Palmas para Ana Abrunhosa

(Carmo Afonso, in Público, 21/02/2024)

A democracia é uma conquista maravilhosa e ela manda que discutamos os temas e que ouçamos a opinião de todos. Mas há situações perante as quais é verdadeiramente estúpido sermos democráticos.


Andamos há muito a discutir a melhor forma de tratar o Chega, o seu líder André Ventura e o discurso racista e xenófobo no espaço público. Todas as pessoas têm uma teoria e os leitores conhecem-nas todas. O assunto já é insuportável. Vou poupar-vos à repetição da extensa lista de conselhos e recomendações que são infalíveis no combate ao crescimento da extrema-direita.

Mas quero falar-vos do que fez Ana Abrunhosa (espero que tenha pedido autorização ao Pedro Abrunhosa para usar este nome, de forma a não se colocar a si mesma, e a nós todos, em problemas), ministra da Coesão Territorial e cabeça de lista do PS por Coimbra, a este propósito.

Ana Abrunhosa participava numa mesa-redonda organizada pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra com o tema Promoção do empreendedorismo e que consequências acarreta para Portugal. A debater com Ana Abrunhosa estava António Pinto Pereira, do Chega. Não encontrei relatos ou descrições da intervenção de António Pinto Pereira e não foi por não ter tentado. O próprio Diário de Coimbra, que tinha lá, pelo menos, um jornalista e que partilhou uma notícia escrita durante o debate, não fez essa transcrição. Deu conta que António Pinto Pereira falou da população imigrante em Portugal e que designou as mulheres como “camadas mais frágeis.”

Mas é certo que, a dada altura da intervenção de António Pinto Pereira, Ana Abrunhosa levantou-se, declarou que recusava participar em discursos xenófobos e saiu da sala. Ora aqui está uma nova fórmula. E é verdade que tenho pensado nessa possibilidade a propósito dos debates televisivos em que André Ventura participou.

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Vi Ventura acusar Rui Tavares de querer a bandidagem na rua, de pretender a bandalheira total. Carregou as acusações concretizando a designação de perpetradores de vários crimes. Também o vi e ouvi dizer a Paulo Raimundo que o PCP cometeu assassinatos no pós-25 de Abril. Meu Deus, recuemos. No debate, entre Ventura e Marcelo, para as presidenciais, vi Ventura mostrar a Marcelo uma fotografia. Continha o Presidente acompanhado de homens, mulheres e crianças, racializados e claramente com baixas condições socioeconómicas, todos do Bairro da Jamaica, no Seixal. Ventura rotulou-os de bandidos. Na mesma folha estava uma fotografia de homens brancos, daqueles que Ventura considera serem de bem. Com a exibição da fotografia pretendia dizer que Marcelo preferia os bandidos e que foi isso que mostrou quando visitou o Bairro da Jamaica. Marcelo teve habilidade de prevalecer sobre Ventura nesse debate.

Mas será que os políticos são obrigados a isto ou será que fez bem Ana Abrunhosa?

Digo-vos que fez bem. Não quero aqui propor uma regra e contribuir com mais uma recomendação para a extensa lista de que vos falava no início da crónica. Mas volto a afirmar que fez bem. Foi importante para aqueles estudantes assistirem à recusa de uma pessoa decente a rebater e contraditar aquilo que resolvemos há décadas na lei.

A democracia é uma conquista maravilhosa e ela manda que discutamos os temas e que ouçamos a opinião de todos. Mas há situações perante as quais é verdadeiramente estúpido sermos democráticos. O Chega trouxe-nos essas situações. Acho que o Rui Tavares teve boas razões – reparem que uso o plural – para abandonar aquele debate. O mesmo para Paulo Raimundo. Não estou a ser exaustiva nos exemplos. São precisamente os que trago à flor da pele. Porque aconteceram há pouco tempo e porque me senti incomodada por terem passado por aquilo e por se terem dignado responder em nome dos valores democráticos. Fiquei incomodada por confirmar que, agora, ser político impõe que se salte para uma pocilga e que, nessa pocilga, se ganhe.

Ana Abrunhosa foi corajosa. Hoje costuma dizer-se “disruptiva.” Virou costas e não cumpriu o protocolo. Mas não será isso que devemos todos fazer perante alguém que ignora as conquistas civilizacionais que nos mantêm a viver pacificamente uns com os outros?

