E se Zelensky nos pedir para entrarmos na guerra à Rússia?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 13/04/2022)

Quando o presidente da Ucrânia falar no Parlamento português, como está previsto acontecer daqui a uns dias, não vai pedir apenas um reforço do fornecimento de armas ao seu país, nem unicamente um aumento de sanções à Rússia.

Volodymyr Zelensky vai pedir aos deputados que levem Portugal a apoiar uma intervenção direta da NATO contra a Rússia e que essas tropas da Aliança Atlântica ajudem os ucranianos, no terreno, a combater as tropas russas. Ou seja, vai pedir que Portugal, membro da NATO, entre em guerra com a Rússia.

É isto que ele tem dito em inúmeras intervenções públicas, como aconteceu no Parlamento Europeu, logo no início da guerra, e em outros parlamentos nacionais. E é perfeitamente natural, na aflição de defender o seu país do ataque russo, que entenda que deva confrontar os políticos do ocidente com essa exigência.

Depois de fazer esse apelo, no final do seu discurso, o que irá certamente acontecer é que quase toda a sala de deputados portugueses se irá levantar em ovação, aplaudindo de pé as palavras de Zelensky – é a reação mais natural, dada a carga emocional que a qualidade do seu discurso transmite e a indignação que a situação humanitária na Ucrânia provoca, impulsionando todos nós para manifestações de solidariedade incondicional.

Nesse momento, no momento em que aplaudirem, vibrantes, o discurso de Zelensky, que estarão os deputados portugueses a aplaudir? Estarão a aplaudir, também, a parte do discurso do líder ucraniano que empurra Portugal, via NATO, a entrar em guerra com a Rússia.

Estarão a aplaudir, também, entusiasmados, o apoio à entrada no conflito dos seguintes países, todos membros da NATO: Albânia, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos, Estónia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Macedónia do Norte, Montenegro, Noruega, Países Baixos, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia e Turquia.

Com a Ucrânia e a Rússia isso significaria que os deputados portugueses estarão também a aplaudir a possibilidade do conflito escalar, rapidamente, para uma luta entre 32 países o que é, literalmente, uma III Guerra Mundial – e o mais provável é que muitos outros países decidam ir atrás desse movimento, amplificando ainda mais a mortandade. E, de repente, em reação, a Rússia até pode conseguir apoios que agora não tem…

Estarão, ainda, a aplaudir uma escalada no conflito tão elevada que correrá o risco de levar os russos a utilizar armas nucleares – e Portugal passaria a ser um dos possíveis alvos.

Poder-se-á dizer que não é assim, que o aplauso dos deputados portugueses não será interpretado como um apoio a essa parte do discurso de Zelensky, restringindo-se a uma manifestação de simpatia para com a causa ucraniana, ignorando as propostas bélicas do presidente desse povo.

Isso tem outro problema, menos grave, mas pouco digno de um Parlamento democrático: transforma um assunto tão sério como a guerra na Ucrânia, com 4,5 milhões de refugiados e milhares de mortos, num assunto tratado com ligeireza e superficialidade pelos deputados.

Se assim fosse, os nossos parlamentares fariam a triste figura de se mostrarem prontos para aparecerem na fotografia a aplaudir o líder ucraniano, prontos para dizerem palavras bonitas sobre a heroicidade do povo ucraniano, prontos para acusarem Putin dos mais terríveis atos, prontos para tirarem dividendos políticos locais pela utilização da imagem e do discurso do globalizado Zelensky.

Porém, simultaneamente, os deputados portugueses evidenciariam indisponibilidade para assumirem as consequências lógicas e coerentes dessa atitude, transformando toda essa operação mediática numa hipócrita feira de vaidades.

Pode ainda dizer-se que o aplauso dos deputados portugueses ao pedido que Volodymyr Zelensky lhes fará de intervenção direta da NATO nos combates contra os russos não tem valor algum, que uma decisão dessas os ultrapassa, estará sempre nas mãos do Departamento de Estado norte-americano, nas dos governos do Reino Unido, Alemanha e França e que Portugal limitar-se-á a seguir as ordens dos poderosos do ocidente. Bem, nesse caso fico mais descansado, porque acredito que por ali, apesar de tudo, não se pretende a III Guerra Mundial – mas os deputados portugueses cairão, lamentavelmente, no ridículo e o povo ucraniano pouco ou nada ganhará com o espetáculo vazio que, em nome dele, será montado em São Bento.


