António Borges Coelho (1928-2025): um historiador também tem a sua história e “o amor é um país desconhecido”

(Luciana Leiderfarb, in Expresso, 17/10/2025)

Historiador Professor catedrático, Borges Coelho passou seis anos e meio preso entre Aljube, Caxias e Peniche. Quando saiu da prisão, “senti tonturas, não estava habituado à liberdade”

Ela lutou pelos direitos das enfermeiras, ele pela liberdade. Casaram-se na prisão. A ditadura comeu-lhes nove anos de vida em comum. Mas Isaura Silva e António Borges Coelho vingaram-se. Foram inseparáveis. Esta é a sua história, recuperada pelo Expresso no dia da morte do historiador e poeta, aos 97 anos, em artigo originalmente publicado na revista do Expresso a 4 de junho de 2021.


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A rua tem uma árvore centenária que, na primavera, exala um aroma perfumado. É uma das ruas centrais da Parede, em Cascais, a artéria onde tudo se passa. O prédio incaracterístico, branco, denota um resto de modernidade no visual simples, nas linhas retas. Um dia tudo isto foi novo e a árvore estreita, miúda. Desde o seu apartamento, António Borges Coelho ouve o comboio a passar, a cada 20 minutos certos, dia após dia. Ele, um historiador que já investigou a ocupação e a herança muçulmana na península, a Inquisição e a expansão portuguesa, a história do país desde a sua formação, nunca escreveu sobre si próprio, sobre os 93 anos do alto dos quais nos observa, com aquela boa vontade e simpatia de sempre, mas não sem algum cansaço. Nesta casa invadida por livros, fotografias e quadros, onde hoje vive sozinho, Borges Coelho viveu com Isaura Silva. Estiveram casados durante 60 anos, tiveram uma filha. A deles foi uma história de amor que, como todas, possui um lado épico, descomunal; que caiu, como todas caem, numa certa irrealidade, a memória a criar um revestimento fosco sobre as coisas. Porém, se todas as histórias merecem ser contadas, a de António e Isaura é daquelas que um bom livro deveria imortalizar. Porque foi quase impossível, quase uma miragem.

Hoje certamente sê-lo-ia. Existem já poucos relatos assim, de clandestinidade e separação, de prisões e desencontros extremos, só passíveis de pertencerem a um tempo e a um lugar: Portugal antes de 1974. Nesse país não tão remoto assim, em que um vizinho podia ser delator, onde a fome grassava nas esquinas vigiadas pela polícia política à caça de opositores, e em que a mulher não tinha direitos, António e Isaura conheceram-se num café chamado Rialto, à Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa. O encontro era secreto, entre um dirigente do MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil e uma enfermeira empenhada na luta por melhores condições de trabalho e pelo direito ao casamento. “Pareceu-me importante perceber essa luta e marcámos encontro no café, onde nos conhecemos. Só eu e ela. Talvez tivesse havido aí algum sinal”, recorda Borges Coelho. Na segunda vez que se viram, ele levava o livro “A Freira no Subterrâneo”, de Camilo Castelo Branco, o que levou Isaura a temer — e assim o confidenciou a uma amiga — que ele fosse um “beato”. Apesar de ter passado cinco anos no seminário franciscano de Montariol, em Braga, não o era. Há muito que se desencantara da religião, ocupado que estava no combate à ditadura. Quanto a ela, estava nos antípodas da posição que uma educação eminentemente patriarcal lhe reservava. Foi das primeiras mulheres a andar de bicicleta em Portimão, a terra natal. Salvara uma miúda de morrer afogada e ia levando um tiro, diz o marido. “Ela era este tipo de mulher: uma vez, vinha um comboio e na linha estavam um cavalo e uma carroça. Ela tirou a blusa e pôs-se à frente do comboio, para o obrigar a parar. E ainda foi multada.”

