O cálice envenenado da retoma na Europa

Barry Eichengreen

                 Barry Eichengreen

(Barry Eichengreen, in Expresso, 25/04/2015)

Com o resto da Europa em crescimento, os outros governos, acreditando encontrar-se numa situação económica mais forte, estão menos inclinados a um compromisso com a Grécia.

CAMBRIDGE — Após uma dupla recessão e um longo período de estagnação, a zona euro está finalmente a mostrar sinais de recuperação. A confiança dos consumidores está a aumentar. As vendas a retalho e o registo de automóveis novos estão em alta. A Comissão Europeia prevê um crescimento de 1,3% para o corrente ano, o que não é mau à luz dos padrões europeus, podendo, no entanto, ser muito mau no que diz respeito à reforma da Europa.

Não é difícil perceber a razão da intensificação do crescimento. Naturalmente, porque o Banco Central Europeu (BCE) anunciou, no final de janeiro, um ambicioso programa de aquisição de ativos (flexibilização quantitativa). Tal perspetiva conduziu rapidamente a uma descida da taxa de câmbio do euro, aumentando a competitividade internacional dos produtos europeus.

Contudo, a desvalorização do euro é ainda demasiado recente para que a diferença possa já ser sentida. Os antecedentes históricos, sem esquecer a experiência do Japão com a queda do iene, sugerem que são necessários vários trimestres, ou mesmo anos, para que o impacto positivo da depreciação da moeda sobre as exportações líquidas se faça sentir.

Por conseguinte, tem de haver influência de outros fatores. Um deles traduz-se no facto de a despesa e o crescimento estarem agora menos sujeitos à pressão da consolidação fiscal. O saldo orçamental estrutural primário, a medida de “carácter orçamental” favorita do Fundo Monetário Internacional, registou uma diminuição adicional de 1-1,5% do PIB ao ano entre 2010 e 2012, mantendo-se depois praticamente estável. Os dois anos seguintes de política orçamental neutra produziram uma diferença positiva em termos de desempenho económico.

Além disso, por muito lamentável que seja a aplicação desigual das regras orçamentais da União Europeia, a recente decisão da Comissão Europeia de conceder a França mais tempo para que reduza o seu défice orçamental para 3% do PIB é bem acolhida, visto que ocorreu no contexto de uma economia fraca.

O outro fator subjacente à recuperação é o progresso significativo que vários países europeus, como Espanha, registaram em termos de reforma estrutural. A regulamentação do mercado de trabalho foi suavizada e os custos de mão de obra unitários registaram uma descida. Este facto está a contribuir igualmente para melhorar a competitividade da Europa.

Um terceiro elemento impulsionador da recuperação é o facto de os bancos e os mercados financeiros se encontrarem agora mais bem isolados das perturbações da Grécia. Os bancos franceses e alemães conseguiram vender as obrigações do Estado grego que detinham, sobretudo ao BCE, que agiu na qualidade de comprador de última instância. O Banco Central também prometeu apoiar os mercados de obrigações dos outros países, caso se verificasse um incidente na Grécia. Por conseguinte, a recuperação da Europa corre menos risco de ser prejudicada pela instabilidade em Atenas.

O quarto e último fator é o “pulo do gato morto” [dead cat bounce — expressão inglesa que se refere a uma ligeira e breve recuperação, NdT.].

O crescimento económico cura muitas feridas. Fortalece os balanços dos bancos, reduzindo o volume do crédito malparado. Restringe os défices orçamentais do Governo, aumentando as receitas fiscais e contendo a despesa da segurança social. Ao elevar o denominador do rácio dívida/PIB, aumenta a confiança na sustentabilidade da dívida. E gera estes benefícios automaticamente, não sendo necessária qualquer outra ação por parte dos responsáveis.

Infelizmente para a Europa, o crescimento também reduz a perceção em matéria de urgência de ação onde esta é mais necessária, por exemplo, na Grécia. Com o resto da Europa em crescimento, os outros governos, acreditando encontrar-se numa situação económica mais forte, estão menos inclinados a um compromisso com a Grécia. Todos compreendem que o compromisso é preferível ao colapso das negociações, ao incumprimento desordenado e à saída forçada da Grécia da zona euro. No entanto, quanto mais confiante ficar o resto da Europa em relação à sustentabilidade da sua recuperação, mais duras serão as medidas adotadas, e maior será a probabilidade de um desfecho desordenado.

A Europa ainda precisa de uma reestruturação da dívida. A recuperação económica apenas lhe permite adiar o inevitável dia do ajuste de contas.

De igual modo, quanto mais a recuperação e o crescimento sustentado fortalecerem os balanços dos bancos, menos urgência irão sentir os decisores políticos em colmatar as lacunas estruturais, como as garantias implícitas de que beneficiam os bancos estatais e as caixas económicas municipais na Alemanha, bem como os problemas dos bancos geridos por famílias, como o Banco Espírito Santo em Portugal.

E mesmo um crescimento de 2% não tornará sustentáveis os rácios de três dígitos da dívida/PIB da Europa. A Europa ainda precisa de uma reestruturação da dívida, embora os líderes do continente se recusem a reconhecer este facto. A recuperação económica apenas lhes permite adiar o inevitável dia do ajuste de contas.

Finalmente, há reformas mais ambiciosas (a união orçamental e a união política) que devem complementar a união monetária caso a Europa pretenda evitar uma crise semelhante no futuro. Se há uma lição a retirar da recente situação de dificuldades na Europa, é a de que a união monetária sem união orçamental e política não funciona. No entanto, tendo em conta a forte oposição face a uma maior integração orçamental e política, os progressos implicarão negociações difíceis e polémicas. Por conseguinte, o crescimento da Europa sem estas medidas irá criar um incentivo para a sua exclusão.

O problema é que simplesmente muitas das condições que geraram a crise da zona euro se mantêm inalteradas. Se a Europa crescer agora sem tomar as decisões difíceis necessárias para abordar essas condições, é provável que, de forma correspondente, tais decisões também não venham a ser tomadas.

Nos países em desenvolvimento diz-se que os bons tempos são maus momentos para a reforma económica. Bem-vindos à Europa em desenvolvimento.

Traduzido por Teresa Bettencourt. Professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley e na Universidade de Cambridge

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