Jornalista


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Os motores económicos da III Guerra Mundial

(Michael Hudson, in Outras Palavras, 11/04/2022)

Agora está claro que a atual escalada da nova Guerra Fria foi planejada há mais de um ano, como uma estratégia séria associada ao plano norte-americano de bloquear o gasoduto Nord Stream 2. Isso, por sua vez, era parte do objetivo de Washington, de bloquear a busca, pela Europa Ocidental (“OTAN”), de prosperidade por meio de comércio e investimento mútuos com a China e a Rússia.

Como fora anunciado por Joe Biden e pelos relatórios de segurança nacional dos EUA, a China é vista como o principal inimigo. Apesar de seu papel útil, em permitir que as empresas norte-americanas reduzissem os salários trabalho, desindustrializando a economia estadunidense em favor da industrialização chinesa, o crescimento da China passou a ser visto como o maior terror: prosperidade pela via do socialismo. A industrialização socialista sempre foi percebida como o grande inimigo da economia rentista que tem dominado a maioria das nações no século transcorrido desde o final da Primeira Guerra Mundial, e especialmente desde os anos 1980. O resultado hoje é um choque dos sistemas econômicos: a industrialização socialista contra o capitalismo financeiro neoliberal.

Isto torna a nova Guerra Fria contra a China um ato de abertura implícita para o que ameaça ser uma III Guerra Mundial a longo prazo. A estratégia dos EUA é tirar da China seus aliados econômicos mais prováveis, especialmente a Rússia, Ásia Central, Sul da Ásia e Ásia Oriental. A questão era onde começar a dividir e isolar.

A Rússia foi vista como a maior oportunidade para começar a isolar tanto a China quanto a Zona Euro da OTAN. Uma sequência de sanções cada vez mais severas – com a expectativa de serem fatais – contra a Rússia foi construída para impedir que a OTAN negociasse com Moscou. Tudo o que faltava para deflagrar o terremoto geopolítico era um casus belli.

Isso foi facilmente arranjado. A escalada da nova Guerra Fria poderia ter começado no Oriente Médio, a partir da resistência à captura dos campos de petróleo do Iraque pelos EUA, ou contra o Irã e os países que o ajudam a sobreviver economicamente, ou na África Oriental. Planos de golpes, “revoluções coloridas” e mudanças de regime foram elaborados em todas essas áreas, e as forças armadas norte-americanas na África foram reforçadas de modo particularmente rápido nos últimos dois anos. Mas a Ucrânia vive uma guerra civil apoiada pelos EUA há oito anos, desde o golpe de Maidan em 2014, e ofereceu a oportunidade para tentar uma primeira vitória neste confronto contra a China, a Rússia e seus aliados.

As regiões de língua russa de Donetsk e Luhansk foram bombardeadas com intensidade crescente e, como a Rússia continuou a não responder, foram elaborados planos para um grande confronto que teria início no final de fevereiro, com uma blitzkrieg da Ucrânia ocidental organizada por conselheiros americanos e armada pela OTAN.

A defesa preventiva pela Rússia das duas províncias ucranianas orientais, e a subsequente destruição militar do exército, marinha e força aérea ucraniana nos últimos dois meses tem sido usada como pretexto para impor o programa de sanções projetado pelos EUA que vemos em marcha hoje. Em vez de comprar gás, petróleo e grãos de alimentos russos, a Europa Ocidentel vai comprá-los dos EUA. E acrescentará a isso um forte aumento na importação de armas norte-americanas.

A possível queda na taxa de câmbio euro/dólar

Vale a pena examinar como isso pode afetar a balança de pagamentos da Europa Ocidental e, portanto, a taxa de câmbio do euro em relação ao dólar.

O comércio e os investimentos europeus antes das sanções prometiam crescente prosperidade para a Alemanha, França e outros países da OTAN em suas relações com a Rússia e a China. A Rússia forneceu energia abundante a um preço competitivo, e esse processo deveria dar um salto quântico com o Nord Stream 2. A Europa deveria obter divisas para pagar este crescente comércio de importação por meio de uma combinação de exportação de mais produtos industriais para a Rússia e investimento de capital no desenvolvimento da economia russa – por exemplo, por empresas automobilísticas alemãs e na forma de investimento financeiro. Este comércio e investimento bilateral está agora paralisado – e permanecerá paralisado por muitos anos, dado o confisco, pela OTAN, das reservas cambiais russas em euros e libras esterlinas, e a russofobia europeia alimentada pela mídia de propaganda dos EUA.

