Pacote laboral remete direitos dos trabalhadores para o século XIX

(Por Filipe Marques, in AbrilAbril, 09/12/2025)


Num momento em que, até Setembro deste ano, existiram 414 despedimentos colectivos, não é difícil despedir. O que se propõe é retirar garantias de defesa dos trabalhadores e neutralizar o princípio constitucional da proibição dos despedimentos sem justa causa.


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O Governo PSD/CDS apresentou em Julho um anteprojecto de Lei – Trabalho XXI, que contém mais de 100 propostas de alteração à Lei Laboral.

Analisado o conteúdo concreto de cada uma dessas propostas de alteração, a CGTP-IN caracterizou-o, desde logo, como um «Pacote Laboral» (PL) de assalto aos direitos dos trabalhadores.

É preciso referir que a Lei actual integra normas gravosas que devem ser revogadas, por exemplo, a norma da caducidade das convenções colectivas, a redução das indemnizações compensatórias na cessação dos contratos de trabalho, a redução do valor do trabalho extraordinário ou o esvaziamento do princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador.

O PL procura ir mais longe e desequilibrar, ainda mais, as relações de trabalho a favor do patronato, aliás, é evidente a satisfação das Confederações Patronais com as medidas propostas.

O PL faz caminho para perpetuar os baixos salários, quando propõe a possibilidade de pagamento do subsídio de férias e do subsídio de Natal em duodécimos, e cria a ilusão de maior rendimento disponível e retira a responsabilidade patronal nos processos reivindicativos para aumentar salários. Quando existem cerca de 900 mil trabalhadores com o salário mínimo nacional (SMN), o que é necessário é a valorização real dos salários, em 15% com o mínimo de 150 euros e a fixação do SMN em 1050 euros em 2026.

O PL aponta à eternização da precariedade, através do alargamento de prazos e motivos, um dos quais, um trabalhador que nunca tenha tido um contrato de trabalho efectivo, deve ter contrato precário! Quando 1 milhão e 300 mil trabalhadores têm vínculo precário (54% entre os jovens até aos 25 anos), o que se exige é que a cada posto de trabalho de carácter permanente corresponda um vínculo de trabalho efectivo.

O PL abre portas à intensificação da desregulação dos horários de trabalho, fazendo ressuscitar o banco de horas individual, ou seja, a possibilidade de trabalhar mais 2h/dia e mais 10h/semana, sem receber! Quando hoje 1 milhão e 900 mil trabalhadores laboram à noite, aos sábados, aos domingos ou feriados, a reivindicação mais justa é ter horários regulados e dignos, e a redução do horário de trabalho para as 35 h/semana, sem perda de retribuição, contributo para efectivar uma melhor conciliação entre a vida profissional e a vida familiar.

O PL tenta, ainda, facilitar mais os despedimentos, ao introduzir uma caução a pagar pelo trabalhador, em processos de despedimento, em que o objectivo é a sua reintegração. E após o tribunal decidir que o despedimento é ilícito, a entidade patronal, pode, pela via jurídica, opor-se à reintegração do trabalhador! Num momento em que, até Setembro deste ano, existiram 414 despedimentos colectivos, ou seja, não é difícil despedir, o que se propõe é retirar garantias de defesa dos trabalhadores e neutralizar o princípio constitucional da proibição dos despedimentos sem justa causa.

O PL dá mais um passo para destruir a Contratação Colectiva, simplifica o fim dos contratos colectivos, ao passar o direito de escolha dos trabalhadores, da convenção aplicável, para a entidade patronal e ao retirar da cobertura de garantia do princípio de tratamento mais favorável aos trabalhadores, o teletrabalho e o trabalho extraordinário. O que faz falta é a revogação da norma da caducidade e a reintrodução plena do princípio do tratamento mais favorável aos trabalhadores.

O PL ataca, também, os direitos parentais, a liberdade sindical e o direito à greve. No caso da liberdade sindical, procura afastar os trabalhadores dos sindicatos, propondo reuniões fora do horário de trabalho e fazer depender a afixação de informação e propaganda sindical do patrão! Este é um direito fundamental dos trabalhadores, o direito de informar e ser informado, um direito dos sindicatos, desenvolver a actividade sindical nos locais de trabalho. 

