Salazar e a sua obra. Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário) e muito mais

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/10/2025)

Cartoon do saudoso João Abel Manta

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Urge lembrar o Massacre de Batepá (do português coloquial “Bate-Pá!”) atrocidade das tropas coloniais em S. Tomé e Príncipe, a 3 de fevereiro de 1953, em que foram fuzilados talvez mais de mil homens, mulheres e crianças, por motivos laborais e mera crueldade; o de Pidjiguiti, cerca de 50 mortos e 100 feridos, que deu início à luta de libertação da Guiné–Bissau, também por motivos laborais; o de Wiriyamu, na guerra colonial, a 16 de dezembro de 1972, com pelo menos 385 mortos da população civil.

Recordar o que foram as mortes em plena rua das cargas da GNR e da polícia de choque da PSP, é uma obrigação cívica, ainda que os requintes de crueldade e sadismo fossem atingidos pela PIDE nos interrogatórios e nas masmorras, e nos assassínios arbitrários.

Mas hoje é dia de recordar o Tarrafal, esse campo da morte e da tortura onde a brandura dos costumes, alegada pelo ditador vitalício, era a imagem do regime beato e amoral. Para recordar as vítimas do Tarrafal, deixo abaixo um texto já antes publicado.


Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário)

Há 89 anos, outubro era mês e 29 o dia em que, ao Campo de Concentração do Tarrafal, chegaram 152 presos políticos, onde era mais doce a morte do que o Inferno da vida que os torturadores lhes reservavam.

Foram 11 dias de viagem, de Lisboa ao Tarrafal, que a primeira leva de vítimas levou a chegar, grevistas do 18 de janeiro de 1934, na Marinha Grande, e marinheiros dos que participaram na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro desse ano.

O Tarrafal foi demasiado grande no campo da infâmia e do sofrimento para caber num museu. Salazar teve aí, no degredo da ilha de Santiago, Cabo Verde, o seu Auschwitz, à sua dimensão paroquial, ao seu jeito de tartufo e de fascista.

Ali morreram 37 presos políticos desterrados, na «frigideira» ou privados de assistência médica, água, alimentos, e elementares direitos humanos, alvos de sevícias, exumados e trasladados depois do 25 de Abril.

Edmundo Pedro, o último sobrevivente, chegou ali, com 17 anos, na companhia do pai. Como foi possível, tanto sofrimento no silêncio imposto pela ditadura?

E como é possível o esquecimento da democracia? Dói muito, dói pelo sofrimento dos que lutaram contra o fascismo e pelo esquecimento a que os votam os que receberam a democracia numa manhã de Abril com cravos a florirem nos canos das espingardas do MFA.

9 pensamentos sobre “Salazar e a sua obra. Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário) e muito mais

  1. Seis meses. O tempo suficiente para passar muita fome e apanhar muita porrada incluindo três dias enfiado num curro com agua gelada até ao pescoço.
    Se saiu magro que nem prisioneiro palestiniano? Claro que saiu.