Em vez disso, os países da OTAN comprarão gás natural liquefeito (GNL americano, mas terão que gastar bilhões de dólares na construção da capacidade portuária necessária, o que pode estender-se talvez até 2024. (Boa sorte até lá!) A escassez de energia aumentará acentuadamente o preço mundial do gás e do petróleo. Os países da OTAN também aumentarão suas compras de armas do complexo militar-industrial dos EUA. As compras quase instantâneas também aumentarão o preço do armamento. E os preços dos alimentos também aumentarão, como resultado da escassez desesperada de grãos resultante da cessação das importações da Rússia e da Ucrânia, por um lado; e da escassez de fertilizantes à base de amônia, por outro.

Estas três dinâmicas comerciais fortalecerão o dólar em relação ao euro. A questão é: como a Europa irá equilibrar seus pagamentos internacionais com os EUA? O que é possível exportar para a economia norte-americana, contaminada por seus próprios interesses protecionistas, agora que o “livre comércio” mundial está morrendo rapidamente?

A resposta é: não muito. Então, o que a Europa vai fazer?

Ela poderia fazer algo modesto. Agora que a União Europeia praticamente deixou de ser um Estado politicamente independente, está começando a se parecer com o Panamá e a Libéria. São centros bancários offshore “bandeira de conveniência” que não pode ser equiparada a verdadeiros “Estados” porque não emitem sua própria moeda, usando em vez disso o dólar americano. Dado que a zona do euro foi criada com algemas monetárias que limitam sua capacidade de criar dinheiro para gastar na economia além do limite de 3% do PIB, por que não simplesmente jogar a toalha financeira e adotar o dólar americano, como o Equador, Somália e as Ilhas Turks e Caicos? Isso daria aos investidores estrangeiros segurança contra a desvalorização da moeda em seu crescente comércio com a Europa e seu financiamento à exportação.

Para a Europa, o drama é que o custo em dólares de sua dívida externa assumida para financiar seu crescente déficit comercial com os Estados Unidos (em petróleo, armas e alimentos) irá disparar. O custo em euros será ainda maior, à medida que a moeda cair em relação ao dólar. As taxas de juros subirão, atrasando os investimentos e tornando a Europa ainda mais dependente das importações. A zona do euro se tornará uma zona morta economicamente.

Os Estados Unidos já sonham com a hegemonia do dólar intensificada, pelo menos em relação à Europa.

O dólar em relação às moedas do Sul Global

A nova Guerra Fria desencadeada pela “Guerra da Ucrânia” corre o risco de se tornar o salvo de abertura da Terceira Guerra Mundial. Provavelmente durará pelo menos uma década, talvez duas, à medida em que os EUA estenderem a luta entre neoliberalismo e socialismo para desembocar em um conflito global. Além da conquista econômica da Europa pelos Estados Unidos, seus estrategistas buscam trancar os países africanos, sul-americanos e asiáticos em uma linha semelhante à planejada para a Europa.

O forte aumento dos preços da energia e dos alimentos atingirá duramente as economias deficitárias em alimentos e petróleo. Isso se dará no mesmo momento em que suas dívidas externas denominadas em dólares estão amadurecendo e a taxa de câmbio do dólar está subindo em relação à sua própria moeda. Muitos países africanos e latino-americanos – especialmente os do Norte da África – enfrentam a opção de passar fome, reduzir seu consumo de combustíveis e eletricidade ou tomar emprestados mais dólares, para cobrir sua dependência do comércio com os Estados Unidos.

Tem-se falado da emissão de novos Direitos Especiais de Saque (DSEs), uma moeda própria do FMI que poderia financiar os crescentes déficits comerciais e de pagamentos dos países do Sul. Mas tais créditos sempre vêm com compromissos. O FMI tem sua própria política de sabotar os países que não obedecem à política dos EUA. A primeira exigência de Washington será que esses países boicotem a Rússia, a China e sua emergente aliança comercial e monetária. “Por que lhes daríamos DSEs ou novos empréstimos em dólares se vocês vão apenas gastá-los com a Rússia, China e outros países que declaramos inimigos?”, perguntarão as autoridades americanas.

