Como matar as memórias?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/06/2024)


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Fui educado a respeitar o sofrimento dos judeus ao longo da história. Repugnou-me o que li sobre a Inquisição Santa, as imagens das torturas, desprezei as figuras dos torturadores de homens e mulheres amarrados e sem defesa.

Enquanto fui cristão vi Cristo como um judeu que foi crucificado por romanos invasores (os mesmos romanos que haviam invadido a Península Ibérica), apenas porque queria manter-se com direitos na sua terra.

A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião, é unicamente uma questão de higiene política, escreveu Paul Carrel, um alemão recuperado após o final da guerra pelos americanos (desnazificado), quando ainda se chamava Paul Carl Schmidt e publicava textos sob a tutela de Ribbentrop, ministro de Hitler.

Troquem questão judaica por questão palestiniana e a frase pode sair da boca de qualquer dos atuais funcionários do governo de Netanyahu de Israel.

Li As Benevolentes, o romance de Jonatthan Littel sobre episódios verídicos da II Guerra Mundial, da invasão da Polónia e da Ucrânia ma marcha dos exércitos de Hitler para a União Soviética:

«A aldeia, já não me lembro do seu nome. Quando chegámos dei com as levas já organizadas. «É ali que a coisa se passa.» Na praça central os nossos soldados reuniam os judeus, homens de idade madura, adolescentes, traziam-nos em pequenos grupos, por vezes batiam-lhes, depois forçavam-nos a acocorar-se. Chicoteavam-nos com um pingalim para os fazer avançar, mas excetuando os gritos tudo parecia relativamente calmo, ordenado, de vez em quando uma criança aparecia a uma esquina e escapava-se. Os guardas fizeram os judeus subir para camiões entre gritos e chibatadas. Dois guardas arrastavam um velho judeu com uma perna de pau, a prótese soltou-se e eles atiraram-no sem mais para dentro do camião. Em cada camião acumulavam-se cerca de 30 judeus. Quando os camiões ficaram cheios puseram-se a caminho do bosque e aí chegados Nagel deu ordem para que fossem escolhidos os judeus que iriam escavar as valas. Olhei para os judeus mais próximos de mim, pareciam pálidos mas calmos. Nagel aproximou-se e apostrofou-me vivamente: «É necessário, está a entender? Em tudo isto, o sofrimento humano não deve ser tido em conta seja como for!»

Substituam judeus por palestinianos e Nagel, o ogre, por Netanyahu e toda a cena passada numa aldeia da Ucrânia na II Guerra Mundial continua a fazer sentido na Palestina, em Gaza.

Eu tinha esta memória dos judeus. Netanyahu apagou-a. Eu tinha a esperança de que existisse uma memória judaica, verifico que a perversidade e a bestialidade a apagou. Eu acreditava que um povo que reivindica ser eleito de um Deus tivesse uma memória da violência e da dignidade do ser humano, segundo eles criatura de seu Deus: os judeus de Netanyahu destruíram essa minha crença.

O capítulo 15 de Hitler, uma biografa — de Ian Kershaw, edição portuguesa da D. Quixote, tem por título: As Marcas de Uma Mentalidade Genocida. Contem um excerto de uma proclamação de Himmler, o responsável pelos campos de extermínio, às SS, em 1938, antes da orgia de violência primitiva contra s judeus que ficou conhecida como Progrom da noite de 9 de Novembro: «O judeu não pode manter-se na Alemanha. Esta é uma questão que perdura há anos. Temos de correr com eles daqui para fora com uma impiedade sem precedentes…»

Em 1938 a Alemanha era um Estado com instituições democráticas. Em 2021, Israel de Netanyahu também é um estado com instituições democráticas, mas, tal como a Alemanha, tal como a África do Sul do apartheid, a democracia e os direitos apenas se aplicam aos da “raça” dominante: alemães arianos, brancos e judeus.

É neste ponto da história, de nova versão da inquisição, do nazismo, do apartheid que nos encontramos perante o Estado de Israel.

