A crise do jornalismo é a crise da democracia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/01/2017)

Autor

                           Daniel Oliveira

Os jornalistas reuniram-se em congresso, este fim de semana. Infelizmente, por razões pessoais, e com grande pena minha, não pude assistir e participar no debate. Faço-o aqui, dirigindo-me, como se dirigiram os jornalistas que se encontraram no cinema São Jorge, aos leitores. O debate faz-se, hoje, em torno de três crises: a crise laboral que afetou os jornalistas, a crise do modelo de negócio em que a comunicação social se baseava e a crise da regulação, que no caso português está longe de ser nova. As três sombras que pairam sobre o jornalismo estão todas ligadas.

Há algumas décadas que assistimos ao processo de proletarização dos jornalistas. Não há autonomia possível quando 26% dos jornalistas trabalham a recibos verdes e 69% recebem entre 500 e 1500 euros, sendo que metade recebe menos de mil euros e 22% menos de 700. A precariedade e os salários baixos correspondem àquilo que se tornou a função dos jornalistas: produzir em série, sem uma verdadeira autonomia funcional. A isto juntou-se a redução drástica das redações, obrigando cada profissional a fazer várias peças por dia, muitas vezes para vários suportes, sem que sobre qualquer tempo para estudo e investigação. Não há jornalista mais fácil de manipular do que o jornalista sem tempo. Jornalistas mal pagos e a encher chouriços informativos são o sonho de todos os que desejam uma comunicação social amestrada.

O número avançado pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE é esclarecedor sobre o estado da liberdade de imprensa: 37% dos jornalistas admitem que o medo de perder o emprego condiciona “muito ou totalmente” o seu desempenho profissional. Muito se fala da independência dos jornalistas face ao poder político, mas esta é a maior limitação à liberdade dos jornalistas.

Esta degradação das condições de trabalho dos jornalistas foi desejada pelo poder político, que, no governo de Cavaco Silva, retirou às redações todo o poder que tinham, deixando os profissionais totalmente dependentes da vontade dos proprietários dos órgãos de comunicação social. Mas foi aproveitada pelos empresários do sector, que conseguiram impor aos jornalistas, mesmo os que trabalham em jornais de referência, o espírito de vendedores de produtos informativos, sem qualquer dever que não seja para com a empresa.

A chegada da Internet e das redes sociais veio agravar uma crise que já existia. O modelo de negócio em que se baseavam os jornais, mas também as televisões e as rádios, ruiu em poucos anos. Hoje, é praticamente impossível encontrar órgãos de comunicação social que deem lucro considerável. Sendo certo que ao fim do modelo antigo ainda não sucedeu, com garantias de sustentabilidade, um modelo totalmente baseado no digital. Continua a ser difícil manter a ideia de que as pessoas devem pagar pela informação, se a querem livre e independente. Em alguns países já se fala na possibilidade do subsídio público (não seletivo) dos órgãos de comunicação social. Mas nem os cidadãos parecem estar ganhos para a ideia, nem se sabe ao certo como isto se faria. Até por ser cada vez mais difícil traçar a fronteira entre o que é e não é jornalismo.

Perante a chegada das redes sociais, os jornalistas tiveram duas reações. Primeiro foi a negação, recusando a sua existência e o impacto que teria no seu trabalho. Depois foi a imitação, apostando tudo na rapidez, na publicação de investigações menos do que parcelares, na repetição do boato (muitas vezes o que é divulgado nas redes), na procura da partilha rápida e acrítica por parte dos leitores. A primeira reação deixou os jornalistas impreparados para o impacto das redes sociais no seu trabalho, a segunda desvalorizou a sua função, tornando-a inútil aos olhos dos cidadãos. Porque quereriam as pessoas ler o trabalho dos jornalistas (e até pagar por ele) se lhes oferecem o mesmo que sites sem credibilidade?

É difícil dizer isto a um jornalista, mas a rapidez e o direto deixaram de ser a sua vantagem. Já todos podem oferecer isso. Os jornalistas terão de aceitar que muitas vezes serão os últimos a dar uma informação. Ganham se tiverem outra vantagem para oferecer: a credibilidade. Quando sair num jornal de referência (os tabloides não me interessam nesta conversa), mesmo que seja o último a falar do assunto, tem mesmo de ser verdade. Ser mais lento, não tentar dar tudo, mas tudo o que se dá tem de ser muitíssimo bem investigado. Não é possível garantir isto com redações em que as pessoas recebem 700 euros para fazerem quatro ou cinco peças por dia.

O facto de os jornais serem hoje um péssimo negócio fez com que os capitalistas, que para além do poder que a posse de um jornal lhes dá procuravam algum lucro, tivessem sido substituídos por mecenas ideológicos, que procuram apenas a influência política, em troca de um prejuízo suportável. Isto não seria grave se garantisse o pluralismo de oferta. Quem tem essa ilusão ignora que o poder económico tem interesses específicos e toda a oferta de informação que dependa muito mais do poder económico do que dos leitores está condenada a servir os interesses de quem a paga.

A crescente dependência da comunicação social em relação ao poder económico é tal que o congresso dos jornalistas foi patrocinado por empresas como a EDP, o Santander, a PT e a Fundação Francisco Manuel dos Santos sem que a organização se questionasse sobre o que isto nos diz. A dependência está garantida quando nem sequer é questionada.

Depois, um problema especialmente grave em Portugal: não há regulação digna desse nome. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) não conquistou, por culpa própria, o respeito dos jornalistas. Não apenas por os jornalistas serem a classe que mais detesta ser escrutinada por poderes que lhe sejam externos, mas porque a ERC parece ter muito pouca capacidade de perceber o que é relevante e depende, em grande parte, de nomeações políticas. Concordo que a autorregulação não chega, mas a regulação tem de ser compreendida como tal, e não como uma forma de interferência política. A resistência dos jornalistas torna-se, no entanto, mais difícil de aceitar quando não garantem, eles mesmos, qualquer tipo de autorregulação eficaz. Mais uma vez, acreditar que profissionais precários, sem qualquer autonomia funcional e com rendimentos de um trabalhador sem qualificações, podem regular a sua própria atividade é esperar que as coisas aconteçam apenas pela força da vontade.

A proletarização e perda de autonomia dos jornalistas, hoje precários, muitíssimo mal pagos e com medo diário de perder o emprego, associada à crise do modelo de negócio em que se baseavam os principais órgãos de comunicação social, hoje dependentes de mecenas ideológicos, sejam eles proprietários ou anunciantes, deixou jornais, televisões e rádios num limbo perigoso. Na tempestade de boatos, meias-verdades e mentiras que as redes socais facilmente alimentam, os órgãos de comunicação social, em vez de funcionarem como terra firme, são uma jangada que vai com a corrente. E contribuem com esta mimetização suicida para uma crise global de confiança que está a minar os alicerces das democracias.

A crise do jornalismo está incluída numa crise mais geral: a crise de todos os agentes mediadores na era da Internet e da globalização. Ela afeta a comunicação social como afeta os partidos políticos, os sindicatos e o Estado. Os jornalistas são uma classe obsoleta. Tão obsoleta como os políticos e como a democracia, que está a ser substituída por um burburinho incessante e inorgânico e pelo poder direto dos empresários e dos mercados. Cabe aos jornalistas reinventar a sua função, contrariando os perigos deste novo tempo em vez de os replicar e ampliar.

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