Lá está ela, até hoje, até hoje

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 11/12/2015)

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Baptista Bastos

O desejo tem muito a ver com a liberdade do corpo, com a necessidade de o corpo ser livre e cavalgar como o vento, com o vento, ah!, o desejo, o desejo que se perde, o desejo que se esvai, o desejo.

E havia sempre os sábados à noite. O Pepe trazia da taberna onde era empregado dois ou três maços de cigarros, Unic, Três Vintes ou Varinos, e íamos à vida. No tempo dos bailes populares lá estávamos, as raparigas cheiravam bem, dançávamos agarrados, às vezes beijávamo-las, as trupes-jazz estavam na moda, Os Trocistas, Os Maiores do Jazz, e os cantores imitavam Dick Farney, o brasileiro que gozava de grande celebridade. Nas colectividades, na época de Inverno, também havia bailes, e éramos muito novos e felizes. Ficavam longe os ecos das prisões políticas, nem sabíamos o que isso era, a não ser quando o problema tocava alguém da família ou próximo. Mais tarde aprendi que as coisas não eram assim tão simples, mas foi mais tarde, muito mais tarde.

Às vezes, visitávamos os bordéis, que conhecíamos pelas ruas e pelos números dos prédios. No interior, mulheres ainda novas apresentavam-se-nos, meninas à sala, gritavam as patroas, quando apareciam outras, mais novas, a notícia corria veloz, há gajas novas, da província, um odor adocicado, perfumes baratos e insistentes. Éramos pobres, muito pobres, mas não nos importávamos porque nem sequer sabíamos.

Certa madrugada fomos acordados pelos gritos estridentes da senhora Amália. “O meu marido vai preso! O meu marido vai preso porque é um homem bom!” A senhora Amália estava à janela, um pouco desgrenhada, e juntaram-se-lhe os dois filhos, também aos gritos. E vimos o senhor Alfredo, tipógrafo, ser arrastado por cinco indivíduos. “Afastem-se! Afastem-se!”, berrava um deles para um pequeno ajuntamento que se aproximara. As ruas ficaram cheias daqueles gritos, e dos olhares daquela gente, melancólicos mas não resignados. “Que foi aquilo, pai?”, perguntei. Ele acabara de chegar a casa, vindo do jornal onde trabalhava de noite, e disse-me: “É um homem de bem, apenas um homem de bem.” Nunca mais esqueci a frase. E não era preciso dizer mais nada.

Quando as palavras estão a mais, a sua eficácia perde-se num emaranhado. Pela vida fora cheguei a pôr de lado alguns livros, muitos livros, porque continham palavras a mais, e quando as palavras estão a mais isso quer dizer que lhes falta genuinidade.

 Mas havia as raparigas, os namoros, o perfume delas, do corpo delas, que permaneceria quase que para sempre. As raparigas, ah!, as raparigas! Algumas esperavam por alguns de nós, nos bailes, e muitos desses namoros deram em casamentos. Não gosto de dizer o que vou dizer, mas tenho pena que o pessoal mais novo de hoje não saiba o encanto desses momentos, os corpos oferentes e desejosos, os beijos rápidos, as mãos nas curvas dos corpos, o prazer desenfreado impedido pela natureza do tempo, da história das coisas. Mas na prisão que encarcere o desejo, o desejo é um impulso infindável, selvagem e bravo. O desejo tem muito a ver com a liberdade do corpo, com a necessidade de o corpo ser livre e cavalgar como o vento, com o vento, ah!, o desejo, o desejo que se perde, o desejo que se esvai, o desejo.

 E lá estão o Delmiro, o Pepe, o Descasca Milho, o Naftalina, o Vitinha, o Luís, os bailes, os bailes, e lá está ela, a minha rapariga, eu à procura dela e ela à minha espera, no largo junto ao chafariz, até hoje, até hoje.

 

 

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