O ataque à greve visa alargar a concepção das necessidades sociais impreteríveis ao abastecimento alimentar, ao sector social e à segurança privada de bens ou equipamentos essenciais. O que está em causa é a definição de serviços mínimos, que muitas vezes, na prática, são máximos, em mais áreas ou serviços, mesmo que não correspondam a necessidades sociais. O objectivo político é claro, subverter este direito fundamental e reduzir a expressão de luta dos trabalhadores contra a exploração. Mas torna-se imperioso exercer o direito à greve sem condicionamentos ou limitações, num contexto em que esta forma de luta é utilizada pelos trabalhadores quando as negociações ou o diálogo falham.

É a partir da identificação concreta do que significaria em termos práticos este PL, que a nossa acção e intervenção nos locais de trabalho promove o esclarecimento sobre o que está em causa e se alarga o grau de compreensão dos trabalhadores do carácter profundamente negativo para a sua dignidade no mundo do trabalho.

Nos inúmeros plenários e contactos que se estão a realizar com os trabalhadores, o sentimento geral é de rejeição do conteúdo do PL e de exigência da sua retirada, o que revela imensas possibilidades de continuar a construir uma greve geral de enorme expressão.

A Sra. Ministra Mª. do Rosário Ramalho pode continuar a afirmar que, «independentemente do acordo alcançado na CPCS [Comissão Permanente de Concertação Social], as propostas de alteração à legislação do trabalho seguirão para a AR». Mas os trabalhadores têm uma palavra a dizer!

Foi assim no dia 20 de Setembro, em que os trabalhadores rejeitaram o PL na Manifestação Nacional no Porto e em Lisboa, na Greve Nacional dos trabalhadores da AP no dia 24 de Outubro e na grandiosa Marcha Nacional contra o PL realizada no dia 8 de Novembro, com mais de 100 mil participantes em Lisboa.

Na construção da greve geral, os trabalhadores são os protagonistas que escolhem defender a sua dignidade e rejeitam as alterações à legislação laboral, assumindo através da organização, unidade e luta, um papel decisivo para derrotar o PL! Porque apesar deste anteprojecto ter o nome de «Trabalho XXI», os trabalhadores já perceberam que o seu conteúdo coloca os direitos dos trabalhadores ao nível do século XIX. 

Eleições presidenciais de 2026:  Em quem votar?

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 09/12/2025) 


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As eleições para Presidente da República portuguesa estão marcadas para o dia 18 de Janeiro de 2026. O prazo para a entrega das 7.500 assinaturas válidas de eleitores necessárias para a formalização de cada uma das candidaturas junto do Tribunal Constitucional (TC) termina em 18 de Dezembro de 2025.

À data em que escrevo (8 de Dezembro de 2025) os candidatos que já entregaram as assinaturas e formalizaram a sua candidatura são: João Cotrim de Figueiredo, Manuel João Vieira, António Filipe e Humberto Correia.

É expectável que outros candidatos formalizem as suas candidaturas antes do prazo final de 18 de Dezembro. Os mais conhecidos são Luís Marques Mendes, André Ventura, Henrique Gouveia e Melo, António José Seguro, Catarina Martins, Jorge Pinto.

O número total de candidatos só será definitivo após a verificação e validação de todas as candidaturas e assinaturas pelo Tribunal Constitucional, até ao dia 24 de Dezembro. Não sabemos quantos protocandidatos passarão no crivo do TC. Mas, para efeitos de argumentação e para os pôr todos em plano de igualdade, vou dar de barato que todos passarão nesse crivo.

Ler artigo completo aqui.

A Santíssima Inquisição do plágio

(Luis Rocha, in Facebook, 11/12/2025, Revisão da Estátua)


(Hoje mudamos a nossa atenção para a leva de mortes de “gente boa” que nas últimas semanas tem assolado a agenda mediática. O último evento desse rosário foi a defunção de Clara Pinto Correia. A Estátua – que por vício militante está sempre do lado dos iconoclastas -, presta homenagem à falecida com esta publicação, e deixa o link para o seu último texto conhecido aqui).