Pelo menos, esse é o plano. Eu não me surpreenderia de ver algum país africano se tornar a “próxima Ucrânia”, com as tropas agindo por procuração dos EUA (ainda há muitos apoiadores e mercenários Wahhabi) lutando contra os exércitos e populações de países que procuram se alimentar com grãos russos, ou sustentar suas economias com petróleo ou gás de poços russos – sem mencionar a participação na Iniciativa das Novas Rotas da Seda – que foi, afinal de contas, o gatilho para os EUA lançarem sua nova guerra pela hegemonia neoliberal global.

A economia mundial está sendo incendiada. Os EUA prepararam-se para uma resposta militar e a militarização de suas exportações de petróleo, produtos agrícolas e armas. Eles exigirão dos países que escolham de que lado da nova Cortina de Ferro desejam ficar.

Mas o que resta nisso para a Europa? Os sindicatos gregos já estão se manifestando contra as sanções impostas ao país. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban acaba de ganhar eleições com uma visão de mundo basicamente antieuropeia e antiamericana, começando por aceitar o pagamento do gás russo em rublos. Quantos outros países vão romper as fileiras e quanto tempo vai demorar?

O que há nisso para os países do Sul Global que estão sendo comprimidos, como resultado da estratégia dos EUA de produzir uma grande divisão da economia mundial em duas? A Índia já disse aos diplomatas americanos que sua economia está naturalmente conectada com as da Rússia e da China. O Paquistão começa a fazer o mesmo cálculo.

Do ponto de vista dos EUA, tudo o que precisa ser respondido é: “O que sobrará para recompensar os políticos locais e oligarquias, por entregar seus países”?

Desde seus estágios de planejamento, os estrategistas da diplomacia norte-americana encararam a iminente Terceira Guerra Mundial como uma guerra entre sistemas econômicos. Que lado escolherão os países? Seu próprio interesse econômico e sua coesão social, ou a submissão aos líderes políticos locais instalados pela ingerência dos EUA? Em 2014, a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland gabou-se de ter “investido” 5 bilhões de dólares nos partidos neonazistas da Ucrânia, para que iniciassem os combates que levaram à guerra atual?

Diante de toda essa intromissão política e propaganda da mídia, quanto tempo levará para o resto do mundo perceber que há uma guerra global em curso, com a Terceira Guerra Mundial no horizonte? O verdadeiro problema é que, quando o mundo perceber o que está acontecendo, a fratura global terá permitido à Rússia, China e Eurásia criar uma Nova Ordem Mundial verdadeiramente não-neoliberal. Ela não precisará dos países da OTAN e terá perdido a confiança e a esperança nos benefícios econômicos mútuos da relação com o Ocidente. O campo de batalha estará repleto de cadáveres econômicos.


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O “Admirável Mundo Novo…”

(Manuel Duran Clemente, in Facebook, 10/04/2022)

(Há textos notáveis e este é um texto notável. Uma reflexão sobre o atual momento histórico, vista pelo prisma de quem se sente português, em Portugal, integrando nessa visão todos os nossos méritos e deméritos, virtudes e defeitos, esses atributos que nos fizeram ser um pequeno país, ainda assim grande por vezes nos cometimentos – dizem alguns. Aqui fica. Para a reflexão de todos. Tanto dos que me aplaudem como daqueles que me querem calar e incinerar.

Estátua de Sal, 12/04/2022)


1. “Vejo com inquietação o avanço da ignorância e da hipocrisia” podia ser o título dum ensaio sobre o que se lê nas redes sociais e na imprensa… Sobre o que se ouve nas televisões acerca da Guerra na Ucrânia, da perigosa invasão Russa e do esquecimento da estratégia de alargamento da NATO…!!!

A famosa distopia de Aldous Huxley sobre uma sociedade totalitária do futuro, regida pela tecnologia e pelo materialismo e sob a máscara da democracia e da felicidade.

“Admirável Mundo Novo” é uma parábola fantástica sobre a desumanização dos seres humanos.

