Não fechar as escolas, não abandonar parte do futuro

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/01/2021)

Daniel Oliveira

Com o encerramento das escolas as perdas na aprendizagem são profundas e duradouras, com efeitos muito diferenciados numa sociedade tão desigual como a nossa. Os alunos não têm as mesmas condições em casa e os pais não têm o mesmo capital cultural. Fechar os alunos em casa é substituir o elevador social por uma escada de incêndio. É deixar para trás a escola pública. E é tornar o teletrabalho numa tortura. Espero que o Governo compense a decisão com medidas de segurança. Para que, daqui a 15 dias, não se tenha de recuar.


O confinamento que começa amanhã é, no essencial, igual ao de março. É impossível ter sido a favor daquele e contra este. O outro só se justificava pela impreparação de tudo, sobretudo do Serviço Nacional de Saúde, e o desconhecimento sobre o vírus. Alguém que um dia se dedique a ir buscar o que então se escreveu, os pré-anúncios de colapso do SNS com incomensuravelmente menos casos do que agora, poderá verificar como o tempo varre a histeria do dia a dia. Agora a situação é grave. Não apenas aqui, como sabemos. Sobre a decisão tomada no Natal, já disse o que tinha a dizer. Só não disse do sorriso amargo que me causa ver partidos e personalidades que defenderam a abertura no Natal (e alguns até na passagem de ano) passarem para o lado oposto e apontarem o dedo admoestador. É o habitual.

A única vantagem de estarmos perante um segundo confinamento é o que aprendemos com o anterior. E uma das coisas que aprendemos é que o encerramento das escolas tem custos que perdurarão no tempo. Já me cansei de o escrever aqui e o meu colega de página, Luís Aguiar-Conraria, tem sido dos mais insistentes de todos os colunistas neste tema: as perdas na aprendizagem são profundas, demoram muito mais tempo a recuperar do que o tempo em que a escola está encerrada e, talvez o mais relevante, têm efeitos muitíssimo diferenciados entre alunos de famílias pobres e ricas. Os efeitos são determinantes numa sociedade tão desigual como a portuguesa.

Os alunos não têm as mesmas condições em casa. O mesmo espaço para estudar, a mesma ligação à Internet, computadores, quarto só para si. Nem sequer têm todos pequeno-almoço, para quem não saiba em que país vive. Mas, para o fosso que se cava, o mais importante nem é isso. É o capital cultural dos pais – dizem os estudos que o mais importante é o das mães. Uma criança ou adolescente que, estando em casa, é ajudada por pais que conseguem acompanhar o estudo, perde apenas um pouco do que o ensino presencial lhe dava. Uma criança ou adolescente que não tem isso perde quase tudo. Esta é, aliás, uma das razões porque sempre me opus aos trabalhos de casa – mas esse é outro debate ainda mais complicado. Fechar os alunos em casa é fechá-los na sua condição social. E substituir o elevador social, no pouco que a escola contribui para ele, por uma escada de incêndio.

Dirão: é só um mês e meio. Já foi um mês e meio no ano passado. Na realidade, juntando os dois confinamentos, seriam dois períodos destruídos. É muito. Para quem esteja no início da sua vida escolar, é determinante. E não vale a pena fazer comparações com países mais ricos e igualitários. O impacto não é o mesmo. A desigualdade não é a mesma. Mesmo que muitas pessoas, mas privilegiadas, teimem em ignorá-lo.

Mas fechar a escola também é fechar o maior radar para casos de violência, abuso, negligência e sofrimento extremo. Não só sobre menores, mas das suas famílias. É na escola, através do comportamento de crianças e jovens, que muitas vezes são detetados os problemas sociais e familiares graves. No anterior confinamento essas famílias ficaram isoladas do exterior. Sobre tudo isto, proponho que oiçam a entrevista que fiz, em abril do ano passado, com Ariana Cosme, doutorada em Ciências da Educação e professora na Faculdade de Psicologia do Porto, que trabalha em permanência com escolas TEIP e conhece, no terreno, as vítimas mais imediatas do primeiro confinamento.

Fechar as escolas é deixar para trás a escola pública, com menos condições do que as privadas para lidar com o ensino à distância. O efeito seria o que alguns até desejariam: a fuga para os colégios de alunos da classe média que ainda o pode fazer. Depois, lá viria o discurso que já se faz para o SNS: já que isto está tão mal, mais vale o Estado pagar aos privados para tratar do assunto. Ficando o público com as populações mais marginalizadas, em escolas de gueto. Essas, para quem o ensino à distância é uma miragem, o ensino privado nunca desejará.

