Há um mundo estranho, cheio de pessoas, fora do telemóvel

(Daniel Oliveira, in Expresso, 27/08/2020)

Daniel Oliveira

A destruição de regras de convivência que obriga os restantes comensais a acompanharem os desenhos animados, cenas de apanhados ou videochamada é a ilustração gráfica de como a alienação individual do espaço que nos rodeia mata a empatia com os outros. É o mesmo que torna normal o insulto quotidiano nas redes sociais. Imaginem como virá a ser quem já nasceu num mundo assim.


A uma mesa, adultos e crianças da mesma família regressam ao convívio depois da refeição. Cada um pega no seu telemóvel e lê, escreve, ouve e fala com pessoas que ali não estão. Parece que toda a mesa entra em estado de hibernação. Estou a ser injusto. A criança mais nova nunca chegou a interromper esse estado. Viu desenhos animados durante toda a refeição, com o som bem alto. Os pais conseguiram evitar o transtorno do aborrecimento infantil, ela perdeu a oportunidade de seguir conversas de adulto, crescer com isso ou, na pior das hipóteses, ganhar a resistência ao tédio que aguça a criatividade.

Ao ver aquela cena lembrei-me de um excelente filme de animação que fez furor há 12 anos: o “Wall-E”. Numa nave, longe de um planeta destruído, a humanidade vivia sentada olhando para monitores, sem se mover, sem interagir com o espaço físico em que estava. Animais inúteis, totalmente tomados pelo prazer passivo de ver coisas que acontecem sem as poder viver. Já na altura se percebia como era premonitório um desenho animado bem mais sofisticado do que o entretenimento fazia crer.

Pagaremos no futuro esta estranha forma de socialização que se tornou no novo normal, em que a fuga ao contacto de quem está ao nosso lado nos faz viver as férias dos outros, as conversas dos outros, a vida dos outros. Pagaremos no futuro estas crianças protegidas do vazio, do silêncio, do tédio. Mas o que me custa é o que eu próprio paguei naquele jantar. Para além da criança, um outro adulto, noutra mesa, via vídeos aos gritos. De vez em quando mostrava aos amigos, que levantavam os olhos dos seus telemóveis, sorriam e voltavam para o seu torpor internauta. Num outro dia, na esplanada do mesmo restaurante, um homem falou durante quase uma hora em videochamada, na mesa ao lado.

Ao olhar para aquilo, consegui perceber parte dos problemas deste tempo. A atomização dos indivíduos tem consequências comezinhas e imediatas. A mais evidente que ali se sentia era a destruição de regras de convivência que há não muito tempo impediam que qualquer pessoa desatasse a ouvir alguma coisa aos gritos num restaurante, obrigando os restantes comensais a acompanharem desenhos animados, cenas de apanhados ou videochamadas aos gritos num restaurante. É a ilustração gráfica de como a alienação individual do espaço que nos rodeia mata a empatia com os outros. É o mesmo que torna normal o insulto quotidiano nas redes sociais. Imaginem como virá a ser quem já nasceu num mundo assim.


17 pensamentos sobre “Há um mundo estranho, cheio de pessoas, fora do telemóvel

  1. “redes sociais”

    Grrr. Auf. auf.

    Eheheheheh.

    As elites andam fudidas por as novas tecnologias darem voz ao povo.

    Antigamente só grandes vultos encartados tinham voz.

    O grande comentador, o grande politico, o grande jornalista, o grande empresário.

    Podiam ser uma cambada de ladrões como o Sócrates, assassinos como o Duarte Lima, mafiosos como o Ricardo Salgado, mas só eles tinham voz.

    Do alto dos seus púlpitos dos media debruçavam-se gravemente sobre todos os problemas debitando a sua elevada sabedoria.

    Só havia jornais e telejornais, o que significava que só as elites falavam e podiam ser ouvidas.

    O povo, esse falava pelas esquinas, pelos cafés, nos táxis.

    E o que dizia era olimpicamente desprezado e ignorado pelas elites “bem”.

    Agora de repente toda a gente tem voz.

    Um simples empregado de limpeza que passou o dia a limpar retretes pode escrever um texto que pode ser lido imediatamente em todo o país, por dezenas ou centenas de pessoas de todos os níveis sociais.

    Se muitos “empregados de limpeza” falarem a mesma coisa ao mesmo tempo podem até criar um caso nacional, como antigamente só os grandes senhores causavam.