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Clara Pinto Correia foi, durante anos, uma raridade nacional. Uma mulher brilhante, cultíssima, cientista com obra feita, escritora de mão cheia e daquelas cabeças inquietas que não cabem na nossa tradição de mediocridade organizada. Era demasiado inteligente para ser apenas académica, demasiado independente para ser apenas escritora e demasiado viva para caber no ramalhete cinzento da inteligência nacional. No país onde se desconfia instintivamente de quem sabe demasiado, ela destacava-se e isso, convenhamos, já era meio caminho andado para lhe prepararem a forca.

Teve um percurso académico que muitos invejariam se não estivessem demasiado ocupados a fingir que leram dois livros no verão. Investigação, docência universitária, trabalho internacional, livros que ficaram, presença nos media onde falava com um à vontade que escandalizava os mais baços. Clara tinha verve, ousadia, humor, pensamento. Ou seja, tinha tudo aquilo que faz soar alarmes nesta pátria de cotovelos afiados e espinha dorsal flexível.

E depois… o episódio. Aquele momento fatal em que, por cansaço, stress ou simplesmente má decisão, plagiou uns textos do The New Yorker. Sim, é grave. Sim, é erro. Mas o que veio depois foi desproporcionado a ponto da obscenidade. A casa caiu, não por causa do plágio, mas porque o país finalmente encontrou um pretexto higiénico para fazer o que sempre quis. Triturar alguém que o fazia sentir pequeno.

O provincianismo português, sempre pronto para encenar virtudes que não pratica, tratou de lhe retirar tudo. Inteligência, cultura, mérito científico, obra publicada. Nada restou. De um dia para o outro, a mulher que ensinava, investigava e escrevia tornou-se uma espécie de bruxa moderna a ser queimada no auto de fé moralista. O mesmo país que hoje convive alegremente com políticos que insultam minorias, empresários que escravizam imigrantes, autarcas que vivem de favores e vigaristas que se passeiam pela televisão à hora do jantar decidiu crucificar Clara no altar do puritanismo.

E há aqui uma ironia que roça o grotesco. Portugal descobriu o plágio antes de descobrir o próprio umbigo. Hoje, técnicos de comunicação, assessores, influencers, políticos de terceira e até opinadores de barbearia usam textos feitos por IA como quem muda de camisa. Há plágio em comunicados, posts, discursos, trabalhos académicos e até em frases motivacionais de Instagram. Mas como ninguém mais brilhante do que eles está a fazê-lo, não há problema. O plágio tornou-se uma espécie de desporto nacional, mas desde que executado por gente cinzenta e socialmente útil ao ecossistema, está tudo bem.

Com Clara, não. Ela foi escolhida como exemplo. A mulher demasiado brilhante para passar despercebida transformou-se, convenientemente, na pecadora perfeita. E o país não perde uma boa oportunidade de corrigir quem o ultrapassa. Assim a deixaram, sem trabalho, na fila da segurança social durante dois anos, a lidar com um remorso que não merecia proporção ao castigo. Uma depressão consumida em silêncio, até ao fim, demasiado dura, demasiado triste, demasiado sintomática do tipo de país que somos.

Porque, sim, somos muita coisa boa. Somos generosos quando ninguém está a ver, solidários quando é preciso, criativos por necessidade e resilientes por fatalismo. Mas também somos isto. Uma sociedade cruel, presunçosa e profundamente insegura. Uma comunidade que gosta de aplaudir mediocridades porque não ameaçam ninguém e gosta de punir talentos porque expõem o que não temos coragem de admitir.

Clara Pinto Correia não caiu em desgraça por plagiar. Caiu porque era brilhante num país que não sabe lidar com o brilho. E nós, co lectivamente, ficámos aquilo que sempre fomos. Pobres.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Pinto_Correia

https://www.dn.pt/cultura/clara-pinto-correia-adeus-princesa

https://www.jn.pt/…/morreu-a-escritora-clara…/18028520

https://www.dn.pt/…/morreu-a-escritora-clara-pinto…