Coca Cola e Democracia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 25/11/2024)

Imagem de Nemésis, de Albercht Durer

Vender democracia, hambúrgueres e até meias de nylon para as senhoras.


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As forças americanas que permaneceram na Europa após a Segunda Guerra trouxeram os seus produtos como os europeus haviam feito com os indígenas durante a sua expansão pelos continentes. Além das notas de dólar europeu, não convertível, os americanos trouxeram as suas roupas, jeans e meias de vidro, de nylon, canções e discos, hamburgueres, tabaco com filtro, creme Ponds para a pele das senhoras e Brylcreem para abrilhantar a cabeleira dos homens, preservativos e a sua democracia de mercado e toda a liberdade, desde que os movimentos sociais não interviessem nos lucros dos negócios.

Coca Cola foi considerada a bebida da Democracia e da Liberdade. Onde havia Coca Cola havia democracia! No Portugal de Salazar não havia Coca Cola, logo não existia democracia, exceto em Moçambique por causa dos sul-africanos. Os suseranos locais. Em Angola vendia-se a Fanta, uma zurrapa ainda pior.

A retórica de impor a democracia para impedir que uma ditadura comunista se implantasse foi o prato forte da propaganda dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra e da adoção da doutrina Truman, de détente, em que os Estados Unidos tanto invocavam o perigo do comunismo enquanto ideologia, como o perigo da expansão da União Soviética enquanto competidor estratégico. O argumento era utilizado segundo as conveniências. Tratava-se de domínio territorial.

O pragmatismo da política americana, isto é, a ausência de valores de referência, de escrúpulos, substituídos pelos interesses, e o desprezo pelos direitos humanos que caracterizaram a “doutrina Kissinger”, fizeram que esta sombria personagem emergisse simultaneamente como o mestre do golpe do Chile e dos massacres no Camboja e também como o padrinho da “democracia portuguesa” tendo o embaixador Carlucci como lugar-tenente e o major Melo Antunes como o agente local.

O golpe do 25 de Novembro foi financiado pelos Estados Unidos, com transferências feitas através da Internacional Socialista, que suportaram os novos órgãos de propaganda. Assim, de cor: Jornal NovoLutaTempo, Europeu entre outros foram criados com fundos americanos, assim como a UGT foi financiada pelos sindicatos americanos e europeus. Também armas foram fornecidas e ainda hoje não se lhe conhece o paradeiro. Todas estas afirmações estão provadas e constam de documentos e publicações disponíveis pelo público. Não há desculpa para invocar ignorância.

Não será, com certeza, esta a narrativa oficial de cosi fan tutte — isto é, os outros europeus também abdicaram da sua autonomia e os mais disponíveis foram premiados — que vai ser cantada sucessivamente e a várias vozes na Assembleia da República. As lenga-lenga carregarão as cores negras do perigo comunista (que tinha sido arredado em Agosto à margem do Acordo de Helsínquia) e do levantamento nacional dos bons portugueses contra o totalitarismo (ação do ELP/MDLP e do clero ultramontano, devidamente olvidado — Pacheco de Amorim representará o ELP, mas virá alguém da arquidioceses de Braga? Ou Nuno Melo tomará esse encargo?), uma narrativa que esconde o fabuloso negócio da desnacionalização da banca, das Parecerias Publico-Privadas, do saque aos fundos europeus destinados a formação profissional, do desordenamento do território, em particular no litoral, para construção e corrupção.

Não existem narrativas oficiais que não representem relações de força num dado momento. Mas, neste caso, a narrativa oficial é tão mal cozida, ou cosida, assim se refira um mau cozinhado ou uma peça de roupa com os fundilhos esgaçados que o povo teve de ser excluído, não fosse alguém gritar que o rei ia nu. A imposição de uma narrativa oficial que exclua o povo será sempre uma ação totalitária que assenta na cobardia de quem a promove como um ato de fé.

A narrativa oficial do 25 de Novembro que vai ser apresentada na liturgia na Assembleia da República é um ato de cobardia e de vergonhosa humilhação. De cobardia pela não assunção do papel de gente por conta que desempenharam os celebrados e homenageados, e de vergonhosa humilhação por se apresentarem como homens livres quando foram meros caddies, os carregadores do saco com os tacos do golfista.

A celebração do dia foi encenada para ser um espetáculo de Televisão sem surpresas. Um reality show no qual os convidados se prestarão ao papel de figurantes graciosos e com as deixas preparadas. Os generais farão vénias aos ministros que os ofenderam, sem continências nem apertos de mão, os deputados que advogam os interesses dos banqueiros falarão sobre democracia e justiça social, os médicos que operam nas clinicas privadas falarão da democracia e do serviço nacional de saúde. Um almirante gritará da ponte de comando: Sus, a eles, aos infiéis russos! Do púlpito no centro do palco sairá, repetido a várias vozes, um sermão conhecido, a que os crentes dirão âmen com a cerviz baixa.