    Compreendo que isto deva ser aflitivo para o senhor Oliveira que faz parte dos antigos privilegiados.

    Afinal ele pertence ás elites, recebe mais numa hora a mandar bitaites nos programas da TV do que alguém do povo a trabalhar no duro o mês inteiro.

    Quanto aos insultos, bem, a ele pagam-lhe para insultar o povo português que ultraja todos os dias dando a entender que o povo é nazi.

    Agora está fudido porque lhe devolvem os insultos ao remetente…

    Mas não deixa de ser interessante, no respeitande aos privilegiados da esquerda, que dizem que amam o povo, que são a voz do povo, etc etc etc, depois desprezam tanto o povo como a direita mais aristocrática.

    Tanto este Oliveira, como a Clara, ou a Câncio há uns textos atrás.

    Gostam imeeeeeenso assim do povo, sei lá. O povo é tão giro

    Mas depois o que o povo diz são “conversas de café” e “insultos nas redes sociais” sem que os grandes amantes e auto-nomeados representantes do povo se interessem minimamente pelas razões que levam a essas conversas e pelas preocupações genuínas do povo.

    Talvez por estarem demasiado ocupados a inventar teorias da conspiração para insultar o povo.

    Por exemplo, quando a Clara fala com desprezo da preocupação das pessoas pelos crimes noticiados no CM, está a dizer que está-se a cagar de alto para a família do jovem assassinado à facada em pleno dia no campo grande, ou pelos bombeiros espancados dentro do próprio quartel tomado de assalto por uma horda de “étnicos”, etc.

    Porque tal como a extrema direita do Alex Jones, a esquerda e o politicamente correcto precisam de eliminar as partes que não interessam d informação para poderem criar as suas teorias da conspiração.

    No caso do Alex Jones é justificar o Trump e apresentar o socialismo como uma seita demoníaca.

    No caso da esquerda e do politicamente correcto é demonizar os cidadãos de etnia branca.

    Sabem o que lhes diz um humilde trabalhador como eu ?

    Extrema direita, extrema esquerda e politicamente correctos, vão todos BADAMERDA.

    Ah, granda internet.

    • Mau comentário, que atribui ao artigo de Daniel Oliveira uma motivação preconceituosa inexistente, arranjando pretexto para exprimir aversões e antipatias que não são tidas nem achadas neste caso.
      Daniel Oliveira fala-nos de um problema real da sociedade contemporânea, que não podemos nem devemos ignorar: o uso da internet e das redes sociais como instrumentos de alienação individual do espaço que nos rodeia e de destruição da nossa empatia com os outros. Este problema justifica uma séria reflexão, o que pressupõe necessariamente, a coragem de reconhecer a sua existência e a lucidez de evitarmos a sua deturpação polémica.

      Francisco Ribeiro

    • Concordo a 100%.

      E quando nos classificam como trogloditas e más pessoas por não passarmos a vida a pensar nas condições de vida dos nossos compatriotas presos, dos migrantes ou de quem nunca fez nenhum na vida? Um mimo.

    • Isso era um argumento sem contradição há vinte anos, mas a Internet já não é o que era. Já quase não existem as pequenas comunidades onde se junta quem quer, são comunidades do tamanho do mundo onde quem berra mais cansa os outros, onde algoritmos decidem recomendações com base no que mais emociona para garantir a permanência contínua, onde a publicidade é dirigida a micro segmentos para fins políticos, e, às vezes, onde a própria plataforma promove ideologias e falsidades. Dizer que todos têm direito à mesma voz é não perceber como funciona o software.
      Isso não implica que as ideais de censura originárias de Macron sejam boa ideia, mas não sejamos anjinhos sobre de onde vem o valor acrescentado de um produto grátis.

      • Eu não disse que todos têm direito á mesma voz.

        Com certeza que os algoritmos endrominam e uma elite como o Oliveira continua com milhões de vezes mais voz do que nós.

        Eu digo que pela primeira vez na história da humanidade todos têm ALGUMA voz.

        O nervosismo que isso provoca nas elites é elucidativo do “amor” que eles têm ao povo.

        O “berros” que se ouvem na net muitos vezes não são mais do que o povo sempre disse pelas esquinas – e que elites como o Oliveira sempre ignoraram como se fossem a casta aristocrática da sociedade republicana.

        O próprio desprezo com que a voz do povo é descrita, “conversa de café” “conversa de taxista” é elucidativa.

        Como se a conversa dentro das máfias partidárias e empresariais fossem muito mais “nobres”.