Isaura morreu em 2019, “de velhice”. Era dois anos mais velha que António. Nos últimos tempos de vida, dedicou-se a escrever um diário de memórias para o único neto, Francisco. Para lhe contar, através da sua própria biografia, como era o país dela antes de a passagem para a democracia o transformar no país que ele reconhece. “Continuavam os nossos encontros amorosos, e também políticos”, vai narrando num desses papéis, que António lê sentado no escritório, interrompendo a história dela com pedaços da sua, pois ambas estão ligadas como as peças do mesmo puzzle. É preciso, por isso, explicar onde estava ele enquanto Isaura era a primeira a assinar corajosamente um abaixo assinado dirigido ao enfermeiro-mor, ao cardeal Cerejeira e ao mesmíssimo Salazar que, perante a PIDE, lhe valeria o epíteto de “casamenteira”. Ele tinha saído do seminário (implorou ao pai durante um ano que o fosse lá buscar, mas as suas cartas não lhe eram entregues), regressado a Murça e vindo logo para Lisboa, matriculado na Faculdade de Direito. Tinha passado três meses desempregado e alimentado a sandes pagas pelos estudantes de Medicina, um dos quais, de quem conserva a amizade, o inscreveu no curso de Histórico-Filosóficas dizendo-lhe: “Este é o teu curso.” Nesses três meses, “podia ter morrido de fome”, lembra o historiador. Por via de um “truque”, arranjou emprego como escriturário de 2ª classe pago a 1000 escudos por mês — “o que nem dava para o pequeno-almoço”. O ardil a que se refere foi o ter-se dirigido à Junta Autónoma de Estradas e perguntado a um contínuo quem era que mandava ali. Era o Sr. Esteves, de Trás-os-Montes, com quem pediu para falar, apresentando-se como “um conterrâneo”. Este foi sensível à sorte de um jovem da mesma terra que não tinha para comer e instou-o a concorrer ao posto; António ficou em primeiro lugar.

Isaura não vivia melhor. Durante o curso na Escola de Enfermagem Artur Ravara aguentara condições “violentíssimas”, a trabalhar já nos hospitais apenas em troca de comida e dormida, dezenas de raparigas a dormirem “ao molho” num corredor. Uma vez graduada, foi colocada no Hospital dos Capuchos, 12 horas diárias sem ordenado, a pernoitar numa camarata sobrelotada e fardada como uma freira. A cada seis meses, passava um mês inteiro “de vela” (de banco), com uma folga semanal. E não podia casar-se. O abaixo-assinado para corrigir a exploração de que a sua classe era alvo levou-a a conhecer António, em 1952. “Começámos a viver juntos, embora separados. Eu vivia num quarto e ela na enfermaria”, diz ele que, entretanto, se viu forçado a abandonar o emprego porque a PIDE andava no seu encalço. Funcionário do MUD, não tinha casa nem salário certo, dormia aqui e ali, “muitas vezes em casa do [poeta Alexandre] O’Neill”. Umas pseudoeleições no país encorajam o movimento juvenil a abrir uma sede, nos Anjos, e Isaura, convidada a falar sobre a luta das enfermeiras num jantar ali organizado, quis conhecê-la. O companheiro avisa-a para não o fazer, que a sede iria ser “assaltada” pela PIDE. Mas ela vai lá na mesma e acaba presa junto a mais 15 jovens. É o dia 3 de novembro de 1953. “Ainda consegui mastigar a minha intervenção”, engolindo um a um os papéis, mas na mala apanharam-lhe o incriminador convite para o jantar.

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Agora é António quem lê o relato na primeira pessoa da chegada dela a Caxias, a pensar que no dia seguinte a libertariam. “A cela tinha só uma cama de ferro, uma caixa de madeira e um balde para as necessidades. Na manhã seguinte fui despejar o balde e vi que ao longo do corredor havia muitas portas de vidro fumado, de celas, e quando passei por elas vi mãos a acenarem-me. Fiquei muito comovida. Mas na última porta, olhando para cima, vi o retrato de um homem vestido de preto e com uma cara muito branca, que me assustou tanto que deixei cair o balde. O retrato era do Álvaro Cunhal.” Nesse primeiro dia de prisão cometeu a “façanha” de pintar, na casa de banho, com o nitrato de prata, “Viva a paz”. Os interrogatórios oscilavam entre agressões, humilhações, insultos e ameaças que se estendiam a toda a sua família. Pelo meio, conseguiu mandar um bilhete ao companheiro na gabardine branca que levava vestida quando a detiveram e que entregou à irmã numa visita: “Na parte de dentro do forro, ia uma mensagem de amor.” Um dia, relata Isaura pela voz de António, ouviu alguém a cantar numa cela próxima. Era a irmã Hortência, enfiada numa “cela entaipada”, com placas de madeira a tapar a porta e as janelas, presa por lhe apanharem um bilhete onde Isaura anunciava estar a escrever as memórias da enfermagem. “A PIDE fez uma busca para apanhar estes papéis. Fui posta numa cela vazia e queriam que tirasse a minha roupa do corpo, evidentemente que recusei. Fui chamada ao gabinete do diretor para ser revistada por duas apalpadeiras da cadeia do reduto sul, especificamente aos meus órgãos internos, fiquei louca de raiva e ameacei-as com um banco se me tocassem. Disse-lhes a razão da minha prisão, elas não me tocaram. Mas fui punida com 30 dias de cela disciplinar. Apanhei muitos castigos”, escreveu.