As “orgias de violência” são recorrentes na história da humanidade, mas a orgia de violência do Estado de Israel tem caraterísticas de maldade acrescida. Mesmo os céticos como eu, os que tomam como certa a definição de Plauto na sua obra Asinaria, Lupus est homo homini lupus a expressão latina que significa “o homem é o lobo do próprio homem”, popularizada por Thomas Hobbes, se devem interrogar e temer pelas suas vidas quando descobrem que os mais fortes e mais constantes motivos para a ação dos humanos são o ódio e a vingança.

Que a nossa civilização, dita judaico-cristã mantem como marca identificadora o direito da besta mais forte e o domínio dos predadores. Ao aceitar esta direito imposto pelo Estado de Israel aceitamos que ele é o nosso espelho.

21 pensamentos sobre “Como matar as memórias?

  1. Pode parecer estranho que num mundo de Netanyahu e Zelensky, de massacres indiscriminados e prisoes tao letais que é preciso queimar os mortos alguém acredite que não haveria problema nenhum se não houvesse progressistas e aquilo a que decidiram chamar wokistas.
    Que alguém acredite mesmo que o único problema é haver gente que ainda quer ter direitos.
    Enfim, isto de escrever coisas que outros já escreveram da nisso.
    Acabasse a escrever no mesmo comentário uma coisa e o seu contrário.
    Como quando, nos primeiros tempos do genocídio em curso em Gaza decidiu reproduzir um tal Philippe Jourde que dizia, basicamente, que o único problema era que se falava demais dos palestinianos, devendo estes pagar todos os alegados crimes cometidos por muçulmanos. Nem mais nem menos.
    E frustrante mas antes isso que malta que até se deita a adivinhar o nosso tamanho e nós chama tudo quanto é nome. Já cá tivemos um fiscal e agora temos um capelao.
    Agora essa de o homem achar que o problema do mundo é minorias etnicas ou sexuais terem direito é que custa a engolir nos tempos que correm.
    Va juntando umas latas de conserva e deixe lá os wokistas que esses não andam a bombardear ninguém nem a torturar jornalistas ate à morte.

  2. “a corrupção geral existente na política”

    “e o ódio a si próprio e a autodestruição (‘wokismo, progressismo) são as marcas da delinquência”

    — Já te inscreveste na agremiação do Ventrulhas? Do que estás à espera?

    “Uma das explicações é certamente o crescimento da população na região, o que não é verdade!”

    — WHAT!? Meu, ou é branco ou é preto! As duas ao mesmo tempo é que não dá!

    Já percebemos que o plágio é para ti, mais do que um desporto, um autêntico vício. Mas põe-te a pau, pá, que ainda apanhas uma overdose!

  3. Buscando o tema da Adilia Mesquita que tem mais experiência de vida do que eu,avaliar pelos seus comentários,o que desde já agradeço por chamar atenção o mal dos nossos males:O CAPITALISMO!

    O Capitalismo não é único, e certamente não é o mais adequado para evitar uma catástrofe. São as pessoas que precisam de saber que é preciso mudar o sistema. Os políticos sabem-no, mas defendem o sistema que os engorda.

    Há um antigo ditado em inglês que diz: “A política transforma estranhos em companheiros de cama.” É verdade,há muita rivalidade na política e geralmente muito pouca união. Mas, quando algo ameaça sua maneira de operar ou expõe a corrupção geral existente na política, ou se, de algum modo, parece impedir seus planos, unem forças com anteriores rivais ou até mesmo inimigos e trabalham desagradávelmente juntos para vencer o que consideram uma ameaça comum. Se a sua cooperação temporária dá certo, então se dividem de novo e recomeçam suas altercações e lutas.

    O capitalismo da 1°guerra mundial confrontou-se com um mundo despedaçado, um mundo que entrou num colapso psíquico em massa, dum colapso de antigas combinações de estados e de impérios, da desintegração de ordens econômicas, do capitalismo do século dezanove, do irrompimento de calamidade repentina, de distúrbios e assassinatos, de tirania e desordem, de frivolidade e desespero, contentamento e pavor em tal grau de magnitude, a ponto de entorpecer a mente… Longe de restabelecerem a ordem no mundo, tomaram o caos da Grande Guerra …

    As aflições, a morte humana e o sofrimento que tiveram início com a primeira guerra mundial — não têm paralelo na História. A moderna guerra mecanizada , causaram grande destruição no mundo. Uma geração foi dizimada nos campos de batalha da Europa.Ninguém jamais vira coisa igual a tal matança: as mortes diárias de soldados foram 10 vezes superiores às da Guerra Civil Americana, 24 vezes às das mortes nas Guerras Napoleônicas, 550 vezes às das mortes na Guerra do Transvaal.