Por fim, fechar as escolas é tornar o teletrabalho numa tortura. Mais uma vez, não será igual para todos. As famílias com casas maiores e vários computadores lá se safam. As outras voltam a viver um calvário que as esgota, com várias pessoas enfiadas na mesma sala, dificilmente com computadores suficientes para isso e sem tempo nem condições para estudar e trabalhar.

O resultado das escolas fechadas seria o que foi no ano passado: uma parte nada negligenciável de crianças e jovens privada de qualquer relação minimamente regular com o ensino formal. E uma boa parte dela sem qualquer apoio em casa que o compense.

Não sei se seria possível vacinar os professores na primeira fase. As vacinas são finitas e outros teriam de sair das prioridades. Não tenho dados que me permitam dizer se todos os que são considerados prioritários o são realmente. Sei que o Governo terá de reforçar a segurança dentro da escola. O que soube do que aconteceu no último desconfinamento não me pareceu animador. Mas parece que o grande problema é, antes de tudo, nas imediações das escolas, onde os jovens se juntam para conviver. A situação será, apesar de tudo, mais fácil de controlar. No meio do confinamento geral os ajuntamentos na rua são mais fáceis de impedir. Espero que o Governo compense esta decisão com medidas que não a tornem demasiado perigosa. Para que, daqui a 15 dias, não se tenha de recuar. Há vidas a proteger. Mas se nem tudo pode fechar, este é seguramente um dos casos.


3 pensamentos sobre “Não fechar as escolas, não abandonar parte do futuro

  1. Nota. É um espanto quase sempre, este Daniel Oliveira. Sobre o estado geral da evolução descontrolada da pandemia, nicles, toca de apregoar a ganga ideológoca (?) do governo do PS como e estivesse na feira de Carcavelos. Elenca o Conraria que o tipo lhe confere autoridade, pois!, mas não mexe sequer no entulho qu’isso é trabalheira para os demais que se preocupam em ver para além do dedo. Portugal, um país de orfãos? “Mentir, contradizer-se e propagandear” é o padrão de António Costa, como eu expliquei ontem, xpressão que aliás surgiu exactamente num comentário meu a um tweet do visado que criticava o facto de o António Costa ter prometido milhões de computadores há um ano atrás para os chavalos acederem à net a partir de casa. Ora, sobre o anúncio “apaziguador” da tal campanha de testes da Covid-19 nas escolas anunciada ontem pelo PM obviamente diz nada, omitindo que surgiram logo críticas dos pais e professores a denunciar que o mesmo tinha sido dito há um ano atrás… E aconteceu, veja-se só surpreendentemente!, que o governo do PS fez… nada!

    14.1.2021
    Covid-19. Novo recorde de casos (10.698) em #Portugal. Há mais 148 mortos e 5063 recuperados

    No Expresso, online.

    https://pbs.twimg.com/media/ErtlKlCXMAESxgv?format=jpg&name=900×900

  2. Estou-me marimbando para o futuro que este tipo defende.

    Quando fiz o secundário, na escola pública problemática, as coisas já não eram grande coisa e agora estão muito pior, ao nível da exigência dos professores e da “qualificação” dos alunos, por isso, sim, deviam ter fechado as escolas neste confinamento, sim, deviam ter acabado com esta pieguice dos “traumas” educativos, da falta de socialização, das desigualdades (como se os pais dos petizes não pudessem facilmente trocar a renovação anual do telemóvel topo de gama por um computador para os filhos – os mesmos que, não fosse a vacina ser gratuita – encheriam a boca a dizer que não poderiam pagar 30-50€ quando gastam isso facilmente em roupas bimbas compradas no centro comercial). Quanto aos pais, aqui onde moro grande parte passa o dia no café, por isso também poderiam ficar umas semanas a tomar conta dos filhos (só pensam neles na altura em que os fazem e quando começam a receber os € dos apoios sociais).

    Preferem que morram os velhos, para que não se “estrague” esta maravilhosa geração que nos vai salvar a todos…

    Afinal a “peste grisalha” é mesmo uma realidade.

    E este “comentador” devia voltar de vez para o buraco fétido de onde nunca deveria ter saído.

  3. No confinamento é mais fácil impedir ajuntamentos ?

    Com escumalha como tu constantemente a desautorizar a policia ó Oliveira ?

    É só ser um ajuntamentos de “corpos racializados”, como diz a vossa giria pseudocientifica imbecil,. Para a policia ter de olhar para o lado ou levar com uma chuva de pedras e ainda uma manif “contra o fascismo” em pleno confinamento.

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