Ainda a minha homenagem ao Rui Namorado

(Júlio Marques Mota, 15/01/2025)

Que descanse em paz

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Rui Namorado definitivamente partiu. Partiu e à volta da sua despedida definitiva teve os seus amigos, os vindos  de um passado longínquo, os de ontem e os de hoje. Não faltaram, pois, as pessoas de bengala e a um deles pedi eu a bengala emprestada para subir os três degraus que me levariam à capela Joanina.. Disse-me que sim, mas só depois dele os subir. Ri-me, agradeci, e disse-lhe que um dia eu é que iria andar assim. Tudo isto para  me referir às múltiplas amizades que o tempo longo da amizade fixou naquelas bengalas que por ali circularam. 

Houve os discursos felizes que nessa despedida se fizeram, houve também os discursos que lá não estiveram. Exemplo, não percebi como é que um dos representantes mais significativos da esquerda estudantil conimbricense e de um movimento estudantil quase que único no mundo,  não teve a presença de um Vice-reitor ou mesmo do próprio Reitor. Seria uma homenagem também, perante aquele corpo ali presente, a todos os estudantes que na vida de estudantes tudo arriscaram até a sua própria vida, por um Portugal livre que viria 5 anos depois. (Nota: O autor está a referir-se à chamada “crise de 69” na Universidade de Coimbra, na qual Rui Namorado teve um papel importante.)

Sabemos que a Universidade é, do ponto de vista político um corpo à direita, estranhamente muito à direita, sabemo-lo e perguntamo-nos  se a ausência desse discurso não tem esta coloração.   Também não percebi, apesar da presença dos estudantes com capa e batina na capela, porque é   que a Associação  de Estudantes  não fez uma despedida oficial perante aquela voz de liberdade  agora pela morte silenciada. Em política, diz-se, o que parece é,  e o que parece ali, nesta questão foi o silêncio estudantil.

Também não percebi  como é que um homem que dedicou grande parte da sua vida  política ao Partido Socialista não teve oficialmente  ninguém da Federação do PS de Coimbra a fazer um discurso de despedida, e, o que é mais grave ainda, não houve nenhum representante da Direção nacional a fazer-se representar no funeral e com um discurso de reconhecimento do que foi o Rui Namorado como militante. Trata-se de alguém que também foi deputado à Assembleia da República pelo PS pelo que não ficaria nada mal se urna fosse coberta por duas bandeiras: a nacional e a do PS. Com a bandeira do PS homenageava-se o militante, com a bandeira nacional homenageava-se o  político que ele foi e honrava-se a Política.

O inferno são os outros, dizia Sartre, mas não é verdade, o inferno é a ausência dos outros, como naquela despedida com os discursos que não se ouviram. A Política é algo muito mais sério do que o silêncio, é a solidariedade e o respeito forjado na luta pelos valores da democracia, foi o que aprendi com o Rui, e que não ouvi ali por aqueles quem emblematicamente o deveriam fazer. E não estavam presentes para os dizer. 

Face a estes silêncios  que espero tenham sido meramente ocasionais, deixem-me “roubar” e adaptar um poema de um aluno de Eva Cruz à situação presente:

Adivinhei em ti um poeta desde os teus verdes anos

Adivinhei em ti um político desde a Universidade

 Vi-te cantar a vida sonhando com a vida inteira

Vi-te relatar a  Democracia em abril futuro

Mas a velha e ferrugenta ceifeira  de foice em riste

Saiu-te no caminho e o teu corpo levou

Do resto, tudo   rejeitou, poemas e relatos foi o que ficou   

Deixou-nos os  sons  dos teus versos de abril,

E a tua visão da nossa Democracia de amanhã

Sabemos que nada disto se irá  silenciar

Sabemos que estes versos iremos  cantar

que a tua bandeira da Democracia iremos sustentar.

Pela parte que me toca e em homenagem  à memória do Rui Namorado  dedico-lhe a publicação  da série Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci no blog A Viagem dos Argonautas.