    O capitalismo da “Besta” que opera neste sistema,é um modelo mafioso cada vez mais controlado.

    O capitalismo é uma religião omnipresente no Estado,onde vale tudo até matar.

    O maior problema do capitalismo é a superpopulação colocando uma enorme pressão sobre a biodiversidade (quase 2/3 das espécies selvagens desapareceram desde 1970, enquanto a população humana se multiplicou por 3). A África emite muito pouco CO2, mas a situação ecológica é catastrófica, com menos de 13% do continente ainda intacto e o resto poluído e degradado. A explosão demográfica é a principal causa da desflorestação, com a lenha, a agricultura, a urbanização e, recentemente, a utilização maciça de pesticidas. O mesmo acontece na Indonésia, onde a ilha de Bornéu, ainda intacta, vai ser completamente desarborizada para acolher a nova capital que deverá substituir Jacarta, que está a afundar-se e a congestionar-se.

    Nenhum ocidental quererá baixar o seu nível de vida sem ver resultados concretos; qualquer esforço é automaticamente engolido pelo crescimento demográfico. Os africanos querem viver como os ocidentais, só aspiram a consumir, e ninguém se atreve a falar da loucura demográfica da população deste continente, que aumentará para 2,5 mil milhões em 2050, quando actualmente é de 1,2 mil milhões, 350 milhões após a independência nos anos 1960….

    As doenças auto-imunes já atingiram o mundo desenvolvido, a taxa de natalidade diminuiu na China, na Coreia, no Japão, na Rússia e na Europa, e o ódio a si próprio e a autodestruição (‘wokismo, progressismo) são as marcas da delinquência, das sociedades disfuncionais, da mediocridade e da dívida. Uma humanidade sem o Ocidente ou o Sudeste Asiático cairia na barbárie e no atraso, com genocídios, fomes e epidemias. O Haiti e Mayotte estão a moldar o mundo de amanhã, do ponto de vista demográfico.

    Outra fonte : Reporterre ; Enquanto alguns países da América do Sul são criticados pela exploração desmedida das suas florestas, a América Latina reduziu para metade o ritmo de perda de floresta: enquanto perdia uma média de 5,2 milhões de hectares de floresta por ano entre 2000 e 2010, na década seguinte, o balanço entre a desflorestação e a regeneração, natural ou antrópica, foi reduzido para -2,6 milhões de hectares por ano. Estes números provêm de um relatório da FAO
    (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) sobre as florestas do mundo, publicado em 7 de maio.

    Uma das explicações é certamente o crescimento da população na região,o que não é verdade!

    Desde que o mundo existe e a humanidade existe dentro dele, há uma constante “sobrevivência do mais forte”… Uma treta alienante da qual a consciência individual e colectiva não tem capacidade, poder e força interior para escapar… A condição humana. No entanto, o instinto de sobrevivência que nos move dá-nos a energia para continuar o nosso caminho mais ou menos pedregoso, que é constantemente posto à prova…. Questionar a ordem mundial…

    Transição é, antes de mais, espiritual: somos ondas que se juntam ao oceano da vida (como podemos destruir o ambiente se ele é a nossa própria vida?)
    Em segundo lugar, política: verdadeira democracia (diálogo para chegar a um acordo) e soberania humana (América primeiro ou o homem primeiro).
    Finalmente, a economia: da competição económica a uma economia humana em simbiose com o ambiente (do fazer coisas para obter lucro ao fazer coisas para a vida).

    É verdade que a redefinição do desenvolvimento (económico e individual) é central, porque é ela que condiciona os nossos comportamentos e os nossos consumos.
    Actualmente, o desenvolvimento significa pilhar, destruir e aniquilar as esperanças das gerações futuras…

    Com uma 3° guerra mundial,não haverá , agricultores, água, petróleo, adubos, abelhas, vamos morrer de fome, de sede, de calor e de doença. Depois disso, voltaremos à Idade Média.

