Sebastião Maria vai para Bruxelas

(Fernando Campos, In o Sítio dos Desenhos,27/04/2024)

Ele é um menino-prodígio. Um superdotado. Um predestinado. Loquaz e petulante, insidioso como um Rasputine e armado em espertinho como um alho (como um Marcelo em ponto pequenino).  Sebastião Maria Reis Bugalho assume-se como de direitacatólico e conservador. Dizem dele, embevecidos (enfim, no seu meio) que é uma espécie de “novo Paulo Portas” – talvez um pouco menos sagaz, mas muito mais heterossexual.

Também oriundo de boas famíliasSebastião Maria frequentou desde muito cedo os mais exclusivos colégios privados. Mas não dava trabalho nenhum aos professores pois não era preciso ensinar-se-lhe nada – ele levava sempre a lição estudada de casa. Um menino de sua mãe.

E não faltou à catequese – cursou ciência política, na madrassa da Católica e, dizem, ainda mantém estudos, no isqueté.

Betinho, muito lavadinho e penteadinho, ainda a cheirar a cueiros e pó de talco, fez a primeira comunhão debutando no jornal i “focando-se na cobertura noticiosa do partido CDS. Subsequentemente foi convidado a assinar uma coluna de opinião. Pouco antes de abandonar a carreira jornalística, publica uma peça acerca da futura lista de candidatos do CDS às eleições de legislativas de 2019, lista essa que ele mais tarde integrou”..

Como não foi eleito, regressou ao “jornalismo”. Decerto para “a comunhão solene”. Era um regalo vê-lo então, a analisar, a fazer conjeturas e elucubrar cenários e assim. Sim, porque Sebastião Maria fez-se comentador, e analista. Na televisão, claro. Em Carnaxide. Sempre que ele aparecia na pantalha, lavadinho e penteadinho como um acólito, enchia-se-me logo a casa toda de um insuportável fedor a sacristia (aquele odor a velho, assado e azedo, com notas de velhacaria e vício recalcado e final acentuado a naftalina) que nunca se dissipava sem que eu incinerasse um lancero da Cohibapor lo menos.

Mas agora vai abandonar, de novo, o “jornalismo”. Desta vez é a confirmação, a unção do santo crisma. Depois de ter assinado uma reluzente (de brilhante) exegese da estratégia eleitoral da AD, O jovem Sebastião Maria foi imediatamente convidado por Luís Montenegro para encabeçar a lista de candidatos a deputados ao parlamento europeu (o que terá causado o amuo, e consequente desistência despeitada, de Rui Moreira, um coirão político muito mais experimentado, dado há muito como o titular absoluto do lugar).

O que quer dizer que Sebastião Maria já está eleito. Ou, como o diz o povo, em linguagem conventual, “são favas contadas”.

O povo de direita, católico e conservador gosta deles assim betinhos, airosos e fresquinhos – mas com ressaibo intenso, e prolongado, a antigamente.

Fonte aqui.

