Mário Soares — o extraordinário político prático

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/12/2024)


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Um provérbio africano ensina que a cabra come onde está amarrada. A transposição desta sabedoria para a grande política tomou o nome de realpolitik. Que é uma outra forma de designar o pragmatismo.

Mário Soares é o exemplar mais sofisticado do político português pragmático, juntamente com Melo Antunes e o processo político português a partir de 25 de Abril de 1974 desenrolou-se subordinado ao pragmatismo, ao anti-idealismo desses dois homens que perceberam onde a “cabra” estava amarrada, onde tinha que comer e viver e da cerca de onde não podia sair. Ou, na afirmação de Gil Vicente na Farsa de Inês Pereira, representada pela primeira vez no Convento de Cristo em Tomar: Antes quero asno que me leve do que cavalo que me derrube.

Ao ver chegar o 25 de Abril de 1974, Mário Soares, que recebera a herança política da República e vivera as tensões da política do Estado Novo na Guerra Civil de Espanha, da tensão entre as fações pró-Aliados e pró-Eixo na Segunda Guerra, os jogos que levaram os Aliados a preferirem manter Salazar e a ditadura no governo em vez do risco de um regime mais ou menos democrático trazer comunistas para a zona do poder, que assistira à troca dos Açores pela entrada na NATO; o apoio dos Estados Unidos pós Kennedy à guerra colonial, não tinha dúvidas que o novo regime e os novos políticos iriam ser sujeitos a um exame de admissão a um clube reservado a sócios credenciados.

Mário Soares formara-se como político no ambiente a Guerra Fria, durante o qual os Estados Unidos se estabeleceram como os únicos validadores da democracia, os senhores do selo de qualidade democrática que garantia o acesso ao clube democrático. Para atestarem a qualidade de democrata fundiram o inimigo real com o inimigo imaginário segundo as conveniências do momento. Suspeita-se dos neutros, não há lugar para terceiros, a quem cumpre hostilizar. Na Europa, depois da Grécia e da Turquia, a intervenção dos Estados Unidos foi sempre muito intensa na Itália, contra o comunismo gramsciano e ocidental de Berlinguer, também em França, contra Georges Marchais, de modo a impedir, no caso da Itália, o compromisso histórico com a Democracia Cristã, o que levou ao assassinato de Aldo Moro, e em França a promoção de Mitterrand a chefe do Partido Socialista francês como partido de governo foi feita à custa do afastamento de todos os adeptos da Frente Popular com o Partido Comunista.

A definição da linha principal de atuação dos Estados Unidos, de que Kissinger será o expoente maior, orientou-se desde o final da Segunda Guerra para a imposição de alinhamentos e punições de heresias. Os líderes políticos europeus que pretenderam ter um papel a desempenhar na “reconstrução europeia” perceberam com toda a clareza — eram pragmáticos — que tinham de abjurar o seu passado antifascista e antinazi. Willy Brandt, que seria chanceler da República Federal Alemã, começou por ser militante do Partido Trabalhador Socialista (SAP), uma formação socialista-esquerdista, combateu na Guerra Civil de Espanha ao lado dos republicanos, anarquistas e comunistas, foi expulso da Alemanha pelo partido nazi, mas como chanceler, ou para ser chanceler, promoveu uma legislação que não permitia a elementos radicais serem funcionários públicos, o que teoricamente que afetaria tanto direitistas como esquerdistas, mas na prática foi aplicado a pessoas consideradas extremistas da esquerda, porque os extremistas de direita são sempre classificados como “moderados”. Teve sempre os Liberais como um partido travão de medidas soberanas nos seus governos.

Todos estes antigos socialistas acabaram por adotar o atlantismo americano e desenvolverem política de liberalismo económico, em aliança estratégica com Margareth Thatcher. No plano das relações externas, todos eles cultivaram um bom relacionamento com os Estados Unidos, seguindo a estratégia destes de utilizarem a Alemanha do conservador Helmut Khol como a sua potência delegada na Europa continental. Em Portugal, Mário Soares seguiu um percurso idêntico desde militante do Partido Comunista a primeiro-ministro pós-revolucionário merecedor da confiança dos Estados Unidos.

A reconstrução política da Europa do pós Segunda Guerra assentou na estratégia do pragmatismo que permitiu concluir que para ser pastor não é necessário ser corajoso contra os lobos, mas merecer a confiança do dono do rebanho.

Mário Soares conseguiu com grande brilhantismo navegar entre o discurso da utopia revolucionária e a prática que garantia que a situação portuguesa não iria ofender a ordem estabelecida na Europa Ocidental e no mundo americano. Ele exerceu a grande arte da Oratória, a dos grandes cardeais que no púlpito das catedrais prometem o Paraíso aos pobres e nas sacristias e consistórios garantem o poder e os lucros aos seus financiadores. Mário Soares, foi um florentino, um Médicis, entre cabos da guarda municipal.

Mário Soares não pode, ou não deve, ser apreciado segundo os valores da moral, do Bem e do Mal, nem da Ética, do que deve ou não deve ser feito, mas sim do principio do senso e com o “pormaior” de o ter conseguido liderando um processo sobre um fino e traiçoeiro cabo, obtendo as boas graças se não de todos pelo menos da maioria.