    Ser ecológico é, antes de mais, uma questão local, e para as coisas que não podem ser geridas localmente, estamos a expandir o perímetro, quer outros organismos façam Bluff nas previsões sobre a catástrofe climática …Preocupemo-nos em fazer as coisas de uma forma ecologicamente relevante e deixemos o clima em paz, é demasiado complexo, com demasiados factores móveis em jogo para que o Homem possa prever com precisão…

    1-As alterações climáticas que ouvimos falar delas a toda a hora e os jovens são atingidos pela eco-ansiedade, mas nada de útil está a acontecer. Talvez devêssemos começar por denunciar o uso indevido das alterações climáticas por parte dos políticos para restringir as nossas liberdades antes de olharmos para as verdadeiras soluções! 2-O problema é global, por isso fazer-nos acreditar que uma guerra vai resolver o problema é ridículo 3-É mais o espetro da guerra mundial com a desculpa ucraniana que me assombra e o uso da bomba atómica contra a Rússia, mas talvez essa seja a única forma de os nossos políticos lidarem com o desastre do que aumentá-lo!

    Sejamos claros. A prioridade absoluta está a ser negada porque, no fundo, nenhum de nós está preparado para a mudança radical dos seus hábitos no sentido de uma maior sobriedade. A droga do consumo e a educação do individualismo são tenazes. O esgotamento dos recursos naturais e o desaparecimento da diversidade biológica conduzirão “naturalmente” à pobreza que já sentimos, ao lado de uma riqueza tão absurda quanto virtual. A Terra curar-se-á do homem porque tem todo o tempo do mundo.

    Não é com este tipo de “capitalismo” que é provável que encontremos soluções para renovar o nosso sistema falido.

    O problema que se coloca imediatamente após as minhas observações é: o que faremos se o “sistema” atual entrar em colapso? Se deixar de haver indústria como vocês gostariam, se deixar de haver petróleo, minerais, etc., nem sequer estaríamos aqui para vos ler.
    Estariam dispostos a cultivar a terra e a fazer conservas, a cortar lenha para não morrerem no próximo inverno ? Seria esta uma condição humana desejável?
    Querem entregar-nos a bandos dominantes? Querem exterminar 3/4 dos seres humanos desta terra? Estamos a descobrir o colapso descrito há muito tempo por Pablo Servigne, Arthur Keller, Jancovici e tantos outros…

    O comunismo e o capitalismo são dois materialismos em que a felicidade é ter!
    A espiritualidade é a felicidade de ser e depois de ter!

    Vivemos num túmulo a céu aberto ….. Quando se é pescador numa zona fria, já se sente o início e sente-se instintivamente que se não se fizer nada, é o início do fim…

    Penso que as pessoas precisam de compreender e aceitar, porque acredito que é uma consequência da forma como as nossas sociedades funcionam e que, se precisamos de educar as pessoas, é sobre o sistema capitalista que reina sobre o planeta (Jack London chamou-lhe “O Calcanhar de Ferro”), um sistema que é colonialista, imperialista e acumulativo até ao ponto da náusea. Mas é preciso dizer que se pode aprender tudo e questionar tudo graças à Internet, mas muito poucas pessoas (mesmo aquelas com fortes convicções políticas) tentam descobrir como funciona a economia.

    Sim neste mundo egocêntrico, próximo de um conto de fadas. Sim, a natureza é bela, mas não é simpática para conosco, e as presas devoradas pelo passarinho engraçado teriam certamente gostado de viver um pouco mais. E se uma catástrofe se abater sobre a humanidade, a Terra e o Universo não deixarão de se mover, nem os seres vivos que se adaptarão, emergindo nós próprios desta força formidável após um cataclismo.

    O paradoxo de tudo isto é que a tecnologia e a desmaterialização podem ser a única forma de preservar os sonhos megalómanos do Homem “Todo-Poderoso”.

    Mas esquecem-se de uma coisa,a terra tem dono e não são os homens!

