A campanha eleitoral e a náusea ou a náusea da campanha eleitoral

(Carlos Esperança, 02/10/2019)

Vai sendo rotina um caso de polícia transformar-se num caso político e a esfera judicial aparecer a rodar nas campanhas eleitorais.

Não sei se há nesta infeliz coincidência temporal do caso Tancos uma perversa intriga, em que não interessa quem roubou o material de guerra, mas quem sabia da entrega, onde parece não ser o acaso a conduzir a agenda mediática, para substituir a campanha eleitoral por ataques a políticos selecionados e julgamentos na comunicação social.

Desde a tentativa canhestra orquestrada na casa civil de um PR contra o PM, nunca um assunto tão maléfico tinha aparecido, neste caso suficientemente eficaz para arruinar a campanha eleitoral.

Todas as presunções são legítimas, desde a tentativa de manchar o Exército, à luta entre Polícias ou ajustes de contas entre fações de uma qualquer corporação que pretende ser hegemónica e não hesita em exibir a força que detém, capaz de criar constrangimentos ao PR, ausente no estrangeiro, ou ao PM em campanha eleitoral.

Talvez a única surpresa seja a dimensão dos estragos, a mossa causada ao Governo, AR, magistratura judicial, PR e PGR, num oceano de suspeitas que altera a decisão do voto e lança dúvidas sobre todos os órgãos de soberania.

É neste ambiente malsão que os últimos dias da campanha eleitoral servem para ataques pessoais, suspeições lançadas contra os detentores dos mais altos cargos da República e ruido mediático para substituir a apreciação de uma legislatura e evitar o confronto das propostas dos partidos, entre os que se deram ao trabalho de as elaborar e os outros.

Não parece que surja um sobressalto cívico na defesa da democracia nem o respeito pela legitimidade das instituições que regularmente se submetem ao escrutínio dos cidadãos. Parece mais importante interferir na normalidade democrática para subverter resultados eleitorais do que preservar a decência democrática e a abstinência de golpes baixos.

Talvez não haja conspiração, mas há conspiradores. Não sei quem são, e será tarde que a serena apreciação dos Tribunais os revele, demasiado tarde para reparar os prejuízos causados à democracia e às instituições que a sustentam. Qualquer coincidência é mera semelhança com um golpe cirurgicamente ponderado.


Ver notícia sobre o caso de Tancos, que corrobora a opinião do autor, aqui

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