(João Gomes, in Facebook, 05/12/2025)

(Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…
O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família”, a qual pode ser assinada aqui
Estátua de Sal, 06-12-2025)
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Diz o povo, com aquele jeito fatalista que o tempo ensinou: “É do tempo da Maria Cachucha.” Querendo dizer velho, gasto, ultrapassado. Mas talvez o povo nunca tenha percebido que a verdadeira Maria Cachucha não era sinal de antiguidade – era sinal de resistência. Uma mulher que dançava para não sucumbir, que rodopiava nos adros como quem enfrenta o mundo com os pés descalços e o coração inteiro.
Hoje, a Maria Cachucha existe, mas já ninguém lhe conhece o nome. Perdeu-se nas vielas, nos prédios devolutos onde o vento entra melhor do que o sol, nas barracas que ainda sobrevivem por entre promessas políticas e fotografias de inaugurações. Não dança mais a cachucha – porque o tempo não lhe dá folga -, mas carrega nos braços o que o mundo insiste em lhe tirar: os filhos.
São as Marias Cachuchas sem sorte deste país. As que aprendem cedo que a pobreza é sempre suspeita, mesmo quando é honesta; que o amor não é suficiente para provar que se é mãe; que o Estado aparece mais depressa para levar uma criança do que para garantir que uma casa tenha teto, água quente ou paredes que não caiam à chuva.
Todas as mulheres que, como a jovem de Gaia, veem a maternidade tratada como um privilégio condicional – “podes ser mãe, mas só se tiveres condições”. Condições que ninguém lhes deu, que ninguém lhes quis dar, que ninguém se apressa a construir. Porque é mais simples retirar um bebé do que erguer uma casa; mais rápido assinar um despacho do que garantir um futuro.
E assim, neste país que se orgulha de ser “avançado”, onde os discursos falam de natalidade como quem fala de números e metas, continuam a existir crianças que nascem nos carros à porta das maternidades fechadas, mães que chegam sozinhas aos hospitais porque os transportes públicos não passam, famílias que vivem em quartos interiores onde a esperança mal cabe.
E quando uma mãe pobre segura o filho nos braços, o mundo olha para ela como se segurasse uma culpa.
As Marias Cachuchas de hoje não são dançarinas de praça. São mulheres de vinte anos com um bebé ao colo e o coração apertado. São avós que defendem filhas e netos com a força que têm e a que já não têm. São mães que, em vez de ensaiar passos de dança, ensaiam justificações perante assistentes sociais: “Sim, o quarto é pequeno… sim, o frigorífico está velho… mas eu amo o meu filho.” Como se o amor fosse prova insuficiente. Como se o amor tivesse de passar no crivo das autoridades. Como se existir fosse um teste permanente que a pobreza desclassifica à partida.
E, no entanto, estas mulheres, silenciosas e invisíveis, continuam a dançar – não com os pés, mas com a coragem. Dançam contra a burocracia, contra a humilhação, contra a estatística. Dançam para manter ao colo aquilo que o mundo lhes tenta arrancar. Dançam porque a maternidade pobre continua a ser vista como erro, quando devia ser vista como pedido de ajuda.
A verdadeira Maria Cachucha, se ainda existisse, teria largado a mantilha e posto as mãos na anca, olhando o país com aquela altivez antiga que a lenda lhe atribui. Teria dito, entre um passo e outro: “Não é nas mães que está o problema – é no país que as deixa cair.”
Hoje, no Natal que se aproxima com luzes caras e palavras doces, convém recordar que nem todas as crianças dormem em lares aquecidos. Convém lembrar que há mães que rezam, não por presentes, mas para que ninguém lhes leve os filhos. Convém não esquecer que, num país que não garante habitação digna, retirar uma criança por pobreza não é proteção – é punição.
E talvez, só talvez, seja tempo de devolver às Marias Cachuchas deste país algo mais do que a memória romântica de uma dançarina. Talvez seja tempo de lhes devolver futuro. E lhes dar condições de habitabilidade. E de lhes devolver os filhos.
Bom dia!
As aleivosias feitas a pobres são terríveis. Já tive a desdita de trabalhar num serviço ligado ao “apoio” a pobres e só posso dizer que o ditado “coitado de quem precisa” é mais que certo.
Bullying sobre inquilinos de habitações sociais era o prato do dia. Assim que alguém arranjava um trabalho a ganhar o ordenado mínimo toma lá com mais de um quarto desse valor em aumento da prestação da casa.
Se fosse mulher entre esse aumento e o ter de enfiar dois ou três filhos num infantário mais valia não arranjar trabalho nenhum porque se depois daqueles pagamento todos lhe sobrassem 100 euros já ia com sorte.
Daí que muita gente preferisse trabalhar no negro ou não trabalhar de todo.
E aí soavam as trombetas todas, malandra, subsídio dependente, e por aí adiante.
Os desempregados eram pressionados a aceitar Planos de Ocupação de Carenciados que os transformavam em varredores de rua ou outros trabalhinhos de corno por conta da autarquia, substituindo trabalhadores que poderiam ser contratados como funcionários públicos efectivos com os direitos correspondentes.
Com esses Planos supostamente criados para ajudar os pobres ficavam excluídos de qualquer benefício como funcionários públicos da estabilidade no emprego ao acesso a ADSE.
Ser pobre também era uma porta mais directa para ser enfiado em estabelecimento psiquiátrico onde se já não há barbaridades como camisas de forças, banhos gelados ou lobotomias há prisões químicas que não devemos desejar a ninguém.