De prisão em prisão

Neste ponto, seria de esperar que a história estivesse a chegar ao fim — e a um fim feliz, à desejada vida com António. Porém, essa vida ficou novamente adiada. Porque, antes da libertação de Isaura, começaria a longa e acidentada prisão de António. Ele dispõe-se a contá-la, mas não sem fazer um parêntesis: “Quero dizer que Isaura, na altura, era uma espécie de grande personagem. Esteve internada em dois hospitais, o Santa Marta e o Santa Maria, porque desmaiou várias vezes de fraqueza. Quando a mandaram para o Santa Maria, ia um aparato enorme, carros dos pides à frente e atrás. No hospital estava completamente isolada e ninguém a podia visitar. Houve grandes movimentos cá fora pela libertação dela e das irmãs, de solidariedade pela causa dela, inscrições nas paredes, cartas à PIDE (que estão na Torre do Tombo). Houve um festival da juventude na margem sul com centenas de jovens, onde foi o António Sérgio e a Maria Lamas, e foi representada uma peça de teatro com a vida da Isaura Silva. Todo este movimento ajudou a mantê-la presa, pois a PIDE julgava que ela era um quadro superior do Partido Comunista.”

Em Lisboa, uma tarde, o historiador viu na rua um homem de “mãos muito lavadas e macacão de operário” que lhe pareceu suspeito. Estava habitua­do à vigilância, mas há seis meses que era funcionário do PC e o cerco parecia estreitar-se. No dia seguinte, enquanto se dispunha a almoçar, as brigadas da PIDE entravam na casa da Rua dos Ferreiros, a Santa Catarina, levavam-lhe as coisas e encostavam-no à parede. Lembra-se do grito que deu — “o maior da minha vida” — quando o empurravam pelas escadas do prédio: “Viva a liberdade, viva a democracia, abaixo a PIDE”, disse a plenos pulmões, e muitos dos que lá fora ouviram o termo ‘PIDE’ deram meia volta e retrocederam nos passos, cedendo ao medo. Tinha sido delatado pelo senhorio. “Senti uma tranquilidade infinita. Podiam fazer-me tudo, matar-me, era igual”, diz hoje. Despediu-se “como quem já não volta”. Meteram-no como um saco dentro do carro, rumo à sede da PIDE, mas à noite mandaram-no para o Aljube. Passou lá 180 dias, seis meses, dentro da cela nº 1, “um buraco, cuja largura era a do corpo com um braço estendido e onde havia uma meia luz contínua”. Dava-se um passo à frente e outro atrás. E a cama, presa à parede, descia-se para dormir. “Havia um guarda no corredor a vigiar-nos. Estávamos permanentemente à espera do interrogatório ou da tortura. Para muitos, também para mim, isto era pior do que o espancamento.” Uma greve de fome ainda lhe valeu duas semanas numa cela sem luz.