«Na utopia negativa descrita no livro, o Homem foi subjugado pelas suas invenções. A ciência, a tecnologia e a organização social deixaram de estar ao serviço do Homem; tornaram-se os seus amos. Desde a publicação deste livro, o mundo rumou a passos tão largos na direcção errada que, se fosse escrita hoje a mesma obra, a acção não distaria seiscentos anos do presente, mas somente duzentos. O preço da liberdade, e até da simples humanidade, é a vigilância eterna.»

Encontrei hoje este preambulo assertivo ao pensar que vou deixar de manifestar a minha inquietação nas redes sociais perante a teimosia cega de uma corrente de afirmações pessoais e de uma histeria mediática apostada em inflamar os ânimos com visões parciais e caça às bruxas.

Em vez de iniciativas que imponham rapidamente a paz assistimos a uma onda de narrativa de ódio que se estende a toda uma Europa com censura e xenofobia contra a população russa que não tem responsabilidade com o que está a acontecer e, até, é também sua vítima.

Com uma vergonhosa onda de russofobia decidir penalizar trabalhadores, artistas, desportistas, eventos culturais…como está acontecendo por parte de certas organizações é uma atitude difícil de perceber.

Temos outra pandemia.

Ontem a adquirir medicamentos numa farmácia inquiri uma médica, lá trabalhadora, sobre a sua nacionalidade. Esquivou-se. Insisti. Com o meu instinto disse: “não me diga que é russa?”. Confirmou, com receio. Descansei-a com conforto verbal. Vim no regresso a casa perplexo e abatido. Que mundo é este?!!

2.”Vejo com inquietação o avanço da ignorância e da hipocrisia” (Continuação).

“O presidente ucraniano, Volodydymyr Zelensky, disse, durante uma entrevista televisiva na segunda-feira, que não vai insistir na adesão da Ucrânia à NATO, uma das questões que motivaram oficialmente a invasão russa”.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky acusa o Ocidente de quebrar promessas sobre proteção aérea.

“Por várias vezes, Putin disse que a adesão da Ucrânia à NATO constituía uma ameaça para os interesses de Moscovo, tendo exigido ao Ocidente que não expandisse a sua zona de influência militar junto das suas fronteiras.”

“O Presidente russo também reconheceu as duas autoproclamadas repúblicas separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia, exigindo agora que Kiev também as reconheça.”

“A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional que está a responder com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e financeiras a Moscovo.”

“Vladimir Putin justificou a “operação militar especial” na Ucrânia com a necessidade de desmilitarizar o país vizinho, afirmando ser a única maneira de a Rússia se defender e garantindo que a ofensiva durará o tempo necessário.”

Estes são cinco parágrafos de notícias recentes conhecidas e dos OCS. De alguma verdade a que temos direito.

Mais há mais quem tenha escrito.

Desta vez Miguel Sousa Tavares, no jornal Expresso, nestas três ideias força:

“E se é verdade que Putin anexou a Crimeia, não é menos verdade que esta sempre fora uma província russa (como a Florida é dos Estados Unidos) — tanto que foi ali, em Ialta, que teve lugar a mais importante cimeira dos Aliados durante a 2ª Grande Guerra, entre Estaline, Churchill e Roosevelt, e que a sua anexação teve o apoio maio­ritário da população, pois a entrega à Ucrânia, durante o tempo da URSS, fora um gesto absurdo do ucraniano secretário-geral do PCUS, Khrushchov.”

“E na questão da adesão da Ucrânia à NATO, com a consequente instalação de tropas da NATO e armas nucleares no seu território apontadas à Rússia, Putin pode estar carregado de razão.”

“Por igual razão, Kennedy esteve à beira de desencadear a terceira guerra mundial quando o mesmo Khrushchov quis instalar mísseis russos em Cuba, apontados aos Estados Unidos. A mesma narrativa não pode ter duas leituras e duas morais diferentes.”» (M.S.T.)

A condenação -da invasão russa – pela generalidade da comunidade internacional pode confortar-nos a todos. A todos que seriamente odeiam invasões mas concomitantemente odeiam meias verdades. Cuidam de evitar entrar no palco da histeria mediática. Sem se darem conta das omissões graves e das visões parciais colocadas à vista de todos. Não só no que tem acontecido mas no que acontece no presente.

Não chega dizer. O passado não justifica o presente. Basta verificar. O presente resulta do passado.

Ontem. Todo o Ocidente lúcido se queixava. Ai o admirável mundo novo!

