A obra não é o autor – quando a arte sobrevive às escolhas

(João Gomes, in Facebook, 30/12/2025)

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(Em resposta a um comentário de um visitante mais ou menos frequente deste blog, Carlos Marques, em que acusava a Estátua de, digamos, “falta de coerência ideológica” – seja lá o que isso for -, por publicar textos de autores que ele incinera por proscritos – no caso era o Pacheco Pereira, ver aqui -, esclareci que a Estátua não ostraciza ninguém pelo seu currículo ideológico e publica os textos pela sua valia em si, não atendendo aos hipotéticos “pecados mortais” passados dos seus autores.

Ora, é exatamente esse debate que este texto desenvolve, trazendo a terreiro os casos conhecidos de grandes vultos da literatura, da pintura, da música e do cinema. E fá-lo com a qualidade a que o seu autor já nos habituou. É que a Estátua prefere usar o currícculo apenas como pista indiciadora de qualidade à partida – que, em concreto, pode vir a ser infirmada – do que como um ferrete de perpétuo banimento. Aqui fica, pois, dedicado e à atenção do nosso crítico comentador.

Estátua de Sal, 30/12/2025)


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Sempre que um artista morre – sobretudo quando foi grande – há um ritual quase inevitável: o elogio vem acompanhado do inventário moral. Não basta perguntar o que fez; exige-se saber quem era, como pensava, em quem votava e, se possível, que pecados carregava. A obra já não chega. É preciso a ficha completa.

Foi isso que aconteceu quando evoquei recentemente Brigitte Bardot enquanto artista. O elogio ao seu papel no cinema, à ruptura estética que representou, à influência cultural que exerceu, foi rapidamente confrontado com o outro lado: a cidadã politicamente controversa, a militante de causas discutíveis, a mulher que proferiu declarações racistas e foi justamente criticada por isso. E então surge a pergunta implícita, mas insistente: pode alguém assim ter feito grande arte?

A resposta curta é: pode. A resposta longa é: a história da arte inteira prova que sim.

A tentação contemporânea é exigir que a arte seja uma extensão da virtude do artista, como se o talento fosse um prémio atribuído apenas a cidadãos exemplares. O problema é que, se aplicarmos esse critério com rigor, ficamos com museus vazios, bibliotecas amputadas e salas de concerto em silêncio respeitoso.

Louis-Ferdinand Céline foi um escritor genial e um antissemita convicto. Ezra Pound escreveu alguns dos poemas mais influentes do século XX e foi um entusiasta do fascismo. Richard Wagner foi um compositor monumental e um antissemita militante. Caravaggio revolucionou a pintura ocidental e matou um homem. Roman Polanski é um cineasta maior envolvido num caso ético grave e perturbador. Picasso reinventou a arte moderna e teve comportamentos pessoais que hoje são, no mínimo, inaceitáveis. Nenhum destes factos anula o outro. Convivem, desconfortavelmente, mas convivem.

Brigitte Bardot pertence a esta galeria das contradições humanas. A artista que marcou o cinema europeu nos anos 50 e 60 – símbolo de uma nova linguagem do corpo, da sensualidade, da libertação feminina (ainda que involuntária) – trabalhou com artistas de todas as origens, integrou um cinema internacional e nunca fez da sua arte um veículo de exclusão. As suas posições políticas surgem mais tarde, já fora do cinema, num contexto pessoal, social e ideológico distinto. Julgar a obra à luz dessas escolhas posteriores é um exercício de retroprojeção moral que diz mais sobre o presente do que sobre o passado.

Isto não significa branquear, desculpar ou relativizar. Significa distinguir. A crítica à cidadã é legítima. A análise da artista também. Confundir as duas é empobrecer ambas.

A arte, ao contrário do que hoje se exige, não é um catecismo. Não nasce de seres humanos moralmente irrepreensíveis, mas de seres humanos complexos, contraditórios, falíveis. Exigir pureza ideológica aos criadores é transformar a cultura num concurso de boas intenções, onde vence quem menos incomodou – e não quem mais criou.

A arte pode ter ideologia, claro. Mas não é obrigada a coincidir com a ideologia do seu autor em todos os momentos da sua vida. E, muitas vezes, é precisamente essa distância que a torna universal, duradoura e maior do que quem a fez.