  4. O Carlos tem inteira razão, mas gostaria de colocar o problema num outro patamar diferente dos aspectos religiosos, embora reconheça que o judeu ortodoxo sempre se diferenciou dos outros mortais e nunca se integrou em sociedade nenhuma. Mas, tal como no caso de Hitler e seus apaniguados, os sucessivos governos sionistas só puderam dar largas aos seus institintos predatórios e assassinos porque as suas acções sempre foram caucionadas pelos detentores de poderes maiores. Gente com esses instintos sempre existiu e existirá. O problema reside no facto de haver (ou não ) grupos, sistemas, condições para esses monstros porem em prática as suas tendências mais demoníacas. No caso de Nethanyahu como em outros semelhantes, é precisamente o aparato de poder americano-NATO-UE que sempre lhes deu e dá carta branca, que continua a caucionar todos os desmandos. Ou seja, o império, ao ver-se em nítido declínio e em desespero de causa, desiste da sua temporária aparência civilizada, “democrática” e cultora dos “valores” e é obrigado a mostrar a sua verdadeira face, a sua essência sanguinária e predatória contra todos os que ousem não alinhar na sua eterna demanda pela hegemonia. Como dizia Brecht, o pintor (Hitler) representou o papel que os reis do carvão e do aço lhe concederam, assim como o palhaço Zelly que todos chamam herói sem que nunca tenha praicado qualquer acto heróico, sempre representou o papel de títere que os poderes centrais da NATO-UE o levam a representar. Assim igualmente BiBi, apostado em limpar Gaza para depois poder permitir a grandes grupos o acesso às riquezas do subsolo no offshore e às grandes imobiliárias construirem belos resorts turísticos nas praias de Gaza. Consta até que algumas altas personalidades desse governo já têm lugar reservado nessa beira-mar.

  5. A dita civilização judaico-cristã tem muito que se lhe diga. O termo implica a associação cultural-religiosa, teológica (monoteísmo, se bem que a Bíblia é ela própria algo dúbia quanto a isso), mas a civilização é muito mais do que isso, e o termo deixa ficar de fora inúmeros processos históricos subsequentes, como a romanização, as invasões ditas bárbaras, a islamização, voltando então à “normalização” cristã que compõe a 2.a metade de termo. Deixa também de fora todos os antepassados europeus da era anterior a Cristo, relevando aí a cultura / religião judaica, como se fosse essa a origem do povo europeu que foi em parte romanizado, aculturado e posteriormente convertido ao cristianismo.
    É uma designação exclusivista, redutora e por isso foi cunhada e se tornou parte do discurso político e do jargão de uma certa ala conservadora e reaccionária, politizada e fanatizadas.
    Exclui a influência civilizacional dos romanos (e dos gregos e egípcios, etc, antes deles), dos europeus e euroasiáticos (celtas, celtiberos, vândalos, alanos, suevos, visi e ostrogodos, nórdicos, hunos, etc), até dos árabes e mouros que tiveram um contributo fundamental para a cultura, nomeadamente na Península Ibérica. Para além do mais, os judeus não reconhecem a divindade de Cristo, para muitos era um apóstata blasfemo, e até de acordo com a Bíblia foi por isso detido e entregue aos romanos para que fosse crucificado. Os islâmicos também não o reconhecem como divino, mas respeitam-o como um dos profetas de Alá. Penso que o judaico-cristianismo se tornou um termo dúbio e cooptado para designar a actual sociedade capitalista de juro e usura que se tornou a sociedade ocidental. E não foi pelo dito “marxismo cultural”, esse fantasma omnipresente que é o terror ideológico de qualquer propagandista ou capelão de supermercado, e sim pela “academia ocidental” à lógica mercantilista e usurária. É a resposta desta, reescrevendo a história a seu bel-prazer.

    • A usura e o juro são pecaminosos segundo a tradição cristã, por isso nas cortes, nos ofícios e nas cidades eram toleradas comunidades de judeus, que tratavam dos câmbios, dos juros e se tornaram conselheiros e consultores, alguns especializando-se em fisiatria e medicina (físicos), outros em matemáticas e ciências naturais, e outros em estudos alquímicos, ocultistas, cabalísticos, rituais de magia.
      O poder material e psíquico que adquiriram fez muitos tornarem-se abastados, com ascendente sobre a nobreza e o clero, que começaram então a persegui-los, primeiro ao nível do discurso, depois com pogroms, matanças e expulsões, e isso aconteceu na península Ibérica, pelos reis católicos de Leão e Castela (e Navarra e Aragão), e por D. Manuel I de Portugal. Devemos situar-nos enquanto povo ibérico no contexto histórico, porque não somos anglo-saxões nem francos nem nórdicos, apesar de haver alguns descendentes destes, como há de judeus, mouros, africanos e outros. Essa mania de que a nossa história é a da Europa central ou anglo-saxónica só mesmo os pategos caem nela.