  2. E o que e que tem um massacre cometido depois da independência de Angola a ver com o facto de os fascistas portugueses terem construído muitos anos antes um campo de concentração atrás do sol posto para aí meter trabalhadores que faziam greve, entre outros?
    E não haviam em Portugal prisões?
    Havia algum crime que justificasse alguém ser metido num campo de concentração num sítio insalubre, infestado de doenças tropicais e praticamente incompatível com a vida humana? Sendo tratado com crueldade israelita?
    O campo da morte lenta foi construído para causar terror a quem pensasse levantar se contra o regime. E funcionou.
    Alias, o degredo para África foi sempre uma arma utilizada pelos governos portugueses para calar dissidentes.
    Ia se para Angola, Moçambique e até para Timor.
    Terras que eram um terror para qualquer um que tivesse nascido e sido criado na Europa. Pelo clima cruel e pelas doenças.
    Se juntassemos a isso prisão em regime de crueldade extrema, como foi o caso do Tarrafal, claro que o destino de muitos presos era a morte ou sequelas para toda a vida e morte prematura mesmo que viessem a ser libertados.
    O Tarrafal não matou apenas os 37 que morreram entre arame farpado, atrás do sol posto e que só tiveram direito a ter a última morada no seu país após a revolução que ainda está atravessada no goto de saudosistas sem vergonha nenhuma no focinho.
    Matou mais e quando deixaram de mandar para lá portugueses foram os africanos que se começavam a levantar contra os ocupantes estrangeiros que lá foram malhar com as costas.
    E haver gente que justifica tal coisa prova mesmo o que por aí vai de mentalidade podre.
    E preciso ser um podre para defender tal coisa.
    Eu não vivi esses tempo tenebroso e não quero viver nada semelhante ao que ouvi da boca de vítimas anda vivas.
    Porque o Tarrafal não foi a única prisão negra.
    Tive um familiar que passou seus meses no Aljube. O crime? Ter recebido em casa o candidato presidencial Humberto Delgado.
    E se “só” apanhou seis meses foi porque o patrão era um apaniguado do regime mas tinha o coração do lado certo.
    Que se deu ao trabalho de defender o homem junto dos torcionarios garantindo ser o homem, gerente de uma das suas lojas e o seu bagaço direito, integrado na ordem social vigente descontando aquela atitude irrefletida.
    Isso e o facto de o homem ter escondido os livros proibidos no canteiro de flores de uma cunhada um dia antes por perceber pela atitude ostensiva de bufos e presos que em breve seria preso talvez lhe tivesse salvo a vida.
    Porque a casa do homem foi invadida por uma dezenas de agentes da PIDE que partiram móveis e até destruíram os colchões. Foi mais um vandalismo que uma operação de busca e não tivesse a mulher do homem assistido a tudo numa passividade silenciosa, os três filhos já tinham sido recolhidos em casa de familiares para não assistirem aquilo e também teria ido dentro depois de espancada.
    A minha mãe era uma criança quando assistira aquilo e lembrava com terror que assim que os monstros saíram a mulher e outras desataram a chorar e a gemer como se a mulher já estivesse viúva.
    Eram na terra muitos os que desapareciam sem deixar rasto e nunca se sabia se alguém que ia preso voltaria vivo.
    E se a familia não passou fome durante o cativeiro do chefe foi porque o patrão assegurou o ordenado do homem durante a prisão.
    Nunca e demais lembrar estes crimes.
    Nunca e demais mandar ir ver se o mar da tubarão branco faminto aqueles que teem a pouca vergonha de branquear um regime destes e ainda esperar que volte.
    Fascismo nunca mais.

    • Na história da minha família também está a detenção do meu avô paterno, por suspeitas de “subversões comunistas”. Não contou para nada que o seu pai foi alistado no exército português para as frentes da I Guerra Mundial, onde foi capturado e prisioneiro, e provavelmente não poderiam saber que o meu pai seria alistado para a Guiné, onde cumpriu serviço militar obrigatório por 3 anos.
      O que valeu ao meu avô é que provavelmente seria muito mais útil e produtivo solto, trabalhando que num um mouro como mecânico e não só, do que detido e inutilizado durante meses ou anos, num qualquer calabouço a cheirar mofo do regime dos presos políticos, da tortura e do assassinato.
      Daí que ele foi o único que nunca esteve destacado no estrangeiro para uma guerra regimental longíqua, mas esteve no fio da navalha da discricionariedade e da arbitrariedade do Estado Novo, onde vigoravam os “brandos costumes”…
      E mais haveria para dizer sobre tudo isto, mas reservo para outra ocasião, e se entender que é justificado. Para já penso que deixo conteúdo histórico suficiente à prova de qualquer tipo de “revisionismos”…

