Kaputt

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/04/2022)

(Começo por dar os meus rasgados elogios ao Carlos Matos Gomes. Pelas lúcidas análises que tem produzido sobre a guerra na Ucrânia e que aqui temos publicado. Ainda há quem consiga sair do Matrix em que está transformado o espaço da opinião pública e publicada. A turba quer calar as vozes que discordam da narrativa dominante. A fé inquisitorial quer queimar os heterodoxos. Bem haja, Carlos Matos Gomes.

Estátua de Sal, 09/04/2022)


Kaputt é uma palavra alemã que significa acabado, destroçado. Kaputt foi o título escolhido por Curzio Malaparte, o pseudónimo de um italiano filho de uma italiana e de um alemão, para uma das suas obras. Nela o jornalista escritor descreve a sua passagem pelos campos de batalha da II Guerra Mundial e transmite o estado geral de uma Europa em guerra e em ruínas materiais e de valores.

Porque julgo estarem os dirigentes europeus a chamar por uma terceira, interessei-me por revisitar essa memória escrita das atrocidades então cometidas.

Parece-me que os dirigentes europeus e uma parte significativa dos que aqui vivem esqueceram ou ignoram, ou desprezam esses horrores e estão esgazeados e eufóricos a promover a sua repetição. Entendo que devemos lembrar esse período em que a Europa também passava por uma crise de enormes proporções.

O livro Kaputt expressa, entre várias abordagens, uma forma de relatar um conflito. Como é apresentado um conflito aos leitores, aos espetadores, aos cidadãos?

Ao contrário da abordagem dos atuais repórteres, centrados na criação de emoções e engajados numa dada catequização, em Kaputt não encontramos uma descrição exaustiva dos acontecimentos bélicos, o que hoje um vulgar videojogo faz com mais realismo do que uma reportagem.

Mais do que dar a conhecer o campo de batalha, o cenário, Curzio Malaparte tem como principal propósito dar a conhecer o comportamento dos envolvidos direta ou indiretamente no conflito, políticos, militares, prisioneiros, as suas motivações, o que se encontra a montante das paisagens devastadas e dos rostos dos sofredores.

Em Kaputt o campo de batalha funcionava como um tabuleiro de xadrez onde as peças se movimentavam. Eram esses movimentos que interessavam a Malaparte perceber e transmitir e não o de provocar adesões a uma narrativa. Nas narrativas de hoje, nas televisões, o campo de batalha é apresentado como um gerador de reações descontextualizadas: Vítimas e carrascos. Bons e Maus.

Curzio Malaparte abre a obra contextualizando-a no espaço e no tempo. Em 1941, quando se iniciou a ofensiva alemã contra as tropas ucranianas, Malaparte foi enviado para a frente ucraniana como correspondente de guerra do jornal italiano Corriere della Sera. É neste ambiente que Curzio Malaparte vai iniciar a escrita de Il Volga nasce in Europa. Hoje os manipuladores falsificam a geografia: a Ucrânia é Europa, a Rússia não!

Nas palavras da escritora canadiana Margareth Atwood, Kaputt trás à superfície “manifestações de fanatismo ideológico, racismo e de ódio à vida. Valores distorcidos, mascarados de pureza espiritual nos seus aspetos mais íntimos e vergonhosos.”

Hoje a guerra está de novo na mesma região da Europa, com os seus atores praticando as mesmas atrocidades, numa disputa por espaço e poder económico e apresentando o fanatismo ideológico, o racismo como valores defensáveis, porque são os dos “nossos servos”, os do regime de Zelenski.

O que está a acontecer na Ucrânia já não é, se alguma vez foi, uma guerra entre russos e ucranianos, como pretendem os manipuladores de opiniões que nós, os clientes da sua informação, acreditemos, mas um confronto maior entre a Grande Rússia e a aliança EUA/NATO .

Infelizmente, em minha opinião, não existe hoje nenhum escritor ou jornalista ocidental que ouse sair das verdades oficiais: uma invasão da pacífica Ucrânia, súbita, sem causa nem razão da Rússia e a defesa tenaz de um regime democrático, de liberdade e respeito pelos direitos humanos chefiado pelo heroico Zelenski!

Não haverá um Curzio Malaparte que escreva um Kaputt desta guerra para expor as raízes do Mal.