Reduzir uma carreira artística a um rótulo político tardio é confortável, moralmente higiénico e intelectualmente preguiçoso. Reconhecer a grandeza da obra sem absolver a pessoa é mais difícil – mas é aí que começa o pensamento crítico.

Talvez o verdadeiro incómodo não esteja em Bardot, Céline, Wagner ou Picasso. Talvez esteja em aceitarmos que a arte não é um prémio de bom comportamento. É, antes, o resultado imperfeito de seres humanos imperfeitos. E isso, gostemos ou não, é o que a torna humana.

15 pensamentos sobre “A obra não é o autor – quando a arte sobrevive às escolhas

  1. Também eu. Lá está, também não concordo com o apelo a abstenção em eleições nem acredito que alguma vez será possível livrar o nos desta canalha por meio de uma revolução. Mas o resto das horas batem certas, tendo em conta que isto é mesmo tudo uma cambada.

  2. Não deixemos o Luís trabalhar nem o quarto Pastorinho, já agora nem o Cotrim. Se tivermos de levar com o matraquilho pois seja.
    Já que no Seguro eu não votava nem que fosse o único candidato a esquerda.
    O homem em vez de atacar a sua direita tem passado o tempo todo a apelar a desistência dos candidatos a sua esquerda.
    Ponha na cabeça que há gente que nem o pode ver pela frente depois da “abstenção violenta” dos negros anos da troika.
    Quando não havia necessidade nenhuma de o fazer pois que para mal de todos nós aquele Governo genocida dos direitos tinha maioria absoluta.
    Prepara se certamente para,no dia 19, culpar os candidatos a esquerda se não passar a segunda.
    A mesma postura de traste que teve o Costa quando tudo fez para passar a ideia de que se a economia do pais não estava melhor era por causa das exigências dos partidos a esquerda.
    Sao posturas destas do PS, que começaram quanto o bochechas afirmou a necessidade de meter o socialismo na gaveta que faz muita gente achar que mais vale que ganhe a direita porque aí já sabemos com o que contamos.
    Agora com estas enguias nunca sabemos porra nenhuma.
    E muitas vezes aplicam políticas de direita nefastas como foi o caso do desmantelamento da Reforma Agrária com a celebre Lei Barreto.
    Por mim, a dar se o caso de o António e a Catarina desistissem não sairia do quentinho da minha casa para ir votar.
    Numa segunda volta lá teria de engolir o sapo como os meus ascendentes engoliram o bochechas em 1986.
    Por isso faça pelo menos a campanha como um homenzinho.
    Ou então va ver se o mar da choco.

    • Claro que não estou à espera que dêem atenção ao que digo mas, já o disse aqui e repito: Preferia ter o PS no governo em vez do PSD, PONTO! Claro que muita malta da “verdadeira” esquerda gosta assim e ajudou-no a chegar este ponto.
      A treta do “socialismo na gaveta” funciona para alguns militantes do PCP mais velhinhos -aqueles que, agora, começam a votar Ventruja- mas tem muito mais por detrás do que se imagina. Talvez a estória esteja mal contada, perguntem ao António Campos.
      Quanto ao inSeguro, é mais um neoliberal merdoso dos que -cada vez mais- pululam no partido (como o Borrego & CIA) e foram ganhando força à medida que a esquerda “purista” se entretinha a combater o PS.
      Por mim, vou votar no Filipe, sem dúvida nenhuma, que é o que muitos xuchas como eu vão fazer.
      Bom Ano!

  3. Desta vez estou, em parte, com o CM, porque também não gosto do Pacheco P. Acho que esse gajo é um “Spin doctor” que não dá ponto sem nó.
    Ou seja: Até quando parece estar a opinar algo que roça (salvo seja) o meu registo ideológico, fá-lo para modelar a informação e orientar as mentes, como é normal um globalista da sua estirpe.
    No entanto, não creio que venha mal ao mundo o Estátua publicar textos de quem quer que seja. Até pode valer a pena dar uma vista de olhos transversal, só para tentar perceber o que “eles” andam a maquinar.
    Agora, quanto à resposta do Albarda-mos, acho que é um tiro na “mouche”. Principalmente, quando refere o prepotente e inconsequente purismo ideológico de alguns comentadores como o CM.
    Lembra-me um amigo, com quem eu discutia política, que era tão de esquerda, tão de esquerda que preferia que o PSD ganhasse as eleições face ao PS, porque este não praticava verdadeiro socialismo.
    Para este amigo, que já não vejo há anos, agora, estamos bem. Ou, senão, a culpa é dos Xuchas.