      • Atenção que também houve progroms, matanças e perseguições e expulsões de judeus por toda a Europa e Eurásia, não só na Península Ibérica. A minha ressalva foi no sentido de puxar o foco para a nossa realidade histórica enquanto povo ibérico, mas esses fenómenos ocorreram à escala continental, em várias épocas e reinos.

    • Também havia estudiosos de letras, filosofias e religião, e as ciências naturais misturavam-se com as visões cosmológicas, religiosas e espirituais, como acontecia no caso da alquimia, da fisiatria e da cabala. Na tradição hebraica, há uma determinada relação entre as letras e os números (gematria, não confundir com geometria), que relaciona a matemática e a língua, as ciências exactas com as humanas, e com as cosmológicas e teológicas (linguísticas, ontológicas, fenomenológicas, etc “no princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus”).
      Havia sempre era aqueles que se demarcavam mais como físicos (fisiatras/médicos), outros como astrólogos e astrónomos, pois a astronomia sempre acompanhou a astrologia até à “idade moderna”, outros como matemáticos, outros como filósofos ou teólogos, cabalísticos, outros como gestores económico-financeiros, foi nesse sentido que diferenciei os vários sábios e os seus saberes, mas todos estavam de uma forma ou de outra relacionados com as mesmas tradições holísticas culturais e religiosas.
      Essa influência foi-se transformando ao longo dos séculos, com altos e baixos, por vezes com o povo a participar nos pogroms e linchamentos e perseguições, pois a pobreza em que viviam explorados pela nobreza, a fidalguia e a alta burguesia, coadjuvados pelas récitas do clero contra os judeus tornava-os furiosos e manipuláveis.
      Mas mesmo assim houve muitas outras influências e processos históricos que formaram a “civilização ocidental” actual, e se a matriz judaico-cristã existe, ela é mais dominante em alguns países do que noutros, pelo menos a nível histórico e cultural, pois que a nível político tende-se para uma uniformização “globalista” em que as particularidades e idiossincrasias locais e regionais tendem a ser ignoradas, subvertidas ou até rasuradas ou reinventadas, em nome da “ordem normativa”.
      Resumindo, existia uma Europa, um “Ocidente” antes da influência judaica, que evoluiu para o cristianismo e depois migrou e se estabeleceu na Europa, expandindo-se para o resto do mundo, e que manteve essas duas polaridades (por vezes antagónicas, outras complementares), ao longo dos séculos. E depois desse processo, ou melhor, nos entretantos, surgiu a terceira religião monoteísta bíblica (ou “do Livro”), o Islamismo, que não pode ser tratado como se não tivesse também ele influenciado a nossa civilização. E estou apenas a falar de culturas religiosas, quando houve outros processos políticos e históricos que moldaram a nossa sociedade portuguesa, e ocidental.
      A expressão “civilização judaico-cristã” vulgarizou-se em uso porque designa algo que não corresponde exactamente ao conteúdo religioso que denota, e sim a uma espécie de artifício social exacerbado para fins duvidosos. Já serviu, por exemplo, para perseguir judeus, por exemplo na Alemanha Nazi e durante o autoproclamado Terceiro Reich. Serve tanto para enaltecer e justificar o atropelo dos Direitos Humanos em Gaza e na Palestina, fazendo uso de um “afecto moral” ou “ligação imaterial” para com os judeus israelitas em detrimento dos árabes palestinianos, como para condenar e perseguir.
      Se agora começasse aqui a usar a expressão “civilização cristo-islâmica” se calhar causaria estranheza, mas trata-se do mesmo género de figura retórica, com a diferença de exaltar a ligação entre cristãos e muçulmanos, em vez de judeus e cristãos. E poderia ter exactamente o mesmo tipo de indicadores (história partilhada, influência filosófica e cultural, pontos de contacto, pontos de ruptura), com as devidas diferenças seculares e teológicas.
      Penso que isso se deve a uma propagação de ideias fictícias, que se prende com propaganda e comunicação para as massas, em que termos como anti-semitismo se vulgarizaram, por vezes deturpando o seu próprio conceito exacto, para fazer a sua apropriação em benefício de uma visão única e controlada dos acontecimentos e da História, quando ela é muito mais complexa e multiforme. O mesmo acontece com o termo “civilização judaico-cristã”, como se isso fosse tudo, apenas e só, e nada mais houvesse para destacar, compreender ou justificar.
      E como os anglo-saxónicos são propensos a aliar-se a Israel e aos judeus sionistas (e cristãos sionistas, também), e por cá na parvónia as “carolas supremas” decidiram que tudo o que é anglicismo é para importar, mesmo que se tenha de apagar expressões tipicamente e culturalmente portuguesas para dar lugar às novas expressões anglófonas, vai tudo por arrasto, e carradas de termos têm feito o seu caminho de importação para o português, quando não permanecem na forma original inglesa, e com ela muita da propaganda sionista vai também ganhando o seu espaço na “mente colectiva” nacional, disseminando-se e entrando no vocabulário que depois é repetido à exaustão nos canais de TV e rádio, nos jornais, etc…