Depois do Aljube, Borges Coelho foi levado para Caxias. Sabendo que no andar de cima estavam as mulheres, entoou a canção ‘Paloma’, uma espécie de senha que Isaura, se a ouvisse, iria perceber. Ela percebeu. Mas não tardaria a ser libertada, em 1957, no âmbito de uma amnistia decretada por ocasião da visita da Rainha Isabel II a Portugal, mais ou menos na altura em que ele é levado para o Porto, para ser julgado no processo do MUD Juvenil ao lado de outros 51 réus. A consequência do julgamento não foi apenas ter sido condenado à pena máxima, de dois anos e nove meses de prisão. Foi ter visto a sua Isaura que, já em liberdade, mas há um ano desterrada em Portimão, decidiu ir vê-lo ao Porto. Sem dinheiro, ela conseguiu através da irmã acomodação numa casa de família, de cinco pessoas “num quarto dividido ao meio por uma cortina, de um lado dormia-se, do outro cozinhava-se”, como ela deixou escrito no seu diário. Cederam-lhe o quarto, deram-lhe de comer. E, no dia seguinte, levaram-na ao Tribunal. “Havia quatro anos que não nos víamos. As lágrimas corriam-me pela cara abaixo, e de tal forma que um dia o Óscar Lopes, que era um dos réus, disse que nunca tinha visto as lágrimas saltarem assim dos meus olhos, como se fossem cascatas”, relata Isaura. “Eu estava no tribunal separado, isolado, não sei se nos abraçámos ou não. Sei que nos vimos”, diz por sua vez António, que se lembra de se dirigir ao juiz na hora da sentença para lhe dizer que não, não compreendia que fosse condenado por defender a paz e os interesses dos jovens. “Aquilo provocou um escândalo e um homem, um matemático, rompeu o cerco e abraçou-se a mim a soluçar. Eu sentia a barriga dele na minha. Tive de fazer uma força doida para não soluçar com ele.”

Os dois anos e nove meses transformaram-se em cinco. O prolongamento da pena teve a ver com a famosa fuga de Peniche, na qual dez detidos, entre os quais Álvaro Cunhal, se evadiram daquela prisão. Por ter ficado — “não queria voltar a ser funcionário do Partido” —, ele e mais três sofreram graves represálias. A António foi-lhe reservada a ‘estátua’ no Aljube, a tortura na qual o preso ficava de pé até cair e, se adormecesse, acordavam-no a reguadas. Após a fuga, Isaura temeu o pior, não sabia onde ele estava. Localizou-o no Aljube, enviando para lá um lanche, para testar se era ou não entregue — foi. Não a deixavam visitá-lo por não ser parente, pelo que decidiram casar-se. E assim teve início uma nova fase, a da luta por preencherem todos os requisitos e autorizações para o casamento, e de conseguirem que este fosse celebrado na cadeia. Só em 1959 tudo isso foi atingido, e num 3 de janeiro, a Isaura de fato cinzento claro e o António de fato escuro, composto pelo alfaiate da cela ao lado, deram o ‘sim’ perante o funcionário do Registo Civil, as testemunhas — Alexandre O’Neill e Maria Amélia Padez —, e os sogros, vindos de Portimão. Só faltavam os pais dele, que “não se opuseram, mas não foram”. A seguir, um almoço de duas horas comprado na vila selou o festejo, embora o sogro, “que era de gritos”, tivesse de levantar a voz e ameaçar com sair pela porta fora para que os noivos pudessem sentar-se lado a lado. No fim de tudo, ele voltou para a cela e fez um poema. Ela regressou a casa. Mas já podia visitá-lo. Eram marido e mulher.

A dureza da liberdade

Claro que esta não seria a vida deles se tudo ficasse por aqui. A distância impôs-se por mais dois anos, com ele a acabar a pena em Peniche e ela a tentar recomeçar em Lisboa. Viam-se a cada 15 dias, e isso “deu origem a um rosário de cartas”. Isaura teve de persistir para arranjar trabalho e o primeiro que surgiu foi na Liga de Amigos dos Hospitais, uma clínica privada — o sector público estava-lhe vedado — onde ninguém sabia nada do seu passado. O médico cirurgião, que segundo ela era bom quando estava embriagado, nomeou-a, em apenas seis meses, responsável pela área cirúrgica. Mas uma troca de palavras com outro médico simpatizante do regime acabou com as boas graças, e Isaura foi expulsa e proibida de entrar na clínica. “Dois anos mais tarde, a irmã foi ali operada e não a deixaram entrar. Imagine como é que eram!”, acrescenta Borges Coelho. A mulher pediu então uma entrevista com o Prof. Pulido Valente, a quem visitou no seu consultório, “uma sala imponente” com um senhor de “cabeleira solta, quase branca” à sua espera. Falou-lhe logo da situação de ex-presa política, e o médico disponibilizou-se para a ajudar. Um dia depois, recebeu um recado do Dr. Pedro Monjardino, genro de Pulido Valente, a convidá-la para trabalhar na clínica Pro-Mater — que iniciou o parto sem dor no país —, situada na Avenida da República. Ali ficaria por dez anos. E ali estava quando, em 20 de maio de 1962, seis anos e meio após ter sido apanhado, o marido saiu da prisão.