    Ó pá, deixem o Estátua publicar (mas não deixem o Luis “trabalhar”, por favor)!

  4. É claro que um bom , ou mau também, artista pode ser politica e ideologicamente um perfeito reaccionário, até um carrasco de qualquer pide ou genocida em qualquer lado e isso não retira nem acrescenta valor à sua arte (nem quando é finalmente executado). Cada coisa em seu lugar né ? .
    Já agora qual é a arte do PP ?.

  5. Conheco alguns críticos do 25 de Abril porque não mataram Pides. Não concordo. Que deviam ter apanhado umas boas bofetadas isso de certeza. Agora fazer uma sangueira desatada só ia por o nosso país a jeito para uma intervenção humanitária do Grande Irmão a que mesmo assim sabemos agora que escapamos por um triz.
    Por mim não acredito em cancelamentos.
    Não vou com os cornos do Miguel Sousa Tavares desde que criticou pais que vão aos restaurantes acompanhados dos seus filhos insinuando que os desgraçados deviam ficar em casa até que os filhos crescessem ou deixa los a sua sorte em casa. Tudo para defender o supremo direito de fumar nos restaurantes atazanando os pulmões dos outros.
    Pior ainda quando garantiu que todos nós andamos a roubar o Estado.
    E também me deu uns engulhos no estômago quando por duas vezes falou numa especial crueldade russa ou quando defendeu o direito de Israel a assassinar sem julgamento elementos da resistência palestiniana.
    Mas não defendo o cancelamento do homem até porque se tivesse tempo, paciência e disponibilidade faria eu o meu próprio blog e aí logo enfiava os meus autores preferidos onde certamente não se incluiriam chocos como esse ou o embaixador Seixas da Costa que um belo dia teve a pouca vergonha de garantir que não estávamos em guerra com a Rússia.
    Mas a verdade e que a maior parte dos que por aqui passam não dizem besteiras e são uma boa terapia pois que se virmos os comentadeiros que por aí andam ao fim do dia estamos a dar vivas a assassinos como Netanyahu e Herr Zelensky e firmemente decididos a votar no quarto Pastorinho no próximo dia 18.
    Os que por aqui chegam são os menos maus.
    E a única coisa que temos de fazer e meter o pau nas besteiras como quando o Pacheco garante que a PIDE até era boazinha quando o dissidente era de boas famílias. Deve ser por isso que o pintor Dias Coelho foi abatido como um cão a porta de casa.
    E e sempre um bom exercício intelectual desmontar tretas como a da crueldade russa ou de que não estamos em guerra com a Rússia.
    Por isso continuemos por aqui enquanto blogs como este não forem vítimas de um cancelamento que alguns fachos que aqui entram já garantiram que já esteve mais longe.

  6. Claro. Continuo a gostar da música dos U2 apesar de Bono Vox ser uma besta e apoiante do nazismo ucraniano.
    O problema é que não vemos o contrário. Se um artista for de esquerda ou apoiante de causas pouco queridas dos arautos dos “valores ocidentais” tende a ser menorizado e cancelado.
    Os exemplos são muitos mas efectivamente não devemos ser como eles.

    • Eu não sou capaz de ouvir músicas dos U2, desde que sei quem é o monstro que as canta.

      E o mesmo se passa com filmes do Sean Penn.

      Mas continuo a gostar de filmes do Roman Polanski, em especial aquele clássico dos vampiros com a Sharon Tate. The Fearless Vampire Killers, conhecido em Portugal como “Por Favor Não Me Mordam o Pescoço”.

      Mas não se trata aqui de incoerência. Trata-se da aplicação, ao caso Polanski, da distinção entre arte e pessoa. Polanski é um artista. Só. Ponto. Portanto eu não quero saber da vida dele. Limito-me a admirar a sua arte.

      E quem diz Polanski, diz Woody Allen. É e continuará a ser dos meus realizadores preferidos, digam o que disserem dele enquanto pessoa.