      • *Artifício social, ou talvez mais correctamente, “constructo” social. É do que se trata, e apenas insisti nesta tentativa de “clarificação de significado” pois considerei que era a altura certa para dar este contributo, após a menção no texto principal à “dita civilização judaico-cristã” (que já se tornou uma expressão normalizada e vulgar, sem que seja aprofundada ou discutida).

        É importante começar pelo significado simbólico, etimológico e semântico dos conceitos que os políticos utilizam (e nós, por aqui e não só), pois muitas vezes são subvertidos ou manipulados, e quando não interessam à narrativa são omitidos e substituídos por novas fórmulas de propaganda cunhadas por medida (slogans, clichés, frases feitas, expressões idiomáticas avulso sem conteúdo ou coerência ideológica).

        • De nada, obrigado pelo teu contributo igualmente, e parabéns pelos comentários e recente artigo publicado pela Estátua de Sal, a quem também agradeço pelo verdadeiro serviço público que é este blogue.

    • *(e dos gregos, e egípcios, “etc”, antes deles)
      em lugar do “etc” deveria ter referido os fenícios, cartagineses, que tiveram influência em todo o mediterrâneo e também na Península Ibérica

  6. Netanyahu não é o primeiro sionista, não será o último e não está sozinho. Nisto, é como Roma: tem as costas largas. Cristo era judeu (essénio) e foi morto por judeus (fariseus); a cruz romana era para Barrabás!

    • Netanyahu não é o primeiro, não será o último e não está sozinho. Nisto, o Bibi é como Roma: tem as costas largas. Cristo era judeu (essénio) e foi morto por judeus (fariseus). A cruz romana (até) estava reservada a Barrabás…

  7. Comentário muito ilustrativo da história universal da pulhice humana e seria bom aceitarmos, de uma vez por todas, como postulado prudencial, que o ser humano é o tal ‘homem lobo do homem’ de que nos falava o Thomas Hobbes – que nao era hipócrita nem tinha papas na lingua.
    A partir deste reconhecimento talvez pudéssemos construir uma forma de organizaçao política que, levando em conta tal carateristica, legislasse em conformidade; isto é, talvez pudéssemos melhorar alguma coisinha desta nossa humanidade. Mas claro que enquanto vigorar o paradigma do ‘Homem feito a imagem e semelhança de Deus ‘ fica complicado pois a conceçao do mundo, continuando a ser a idealista e nao a materialista, não dá ocasiao a que tentemos controlar a intrínseca maldade humana. Ora o que constato é que a vasta maioria das pessoas é vitima do preconceito idealista e mesmo as que resistem por vezes, se nao tem cuidado, caiem nele.