  3. Na hipótese sugerida pelo CU (candidato único) de “3 Salazares”, a dúvida razoável que me assola é se os “Tarrafais” seriam 3 vezes maiores, ou triplicariam de número… mas isto sou eu a pensar com os meus botões (ou teclas)… provavelmente os “costumes” seriam três vezes mais “brandos”…

  4. Não deixa de ser arrepiante que apenas mais de 50 anos depois disto tudo ainda há quem tenha saudades de Salazar.
    Talvez houvesse menos, pelo menos entre as novas gerações, que em vez de levar os meninos em excursões, chamadas visitas de estudo, a Fátima ou ao Mosteiro da Batalha, se levassem também a Caxias, Aljube ou Peniche.
    Seria traumático para alguns? Paciência.
    O que não foi admissível e que os miúdos que faziam pelo menos o sétimo ano (11 anos a andar a escola) tendo nove ou onze anos de disciplina de História, confirme cursassem Ciências ou Estudos Humanísticos, nunca tivessem ouvido falar dos nossos próprios campos de concentração.
    Quanto aos mais velhos ou fizeram parte da elite privilegiada desse tempo ou teem a memória muito curta padecendo já de Alzheimer.
    Um dia assisti a uma conversa entre dois velhos. Dizia um “nesse tempo havia respeito, podiamos deixar a porta aberta que ninguém entrava para roubar”. Volveu outro ” e o que e que tínhamos nesse tempo para roubar? Eu tinha para ali uma enxerga. Hoje sim tenho em casa alguns coisa que valha a pena e por isso fecho a porta”.
    Um com boa memória e outro talvez já com o alemao a rondar.
    Porque essa da idade de ouro da honestidade e outra treta.
    Havia uma verdadeira doutrina do furto que resultava da miséria.
    Na fábricas de alimentos as mulheres furtavam e até havia apalpadeiras.
    Nas praças e nas feiras ai do vendedor que se descuidasse.
    Ninguém fazia um serviço sem levar um por fora.
    E se alguém já se esqueceu disso tudo se calhar levou vacinas COVID a mais. Ou comeu demasiados hambúrgueres e a doença das vacas loucas atacou em forte.
    Ou então e vontade de voltar aos privilégios de outros tempos.
    Ou então e mesmo ruindade e vontade de lixar a vida a alguem.
    Mas que deviam ir ver se o mar da tubarão branco faminto isso de certeza.

    • Só existe o Salazar e vitimas de horrores terríveis e um pântano onde não chove. Nas libertações é só meninos à volta da fogueira. Quantos e como foram os massacres de Maio de 1977 em Angola na sequência do golpe Nito Alves? No Tarrafal também presos em regime aberto. Candido de Oliveira foi um deles. Por que foi para lá? O Edmundo Pedro quando voltou ainda andou para aí com G3 dum lado para outro.
      Sobre S. Tomé porque não falam do Gorgulho e aprofundam as coisas?

      • E qual vai ser a explicação ou o eufemismo) para justificar o que fizeram ao General Humberto Delgado, por exemplo? O culto do Homem Providencial, tal qual o CU (candidato único) nos dias que correm?

  5. Faltam palavras para descrever o horror desse período negro do nosso percurso como nação. Quem o viveu, como eu e ainda muitos vivos, não se devem cansar de lembrar essa página de puro terror despejado pelo regime, em cima de quem o contestasse, ou de quem fosse acusado de o contestar.
    Um esquecimento coletivo como o que se vai perfilando no horizonte, abrangendo sobretudo por quem não vivenciou esse tempo, acabará por tornar-se num sofrimento coletivo. Repelir essa possibilidade, é tarefa de quem sabe que, os paladinos do anti-regime, que são na verdade os apologistas do antigo regime, aí estão para voltar a perseguir (já o estão a fazer) quem não se deixe manipular pelos falsos profetas. FASCISMO NUNCA MAIS.

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