      O mesmo não se pode dizer do Bono ou do Sean Penn, que usam o mediatismo à sua volta para fazerem PROPAGANDA IMPERIALISTA NAZI GENOCIDA.
      A sua arte é portanto uma ferramenta para garantir o mediatismo onde depois fazem a propaganda, manipulação, mentira.

      Eu não ouço U2 nem vejo Sean Penn, mas não critico quem o faz. Outras pessoas podem perfeitamente ser boa gente e simplesmente não prestarem atenção à propaganda destes dois parvalhões. Aceito isso com toda a normalidade.

      Mas nenhum destes casos se aplica ao Pacheco Pereira e muito menos ao Pedro Marques Lopes, e ainda menos aos seus textos POLÍTICOS.
      Que eu saiba, comentário político NÃO é arte.

      Que a Estátua tente misturar as duas coisas (arte e política), só me fez hoje perder ainda mais consideração pelo dono deste blog, pois isto é de uma desonestidade intelectual enorme.

      O Pacheco não teve aqui publicado um poema. Teve aqui publicado um comentário político. Ou seja, este blog ajudou a difundir e a legitimizar, i.e. deu voz e mostrou admiração, por uma besta cuja razão ÚNICA de ser comentador, é ser propagandista deste regime podre, nazi-fascista, terrorista, genocida.

      Não se trata de um artista que, nos tempos vagos, foi a Kiev falar de paz porque o seu agente assim recomendou.
      Trata-se de um cabrão que apoia nazis (ou qualquer merda que este império também apoie), e em troca disso tem vários espaços de comentário ma MainStreaMedia.
      E a Estátua foi dar destaque a essa merda e a este cabrão.

      A questão é esta: se eu ouço uma música de um Bono ou vejo um filme com um Sean Penn, não estou a fazer mal a ninguém. Eu escolho não os ver nem ouvir, sinto nojo demais. Mas também não critico quem os vê e ouve.

      Mas se eu continuo a tolerar quem NÃO é artista, mas sim um avençado da prooaganda do regime, e além disso ainda ajudo a difundir a sua palavra e a manter a sua reputação, isso já é uma coisa totalmente diferente.

      É como o convite a “israel” para participar na Eurovisão, um convite de que a RTP se orgulha. A mesma RTP que concorda com a censura aos artistas e atletas e canais de notícias Russos.
      A partir do momento em que a Eurovisão é palco de censura por motivos políticos, então ver e ouvir os artistas da Eurovisão deixou de ser uma coisa das artes, e passou a ser uma coisa política.

      Assim, os países e pessoas que continuam a ver a Eurovisão passaram a ser CÚMPLICES DE GENOCÍDIO.
      Já eu e os países e pessoas decentes, boicotamos aquela estrumeira, que há um par de anos teve um ucraniano em palco a fazer a saudação romana e a dedicar a “vitória” aos nazis de Azov.

      E a mesma coisa se passa com a UEFA, a FIFA, e os Jogos Olímpicos!
      Eu boicoto essas estrumeiras desde 2022.
      Isto não me custoi pouco a fazer. Eu era quase um fanático do futebol.
      Mas tenho princípios. E não os vendo por dinheiro ou interesse nenhum!

      Resumindo e concluindo, ou fazemos do Mundo um lugar melhor, ou toleramos os cabrões. Não dá para fazer as duas coisas em simultâneo.
      A Estátua de Sal ou critica os nazis e imperialistas, ou publica textos dos propagandistas dos nazis e imperialistas. Não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo!

      Enquadrar isso numa qualquer definição de “liberdade de expressão” ou “pluralismo de opinião”, é não perceber o gigantesco problema que temos em mão.
      E agora, chamar “arte” ao comentário político de propagandistas avençados e moralmente corruptos, é simplesmente a Estátua de Sal a admitir: isto é um blog sem princípios.
      Porque os princípios não são coisas teóricas. São as nossas acções!

      E repito o que já disse antes: a estupidez que a Estátua de Sal cometeu agora é equivalente a publicar em 1944 um texto do Goebbels, e justificar isso com “desta vez ele disse umas coisas certas”. Não! NÃO! NÃÃÃOOO!!!
      Os nazis e seus colaboradores e propagandistas não tem de ser difundidos. Têm de ser combatidos, e os seus textos devidamente enquadrados, para que ninguém (mais distraído) se deixe seduzir pelos cabrões.

