Dois séculos de fake news

(Francisco Louçã, in Expresso, 01/12/2018)

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Agora que Marcelo sugeriu que o Estado financie a comunicação social para evitar o seu estrangulamento é relevante a definição de padrões de referência.

Em 1835, “The New York Sun” publicou uma notícia chocante: John Herschel, um reconhecido astrónomo britânico a trabalhar num observatório na África do Sul, teria descoberto na superfície da Lua, com o seu potente telescópio, algumas presenças surpreendentes, como cabras de pele azul, um imponente templo de safiras e, pior, homens-morcegos gigantes em animado colóquio. Foi uma sensação. A venda do jornal subiu de oito para 19 mil exemplares por dia, fazendo dele o jornal com maior difusão no mundo. Mas era tudo inventado pelo engenhoso Richard Adams Locke, o diretor do jornal, que contava com a dificuldade de comunicação com a distante África do Sul para que o inocente Herschel não desmentisse a fabricação.

DUZENTOS ANOS DE MENTIRAS

As fake news teriam quase dois séculos, a contar deste episódio, se não tivesse havido antes algum expediente de mentira e de nevoeiro. Ora, os registos indicam muitos outros exemplos anteriores: um opúsculo de 1654, publicado na Catalunha, anunciava a descoberta de um monstro com pernas de cabra, um corpo humano e sete braços e sete cabeças. Antes disso, em 1611, um panfleto publicado em Inglaterra versava sobre uma mulher que, no outro lado do Canal, teria vivido 14 anos sem se alimentar. Fantasmagorias, fábulas, calúnias, boatos, tudo isso tem a idade da fala e da comunicação.

O que a história de “The New York Sun” tem de particular, e provavelmente não de original mas ao contrário desses opúsculos catalão e inglês, é que a mentira foi construída a partir de um suporte de comunicação que pretensamente assegurava a objetividade e rigor da notícia. A mentira teve efeito porque era apresentada por quem parecia garantir o acesso à verdade. Ora, essa tecnologia da falsificação ganha uma dimensão universal com os meios de comunicação de massas, os jornais, as rádios, depois a televisão. Agora, as redes sociais na internet não seguem exatamente o mesmo padrão porque, ao contrário dos meios de comunicação das gerações anteriores, sobrepõem inúmeros canais em simultâneo: onde a centralidade da informação exibia a medida da sua credibilidade, agora é a dispersão e a intensidade do efeito de bombardeamento que criam a transmissão do conteúdo.

A MORTE DA VERDADE

As fake news recentes mais famosas, que o Papa apoiava Trump ou que Hillary Clinton vendeu armas ao Estado Islâmico, nem pretendem parecer verdade, mas têm que ser multiplicadas de tal forma que se torne verosímil pensar que “toda a gente” acredita na mentira, e portanto é uma quase-verdade. Michiko Katukani, depois de uma longa carreira como crítica literária em “The New York Times”, dedicou-se a discutir este efeito de ilusão. Num livro recentemente traduzido em português, “A Morte da Verdade” (2018, Presença), Katukani usa o conceito de Arendt do “súbdito ideal do regime totalitário”, “aquele para quem deixou de existir a diferença entre facto e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento)”, para descrever este regime de pós-verdade que se baseia na inundação do mundo por conteúdos irrelevantes ou falsos.

Agora que Marcelo sugeriu que o Estado começasse a financiar a comunicação social para evitar o seu estrangulamento, nomeadamente por via da sua substituição por esta avalancha de tecnologias das fake news, mais relevante se torna a definição de padrões de referência e de confiança que criem uma âncora contra o populismo, a política suja e os expedientes, desde os que deram fama ao diretor de “The New York Sun” há 200 anos até aos que deram as presidências a Trump e a Bolsonaro. Mas se a pergunta for se ainda pode haver comunicação independente, a resposta é negativa, mas não está tudo perdido. Não é independente de poderes económicos, não sei se será independente de governos, mas ainda pode ser jornalismo se recusar usar a mentira como forma de vida.


Os estivadores e as costureiras

Eugénio Santos, o dono da Colunex, num debate sobre competitividade em Matosinhos contou a sua experiência de uma viagem à China, em que descobriu que “as costureiras de Xangai ganham mais 30% do que as costureiras em Portugal”. Não é só o caso da indústria têxtil: “Em países como a Áustria e a Alemanha paga-se três vezes mais a uma empregada de limpeza do que a um engenheiro que se firmou no Técnico em Lisboa”. Ou, em resumo, “andamos embebedados com esta coisa de sermos um país atrativo. Portugal é atrativo porque paga salários do Terceiro Mundo e se se aplicasse a média salarial europeia às empresas portuguesas 70% desapareceriam”. Assim, curto e grosso.