Hoje todos parecem terem sido vacinados. Acordaram na parte bela e feliz do planeta. A leste do Éden. Bem dentro Paraíso.

3. “Vejo com inquietação o avanço da ignorância e da histeria” (Conclusão)

Nos anteriores capítulos falei do livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Hoje vou falar das contradições do saber e não posso deixar de referir “A Rebelião das Massas” de J. Ortega y Gasset…notável pensador “hermano”.

Li-o antes dos meus vinte anos assim como Garcia Lorca, Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Simone Beauvoir, Marguerite Yourcenar (esse imortal “Memórias de Adriano”), A. Saint-Exupéry (a “Cidadela” e “Petit Prince”), John Steinbeck (“Ratos e Homens” e a “25ª Hora”), Torga, Camilo, Herculano, Eça, Fernando Pessoa (Obra Poética/ edição, em papel bíblia, de S. Paulo, 1960, que me acompanhou sempre nas viagens desde os meus 19 anos e ainda acompanha). Li outros calhamaços ou muito pequenos em tamanho como o que dizem ser – o mais bem escrito, de sempre (?)- “A Crónica duma Morte Anunciada” de GGM. Também li, escrevi e investiguei Camões, Cervantes e Bocage e até o Luso-Tropicalismo de Gilberto Freyre. Isto nos tenros anos 50, 60 e 70. Depois li muito mais como é óbvio, nunca esquecendo Saramago e para mim o seu eterno “Levantado do Chão”. Li bastante sobre geopolítica e política, como entenderão. No meu exílio – sabia (?) fui exilado na República Popular de Angola – até 09.Set.1976. Exilado por irmãos de Abril e depois deste. Nesses seis meses, com o “frio” da tropical angústia – sem filhos e família -voltei a ler o livro “Rebelião das Massas” que Edmar Edgar Valles, amigo assassinado no 27 de Maio de 1977, me havia emprestado. Fará algum sentido esta narração apologética narcísica? Faz. Na sociedade e “mundo” ignaros de hoje … Só alguns percebem como certas circunstâncias fazem sentido.

Acontece que em setembro passado numa entrevista que dei ao Jornal do Fundão, à ultima questão que me foi colocada, ficou lavrada a seguinte resposta:

Vejo com muita inquietação este crescimento dos extremismos. Para mim o responsável é o sistema desumano, do capitalismo internacional, que se instalou no globo, descurando a felicidade humana e jogando com ela apenas por interesse material e lucro. A demagogia e o populismo manipulam os mais desfavorecidos e descontentes. Saber mais e melhor é preciso para distinguir oportunismos assaz perigosos…

Isto foi dito, por mim, seis meses antes da invasão da Ucrânia. A nossa sociedade (a não alienada e até a alienada) clamava por mal-estar permanente.

Nós os portugueses. É neles que me preocupa (nos preocupa) ver com inquietação o avançar da ignorância e da hipocrisia. Ou não? Éramos ou estávamos reféns:

3.1.-Internamente: -*Reféns de uma cultura “de poder pelo poder” em vez “do poder pelas pessoas, pelas nossas gentes”…

*Reféns pela mentira, pela manipulação, pelo “faz de conta”…

*Reféns pelo angariar clientelas a todo o custo…criando elites sôfregas por lugares ao sol…e que por aí vão propagando formas de estar e de vivência nada condizentes com o espírito de Abril…

*Reféns de se fazerem de “ouvidos moucos” das verdadeiras necessidades e ensejos do povo trabalhador…

*Reféns de acções constantes dum asfixiar das responsabilidades cívicas e dos direitos de participação e da cidadania activa que Abril abriu…

*Reféns, por muito que nos custe, do prodígio da incompetência e da estratégia do suicídio…que o mais pessimista de nós nunca esperaria após o 25 de Abril…

*Reféns da ilusão de alternativas salvadores mas que apenas têm escondido o papel de afundadores do País de Abril, repetindo e alternando a farsa a que se entregaram nestas cinco décadas…subvertendo na prática as normas, os fundamentos e as linhas orientadoras da Constituição de 1976…e até querendo atribuir-lhe os males do País…