5 pensamentos sobre “Sebastião Maria vai para Bruxelas

  1. Saudosistas do tempo da Outra Senhora ha muitos. Teem saudades de um tempo que boa parte deles não viveram.
    Mas não são só eles que teem a culpa. Durante décadas ninguém explicou o que na realidade foi aquele tempo.
    No meu tempo de escola era comum levar os meninos em visita de estudo ao Santuário de Fátima. Não tinha nada contra mas talvez também fosse de valor aí pela quarta classe leva los a Peniche. Não digo que se fizesse isso quando os moços tinham seis anos mas aí com 10 ou 11, ao mesmo tempo que se levavam os meninos a Fátima também seria de valor leva Los a Caxias e Peniche.
    E explicar o que era ser criança nesse tempo, explicar que muitos deles já não estariam na escola mas a trabalhar no campo ou numa fábrica. Explicar que alguns talvez não tivessem sobrevivido.
    Mas não, isso ia traumatizar as criancinhas.
    Durante muito tempo o ensino de história acabava para aí no Seculo XIX. Quando deixou de acabar por aí, so se falava no 25 de Abril para falar na confusão e pré guerra civil que teriam sido os anos seguintes.
    Diziam se coisas como que milhares de portugueses tinham abandonado o país sem uma palavra sobre a muita gente que voltou as vezes depois de décadas de exílio.
    Outros depois de passarem alguns anos fora. Muita gente acreditou num país novo onde ao menos não poderia ser preso por dizer que a vida estava cara. E onde os seus filhos já não seriam sacrificados no altar da guerra. Mas os meninos pré votantes aprendiam na escola sobre a muita gente que teria abandonado o país.Sobre a grande confusao que tinham sido os anos seguintes. Sobre a redentora entrada na Europa civilizada.
    Muita gente falou nas celebres bancas rotas a seguir ao 25 de Abril e muita gente foi ensinada que teriamos sido salvos da podridão pelos tais dinheiros europeus.
    Não falando do facto do grosso diz investimentos básicos ter sido feito até 1986.
    Levar água canalizada e luz a esmagadora maioria da população, remendar as estradas a cair de podres, reabilitar hospitais que era umas verdadeiras cavernas, acabar com a barbaridade da maior parte das mulheres terem os filhos em casa sem qualquer assistência médica fazendo com que a mortalidade infantil rondasse os 50 por mil custou dinheiro.
    Integrar cerca de um milhão de pessoas das ex colónias custou dinheiro.
    Salazar e Caetano deixaram o país mais atrasado da Europa, estradas onde mal cabiam dois carros e um mundo rural onde vivia a maior parte da população activa mas onde não havia água, nem luz nas ruas é nas casas nem esgotos.
    O analfabetismo rondava os 30 por cento e mais de metade da população ficava se pela quarta classe.
    Reabilitar e criar novos espacos escolares, contratar professores, iniciar uma rede de creches com condições dignas custou dinheiro.
    Mas quem de direito não explicou nada disso aos meninos. Deixaram que fossem velhos bafientos que ganharam alguma coisa no outro tempo a falar as criancinhas sobre aquele tempo em que havia “respeito” e toda a gente era muito honesta e temente a Deus e não se roubava nada a ninguém.
    E pouca gente tinha a lucidez de dizer, como muito bem ouvi há uns anos um velho “do campo”, “pois a gente tinha alguma coisa para roubar? Claro que eu naquele tempo podia deixar a porta aberta. Tinha para ali uma enxerga”.
    O problema é que se furtava com toda a limpeza e algumas fábricas até tinham apalpadeiras. Em especial as fábricas de transformação alimentar. E esses furtos aconteciam porque as operárias e os seus filhos passavam fome.Fome absoluta e desoladora.
    Houve casos de corrupção? Claro que houve, os santos estão nos altares. Mas garantidamente não mais que no tempo da Outra Senhora em que era generalizada do mais humilde guarda fiscal que deixava passar o contrabando ao senhor ministro que recebia um por fora para deixar passar um projecto. Mas quem falasse disso podia contar com umas férias no Aljube, Caxias ou Peniche onde tudo podia acontecer. A censura tratava do resto.
    Mas como ninguém falou disso, especialmente apos a tal integração numa Europa que na realidade sempre apoiou a ditadura aqui e em Espanha, antes pelo contrário, tratou se de lavar mais branco esse tempo temos hoje o Bugalho.
    E quase 20% de votos num partido de extrema direita.
    Nada disso devia surpreender tendo em conta o que foi o ensino e os espacos de comentários nas últimas décadas.
    Branquear esse tempo só podia dar nisso.
    Na realidade as instituições europeias apostaram nesse branqueamento pois que sempre os europeus aqueceram as costas a Salazar e Franco.
    Portugueses e espanhóis eram destinos de férias baratos e seguros onde até o turismo sexual com mulheres e até crianças podia ser feito sem que ninguém fizesse perguntas.
    Éramos reservas de mão de obra barata, trabalhávamos como bestas de carga sem abrir a boca e havia até gente que se gabava que “greve faziam lá os franceses”.
    Tínhamos uma brancura aceitável e éramos tementes ao Deus dos cristãos, não usávamos turbantes nem nada dessas esquisitices.
    Portugal foi aceite como membro fundador da Nato e defensor do mundo livre quando aqui se podia ser preso e torturado por dizer que a vida estava cara.
    Pelo menos tiveram o mérito de não devolver a Salazar e Caetano quem fugia a guerra colonial como agora estão a fazer aos ucranianos.
    Mas a verdade é que nesse tempo se faziam bons negócios a conta, aqui e nas antigas colónias e por isso fomos abandonados a miseria, a, fome, a tortura e ao atraso.
    Muitos dos que iam, por exemplo, para a Alemanha já sabiam que no primeiro ano 10 %do seu salário ia directamente para os cofres do estado português. Era um bom negócio. Para quem tinha um mouro de trabalho e para um estado que tinha uma guerra para financiar.
    A verdade é que fomos abandonados a ditadura pela muito democrática Europa. Muitos europeus acreditavam piamente que era a unica maneira de salvar do comunismo estes “pardos”.
    Fomos abandonados nesse tempo e voltaremos a ser abandonados se desta vez votarmos em tal gente.
    Alguém dirá “são realidades diferentes”, como disseram quando mais de metade dos brasileiros foram na conversa de Bolsonaro.
    Mas a verdade é que quem não contou a história toda e só contou o que lhe convinha tem agora muita culpa de haver tanta gente atrás de Bugalhos e Venturas. E se tudo correr o pior possível, muita lágrima de crocodilo será chorada aqui e nessa Europa que nunca esteve conosco e aqueceu as costas a Salazar e Caetano.

  2. Falta só a nota do cheiro a óleo(s) na sacristia, de tanto besuntar os móveis e untar os crentes, queimar velas e incensos.
    O capelão sabe melhor do que eu do que estou a falar.

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