No porto de Setúbal está a ser inventado um modelo de gestão ainda mais competitivo do que o dos baixos salários das costureiras ou dos engenheiros do Técnico. Não há trabalhadores, nem sequer “colaboradores”, há somente números de telemóvel para convocar a qualquer hora e para um contrato por qualquer período uma lista de disponíveis. Este modelo de gestão é ainda mais conseguido porque, como se viu por estes dias, se os trabalhadores protestam a empresa combina com o ministério o envio de um nutrido destacamento de polícia para escoltar encapuzados que vão substituir os estivadores.

No entanto, a Autoeuropa parece não ter ficado encantada com este procedimento. Em várias tomadas de posição, e pelo menos num comunicado, lembrou que desde o verão manifestou às autoridades e à empresa portuária a sua preocupação com a não resolução do problema da precariedade. E no primeiro dia da operação policial para furar a greve demarcou-se da iniciativa, registando que não era responsável por ela. Há pelos vistos quem entenda que este modelo do Terceiro Mundo, mesmo tão completo e autoritário a ponto de contratar e despedir os trabalhadores a dias, está a pôr a economia portuguesa em perigo.


Desejos, sinais e touradas no Orçamento

Talvez a frase mais justamente famosa do debate orçamental tenha sido dita fora do Parlamento. Numa sessão com os membros do Governo na Universidade do Minho, a estudante Carla Gomes contou a seguinte história da vida da sua família: “Tenho um irmão com paralisia cerebral, perto de 100% de incapacidade. Ele recebe uma pensão de invalidez de 270 euros por mês, sendo que mais de metade deste valor é para medicação e cuidados de higiene. A minha mãe é tutora do meu irmão e recebe um suplemento de 170 euros por mês”. Alguém notou que o primeiro-ministro passou logo a palavra ao ministro dos assuntos sociais, que explicou que há uma nova prestação e que abrange umas dezenas de milhares de pessoas. Há portanto esforço, e tem melhorado o apoio a pessoas com deficiência, começa-se a discutir um estatuto para os cuidadores informais, mas é ainda tão pouco. E, perante a evidência, Costa e Vieira da Silva evidenciaram o modo de comunicação do Governo nestes tempos que correm: respondem com um cansaço do fim do mundo, ou com a prosa administrativa das rotinas bem aprendidas.

Noutras questões que são a vida das pessoas, no entanto, este orçamento é um sucesso. Aumenta as pensões mais pobres, reduz as propinas, garante livros escolares gratuitos, revoluciona os passes sociais, baixa ligeiramente a conta da luz, desenvolve o imposto Mortágua, melhora o combate à evasão fiscal, há um sinal, mas só um sinal, para os professores, tudo medidas que foram discutidas na praça pública como raramente, se é que alguma vez acontece com um orçamento. Percebe-se nestes processos que é exclusivamente por não haver uma maioria absoluta que o orçamento pode ser melhorado. Ao mesmo tempo, este debate aberto é uma vantagem para o Governo e para os seus parceiros, pois a direita fica desarmada com as contas e com a disputa sobre como melhorar o orçamento. Não fui decerto só eu a notar que a direita se colocou noutro planeta, onde não interessa, e esse é o pior dos seus erros.

Houve depois o folclore, como a questão das touradas. Saber se o IVA dos bilhetes das touradas se devia manter, como propunha o Governo, ou reduzir de 13 para 6%, como clamava a civilização taurina, tornou-se um tema de cisão na bancada no PS e de mobilização das direitas e do PCP, que pelo menos preferiu votar calado. Não sei se este debate parlamentar será por isso lembrado pelos “olés” da bancada do PSD, quem canta seus males espanta, ou se pela pergunta de Carla Gomes. Mas tenho a certeza acerca de qual diz mais à vida das pessoas.

 

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Um pensamento sobre “Dois séculos de fake news

  1. Lúcido e sucinto e noentanto …
    … sendo o jornalismo uma mistura de capital e seres humanos, o primeiro continuará factualmente amarrado à maximização da apropriação da mais valia e, os jornalistas sujeitos a vender a mão de obra a preço de mercado, desvalorizado pelo corpo do lumpen-estagiárius”, o que, trocado por miúdos, significa cada vez mais jornaleirismo à là correio da manha feito por quase-analfabetos.
    … a mui-modernaça auto-europa continua a escoar produção com mão de obra mafiosa, escoltada por policias alugados. Maximização da apropriação-privada-da-mais-valia-socialmente-produzida oblige.
    … e sim, sem dúvida, as outras mil e uma propostas aprovadas (pelo centro-esquerda pcp+be+ps) e rejeitadas (com votos contra da extrema-direita ps+psd+cds) são muito mais importantes do que os 6% de iva, mas foram esses 6% de prémio para as touradas a deixar-me esta amargura pelo conservadorismo rural dos meus camaradas, luta-de-classes oblige.

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