Que ninguém tenha o azar de tratar de um familiar submetido a tal atrocidade a que aqueles trastes que se dizem médicos chamam “medicação”.
Quantos aos motivos pelos quais se tiram crianças a país e maes e se enfiam em instituições muitas vezes eram por coisas tão sórdidas como castigar a família reduzindo ou acabando com o seu acesso ao malfadado Rendimento Mínimo, considerado a fonte de todos os males, a começar pela preguiça.
As famílias numerosas eram as mais visadas. Enfiar dois de quatro filhos de um agregado numa instituição permitia reduzir essa prestação ao mesmo tempo que dava um castigo devastador a quem a tinha pedido.
Mães solteiras eram particularmente visadas.
E todo o jargão “técnico” visava justamente distanciar, desumanizar.
A mãe não era a mãe, era a progenitora.
Eu só pensava “progenitora e a vaca, a vaca que vos pariu”.
E tal como uma mera “progenitora” animal não lhe eram reconhecidos quaisquer direitos. O internamento das crianças em instituições era uma espada sobre a cabeça que nunca se saberia quando poderia cair.
E o pior de tudo era eles saberem e encararem com toda a naturalidade que crianças mais velhas seriam certamente vítimas de abuso sexual em instituições.
Mas valia tudo para castigar os paus por serem malandros e não quererem trabalhar.
Miudos que até tinham boas notas a acabar a escolaridade obrigatória eram pressionados a não continuar os estudos e começar a trabalhar no que aparecesse, muitas vezes precário e mal pago para que a prestação da casa pudesse subir e não terem de continuar a sustentar o malandro com bolsa de estudo ou outro benefício que lhe permitisse continuar a estudar e quebrar o ciclo de dependência e miséria em que tinham sido criados conseguido ser bons alunos apesar disso tudo.
Não sei como não acabei também no manicómio e na prisão química porque muitas vezes me senti a beira de perder a sanidade no meio daquilo tudo.
Quanto a mandarem nos para os países de quem esta canalha moderada não gosta vão ver se o mar da Kraken.
Dizem que devíamos ter dado o Prêmio Nobel da Medicina ao Putin porque acabou com o COVID.
Efectivamente só se fala em COVID assim um bocadinho mas vésperas de mais uma campanha de vacinação para ver se atraem ainda incautos.
Mas as pressões para irmos todos dar reforços daquilo acabaram e as absurdas restrições a nossa vida também.
Também se enterrou a barbaridade de tornar essa coisa obrigatória.
Essa que me enchia de terror em estado puro.
Porque já me via a varrer ruas em Irkutsk ou a limpar cus de velho num hospital em Cuba.
Vi mais perto de mim do que gostaria a possibilidade de ir parar a qualquer um destes lugares para salvar a vida.
Há poucas coisas tão cruéis como verno nos entre a mala e o caixão.
Por isso quando um grunho me manda para a Venezuela ou Cuba ou Rússia vejo me de volta a esse tenebroso ano de 2022 em que o medo puro me deixava a ponto de vomitar.
Hoje vivo no terror que nos aparecam com outra doença, outra vacina, o raio que os parta.
O medo de exílio para salvar a vida nunca me vai abandonar.
Só quero manter a saúde para poder encarar um trabalhinho de corno se um dia acontecer.
Por isso vão ver se o mar da tubarão branco faminto e mandar para Cuba ou Rússia o diabo que os carregue.
Ou então vamos começar a manda los para os Estados Unidos a ver por quanto tempo resistem ao ICE e se não acabam na Alcatraz dos Aligators.
O Governo é “moderado”. O Presidente da República “moderado” é. O da Assembleia da República? Além de “moderado”, é moderador. Os preços da habitação? Segundo o Primeiro Ministro (“moderadíssimo”), são “moderados”. Como pode a guerra no estrangeiro ser a prioridade em relação à melhoria do nível de vida em Portugal? Aumento da qualidade de vida, da qualidade ambiental, melhoria dos serviços do Estado aos cidadãos que tanto contribuem para ele, pagando impostos por tudo e por nada, até tendo que arcar com falências de bancos dados como “estáveis e sólidos” em “informações oficiais”, por entidades públicas e “competentes”, ou recompras de privatizações passadas, que geram lucros privados e públicos prejuízos…
…quem nos manda a nós viver na Pategónia? Não sejamos piegas, se estivermos mal que nos mudemos, e nos vamos para a Venezuela, Cuba, Coreia do Norte ou a Federação Russa. Para a China é que não nos mandam ir, eles já são tantos… não precisam de mais mão de obra barata.
O texto é de grande comoção. Que mais posso dizer? Oh miséria de país!
Veredicto- Culpados de serem pobres. AQUI E EM TODO O MUNDO CAPITALISTA.
Como se pode ver, em capitalismo a habitação ou a saúde não são direitos humanos. O lucro sim. Escreve (1) Eva Ottenberg, jornalista, escritora e ativista social, acerca dos sem abrigo nos EUA:
< excerto de um artigo no FOICEBOOK em Maio de 2023
1 – Texto completo em: A pena de morte para os sem-abrigo – CounterPunch.org
Se a sociedade tivesse vergonha, estaríamos todos corados. Infelizmente os sentimentos coletivos estão, na maioria, padronizados e já não se pensa na responsabilidade que todos temos de se indignar contra estas – e outras situações..