“Hoje vai ser libertado.” O guarda teve de repetir a frase três vezes até António realmente a ouvir. Iam deixá-lo sair, mas queriam que lá deixasse tudo o que escrevera, os apontamentos de anos de estudo e reflexão. Ele vincou o pé, negou-se: “Então eu também não vou. Arranjem um novo processo.” Por fim cederam e ele encaminhou-se com duas malas para a saída da cadeia de Peniche. Os guardas da PIDE estavam à porta, e devem ter ficado surpreendidos quando, após a atravessar, uma mulher que por ali passava se aproximou dele e lhe deu um abraço. “Fiquei transtornado, comovidíssimo. Tinha tonturas, não estava habituado à liberdade, vinha de cinco anos metido numa cela”, diz Borges Coelho. Apanhou a camioneta, tinha de ver a Isaura, lembrou-se do café na Rua Duque de Ávila onde ela costumava almoçar, apareceu-lhe de rompante, nem tinha havido tempo de a prevenir. Ela estava lá acompanhada de uma amiga, olharam-se, uma ínfima hesitação fê-lo sair do café, e ela deu um grito, foi atrás. Abraçaram-se. Tinham estado nove anos separados, a manter-se unidos obstinadamente num parêntesis da duração da vida de uma criança, ou de todo o tempo em que Blimunda procurou Baltasar no “Memorial do Convento”, nove anos, nove longos anos.

A certeza de um destino a dois

Instalaram-se numa marquise em casa da irmã de Isaura, e depois numa casa que dava para as traseiras do cemitério de Benfica. Havia uma viagem há muito combinada, uma volta a Portugal que se apressaram a dar, com dinheiro poupado por Isaura. Foram ao Algarve, a terra dela, a Trás-os-Montes, a dele, passaram por Sagres, deram um salto a Espanha. Ele, desempregado, conta que depois teve uns 20 empregos — num deles, ia de porta em porta a perguntar “quantas pastas de dentes” aquela família gastava por mês. Deu explicações de história e de filosofia. E fez traduções. Até que começou a dar aulas num colégio e, logo no primeiro dia, uma brigada da PIDE aguardava-o à porta. “Eu estava proibido de tudo, até de dar aulas. Não tinha direitos políticos.” O segundo colégio que o aceitou tinha nome de poeta, Fernando Pessoa, e aí esteve vários anos, ao ponto de a responsável decidir pedir-lhe o diploma de ensino privado. Ele alertou que era inútil, e de facto foi. “Três meses depois chama-me ao gabinete a chorar, não lho tinham dado. Mas ela disse-me: ‘enquanto eu for diretora, dá as aulas que quiser’.” Assim fez. Com o 1º ano de Histórico-Filosóficas concluído antes de ser preso, matriculou-se no 2º ano. Em 1968 licenciou-se com uma tese sobre Leibniz. Mais tarde iria escolher a Inquisição de Évora como tema de doutoramento.

Ainda foi um dos fundadores de “A Capital”, um jornal “preparado para quando Salazar morresse”. Era um repórter que ainda cumpria a obrigação de se apresentar na PIDE aquando do nascimento da filha Sónia, em 1969, e essa notícia tardia na vida de António e Isaura foi objeto de uma crónica da Isabel da Nóbrega. “Julgávamos que já não iríamos ter filhos, ela engravidou aos 42 anos. Tinha um medo terrível, porque trabalhava com prematuros. Mas veio bem e inteirinha, não houve complicações além de uma cesariana”, frisa ele. O 25 de Abril mudou a ambos as perspetivas. Ele pôde começar a carreira académica, chegando a professor catedrático de História e a presidente do Conselho Pedagógico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, jubilando-se em 1988 — com a última lição dada a 11 de dezembro. Ela concorreu e foi reintegrada na Função Pública, recusando a recontagem dos anos de serviço, pois “não queria privilégios”. De enfermeira-chefe na Maternidade Alfredo da Costa passou a diretora da secção de prematuros, cargo que ocupou até à reforma. Apesar de todos os adiamentos e esperas, viveram as vidas que lhes estavam destinadas. Sabiam, diz António, que iam ficar juntos, que era uma questão de tempo. Há dois anos, em 2019, separaram-se. Isaura tinha 92 e já se debatia com quedas e perda de movimentos. “Mas era muito corajosa, imagine que uma vez teve um tumor e não disse a ninguém, coisa maluca, foi para o IPO sozinha ser operada.” Morreu um 11 de junho, a pouco dias de completar os 93 anos.