Alguns figurantes nacionais — menores, porque os maiores estão todos mortos, caso de Kissinger, Carlucci e Melo Antunes — emoldurarão as galerias como fantasmas e o facto mais significativo, segundo a comunicação social, é que a banda da GNR tocará o hino nacional duas vezes. Talvez fosse de propor que uma das intervenções fosse substituída pel’ Os Vampiros, do Zeca Afonso.

Também parece que o autor e principal animador da cerimónia dos mansos a que Vasco Pulido Valente designou pelos Devoristas, terá sido Nuno Melo, um menino de oiro (homenagem a Agustina Bessa-Luís) que é uma garantia de patriotismo e coragem. No livro Os Americanos e Portugal, de Bernardino Gomes, do Partido Socialista, já falecido, e de Tiago Moreira de Sá, que já foi do PSD e agora é eurodeputado do Chega, a tramoia do 25 de Novembro está muito bem explicada.

Por mim, propunha que a cerimónia terminasse com um magusto oferecido pela associação de bancos e pela embaixada dos Estados Unidos, uns porque que tiveram este ano lucros nunca vistos, e os outros porque andam de vitória em vitória desde o Iraque à Ucrânia, prova de que o 25 de Novembro valeu a pena.

Uma nota final e pessoal, custa-me ver uma personagem por quem tenho respeito e estima envolvidas nesta farsa. É que não se pode estar ao serviço do mesmo Kissinger que chefiou o golpe do Chile, que autorizou a invasão de Timor Leste pela Indonésia e dar da cara pela independência de Timor e abençoar o 25 de Novembro e os seus visíveis resultados de aumento de desigualdades e de injustiças. Acredito em razões de lealdade para com alguém que ele muito admirava e em que confiava. Melo Antunes. Sem nunca ter sido íntimo, nem seguidor político de Melo Antunes, julgo que este não se prestaria a caucionar esta cerimónia manhosa com a sua presença esfíngica.

14 pensamentos sobre “Coca Cola e Democracia

  1. O mais resumido e esclarecedor libelo acusatório aos defensores do golpe do 25 de Novembro de 75 tornado público em que muitos se revêm. Bem hajas C M Gomes.

  2. Caro Matos Gomes
    Leio sempre com apreço e generalizada concordância os seus esclarecidos e esclarecedores textos. Há porém, neste texto, sobre o 25 de Nov. algo que considero exagerado e injusto; a afirmação “embaixador Carlucci como lugar-tenente e o major Melo Antunes como o agente local”. Pouco privei com o major Melo Antunes no curto período enquanto coordenador da comissão de oficiais milicianos do MFA eleito em plenário logo após o 25 de Abril e antes de ir para a Guiné em Julho, mas de toda a sua actuação vejo-o mais como o “fiel da balança” da coordenadora do MFA e depois do “grupo dos 9″que era tudo menos um corpo coerente do ponto de vista político. De todos os elementos deste grupo seria talvez o mais bem preparado politicamente mas longe de lhe poder ser imputado o papel de agente da CIA e de homem de mão de Carlucci… Mais, após o 25 de Nov., creio que teve um papel fundamental na travagem da deriva mais contrarevolucionária que alguns elementos do grupo, das forças políticas envolvidas (incuindo elementos do PS!) e das forças que quiseram tirar desforço da dinâmica revolucionária existente, queriam implementar. Considero que o papel de Melo Antunes está londe de ser devidamente esclarecido e honrado. Um abraço.

  3. A modos que em tom de confirmação, conto agora aqui pela primeira vez este caso curioso. Na altura, calhou eu ser professor dos filhotes de algumas figuras gradas do PSD e, na sua ingenuidade, essas crianças confidenciaram-me que os seus progenitores recebiam pelos seus cargos no partido o respectivo ordenado em dólares. Sim, as notinhas verdes. Porque seria???? Ele há cada coincidência!!!

  4. SEM COMENTÁRIOS:🤓
    CNN – Um homem foi condenado a um ano de prisão com pena suspensa na Coreia do Sul por tentar burlar a lei do serviço militar. É acusado de ter engordado propositadamente como estratégia para evitar o serviço militar, que naquele país é obrigatório para os maiores de 18 anos e tem a duração mínima de 18 meses.
    O réu consumia alimentos altamente calóricos, dobrava as suas porções às refeições, abstinha-se de trabalhos fisicamente exigentes, e bebia grandes quantidades de água antes das pesagens para aumentar deliberadamente o seu peso”, referiu o juiz na decisão.

