o governo grego é o primeiro a confrontar directamente os mecanismos de subjugação a que tem vindo a ser sujeito o seu povo e porque o seu exemplo tem um enorme potencial de alastramento. Não é por acaso que a maior hostilidade em relação às propostas europeias do governo grego provém precisamente das elites e governos servis de Portugal e Espanha, que estão precisamente na linha da frente desse potencial de alastramento. O novo governo grego tem de fracassar, custe o que custar, não vá dar-se o caso de mostrar às pessoas que é possível governar com elas e para elas em vez de contra elas.

É isto que está neste momento em causa na Grécia e na Europa – e é por isto que espero que o governo grego não tenha ilusões ingénuas sobre nobres ideais europeus que transcendam os interesses de classe. Pelo contrário: espero que o optimismo da disponibilidade para soluções cooperativas que os governantes gregos têm manifestado nos últimos dias se faça acompanhar, pelo menos em privado, pelo pessimismo racional da preparação dos cenários de confronto.Varoufakis é, entre outras coisas, especialista em teoria dos jogos : saberá por isso com certeza que não deve esperar que as elites europeias contribuam voluntariamente para minar as bases da sua própria dominação.

 

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