Hoje Curzio Malaparte seria acusado hoje de comunista, agente da KGB e, no mínimo, de contaminado pelas ideias de Marx e Lenin. Seria nazi, putinista, ou comunista. Palavras vazias hoje usadas para desqualificar quem não defenda que a Ucrânia de Zelenski deve ser livre de servir de base nuclear contra a Rússia, de eliminar as minorias russas e de os seus oligarcas substituírem os oligarcas russos e fazerem os negócios com os oligarcas americanos.

Acreditei que relendo Kaputt poderia compreender o intencional caos que foi promovido no Leste europeu, apesar de o mundo ser outro. Análises e diatribes proliferam nas redes sociais, alimentadas pela volumosa e desproporcional cobertura dos jornais e Tvs, que ampliam e distorcem os fatos de acordo com a verdade oficial. Sabemos que a primeira-dama Olena Zelenska ofereceu um chá a Ursula Van Den Leyen após esta ter visitado os massacres de Bucha., mas não sabemos quem provocou o massacre de Bucha, nem se ele ocorreu, nem em que circunstâncias.

A cobertura dos jornalistas de hoje, funcionários das máquinas de produção ideológica, tornou-se cansativamente alarmista, provinciana e tendenciosa. Tudo são «Breaking News». Em Portugal recebemos formatação da CNN de Queluz e da Sky News de Paço de Arcos. Os novos Curzio Malaparte indígenas são o Milhazes e o Rogeiro, o Portas, uns e umas doutorados/as avulso!

A informação é naturalmente tendenciosa, dentro do padrão estabelecido desde a guerra fria que dividiu o planeta numa parte ocidental, cristã e democrática, agora com a cooptação da Ucrânia e numa parte oriental, formada por países comunistas, ateus e ditatoriais, onde se encontra a Rússia, e China. Bons e Maus.

Em Kaputt há o desfile de um verdadeiro museu de horrores, mas Curzio Malaparte não só testemunhou os escombros e os destroços, “com nuvens de moscas gordas e preguiçosas, de asas douradas, zunindo sobre cadáveres e ruínas”, ele seguiu os tanques através da Polônia, Romênia, Finlândia, Alemanha, a antiga Iugoslávia, Rússia e Ucrânia e assistiu às execuções. Estas não lhe foram apresentadas com os mortos já prontos a serem fotografados.

Quando Malaparte se encontrava na Ucrânia assistiu a uma execução de prisioneiros pelos soldados alemães. Descreveu-a: «Quando os Judeus começaram a rarear, começaram a enforcar os camponeses. Penduravam-nos pelo pescoço ou pelos pés nos ramos das árvores, nas pracetas das aldeias, em redor do pedestal vazio onde, alguns dias antes, se elevava a estátua de gesso de Lenine ou de Estaline, penduravam-nos ao lado dos corpos dos judeus desbotados pela chuva, os quais oscilavam no céu negro há dias e dias, perto dos cães dos judeus pendurados no mesmo ramo dos donos. — Ah, cães judeus! Die judischen Hunde! — diziam, ao passar, os soldados alemães.» (p.255)

«Em seguida voltou-se para o grupo da direita, o dos aprovados, olhando para os camaradas com ar trocista, voltou a contá-los rapidamente, disse “trinta e um”, fez sinal com a mão ao pelotão de SS que esperava ao fundo do pátio e depois ordenou: — Meia volta, em frente, marche! — Os prisioneiros deram meia volta e puseram-se em marcha batendo com os pés na lama: quando ficaram de face voltada para o muro de vedação do pátio, o Feldwebel ordenou: — Halt! — E, voltando-se para os SS, mandou: Fogo!»

A atmosfera carregada de atrocidades, sangue e morte acompanha passo a passo o leitor. Diferente do que ocorre hoje nas ruas das cidades ucranianas invadidas pelos russos, onde os dirigentes ucranianos, após as retiradas, servem os massacres já prontos a serem filmados aos jornalistas amigos.

Curzio Malaparte transitou entre as tropas germânicas e russas, cobriu batalhas, frequentou salões burgueses onde oficiais nazis, diplomatas e altos funcionários se embebedavam juntos com colaboracionistas, na comemoração das suas vitórias. Passou por cidades e vilas arrasadas, presenciou a fome, o terror e a degradação da população. O seu biógrafo definiu-o como um “anarquista de direita, ou anarco-fascista”. Podia ser qualquer coisa, menos um homem de esquerda, mas deixou a lição da dúvida sobre as realidades montadas na guerra e não se resignou a ser um mero propagandista de uma das partes.