“É uma falta muito grande, irreparável”, confessa António, que há dois meses publicou mais um livro de um catálogo que ultrapassa as duas dezenas. Mais um comboio passa, lá fora, a alertar para a hora do almoço, que o historiador tem de respeitar para a diabetes não lhe pregar das suas. Borges Coelho guarda os papéis escritos por Isaura e por si cuidadosamente sublinhados, e abre a porta que dá para a escada do prédio. À saída, a árvore centenária continua a exalar o perfume a que a obriga a primavera, e os carros passam apressados na rua mais concorrida da Parede. Um dia tudo isto foi novo e a árvore estreita, miúda. Um dia, alguém contará a sua história.

O fascismo está de regresso

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 13/10/2025, Revisão da Estátua)


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O fascismo está aí de regresso aos corredores do poder, pela mão sobretudo da aliança que está no governo e dos liberais e cheganos que lhe dão o seu apoio e que infetaram a nossa democracia para a destruir, quais bactérias oportunistas.

 Vemos que os órgãos de comunicação social portugueses já estão quase completamente controlados pelos mafiosos e proto nazis e, por exemplo, na RTP, os últimos resquícios de independência estão a ser escovados pelos fascistas que agora a dirigem.

O chamado serviço público, pago por todos nós contribuintes, está agora subserviente a todo o espectro da direita, desde o centro até à extrema-direita, enquanto só o centro-esquerda ainda é marginalmente tolerado. E assim, estão a ser afastadas as raríssimas vozes independentes que ainda têm presença na comunicação social, e Raquel Varela era uma das últimas,

É o triunfo dos porcos, anunciado por Orwell, a que todos os portugueses decentes, na sua pluralidade e diversidade, têm que se opor firmemente.

Estes afastamentos são uma evidência da crescente censura que as direitas, sem precisar do lápis azul, estão a exercer sem qualquer pudor em consonância com o populismo fascista.

Populismo esse que está a inundar o dito “Ocidente alargado“, estimulado pela inevitável crise económica das “democracias liberais”, para as quais as palavras democracia e liberal são exclusivamente uma fachada, para permitir uma ainda mais despudorada exploração dos povos, pelos grandes grupos económicos.

Até já

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 11/10/2025)


Como é público, a nova Direção de Informação da RTP decidiu não continuar a contar comigo nos programas de debate semanal. Quero, ao final destes 11 anos, deixar aqui algumas notas que serão, espero, sinceras e delicadas.

Quero agradecer a quem me convidou, a quem esteve na organização e na produção, dos jornalistas aos técnicos de som, imagem, produção, realização, maquilhagem, cabeleireiro, um trabalho imenso e essencial. Fui acarinhada por tantos. 

Quero agradecer aos amigos, colegas, camaradas (gosto desta palavra) com quem discuti semanalmente os temas, e a muitas outras dezenas de pessoas a quem, consoante os assuntos, telefonei, com quem me reuni para aprofundar saberes que nenhum indivíduo sozinho domina. 

Vivi anos em países “nórdicos” onde a sinceridade não é vista como má educação. São países mais adultos e com uma esfera pública mais desenvolvida. Em Portugal, o desacordo frontal é mal visto (a não ser nos programas sobre futebol) e rapidamente se passa de debater ideias a acusar e insultar pessoas. Em suma, as pessoas fogem ao debate porque acham que assim evitam conflitos ou porque assim fomos habituados à força por décadas de ditadura. Mas o que acontece é que a violência verbal, a desconfiança, a coscuvilhice se instalam nessa ausência de debatermos frontalmente as divergências. 

A minha saída do comentário semanal da RTP não se deve certamente a audiências, já que em todos os programas onde estive elas subiram. Há, porém, muitos programas sem grandes audiências que são excelentes, outros com grandes audiências que são uma desgraça para o nível geral de educação do país (desqualificam-no e embrutecem-no) e alguns com boas audiências que são bons ou excelentes. Saio por uma escolha política – todas as escolhas são políticas, e devemos falar abertamente delas.