        Mas sim, aposto que o Duarte Lima quando planeou o assassinato da velho nunca levantou a voz nem disse um palavrão.

        É a “nobreza” pá.

        O culto das aparências aristocráticas mesmo quando se chafurda na merddda mais abjecta.

        • Quem dá voz ao Daniel é o patrão, que quem estuda ainda tem mercado. E quem o algoritmo promove não é “o povo”, são sempre os mesmos, financiados pelos mesmos de sempre.
          E, sim, é conversa de café, ao mesmo nível de um JMT: são achismos baseados em leituras superficiais, porque dá trabalho ler e estudar.

  2. Quanto ás regras de convivência ameaçadas pelos terríveis telemóveis.

    O facto de haver pessoas que ouvem os telemóveis com som alto em lugares públicos não é culpa dos telemóveis, é culpa dos paizinhos que não lhes souberam dar educação.

    Muita antes de haver telemóveis já os restaurantes tinham aparelhos monstruosos aos gritos.

    Primeiro eram os rádios e depois as TV.

    É só ser dia de futebol os restaurantes são transformados em centros de histeria colectiva, com comentadores e espectadores aos uivos como porcas com cio.

    Mesmo sem aparelho nenhum é normal haver restaurantes onde os próprios comensais gritam uns com os outros, tentando talvez amaciar os bifes com competições de gritaria.

    Isto é falta de educação e não é de agora, vem de séculos.

  3. O perigo mais perigoso para a humanidade não é a bomba atómica, que foi ultrapassada pela guerra biológica. Mais perigoso que estas duas últimas ameaças é ficarmos sem Internet… Os chinocas andam a tratar disso, e ao Trump já lhe sopraram ao ouvido esse perigo. Huawei, pois claro!

  4. Exatíssimamente, Daniel Oliveira!

    PS: Este Pedro / El Mystico já só lá vai com exorcismo, alguém que o leve até Lamego para o Duarte Sousa Lara tratar do assunto.

    • Atenção que não conheço o Pedro, mas não posso deixar de concordar com ele e ficar magoado, no mínimo, com os discursos das elites bem pensantes e dos “humanistas” e “amigos do povo” de serviço, que mais não fazem do que o acusar de ser racista, qualquer-coisa-fóbico, cruel e desumano. Meus caros, o povo trabalha, é explorado, é manipulado, está cansado, tem mais que fazer do que perder o sono por “causas fraturantes”, por criminosos “mal tratados” pelo sistema, por minorias que tomaram de assalto grande parte dos subúrbios e basicamente querem se manter atomizadas.

      Não precisamos de exorcismos, apenas exigimos o mínimo de respeito. Ah, e sempre votei à esquerda.

      • Conforme a insuspeita Clara Ferreira Alves,
        Revista do Expresso de há perto de dois meses:
        “A Tribuna dos Falhados”.
        «António Costa não tem a menor ideia de como vivem os portugueses, e acha que se der muitas entrevistas e falar muito com eles para um microfone fica mais perto da vida, e mais identificado»

        Crónica não disseminada nas redes ou Net, por supuesto.

      • Eu ou não voto ou voto esquerda apesar de ser regularmente insultado por estas bestas.

        Mas ao contrário de você sou 100% a favor de “causas fraturastes”.

        Sou a favor da defesa dos direitos das mulheres, dos LGBT, dos animais, sou contra o racismo,se calhar até sou a favor das cotas raciais.

        Agora, quando sou contra o racismo, sou contra TODOS os racismos.

        E os supostos “antirascistas” hoje em dia são mais racistas contra os brancos do que outra coisa.

        Passam o tempo a inventar teorias da conspiração para incitar ao ódio contra os cidadãos brancos.

        Hoje em dia ser branco, então se for homem, é um alvo a abater. Porque o feminismo radical enveredou pelo mesmo caminho e dá as mais aos racistas antibrancos.

          • Porque é que são essas bocas indirectas quando depois nunca conseguem responder a nada directamente ?

            Cobardia ?

            E essa boca é tipicamente racista contra os brancos.

            Porque se eu disser que tenho um amigo negro você diz que lá está, todos os racistas brancos dizem que têm um amigo negro.

            Mas se eu disser que não tenho, vocês respondem que claro, porque um racista branco não pode ter amigos negros.

            Ou seja, diga um branco o que disser, para vocês é sempre racista.

            É precisamente a essa vossa aldrabe e hipocrisia de merddda que eu me refiro.

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