      Que a Estátua diga que isto é comparável à arte… Bom, então publique também as coisas “certas” que estão presentes no Mein Kampf, elogiando o autor pela clarividência nesses pontos, e fazendo de conta que não sabe o que esse autor fez ou disse nos restantes casos ou temas.

      Quiçá o Stepan Bandera também tem “arte” onde acerta neste ou naquele tema… Ou o actual líder dessa ideologia, Andrei Biletsky do Batalhão Azov…
      Talvez até o Al-Julani tenha dito alguma coisa certa quando era só chefe da Al-Qaeda e a NATO+Mossad ainda não o tinham colocado no poder em Damasco…
      Ou porque não publicar as coisas “certas” e a “arte” (comentário político) de quem continua a dizer que invadir o Iraque e exterminar 1 milhão de humanos foi a decisão certa. Venham de lá os textos do Durão Barroso, do Tony Blair, e do George Bush…
      E que tal um texto do Netanyahu? Estou convicto que entre as frases de incitamento ao genocídio, ele deve ter dito uma ou outra coisa certa sobre como governar bem um país…

      Eu tolero bem os erros dos outros. Eu também os cometo e gosto quando mos toleram.
      Mas uma coisa é errar e reconhecer o erro, e outra bem diferente é errar e insistir no erro e rematar com uma justificação intelectualmente desonesta.

      Foi pior a emenda que o soneto.

      Nós vivemos no Mundo em que o Major-General Raúl Cunha foi censurado por se atrever a ir à SIC questionar a propaganda nazi sobre Bucha.
      A Estátua faz muito bem em continuar a publicar os textos do Raúl. Autêntico serviço público.
      Mas depois a Estátua publica também os textos de quem é agente avençado dessa máquina de censura e propaganda?!
      A Estátua difunde isso sem sequer enquadrar a coisa, sem uma critica ao autor na nota prévia, sem referir que Pacheco está 100% alinhado com os nazis que cometeram o massacre de Bucha, contra civis que aceitaram ajuda (comida, água) das tropas russas, um massacre a que esses nazis nas suas redes sociais chamaram de “we’re going on a safari”?!
      Não! Não pode ser!

      Eu queixo-me muito de como a MainStreamMedia faz tudo para, sem o público comum se aperceber, fechar a Janela de Overton para que esta inclua só as posições que o regime quer.
      Mas o que a Estátua faz não é a saudável abertura dessa Janela. É a asneira de desmantelar por completo a janela e atirar abaixo a parede. Entra tudo. Desde PCTP-MRPP até Nazis.
      Isso não é pluralismo. É ausência de cordão sanitário.

      Mas chega de afirmações. Acabo antes com uma série de perguntas: como é que a Estátua pensa viver quando a Rússia e os EUA assinarem um acordo de paz? Em particular, como é que a Estátua vai agir naquele período entre provocações imperiais? Volta tudo à “normalidade”? Esquecem-se os crimes? Esquece-se de que lado cada um esteve? Quem apoiou nazis e terroristas e genocidas poderá continuar a sua vidinha sem pagar por isso, nem sequer com a consequência de deixar de ser difundido acriticamente neste blog? Quem violou (está a violar) a nossa Constituição de Abril, merece perdão sem sequer o pedir nem se arrepender? Quem apoia governos que cortam no SNS para dar ao Complexo Militar Industrial dos EUA, merece ser ouvido e lido como se fosse gente sensata?

      O 25-Abril de 1974 não se fez publicando textos do senhor Presidente. Fez-se apontando-lhe um canhão aos cornos!
      E a Constituição de 1976 não foi escrita ouvindo as coisas “certas” que os Ministros Fascistas e os PIDEs tinham para dizer.
      Ou há um corte com aquilo e aqueles que nos trouxeram até aqui, ou nada muda.

      E se nada muda, então é possível que quando a oportunidade surgir, o Pacheco ou o Marques Lopes ou outro estrume, pela Estátua difundido, vá a Minsk ou a Tbilisi apoiar os nazi-fascistas corruptos que o império Anglo-USAmericano lá quer colocar no lugar do Lukashenko, para aí abrir outras guerras proxy, tal como está planeado há décadas!