Esta guerra não terá como memória o seu Kaputt. Talvez um videojogo com a vitória garantida do vendedor da consola.


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O que há de novo nesta guerra?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/04/2022)

Todas as guerras começam onde a última acabou. Esta invasão da Ucrânia começou com a implosão da URSS e a sua redução a uma potência militarmente vencível e estrategicamente dominável pelos Estados Unidos.

Esta guerra começou quando os Estados Unidos entenderam que chegara a ocasião de fechar o cerco à Rússia e fazer da Ucrânia a sua base avançada no centro da Europa, o mesmo papel que atribuíram a Israel a Sul e aos estados bálticos a norte (agora estendido à Finlândia e à Suécia com uma rápida integração na NATO, a sua aliança militar para a Europa).

A Rússia respondeu com uma ação militar clássica e convencional de objetivos limitados. Uma invasão por 3 eixos, um dirigido do Norte à capital, Kiev, outro no Leste para integrar os territórios fronteiriços e um a Sul para dominar os mares de Azov e Negro.

Até aqui tudo como nos livros da última guerra. Como aconteceu na I Grande Guerra que se previa ser de curta duração, com introdução de um novo fator, a metralhadora, os planos deixaram de ser válidos, as tropas fixaram-se no terreno, em trincheiras. Na II Guerra Mundial o fator novo foi uma má avaliação alemã das capacidades da conjugação de blindados e aviação na planície europeia, que inclui a Ucrânia, e alterou os planos alemães de conquistar a Rússia. Também nesta presente guerra da Ucrânia surgiram fatores novos que a transformaram numa guerra de novo tipo, de resultados imprevisíveis, exceto o de que os povos sofrerão mais e empobrecerão e os ricos enriquecerão.

Os dois fatores novos desta guerra são a centralidade da ação de manipulação de opinião, de propaganda e de conquista de adesão das opiniões públicas “ocidentais” cultural e ideologicamente dependentes dos Estados Unidos e a utilização da guerra económica e financeira através de sanções económicas, do sistema bancário e do embargo comercial.

Nesta guerra tudo é comum a outras guerras, as devastações, os mortos, os crimes, a barbárie, o horror, o sofrimento, os refugiados, a ausência de respeito pelos direitos individuais e coletivos. São elementos comuns a todas as guerras. De novo existe o aproveitamento on line e em tempo real do sofrimento para provocar emoções que justifiquem as medidas que irão provocar mais devastações, de modo a obter os resultados pretendidos pelos Estados Unidos (a potencia incentivadora e que mais tem a ganhar) e que são três: a manutenção do dólar como moeda dominante no sistema financeiro e económico mundial; o enfraquecimento da Rússia (demonstrando que é vencível); e a fixação da Rússia na frente ocidental para não poder apoiar a China, na próxima fase do conflito, a desenrolar no Pacífico.

O perigo da utilização das duas “novidades” nesta guerra são o seu prolongamento e o de ela terminar com uma ação de tudo ou nada, uma solução final com utilização de armas nucleares se a Rússia se sentir encurralada. E existe uma razoável possibilidade que isso aconteça.

Em primeiro lugar a Rússia tinha à partida perdido a batalha da propaganda. A indústria do infoentretainment americana movimenta mais dinheiro do que a do armamento, determinou o modelo civilizacional a nível planetário, dos hambúrgueres aos jeans, da música ao desporto, do cinema às televisões, dos videojogos aos espetáculos virtuais, da publicidade à literatura. A II Guerra Mundial foi já um espetáculo mundial de grande êxito dominado pelos Estados Unidos. A Rússia perdeu a guerra da propaganda à partida, há hoje no Ocidente um pensamento totalitário sobre a definição dos Bons e dos Maus, resta pois, em segundo lugar, a guerra económica.

Até que ponto as sanções afetarão as capacidades militares da Rússia atingir os seus objetivos por meios convencionais?

Para a Rússia os seus objetivos são o controlo da zona Leste da Ucrânia, os acessos aos mares do Sul, impor a neutralidade militar da Ucrânia para não ter uma base de mísseis inimigos à porta.

A estratégia dos Estados Unidos tem sido a de armar e militarizar a Ucrânia, o que terá como consequência a instauração de um estado de guerra permanente na Ucrânia com ataques ucranianos aos territórios ocupados pela Rússia. Será uma excelente oportunidade para a venda de armas, de serviços militares privados, para a venda de petróleo e gás americano, e também de cereais e ainda para as empresas de construção civil americanas contratadas para a reconstrução.