*Reféns pela incapacidade de desmontar uma intensa ofensiva ideológica levada a cabo pelos órgãos de comunicação, propriedade do grande capital, cujo objectivo tem sido criar condições favoráveis à continuação da política dos poderosos…e à desqualificação da vida dos trabalhadores…

*Reféns da corrupção, da apropriação, assalto e esbulho aos bens, que supostamente deveriam estar ao serviço de todos os cidadãos, mas têm servido para a criação de coutadas geradoras de lucros e escandalosas remunerações e prémios anuais recordes do mundo …

*Reféns, pecado maior, do mando dos grupos financeiros e económicos nacionais, a cuja subordinação, esta nossa democracia já compete com os piores tempos da ditadura…

E, ainda mais, a nível global, éramos ou estávamos reféns:

3.2-Externamente: -*Reféns duma débil e falsa União Europeia (um gigante de pés de barro) para onde partimos (em 1985) apenas com dez anos de democracia e com um estrondoso atraso estrutural económico (herdado da ditadura) que só por si merecia, como muitos avisaram, outro tipo de negociações, outras cautelas, leviana e festivamente, desprezadas…

*Reféns da incapacidade de fazer valerem os pontos de vista nacionais, submissos à abdicação e imposição que nos fragilizaram em sectores económicos vitais (como nas pescas, na indústria e na agricultura…) entre outras malfeitorias semelhantes…

*Reféns ou aliados à cegueira de não perceber que a crise internacional teve responsáveis…os mesmíssimos que agora a querem curar à custa dos mais fracos e dos que são sempre sacrificados: quem trabalha e produz…

*Reféns ou cúmplices da ignorância do que tem acontecido aos povos que recorreram à designada “ajuda externa” que não é mais do que um “eufemismo” porque significa tudo menos ajuda. É exploração, é especulação, é ingerência…

*Reféns duma lógica de integração capitalista que é o aumento da acumulação e concentração de capital dos grandes conglomerados de empresas, dos monopólios dos países mais ricos e desenvolvidos que não só engordam à custa do saque dos países do terceiro mundo, como também dos países menos desenvolvidos da U.E….

*Reféns, pecado ainda maior, de não perceber que as ditas crises financeiras resultam das crises do capitalismo e baseiam-se sempre na sobre acumulação de capital na esfera da produção. Não perceber que perante as crises ou impasses o capital monopolista irá tornar-se mais agressivo, predatório e sem escrúpulos, intensificando a exploração dos trabalhadores. O objectivo é a redução do custo da força do trabalho…

*Reféns de não perceber ou ser cúmplices de que nenhum pacto, mecanismo ou programa de estabilidade, poderá, só por si, debelar a crise ou resolver as contradições do capitalismo, como ataque selvagem e bárbaro do capital contra os direitos e vida dos trabalhadores, das camadas populares e dos jovens… …

*Reféns de não compreender que com a continuação das politicas e dos comportamentos ,que teimosamente o Capital impõe ( perante o qual se têm vergado os responsáveis portugueses)…com a continuação dessas políticas o desemprego, a pobreza, e as contradições entre os estados-membros da U.E. irão aumentar, com graves consequências para os povos…

*Reféns de não entender que a escalada de ataques antipopulares atingirá todos os estados membros da U.E, porque o Capital Monopolista quer é reduzir o custo da força do trabalho, o seu objectivo fulcral é reforçar a competitividade não só em relação aos EUA, mas também em relação às forças emergentes como China, India e outras, com mão de obra muito mais baixa… a questão dos défices e dos endividamentos pode ser apenas e tão somente uma cortina de fumo…

Nós os portugueses. É neles que me preocupa (nos preocupa) ver com inquietação o avançar da ignorância e da hipocrisia. Ou não? Éramos ou estávamos reféns destes factores.

Milagre. Com a brutal invasão do capitalista “putinista” deixámos de estar reféns? Ou, ao invés, ainda podemos ficar mais presos, mais pobres e mais alienados?

O título do livro de J. Ortega Y Gasset engana os ingénuos e incultos. Não trata da revolta do povo sacrificado. Trata do povo massificado pela poluição corrente da atmosfera. Poluição igual a ignorância. Ignorância igual a POPULISMO ou a pior. Hegemonia do obscurantismo, obstáculo do progresso e da união cidadã para uma sociedade melhor, mais verdadeiramente igualitária e solidária. Menos enganosa e hipócrita.

Viva Abril.


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