      Não é possível dizer que se é decente e se quer paz, mas depois tolerar e difundir os comentários políticos (que não são comparáveis a arte!) destes cabrões propagandistas deste regime criminoso e opressivo.

      Da mesma maneira, não é possível dizer que se é um “democrata” e um “feminista”, mas depois continuar a ver e a difundir a arte desportiva do violador de cus em Las Vegas que foi jogar na ditadura assassina da Arábia Saudita.
      Se alguém quiser ver o CR7 fazer coisas giras com uma bola, está no seu direito. Tem uma capacidade de compartimentalização que eu não tenho
      Mas se essa pessoa se vira para mim e diz que “eu devia ir ver também aquelas jogadas e golos”, eu obviamente vou dizer-lhe as verdades no focinho.

      E a questão nos casos dos cabrões propagandistas avençados do PSD/PPE/NATO/MainStreamMedia, é também esta: se a Estátua os quer ler, então leia e eu não critico. Se a Estátua os quer citar para analisar um qualquer assunto, então que cite, e enquadre devidamente o texto e os cabrões dos seus autores.
      Mas se a Estátua usa este blog para difundir acriticamente o comentário político desses cabrões, então eu vou dizer à Estátua as verdades que ela merece ouvir, independentemente do meu comentário ser publicado ou censurado.

      Depois, tal como nos casos dos estrumes Bono e Sean Penn, eu irei verificar se quando entro neste blog consigo ler as coisas com prazer, ou se o sentimento de nojo me vai fazer nunca mais cá voltar.
      Foi assim quando a Estátua difundiu mentiras da extrema-direita de Washington DC: as mentiras do Congresso e do Steve Bannon, inventadas só para dizer mal da China e dos comunistas.
      E a Estátua até teve o descaramento de dizer “isto é mesmo verdade” na nota prévia…
      Eu desmascarei a estupidez, e fui embora, e só quando (meses mais tarde) o sentimento de nojo desceu o suficiente é que voltei a entrar neste blog para ler o que aqui se publica.
      E agora aconteceu isto… não é só a difusão dos cabrões (que só mereceu o meu reparo), mas é esta a justificação da Estátua de forma intelectualmente desonesta.
      No palavreado português, diz-se: “perdeste uma boa oportunidade para estar calado”.
      Na gíria USAmericana influenciada pelo baseball, diz-se: “strike two!”
      Ao terceiro strike, para mim, a Estátua ficará definitivamenre de fora.

      • Não perceste nada de nada. Basta a tua afirmação de que a arte é algo etéreo que nada tem a ver com a política. Sem comentários.
        E, depois de escreveres um testamento, não conseguiste dizer qual era a “propaganda” que o texto publicado do Pacheco continha que te irritava os pelos do nariz, e à qual a Estátua teria dado cobertura. Ou seja, tanta conversa para não ires ao cerne da questão.
        E, depois, tanta acrimónia. Até deves ser crítico do 25 de Abril porque não mataram os PIDES.
        Como diz o Evangelho, Pai perdoai-lhe…Pronto, perdoado estás.

      • “Mas se essa pessoa se vira para mim e diz que “eu devia ir ver também aquelas jogadas e golos”, eu obviamente vou dizer-lhe as verdades no focinho.”