O perigo desta estratégia para os EUA é o do estabelecimento de uma nova ordem económica mundial já não dominada pelo dólar, um sistema financeiro à margem dos antigos acordos de Bretton Woods, de 1944, que estabeleceram as regras para o sistema monetário internacional e criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

Sendo assim, o apelo às armas de Zelenski (que ele fará na videoconferência na Assembleia da República como já fez 20 vezes noutros parlamentos — sendo o convite para a repetição e sinal de má audição ou de fraca compreensão dos deputados portugueses) e a resposta de Sim, contra os russos marchar, da administração Biden, resultará, na melhor das hipóteses, numa guerra prolongada paga com impostos dos europeus (e inflação) e com os lucros a reverterem para os Estados Unidos; numa alteração da atual ordem financeira mundial, com custos para os europeus, pois o Euro não contará no novo sistema, será um dólar de segunda, como a libra.

Na pior das hipóteses e como resultado da lucrativa fúria armamentista ocidental despejada sobre o grupo de oligarcas de que Zelenski é o rosto angélico, em nome do direito dos povos à sua liberdade e independência (claro e sempre), poderemos sofrer uma experiência final de um conflito nuclear na Europa, depois de uma agonia de empobrecimento resultante de inflação, depressão económica, desinvestimento, despesas militares.

Os líderes europeus já explicaram aos europeus estas possibilidades? Meras possibilidades, é evidente!

Por fim, assumindo o labéu de putinista: Que Ucrânia existirá durante a guerra, que Ucrânia restará depois da guerra? Que Europa e que Rússia sairão depois deste conflito e das amputações e cortes que ela já provocou? E se daqui a 4 anos os EUA elegerem um novo Trump com outras prioridades, voltado para a política interna e os gravíssimos constrangimentos que a sociedade dos EUA sofre, do racismo e etnicidade, à pobreza e à dívida?


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Consequências da Guerra (2)

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/03/2022)

Esta invasão e esta guerra destruíram o precário e periclitante equilíbrio de forças em que o mundo tinha vivido desde o fim da Guerra Fria e da implosão da URSS. Esta é a sua primeira consequência.

As discussões sobre uma (mais uma)”nova ordem mundial” destes últimos anos costumavam girar à volta de duas visões alternativas: Para uns deveria assentar num acordo entre as 3 principais potências (EUA, Rússia e China) capaz de impulsionar a cooperação multilateral. Para outros, aquela ordem deveria resultar do estabelecimento de esferas de influência que, uma vez respeitadas, constituiriam a forma mais segura e eficaz de estabelecer a paz no mundo, ou uma situação de conflito adormecido.

Esta invasão revelou a escolha das oligarquias das 3 superpotências e do anexo que é a União Europeia.

Como tem acontecido com frequência ao longo da história um acontecimento imprevisto ou de consequências mal calculadas provocou uma rutura e desencadeou um confronto. O que estava em jogo desde o fim da URSS e da emergência da China como superpotência militar e económica era e é dividir o mundo, não em três fatias, mas mantê-lo na lógica bipolar do duelo. Desde os anos 90 do século passado que se trava a guerra insidiosa de eliminar um dos competidores, neste caso a Rússia, para que os dois outros, os EUA e a China, se possam defrontar num duelo que segue o argumento dos filmes de gangues mafiosos, ou de cena final de filme de cowboys. A Rússia não aceitou servir de cordeiro sacrificado e desencadeou uma guerra por antecipação. Escolheu o tempo que considerou ser-lhe mais favorável para combater, já que o lugar, a Ucrânia fora escolhido pelo adversário, os EUA.

O que está em jogo nesta invasão pode ser interpretado como o primeiro ato de uma manobra de conquista de poder — militar e económico — para estabelecer uma posição de domínio numa «Nova Ordem Mundial». O que está em causa é a distribuição do poder entre oligarquias reunidas à volta de 3 vértices e em 3 zonas de concentração de interesses.

Independentemente do resultado das operações militares, da maior ou menor destruição, dos futuros estatutos territoriais, das lideranças políticas, uma coisa é certa: a Ucrânia passou à condição de ferida aberta no coração da Europa. Uma ferida que ninguém saberá quando sarará, e se sarará!

O resultado já visível das decisões tomadas pelos dirigentes políticos americanos e europeus tiveram como consequência dividir o mundo em dois blocos, um constituído pelos EUA e os seus satélites da NATO, mais a Austrália, o “velho Ocidente”, e outro constituído pela Rússia, a China e porventura a Índia.

