O Hezbollah e a política Israelita de assassinatos seletivos

(Raphael Machado in Twitter 28/09/2024)


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Com o assassinato de Sayyed Hassan Nasrallah e de algumas outras figuras relevantes do Hezbollah nas últimas semanas, a propaganda israelita alega ter “destruído” o Hezbollah.

As pessoas que entendem os conflitos militares, nos termos de videogames, repetem a mesma coisa. Em muitos casos são pessoas jovens demais para entender o que é um conflito militar – ou mesmo para ter qualquer senso de história.

De imediato, já se pode dizer que o assassinato de Nasrallah não teve impacto imediato nas operações militares do Hezbollah porque poucas horas depois da confirmação o Hezbollah seguia fazendo os ataques aéreos que ele tem feito no mesmo patamar dos últimos dias.

Ademais, não é o primeiro secretário-geral do Hezbollah assassinado por Israel. O antecessor de Nasrallah, Abbas al-Musawi, também foi assassinado em 1992 junto com sua família. Na época, os jornais israelenses alegavam o “fim do Hezbollah” – 14 anos depois o Hezbollah derrotava militarmente Israel e expulsava as forças israelenses do sul do Líbano.

Poderíamos transferir o exemplo para o Hamas: teve seu primeiro líder Ahmed Yassin assassinado, e o seu sucessor, Abdel Al-Rantisi, também foi assassinado meses depois. Avançamos 19 anos e o Hamas impôs o maior custo militar da história israelense, e o conflito continua.

Diariamente há notícias e vídeos de ataques das Brigadas Al-Qassam contra alvos israelenses em Gaza, com baixas noticiadas todos os dias, apenas algumas sendo admitidas por Israel.

A realidade é que, historicamente, políticas de assassinatos seletivos em contextos de guerra assimétrica têm poucos resultados práticos. Para Israel trata-se mais de impor um “custo psicológico” ao inimigo, bem como ganhar na “guerra de propaganda”, especialmente no plano exterior.

Entendam: se nem com a destruição generalizada de Gaza e mais de 100 mil mortes por várias causas Israel conseguiu derrotar o Hamas, não será com esses ataques que o Hezbollah deixará de existir.

Entra aí, ademais, um elemento que é específico desse conflito e que é o fato de que, no caso do Hezbollah, se está diante de uma mentalidade que é basicamente o análogo islâmico à mentalidade viking.

Os membros do Hezbollah objetivamente buscam o martírio. O martírio, para eles, além de motivação é um objetivo. É um elemento mobilizador de recrutamento, bem como um elemento central de sua ética fundada na futuwah (a ética cavalheiresca islâmica).

A ideia de que martirizar membros do Hezbollah vai gerar algum abalo em sua disposição para lutar é um delírio desinformado. Nasrallah disse: “Nós venceremos porque eles amam a vida, enquanto nós amamos a morte”.

Enquanto os israelitas são materialistas e individualistas, vivendo para os sentidos e para a acumulação de bens materiais, os membros do Hezbollah vivem para a guerra e para a morte na guerra. Cada mártir é um triunfo, e outros correm para ocupar o seu lugar e, com isso, merecerem a glória do martírio.

Essa mentalidade não é exclusiva do Hezbollah, sendo típica do espírito xiita – que é a expressão mais pura não apenas do Islã, como também uma das máximas expressões do espírito guerreiro, à altura do bushido nipónico. Após a batalha de Karbala, por exemplo, quando o Imã Hussein, seus companheiros e seus familiares (inclusive crianças e bebês) foram mortos por Yazid, a sua irmã Zaynab, em discurso em Kufa, disse que não ter visto senão a Beleza em si, durante a Batalha de Karbala.

Naturalmente, agora, o Hezbollah e o resto do Eixo da Resistência precisarão recuperar a iniciativa por meio de um ataque coordenado. O Iron Dome já está todo esburacado e não tem a mesma eficiente que tinha antes do 7 de outubro, por causa do desgaste imposto gradualmente.

Nesse sentido, a política militar de desgaste foi uma faca de dois gumes, porque cedeu a iniciativa militar a Israel enquanto, por outro lado, desgastou os seus recursos e meios de defesa.

Os dispositivos explosivos de Israel no Líbano foram um sucesso?

(Por Martin Jay, in Strategic Culture, 19/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

Cair sobre a sua própria espada deve ser uma preocupação, tanto para Israel como para os EUA.


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É incrivelmente difícil decifrar os acontecimentos recentes no Líbano. Primeiro, foram pagers a explodir e, mais recentemente, walkie talkies, havendo agora já 20 mortos e mais de 500 feridos. Embora Israel não admita a autoria da operação, está claro que as marcas dos seus dedos estão por toda parte nas operações e, portanto, seria fácil presumir que este foi um grande sucesso para Netanyahu. Chocou o Hezbollah e derrubou-lhe as comunicações, embora temporariamente, e mostrou aos libaneses e ao mundo que Israel está muito à frente do seu opositor apoiado pelo Irão. Foi astuto, original e engenhoso pela sua simplicidade e eficácia. E tal ataque capturou a imaginação dos média ocidentais que exageraram na sua cobertura.