        Em relação ao CR7, és tal e qual o Pacheco Pereira (PP). E atenção que não critico a opinião/opção, é legítima, é uma decisão individual e livre. Critico é o nível de exigência para com um desportista, criticado como se tivesse a responsabilidade cívica de um político, e depois a omissão e a dualidade de critérios em relação ao PM, por exemplo, que até calha ser do mesmo partido de PP, ou o desprezo pelos actos eleitorais permitidos, ou “instaurados”, com a revolução do 25 de Abril, quando vemos a ascensão de forças reaccionárias e ultra-montanas que é tão importante combater e travar. Também aqui a coerência não é o forte. O “aceleracionismo” direitolas parece convir a certos “supremos revolucionários”, que ficam em casa quando é hora de separar o trigo do joio, ou pelo menos o joio da podridão, à falta de trigo. Mas depois sabem e dão lições de todas as formas puras de combate ao fascismo e ao nazismo, esquecendo as lições históricas que possibilitaram a sua ascensão, uma delas a relativização e a normalização entre os demais. Se não se pode conviver e aceitar os abusos, prepotência e horrores de uns, também não se pode dizer que ficar de braços cruzados na hora de exprimir uma posição política através do voto é a atitude correcta e recomendável, pois isso é compactuar e tolerar a subversão dos direitos constitucionais e democráticos.
        Por isso, era bom que esses “purismos” tão exaltados tivessem um pouco menos de alarmismo e maior ponderação.
        Quanto aos artistas, é óbvio que podem ser admirados na sua estética e repudiados na sua ética, até porque bem sempre ambas são reveladas em conjunto. É possível admirar um desenhador, um pintor ou um músico e depois não gostarmos do que defende, acredita ou faz, mas isso é voltar ao princípio, é uma liberdade crítica pessoal de cada um. Obviamente há casos e casos, e os políticos e comentadores políticos têm uma responsabilidade muito maior em temas políticos, tal e qual os artistas em temas artísticos, os desportistas nos desportivos, os cientistas nos científicos, e isso sim é importante realçar. Daí a minha crítica ao foco excessivo sobre Ronaldo, porque também m na F1 não consta que haja boicotes a Grandes Prémios do Dubai, a FIFA não vai cancelar o Mundial nos EUA mesmo que estes continuem a desviar petroleiros na Venezuela, ou pior, e por aí fora. O PP que se dedique a criticar as figuras do líder do seu partido político e o funcionamento interno actual do seu partido, ou do CU (candidato único) que também foi à Casa Branca na inauguração do mandato Trump 2.0, e não vi nem um quarto da indignação.

        • * Quanto aos artistas, é óbvio que podem ser admirados na sua estética e repudiados na sua ética, até porque nem sempre ambas são reveladas em conjunto.

          Quando estou a olhar para um quadro de Picasso ou Dali não estou a tomarvem conta uma qualquer atitude irascível do primeiro, ou relativização moral do segundo. Picasso pintou Guernica, e quando olho para essa obra é aí que vejo a a capacidade artística dele, assim como nas obras de Dali vejo o seu génio, mas raramente uma posição àcerca da realidade política de Espanha ou da Europa no seu tempo. A dimensão da pintura pode acarretar mensagens filosóficas ou políticas, tal como na música, no desenho, na escultura, no teatro, no cinema, ou não – pode ter um valor estético e conceptual acima (ou indiferente) a qualquer natureza de ordem racional, política ou filosófica, sem deixar de ser grande arte por isso. O dadaísmo não é uma auro-crítica ao significado e pretensiosismo da própria expressão artística? Não existem diferentes formas conceptuais e expressivas dentro de uma mesma arte, correntes artísticas convergentes e divergentes?
          O Messi ir ganhar milhões para Miami é mais recomendável que o CR7 ir ganhar tantos ou mais para as Arábias? A que nível, como se mede na prática ps atropelos de uns e outros ao direito internacional, aos direitos humanos? A Arábia apoia mais Netanyahu e o genocídio dos palestinianos que os EUA de Trump + Vance, ou de Biden + Blinken? Os ataques ao Irão à margem do direito internacional? O desvio e saque de petroleiros? Há pena de morte na Arábia? Na América também há. Os direitosvdas mulheres? Certo. E os das minorias raciais, dos nativos e das primeiras nações homens e mulheres?
          O que há é muita manipulação na comunicação social, para que uns pareçam mais legítimos que outros. E não estou a dizer que não há diferenças, há, mas é por acaso que Trump anunciou recentemente que Bin Salman é o novo “major ally” da NATO? E alguém viu um político ocidental, ou um comentador político como PP, tugir ou mugir? Caladinhos que nem sacristãos da paróquia do Capelão Capeta…

  7. A BB imperfeita? Mas a BB que eu adoro é a BB do cinema, a BB das suas posições sociais não me dizem nada, ignoro, melhor, acho-a uma tonta. Mas insisto a BB foi uma deusa. As vezes que fui ao cinema para ver as suas representações … Quanto ao resto, isso fica com ela e não comigo. E o mesmo direi da grande CD (ainda viva felizmente). Viva o cinema!

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