Esta guerra expulsou a Rússia da Europa! Expulsou-a militar, política, científica e até civilizacionalmente. Veja-se o corte de relações de organização universitárias e de investigação europeias e americanas com congéneres russas, de cancelamento de encontros científicos e culturais, de proibição de concertos de música ou de bailado, de colóquios sobre literatura. Tolstoi passou a ser asiático, assim como Tchaikovski! A presidente da Comissão Europeia afirmou com a energia que se lhe conhece e com a alegria vivaça de uma missionária que a Ucrânia de Zelenski fazia parte da família europeia. A Rússia não! Uma das consequências desta guerra foi uma amputação histórica, já que a geográfica era impossível de materializar, a não ser com um Muro. Mais um!

A divisão do mundo resultante da expulsão da Rússia da Europa, com a criação de dois blocos gerará um mais conjunto de fronteiras e barreiras. As sanções económicas americanas à Rússia provocarão a mais rápida criação de uma moeda de troca internacional alternativa do dólar, constituída pelo rublo, o yuan e a rupia. Os europeus pagarão mais caro as emissões de dólares pelos EUA. As sanções tecnológicas conduzirão a sistemas de transmissão de dados alternativos à Internet e tendencialmente incompatíveis, o que obrigará a redundâncias e aos respetivos custos. A cooperação na área do ambiente, dos mares, do espaço, da saúde será reduzida e desenvolvida por cada um dos blocos, segundo os seus interesses. O comércio mundial entre os dois blocos será limitado e controlado, mesmo que a China procure atenuar os efeitos. Esta guerra apresentada como um conflito de sociedades livres e solidárias contra sociedades agressivas e egoístas terá como efeito reduzir a solidariedade internacional e a cooperação: os refugiados de todo o mundo, as vítimas de guerras e calamidades serão ainda mais abandonados. As Nações Unidas e as suas Agências serão ainda mais desprezadas, da ACNUR à UNICEF, da UNESCO à OMS. A cooperação nas várias áreas da investigação científica será restringida ao interior do respetivo bloco. Deixaremos de ser cidadãos do mundo. Seremos regionalizados, racializados, bloqueados. Seremos todos o «outro» em metade do mundo!

E a União Europeia? Trauteia!

Percebe-se com clareza a estratégia e os objetivos dos Estados Unidos, da Rússia e a China. Percebe-se até o papel de atores secundários, da Turquia, do Irão, de Israel, na fronteira do conflito. O que de todo não se percebe é o papel da União Europeia, no centro do conflito, teatro de operações, base de ataque, base logística, base de recolha de refugiados!

Os europeus vão sofrer com inflação, desvio de verbas destinadas à melhoria das condições de vida, dos serviços de saúde, de educação, de segurança social — que serão privatizados porque não haverá recursos para eles -, de defesa do ambiente, de transição energética, para transferir verbas para um estupido rearmamento, e estúpido porque inútil, apenas lucrativo para os negociantes de armamento, as empresas do complexo militar-industrial americano.

Os europeus vão sofrer uma violenta degradação do seu emprego, em particular do emprego qualificado e bem pago. As indústrias que produzem bens e serviços de alto valor acrescentado serão americanas. O aeroespacial será americano. A Airbus, por exemplo, será inviabilizada em favor da Boeing, como aconteceu com a Embraer brasileira, a EADS (Eurospace, Aeronautical and Defense Systems) que agrega a indústria aeronáutica e aeroespacial europeia e inclui entre outras grandes empresas a Airbus, a Eurocopter, a Rolls-Royce –Turbomeca (produtores de turbinas que concorrem com a General Electric GE) desaparecerão porque o complexo militar-industrial da muito liberal América não aprecia a concorrência.

Os tão “satisfeitinhos consigo mesmo” dirigentes da União Europeia afirmam sorridentes e efusivos que estão unidos. Se existissem jornalistas e não sacristãos para dizer ámen haveria que lhes perguntar porque estão satisfeitos e o que têm preparado para o futuro.

Esta guerra é também um furúnculo de onde se está a reunir e a purgar o pior que existe na humanidade, e na Europa, em particular. Os grupos neonazis que integram as forças da Rússia e da Ucrânia, o Wagner Group, o Russian Imperial Movement (RIM), uma organização paramilitar supremacista branca russa compete no mesmo plano com o conhecido Regimento Azov da Ucrânia, mas na retaguarda destes estão outros movimentos totalitários irmãos, nacionalistas, supremacistas instalados no topo do poder político de estados da União Europeia na Polónia, um estado teocrático e racista, na Hungria, na Roménia, na Eslováquia, nos países bálticos.