  8. Aceitamos o genocídio Israelita porque nos convém.
    O Povo Eleito sabe fazer dinheiro e o dinheiro é a mola do mundo capitalista.
    Fossem os ciganos assim tão bons a fazer dinheiro e tambem já lhes tínhamos dado um Estado algures no Noroeste da Índia onde pudessem impunemente andar a matar quem lá tinha vivido no último milénio bem como os vizinhos que não achassem piada a vizinhos genocidas.
    Já agora, tivesse essa zona recursos que quiséssemos controlar usando aquela malta para desestabilizar a zona e hoje o Estado Romani seria tão impune como é o Estado de Israel.
    Porque são estes factores, o dinheiro judaico e a necessidade de usarmos uma gente fanática e sedenta de sangue para controlar recursos que ditam a impunidade de Israel.
    Para as perseguições estamo nos nas tintas tal como nos estamos nas tintas para as perseguições aos ciganos.
    Vamos lá ver. Os judeus levaram uma corrida em osso do Médio Oriente por volta de 70 D. C. Depois do esmagamento da última grande revolta judaica contra quem também não tinha nada que lá estar.
    Não tendo os ciganos uma cultura escrita não sabemos bem em que circunstâncias levaram igual corrida em osso por volta do ano 1000 da nossa Era a partir de algures no Noroeste da Índia.Diz se que foram invasoes islâmicas. O que ninguém explica é porque é que não voltaram depois dos inovasores terem saído.
    O que sabemos de certeza é que as perseguições e pogroms regulares foram começando logo a chegada. Havia quem os recebesse com alguma humanidade, havia quem os passasse a fio da espada.
    Dos ciganos sempre se disse de tudo e tal como os judeus chegaram a ser acusados de espalhar a peste, os ciganos eram acusados de raptar crianças para as comer.
    Por isso, em muitas partes da Europa, mesmo os que tinham casa eram obrigados a cozinhar ao ar livre para que qualquer bom cidadão pudesse verificar o que estava a ser cozinhado. Verificação que muitas vezes era feita virando o conteúdo da panela no chão.
    Volta e meia também a Inquisição e as polícias protestantes tratavam de queimar algum ou alguma por bruxaria.
    Em Inglaterra, a coabitação por mais de um mês com alguém de etnia cigana dava, até pelo menos aos meados do Século XVIII direito a forca.
    Aqui ao lado, em Espanha, um marques malevolo foi o impulsionador, por volta de 1750, do que foi chamado A Grande Extinção.
    Foi um arrebanhar de gente para campos de exterminio onde a falta de gás a fome e as doenças chegavam perfeitamente.
    Foi ai que muitos viram que era má ideia fixarem se em cidades. Os nómadas escaparam a essa perseguição na sua maior parte por ninguém saber bem onde eles estavam. Já a comunidade que vivia em Sevilha e outras cidades, vivendo do que os deixavam viver, testas de ferro em acções de contrabando e trabalhadores por conta de ferreiros, levou que contar.
    O marques lá acabou por cair em desgraça, os tais ferreiros começaram a queixar se e os sobreviventes voltaram a casa. Os que ainda tinham uma.
    No extermínio nazi os ciganos eram para exterminar, tal como os judeus. E foram também metodicamente exterminados.
    O problema é que nenhum dos sobreviventes acreditava que Deus lhes tinha dado uma terra no Noroeste da Índia. Nem os ingleses, que ainda mandavam na Índia, viam qualquer interesse em dar lhes uma.
    Por isso os ciganos voltaram as terras de onde tinham saído, foram nos anos 90 vítimas de alguns massacres na Romenia e Hungria e até hoje são o bode expiatório que dá votos às extremas direitas um pouco por todo o lado. A mesma extrema direita que descobriu agora que afinal de contas sempre amou os judeus.
    Não estou com isto tudo a querer dizer que os ciganos seriam capazes de fazer as mesmas atrocidades que Israel está a cometer se lhes dessemos mesmo uma terra no Noroeste da Índia.
    Ate porque nenhum acredita que Deus lhes deu uma terra por lá nem para lá quer ir.
    O que quero aqui salientar é esta política de dois pesos e duas medidas. Esta doutrina de coitadinhos dos genocidas que muita gente engole.
    Os judeus não foram os únicos a sofrer seculos de perseguições. Não devem ser por isso ilibados de décadas de extermínio de povos vizinhos. Devem ser responsabilizados, como qualquer outro, e não venham com a treta do antissemitismo.

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