Vaticano – A guerra dos papas

(Carlos Esperança, 15/01/2020)

Quando o Papa Francisco procurava timidamente abrir vagas a homens casados, isto é, normais, para o múnus eclesiástico, saiu um livro com o pensamento do antecessor que, receoso da Cúria, renunciou aos sapatinhos vermelhos, à tiara e outras mordomias, num gesto sem precedentes nos últimos seis séculos, desde 1415.

Francisco anunciara que na Amazónia poderiam ser ordenados padres casados, o que já acontece com trânsfugas de outras fés cristãs, mas Ratzinger, pastor alemão, conhecido por Rottweiler de Deus, surgiu como coautor de um livro, com um cardeal, a defender o celibato como virtude irrenunciável.

A três meses de fazer 93 anos, inteligente, culto e indesejável, afirma que não autorizou a inclusão do seu nome no livro, com o cardeal guineense Robert Sarah, mas o mestre da dissimulação e hipocrisia, afirmou ter autorizado a publicação dos textos.

Esta facada nas costas do Papa Francisco, que tratou o desertor com desvelo e respeito, está à altura da Cúria, que não tem cura, e de um exército de ressentidos celibatários que veem virtudes no celibato e na castidade, esta última pouco escrutinada, ambas de fácil cumprimento depois dos setenta anos, onde ainda se encontra grande parte do poder.

O que está em causa é a guerra surda contra o atual Papa, um homem inteligente e cauto que tem preservado a existência a navegar num mar infestado de tubarões com o saber milenar de atacar as presas.

Não sei o que têm preparado os purpurados turvos de ódio à modernidade, habituados a mordomias, contra o único Papa que procura acertar o passo ao compasso do tempo e às angústias comuns a quem tem um Deus privativo e a quem não tem qualquer deus.

Isto não é uma guerra de papas, é a história universal da pulhice humana feita por atores de báculo, mitra, vestidinhos de seda e meias coloridas, com anelões de diamantes incrustados e cérebros de conspiradores treinados.

O Céu pode esperar, e o Inferno para o Papa que preferiu defender a paz e a justiça, em vez de se colocar ao lado dos predadores, é o desejo obstinado da horda de clérigos que nunca aceitaram o Vaticano II e esperam o regresso a Trento e ao Vaticano I.

Deus nunca se intrometeu nas lutas do Vaticano, mas aqueles Diabos não perdoam a quem prefere homens casados, como funcionários de Deus, por enquanto só homens, a imaculados celibatários pedófilos a quem retirou a proteção.


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2 pensamentos sobre “Vaticano – A guerra dos papas

  1. João XXIII, com o Concílio Vaticano II, tentou arejar a ICAR e abri-la ao Mundo e aos fiéis.Considerando que os “Sumos Pontífices” não são “Deuses” mas simples seres humanos, cujas capacidades físicas ou psíquicas podem diminuir com a idade, é preferível que resignem do que arrostarem até à morte no cargo com a sua decrepitude, como sucedeu com João Paulo II.

  2. As religiões foram inventadas para controlar as mentes no sentido da obediência em harmonia com os poderes estatais cujas figuras centrais eram deuses, semi-deuses ou com contactos privilegiados com os deuses. Em nome das religiões morreram em guerras, perseguições e massacres milhões de pessoas
    Mais precisamente, o cristianismo, nas suas muitas versões e aspectos , mais ou menos escabrosos ou meramente ridículos, fundou-se sobre o roubo, a perseguição, o ódio, o preconceito, a misogenia

    A ICAR com o seu peso institucional secular tem hoje, na realidade uma influência muito limitada e atravessada por correntes mais ou menos reacionárias mas, todas interessadas em manter fiéis que permitam uma boa vida a uns quantos – sejam catedrais, padres de aldeia ou os vigaristas das seitas sincréticas que se colocam sob o ceptro de uma figura imaginária a quem chamam JC, filho de um Deus cruel, caprichoso e cuja vida é passada a divertir-se com a Humanidade, sua “óbvia” criação

    E, nas classes políticas, há quem considere normal e positivo os serviços prestados por essa gente, arcando com os encargos alimentados pela carga fiscal que impende sobre todos, crentes e não crentes

    As emanações desses preconceitos e idiotices revelam-se frequentemente de formas dolorosas para gente concreta, como no caso abaixo descrito, ontem publicado no Notícias ao Minuto
    E disse
    Vítor Lima, ateu, profundo e blasfemo

    – – –

    Escola católica expulsa adolescente por causa de camisola com arco-íris
    Instituição de ensino defende que fotografia publicada nas redes sociais é a “última gota” numa série de “violações” cometidas pela estudante.
    Escola católica expulsa adolescente por causa de camisola com arco-íris

    A mãe de Kayla Kenney publicou nas redes sociais uma fotografia da filha em frente ao seu bolo de aniversário, no dia em completava 15 anos. Dias depois, recebeu uma chamada do diretor da escola para a notificar da expulsão da aluna da escola privada Whitefield Academy.

    Em causa está, alegadamente, a camisola e o bolo de aniversário, ambos com as cores do arco-íris, mescla cromática que também é usada pelas bandeiras que representam a comunidade LGBTQ+.

    A escola cristã defende que a imagem é a “última gota” numa série de “violações de estilo de vida” cometidas pela aluna ao longo de dois anos. Bruce Jacobson, diretor da escola, escreveu num email enviado à progenitora que a fotografia é “demonstrativa de uma postura de moralidade e aceitação cultural contrária aos ideais da Whitefield Academy”.

    De acordo com a imprensa local, o código de conduta da escola tem indicações específicas sobre orientação sexual e escreve, inclusive, que se o comportamento de um aluno fora da escola não estiver em conformidade com as regras da instituição, este pode ser admoestado.

    Kimberly Alford, a mãe de Kayla Kenney, discorda, porém, das razões apresentadas para a expulsão da sua filha e diz que a família se sente “julgada”. “Eu sinto-me julgada, ela sente-se julgada, isto foi devastador para nós”, explicou, citada pela mesma publicação.

    “Não havia nada intencional naquela fotografia, e mesmo quando fui buscar o recibo à pastelaria, não havia nenhuma indicação sobre representações, dizia apenas ‘colorido'”, acrescentou, sublinhando que reclamou da expulsão da filha e que a escola se recusa a reunir.

    Kayla está agora inscrita numa escola pública, depois de ter estudado na escola católica durante quatro anos.

    https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1394451/escola-catolica-expulsa-adolescente-por-causa-de-camisola-com-arco-iris

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