“Ouvir o que ouvi é violência física e psicológica.” Ana Abrunhosa, tenho a certeza que está cheia de razão. É tudo isso e é também um grande atraso de vida.

António Pinto Pereira, depois de Ana Abrunhosa abandonar a sala, ainda deu alguns esclarecimentos à plateia. Destaco um: “Defendo as mulheres porque são muito mais importantes e valiosas que os homens.” Viram? Um ramo de flores no Dia da Mulher e não se fala mais nisto.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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6 pensamentos sobre “Palmas para Ana Abrunhosa

  1. Claro, isto é tudo a nossa inabilidade. Não se trata também da capacidade da extrema direita em apelar aos piores instintos das tais pobres criaturas que trabalham e contam os tostões.
    Muitas dessas pobres criaturas odeiam a diferença logo ciganos e imigrantes, sonham com a possibilidade de fazer de mulher e filhos os sacos de pancada das suas frustrações sem que ninguém os chateie se forem homens e acham que a extrema direita lhes pode facilitar isso tudo.
    Há gente que vota por mal e pelos maus motivos.
    E, claro, por não estarem esclarecidos. Alguns acreditam que os, seus salários são maus por causa dos imigrantes e sonham com a sua expulsao e acham que a extrema direita lhes vai dar isso. Claro que não vai porque os seus financiadores contam com os imigrantes para conseguir mão de obra barata.
    O que é difícil para os povos acreditarem é que até metade da sua população possam ser uns grunhos, racistas, exploradores e por isso, só por isso votam na extrema direita.
    Porque é impossível que, alguém acredite que a extrema direita lhes vá dar melhores salários, melhores pensões e mais apoios para a sua vida. Porque também sabem que o vencedor do tal concurso também não deu.
    Mas havia respeitinho e as gajas sabiam o seu lugar. Muitas continuam a saber bem demais que só assim se explica o voto de mulheres em tal gente.
    Agora calados ou falando tirar a grunhice da cabeça das pessoas e trabalhinho de corno e temos de compreender perfeitamente quem tenha um dia de cansaço. Como Ana Abrunhosa teve.

  2. Os democratas estão a repetir os mesmos passos que deram, quando um belo dia se tratou de telefonar e votar em quem era o Melhor Português da História, na sua opinião. Para aí em 2007 e concurso foi promovido pela RTP, a nossa RTP, a que todos pagamos através da taxa na conta da luz, galinhas e porcos inclusive, democracia ‘oblige’. Nessa altura os pensadores correctos muito peroraram sobre como se deveria votar. O Povo precisava de ser ‘esclarecido’, ‘educado’, era impossível que escolhessem … O resultado do concurso é conhecido. O de agora está para se saber, mas acho que depois de conhecido, só têm que lamentar a vossa inabilidade para convencerem quem trabalha e conta os tostões, da razão da vossa escolha. Acalmem-se que calados dirão tudo.

  3. O problema é que nem toda a gente tem paciência para fascistas. Entendo a necessidade de ter o estômago suficientemente comprido para tentar argumentar com quem nunca será convencido e que tem como finalidade enganar gente suficiente para levar a direita de volta ao poder com consequências terríveis para todos quantos vivem do seu trabalho.
    Mas compreendo quem, como Ana Abrunhosa, não tem paciência para canalha dessa.
    Tivesse feito a nossa justiça o seu trabalho ilegalizando um partido que ataca a constituição todos os dias e talvez ninguém tivesse de passar por isto.

  4. Sim palmas para Ana Abrunhosa e para a Carmo Afonso também. O dito Chega é um grupo contra a Constituição da República, portanto anticonstitucional. É um grupo anticonstitucional mesmo que alguns juízes possam não o declarar como tal.

  5. “Decidimos ficar e confrontar o fascista, bem como o resto da direita complacente, incluindo Pedro Brinca (IL) e Rita Júdice (PSD), com a força das razões, dos programas e dos dados. Uso o nós, porque Mariana Rodrigues (BE) e Bruno Pedrosa (Livre) também ficaram e fizeram o mesmo. Dissemos, cada um à sua maneira, que compreendíamos a decisão da candidata socialista, mas que o nosso lugar era ali, com as centenas de estudantes que enchiam o auditório. Foi uma divisão de trabalho espontânea entre as esquerdas, por assim dizer.”
    Compreendendo os argumentos da Carmo Afonso, deixo aqui um excerto de um artigo do João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas. Também é com argumentos que se devem combater as direitas fascistas e neofascistas…

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