Não é pois a defesa de valores e princípios resultantes do liberalismo e da Revolução Francesa, de Justiça, Igualdade e Solidariedade que a União Europeia está a defender com a sua política relativamente à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Também não é a obtenção de vantagens económicas: os europeus vão empobrecer com as suas opções e pagar mais pelos produtos essenciais. Nem sequer com desgraça União Europeia lucrará: a reconstrução da Ucrânia será feita por empresas chinesas, e serão chineses os trabalhadores, não os refugiados da Europa.

Se não existem razões de ética, de princípios que justifiquem a opção da UE, se não existem vantagens económicas, se não há questões de segurança, a pergunta que se faz ao ver os sorrisos abertos dos dirigentes europeus é a mesma que se faz às hienas: de que se riem as hienas?

Que objetivos propõem os dirigentes europeus para a Europa neste conflito, porque deles depende o futuro dos povos europeus para o próximo longo futuro?

Independentemente da opinião que cada um de nós possa ter sobre a UE, ela existe, nós fazemos parte dela. Sem ela cada Estado seria ainda mais irrelevante do que o conjunto já é e parece aceitar ser, mas com ela neste estado e com este naipe de dirigentes estamos, enquanto europeus e nacionais dos Estados Europeus, na mesma posição em que os Estados Unidos colocaram Zelenski, o seu homem, na posição dos entalados. Em Portugal temos a figura de Martim Moniz.

O que se ouve dos dirigentes da UE é um discurso absurdo, paradoxal: solidariedade com os refugiados!

Mas como se materializa a solidariedade, tomando a situação da Ucrânia como de irreversível domínio russo e de inultrapassável animosidade com a Rússia, dado que a União cortou todas as pontes? Receber os refugiados temporariamente para os reenviar de regresso? Mas que novo poder estará em Kiev para os receber? E com quem negociará a UE, se atirou a Rússia para a Ásia, ao cortar relações políticas, económicas, financeiras, culturais, até universitárias, se atirou a Rússia para a órbita da China, que cobrará o seu apoio.

A outra parte do discurso dos dirigentes da UE é ainda mais irracional: o discurso do rearmamento da UE. Esse rearmamento é inútil, estúpido a vários títulos. A Europa vai comprar armas americanas (F35 da Lockheed, para a Alemanha, p.ex), carros de combate, navios, artilharia… uma sofisticada e caríssima parafernália em que todos os dinky toys dependem do GPS americano! Sem os satélites americanos todos estão cegos.

A Europa não tem uma política militar aeroespacial, não dispõe de um sistema de geolocalização, sequer! Também não tem redes de transmissão de dados (internet) e também não tem armas nucleares para dissuasão. Por fim: os Estados Unidos jamais permitirão que a Europa seja uma grande potência militar. Quer apenas uma força auxiliar, não um competidor.

A supremacia política e militar dos Estados Unidos traduzir-se-á numa supremacia económica, com resultados devastadores para o emprego dos europeus e para a sua qualidade de vida. Não só o estado social será substituído pelo estado liberal americano — destruição de serviços públicos e segurança social — mas as grandes companhias de alta tecnologia serão americanas. A Europa aumentará a dependência energética dos EUA assim como a dependência alimentar. O gás russo irá para a China, assim como os seus cereais e os da Ucrânia. Os dirigentes da UE trocaram a dependência diversificada, pela dependência de um só fornecedor!

O que podem fazer os cidadãos europeus neste novo mundo para contrariar esta nova e negra ordem mundial?

Mandatar alguém de boa índole, de fora das cúrias das capitais europeias, sem falsos sorrisos, perguntar a Joe Biden, na sua visita imperial à Europa a 24 de Março, a que preço os Estados Unidos fornecerão gás e cereais à Europa, que lugar terá a UE no programa espacial americano, que liberdade terá a UE para fazer contratos noutra moeda que não seja o dólar, por exemplo. E por fim, perguntar-lhe se, para viver em paz na Europa, os Estados Unidos vão exigir aos europeus, como nos Estados Unidos nos tempos do macarthismo, se serão obrigados a assinar uma declaração anti russa, ou a usar uma estrela vermelha na roupa caso o não façam.


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