Claro, os especialistas da comunicação social e os comentadores a quem eles recorrem não conseguem dizer o que vai acontecer a seguir. Muitos, no entanto, especulam que tal foi um prelúdio para um ataque, uma guerra total entre Israel e o Hezbollah a ser travada no sul do Líbano. O efeminado e obcecado por si mesmo Tom Fletcher, que costumava ser o embaixador do Reino Unido no Líbano anteriormente, não ofereceu nenhuma presciência ou perceção, mas apenas repetiu os velhos clichês na rádio BBC. Jeremy Bowen, um experiente hacker da BBC no Oriente Médio, avançou mais. Bowen alerta que a retórica de Israel cresceu nos últimos dias, impulsionada com ainda mais equipamentos militares movidos para a fronteira libanesa – indicando que uma invasão está iminente. Ele também alerta, no entanto, para o facto de Israel ter um historial grande de invasões ao Líbano e sempre sair com o nariz a sangrar, recorrendo ao clichê de passar pelo topo do abismo.

Na verdade, cair sobre a sua própria espada deve ser uma preocupação, tanto para Israel, como para os EUA.

Bowen também é cuidadoso – para evitar ter que reconhecer mais tarde que falhou a previsão – e acrescenta que o ataque dos gadgets pode muito bem ser parte de uma estratégia de intimidação que não inclui uma invasão total. Ninguém sabe realmente. Uma invasão terrestre, pelo menos até ao rio Litani, deve estar na mente de Netanyahu. Desta vez, para quebrar a maldição, deve ele estar a pensar. E os seus generais também estarão interessados ​​em tal empreendimento, o que explicaria o ataque dos gadgets, já que muitos combatentes do Hezbollah ficaram cegos ou parcialmente cegos.

No entanto, há uma outra teoria, que não é avançada pela BBC, que é que os pagers e walkie talkies tinham sido armadilhados há muito tempo, na preparação para um ataque um dia – mas que Israel terá recebido informação dos serviços secretos de que o Hezbollah havia descoberto o estratagema, ou estava prestes a descobrir. Em tal cenário, já seria lógico detoná-los, para capitalizar a vitória e esperar o máximo de baixas.

Mas, mesmo nesse enquadramento, é possível que o nível de explosivo adicionado a ambos os dispositivos tenha sido mal avaliado, já que as explosões em si, em termos militares, resultaram em pouquíssimas mortes. Por alguns gramas a mais, talvez centenas de combatentes do Hezbollah pudessem ter sido mortos.

O Líbano está cheio de espiões e informadores israelitas. Os israelitas, geralmente, têm lá excelentes fontes de inteligência e sabem muito mais do que o Hezbollah gosta de admitir. Não há dúvida que o evento é uma derrota para o Hezbollah, pois faz parecer que existem muitas brechas de segurança pelas quais a Mossad pode trepar quando quiser. Claro que agora a segurança será reforçada, mas a façanha de Israel foi genial e deixou o líder do Hezbollah parecendo atordoado e fora de sintonia com as suas ameaças.

O Irão, no entanto, é uma fera maior e com outro fôlego. Quanto maior você é, mais difícil é a sua queda, é uma máxima que certamente se aplica a Teerão. Os iranianos foram humilhados por Trump, com o assassinato durante uma viagem, do seu principal comandante; mais recentemente, um líder palestiniano, enquanto visitava Teerão, também foi assassinado; e muitos comandantes do Hezbollah foram mortos por operações das IDF/Mossad no Líbano nos últimos meses.

Os especialistas da região falam sempre que o Hezbollah e o Irão estão a demorar em servir o seu prato frio de vingança ao Ocidente e a Israel, mas parece que Teerão quer evitar a todo o custo uma guerra total com o Ocidente. Estranhamente, este é também o objetivo de Biden. No entanto, se estes recentes ataques fizerem parte de uma ofensiva terrestre planeada, como até os comandantes das IDF estão a sugerir, uma ofensiva que “gravita” em direção ao Líbano, então Teerão não terá outra alternativa senão aumentar a parada.

Sendo verdade que o ataque aos gadgets foi impressionante pela sua originalidade, nunca devemos subestimar os movimentos que o Irão pode ter reservado para a infantaria comum de Israel no campo de batalha no Líbano, ou mesmo dentro de Israel. As IDF nunca conseguiram nada que pudesse ser considerado uma vitória com suas invasões, quer em 1982, quer mais recentemente em 2006. O Hezbollah naquela época deu às IDF uma surra humilhante dentro do Líbano e Israel faria bem em notar que o seu exército de combatentes libaneses está ainda melhor hoje do que antes.

É uma ironia cruel para Israel, mas as suas invasões apenas serviram para aumentar a capacidade do Hezbollah, enquanto exército disciplinado, capaz de paralisar as IDF na guerra. Nesse cenário, uma tal derrota significaria certamente o fim de qualquer governo político da elite em Telavive, e poderia mesmo significar o fim do estado de Israel, tal como o conhecemos. Estará Netanyahu tão iludido que se arriscará a tal ação?

Fonte aqui.