Há um quadro de mudança política no país. Está no poder um Governo da AD, com o apoio da IL, com influência crescente do partido fascista Chega. Há uma situação mundial de degradação do modo de vida e do debate de ideias. O Presidente dos EUA comunica por tweets e memes, e disse querer transformar Gaza num resort. Por cá, o presidente do Chega lidera uma organização racista que usa a mentira como arma política de eleição, e a internet está cheia de perfis falsos que reproduzem a propaganda do Chega. A União Europeia corta o orçamento para a saúde, para a educação, para a agricultura para produzir drones carros e aviões de combate, munições para matar, amputar e dizimar o género humano, a primeira pátria a que pertenço.

Pautei-me todos estes anos por uma defesa intransigente da liberdade de expressão.  Mesmo contra um centro-esquerda capitulador, moralista e descafeinado. Aquilo a que hoje se assiste é, porém, de enorme gravidade. Tenho vinte anos de carreira como historiadora e professora. Se afirmo que o Chega é fascista não é para produzir efeito mediático. Sou cuidadosa com os conceitos. Estamos a viver a legitimação do irracionalismo, do culto do Estado, da punição, da violência verbal (e física) contra os percebidos como mais fracos e da mentira como “opinião”. Que o Estado tenha legalizado isto é uma coisa, que eu como historiadora o aceitasse seria uma rutura ética com o meu trabalho. 

A minha saída de comentadora da RTP fragiliza ainda mais a esfera pública. Não por mim, pois ninguém é insubstituível. Mas porque as vozes como a minha não representam mais uma “opinião”. Reflectem um modo de pensar a sociedade em que vivemos, com demonstração de argumentos e critério de verdade – errando, também  -, que  discorda abertamente dos grandes mantras da opinião publicada: a inevitabilidade do capitalismo, e da guerra, a naturalização do sofrimento e assédio contra quem trabalha. Defendi a Democracia sem adjetivos, que só pode ser de base, participativa, e a auto-organização dos cidadãos, plenos no uso da Razão, independente do Estado. 

A voz pública é uma necessidade. Deve ser séria e diversa. É-o cada vez menos. E é isso que tem levado, também, à quebra de audiências – a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos, da mesma falta de imaginação ou de vontade para repensar a sociedade. O que produzimos? Para quem produzimos? Como produzimos? Estas questões, que são centrais para a humanidade, quase nunca são feitas, fagocitadas por uma comunicação ligeira e ideologicamente homogénea.

Estive, por vezes sozinha como comentadora, ao lado das primeiras greves dos estivadores, da greve cirúrgica dos enfermeiros, da paralisação dos camionistas e da greve dos trabalhadores da AutoEuropa contra o trabalho ao domingo, todos alvo de campanhas mediáticas que pareciam verdades indiscutíveis na altura e mentiras descaradas dias depois. E estive, com poucos mais comentadores, ao lado das greves dos professores, médicos, maquinistas, transportes em geral, sustentando o que para mim é óbvio – se há alguém capaz de parar esta deriva para a guerra e para a morte são os trabalhadores organizados.  

Nos últimos anos, nunca saí de casa sem que viessem ter comigo pessoas para falar, agradecer, apoiar, conversar. Recebi carinho e afeto, abraços, nos cafés, nos aviões, nas filas de serviços apinhados, nas escolas, entre as empregadas de limpeza de jardins e trabalhadores da ferrovia, motoristas e professores, enfermeiros e médicos. Tudo isso me ajudou a conhecer um país decente, que existe, embora muitas vezes sem voz. Muito obrigado a todas e a cada uma dessas pessoas. Ajudaram-me muito a crescer e a ter força para continuar.

Há um Portugal sentado e outro de pé. O de pé é quem vive do trabalho, e que todos os dias assegura a produção e a reprodução da nossa vida. É nesse país, dos que trabalham, que me revejo e ao qual procurei dar voz. Se fui um pouco voz desse Portugal ignorado, valeu a pena.

Continuarei a fazer ouvir a minha voz e ideias, a defender os trabalhadores e os seus direitos, a dar aulas públicas e conferências, cursos, documentários, livros, a lutar por um outro país assente no bem comum, na igualdade real, na democracia do povo e na liberdade. 

Até breve.

Fonte aqui

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