  5. Soares foi o vil empregado dessa canalha toda e a mim não me custa escrever o nome do malandro.
    Foi um vendido e agente da CIA ao nível de Pinochet, Videla, os coronéis gregos e outros torcionarios
    Se não teve de fazer pior foi porque conseguiu enganar os pategos a ponto de nas primeiras eleições livres darem ao seu partido parido e financiado pela CIA para dividir a esquerda, cerca de 70 por cento dos votos expressos numas eleições cuja participação rondou ou 90 por cento.
    Era no tempo em que ainda se acreditava que o nosso voto servia para alguma coisa.
    O nosso futuro foi aquilo que se viu.

  6. Só não percebi, confesso, o último parágrafo do texto do CMG. Alguém me poderá explicá-lo? Quem é, exatamente, a personagem a que ele se refere?

  7. A Coca-Cola ainda hoje é um ícone do corporativismo capitalista anglo-saxónio-americano, da “cultura pop”, uma espécie de símbolo e alegoria do “superior modus vivendi ocidental”, registado em vários formatos e suportes, literatura, cinematografia, televisão, pop art, etc… por exemplo, no filme “Goodbye Lenin” (Adeus Lenine em português) tem uma expressão deveras importante e até pivotal na narrativa.

    Quanto ao resto, já Zeca Afonso (um dos maiores nomes da música popular portuguesa e talvez o mais ecléctico e aclamado cantautor, entre tantos outros notáveis como José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, etc) cantava sobre os fantoches de Kissinger…

    …e se hoje Kissinger, Carlucci e outros mandantes e fantoches já não estão entre vivos, sobrevivem alguns deles e outros entretanto apareceram e os revezaram, com a mesma cassete (que entretando já mudou de formato para CD, DVD, BlueRay, etc) que tanto acusam de ser o “modus operandi” do PCP, apenas por ter a sua própria ideologia (mais ou menos anacrónica, mas nem por isso totalmente desajustada ou desprovida de fundamentos científicos, filosóficos ou dialécticos).

    Quanto ao resto, parabéns por mais um texto profundo e revelador, esclarecedor, que volta a trazer luz aos complexos e aos problemas de consciência das “novas lideranças” actuais que tanto apregoam “estarem a defenderem os nossos valores e a democracia” (qualquer semelhança com o sotaque americano e a dicção de um patego nesta expressão é pura coincidência).

    P.S. Nem por acaso, mais uma noite acordado (e algum trabalho) e muito canal História que tem conteúdos documentais dignos de registo, e recomendo a quem tenha a oportunidade que veja os documentários passados esta noite, entre os quais:

    – A Noite das Facas Longas: A Ascensão de Hitler (2 episódios) da 01H25 às 02H14

    – 25 de Abril: A Revolução dos Cravos às 03H02, documentário de 2024 (em francês, tal como o anterior)

    – I Was There, logo a seguir, sobre Timothy McVeigh, militante de extrema-direita, e o atentado ao edifício federal Alfred P. Murrah em Oklahoma, o maior atentado terrorista doméstico em solo americano da História

    Talvez algumas luzinhas se acendam em algumas cabecinhas ocas que omitem sempre o que significa o perigo dos extremistas… às “direitas”.

    • Resta acrescentar que nunca fui fã de Coca-Cola ou semelhante (é muito raro beber) ou da ditadura do proletariado… mas ainda gosto menos de hipocrisia, chicos-espertos, propaganda, contos do vigário, charlatanices, burlas, golpadas sanguinárias, supremacismo (racismo), belicismo e militarismo…

      E sim, os Vampiros andam cada vez mais saídos da casca… e os lorpas vão ser os primeiros a ficar desiludidos com os seus encantamentos…

    • Deu também dois episódios de Poderia Hitler ser travado, que focou o papel de Chamberlain (e posteriormente de Halifax e Churchill) nas negociações no Pacto de Munique, e as consequências que daí advieram (ocupação dos Sudetas e da Chéquia, expansão do III Reich, II Guerra Mundial), interpretadas por historiadores e politólogos britânicos. Também vi quase integralmente.
      Hoje em dia já nem o dia da Vitória (9 de Maio de 1945) a UE da von der Leyen assinala sobre esta escumalha nazi-fascista, chamando-lhe “dia da Europa” e pintando-o como uma efeméride sem o relevo do Dia D (6 de Junho de 1944). Nem a História eles respeitam, os factos históricos são reescritos e distorcidos, quanto mais a verdade científica e a realidade política…
      Nunca vou compactuar com estas “cassettes” e estes “modus operandis” de lavagem cerebral para pategos.

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