A grande arte de Mário Soares foi a de saber de ciência certa que não podia ocorrer uma revolução em Portugal e de ter conseguido que as alterações sociais representadas pelos três D — Democratização, Descolonização e Desenvolvimento (mínimo) — que na Europa tinham sido implantadas há trinta anos, após o final da II Guerra Mundial fossem aceites como uma revolução! O slogan “A Europa Conosco” é uma brilhante afirmação como o último grito da moda de um produto com 30 anos de uso.

Por fim, comparando Mário Soares com os outros líderes europeus da época, verificamos que ele é o único líder carismático entre figuras respeitáveis, mas baças, de Willy Brandt a Miterrand, de Aldo Moro a Gonzalez, James Callaghan ou mesmo Olaf Palme o que vemos hoje nos programas de memórias são tristes funcionários que podiam andar a vender enciclopédias. Mário Soares é uma figura extraordinária em Portugal e na Europa.

Como o triste desfile de mangas de alpaca e palradores de balcão candidatos a candidatos a presidentes da República tem revelado, são tão raras as figuras extraordinárias em Portugal, ou mesmo “passables” que temos de apreciar as raras que surgiram. Haverá sempre saudosos do impossível, mas essa é uma outra abordagem. Eu, que sou e fui dos hereges, dos que, como Zaratustra, entende que devemos tentar chegar ao cume das montanhas, nem que que seja para verificar que dali se observa uma outra montanha, presto o meu tributo a Mário Soares.

Uma Nota contra a cobardia: Recordo que Mário Soares impôs uma visita à Palestina e a Gaza quando efetuou um visita oficial a Israel e uma outra como chefe de uma delegação da Internacional Socialista. Hoje assistimos a cobardes vassalagens.

6 pensamentos sobre “Mário Soares — o extraordinário político prático

  1. CMG teve uma elevada elegância para dizer que soares foi um judas que levou à colonização do país quando ele podia ter uma via de independência. Iria ser difícil e poderia acabar num banho de sangue da gente que pensava em não ser subserviente ( estilo indonésia ou chile ). Soares era um vaidoso e entregou a sua vaidade à cia e à social-democracia alemã encharcada de nazis a hibernar. Hoje somos um zero à esquerda que produz lacaios e imbecis ( ou pouco mais e tivemos em durão barroso um excelente exemplar ). Seguimos num rasto de esterco do salazarismo actualizado para consumo interno e apoiamos o nazismo de bruxelas-kiev-washington e aceitamos o genocídio palestino sem remorso.

  2. Dizem que a qualidade de uma pessoa se percebe pelas amizades que cultiva. Talvez ter amigos como Carlucci ou Savimbi deva significar qualquer coisa…
    Mas sabeis como eu sei que Soares nunca quis saber do povo para nada a não ser para os aplausos? Não é por o partido que fundou – e os seus epígonos continuaram – andar a vender a retalho o país, desde Novembro de 75 (a criação do SNS mais parece um equívoco que se têm esforçado por “corrigir”). Não é por nos ter metido na “Europa dos Tratados”, cozinhada pelas e para as elites. Não é, sequer, pelo que dele dizem os compinchas de sempre: que “não acreditava na cultura democrática do povo português”.
    Sei-o pela encomiástica e impecável campanha de “canonização” levada a cabo, por estes dias, pelo aparelho mediático de propaganda, o tal detido pelos “donos disto tudo”. Até o Obstipador participa!
    A oligarquia anda, há décadas, a ofuscar o real e crucial papel do Soares no estado a que isto chegou. Que é péssimo para o povo que trabalha.

  3. Também costumo subscrever tudo o que o articulista escreve e o facto de o homem ter admiração pelo homem da CIA em Portugal não anula o facto de ser das poucas vozes lúcidas que ainda restam.
    E e mesmo pela lucidez que reconheço que me vou abster de comentar elogios ao homem da CIA em Portugal, que se gabou de ter várias reuniões semanais com o seu amigo Carlucci, que garantiu não ser agente da CIA, tendo ficado com um melão de todo o tamanho quando o sujeito, que aproveitou para fazer uns pouco claros negócios imobiliários em Portugal, foi condecorado pelos bons serviços como agente da tenebrosa organização.
    A enguia está morta e enterrada por muitos elogios que lhe façam e que a terra lhe seja leve.
    Nos ca estamos para levar com as consequências do pragmatismo de outros que se tem traduzido, tal como o pragmatismo soarista, em seguir cegamente as ordens que chegam do outro lado do mar.
    Vendendo armas a genocidas e dando o nosso dinheiro a nazis.
    E até com primeiros ministros que aceitam sair quando a NATO manda deixando nos entregues aos bichos.

  4. CARLOS MATOS GOMES é uma pessoa por quem tenho um enorme respeito e admiração.
    Quase sempre, subscrevo integralmente o que diz e/ou escreve.
    Admiro-lhe a coragem, a sinceridade e frontalidade, a grande honestidade intelectual.
    Mas a leitura que fiz do livro “CONTOS PROIBIDOS – Memórias de um PS desconhecido” veio confirmar-me algumas reservas que sempre tive em relação a Mário Soares e que também aqui aflora, embora muito ao de leve. Infelizmente, Mário Soares também esteve na génese de males que o tempo avolumou. E acho que ele teve consciência disso nos últimos anos da sua vida. E tentou mostrá-lo através de várias iniciativas e intervenções.

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