Elas carregaram Seguro — que tem de agradecer a Cotrim

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 21/01/2026)

Seguro beija a esposa, Margarida Maldonado Freitas

(Este texto merece reflexão. Quando sobrevalorizamos o programa e as opções ideológicas e políticas dos candidatos às eleições, como determinantes do resultado, parece que esquecemos realidades muito mais prosaicas e comezinhas. Ou seja, como reza a máxima: “o diabo está nos detalhes…”. 🙂

Estátua de Sal, 21/01/2026)


Houve uma transferência de apoio entre mulheres que iam votar em João Cotrim Figueiredo. Seguro também conquistou os eleitores mais velhos, o segmento intermédio (com pequena margem) e os que têm o ensino superior.


António José Seguro venceu a primeira volta das presidenciais com uma margem considerada confortável. Mas como? Quem foram os 31,1% que votaram no candidato que, no início da corrida, nem estava no top 3 favoritos à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa?

Seguro venceu nos últimos dias de campanha, graças a uma combinação decisiva: muitos eleitores só tomaram a decisão na última semana, e uma baixa taxa de rejeição tornou-o o candidato menos mau para muitos deles.

E houve outro fator determinante para a vitória de Seguro: uma transferência de apoio entre mulheres que, até muito perto do dia das eleições, iam votar em João Cotrim Figueiredo, aponta Henrique Oliveira, professor do Departamento de Matemática e coordenador de um agregador de sondagens no Instituto Superior Técnico (IST), em análise para a Renascença.

Os dados apontam para uma primeira volta marcada pela volatilidade. Segundo a sondagem à boca das urnas da SIC e da TVI, realizada pela GfK-Metris e pela Pitagórica, cerca de um em cada três portugueses decidiu o sentido de voto na última semana de campanha. É precisamente graças a estes indecisos de última hora que Seguro terá consolidado a vantagem — terá colecionado perto de 40% dos votos de quem decidiu já no final. André Ventura recolheu apenas 14% destes eleitores, enquanto Cotrim de Figueiredo ficou com 19%.

“Cotrim de Figueiredo estava com um grande momento de crescimento (…) houve ali efeitos devido aos ataques que sofreu e às afirmações que preferiu também, nomeadamente sobre o aborto. E, portanto, esse efeito pode-se ter feito sentir”, considera o professor.

Até à noite eleitoral, Seguro liderara apenas uma sondagem e a tracking poll da Pitagórica. Mas ganhou com mais de 400 mil votos de diferença face a André Ventura.

E o que diz a segmentação do voto por género? Entre as mulheres, Seguro teve 38% — o dobro de Ventura (19%) e mais do dobro de Cotrim (16%). Entre os eleitores com mais de 65 anos, Seguro voltou a destacar-se com 37%, superando largamente Ventura (18%) e deixando Cotrim a grande distância (10%). Ambas fatias de eleitorado que tendem a participar mais nas eleições.

Na faixa dos 18 aos 34 anos, Seguro alcançou 30%, enquanto Ventura ficou pelos 20%. O primeiro lugar neste grupo foi de Cotrim de Figueiredo, com 33%, o que já se esperava. Nessa mesma faixa etária, Gouveia e Melo e Marques Mendes surgem muito abaixo, com 6% cada.

No segmento intermédio, entre os 35 e os 64 anos, Seguro manteve a liderança com 31%, mas Ventura aproximou-se com 27%.

Já no recorte por escolaridade, foi nos eleitores com ensino básico e secundário que Ventura venceu Seguro, ainda que por margens curtas: 34% contra 32% no ensino básico e 29% contra 26% no secundário. Em contrapartida, entre quem tem ensino superior, Seguro liderou com 38%, enquanto Ventura ficou com 11%, praticamente ao nível de Gouveia e Melo e Marques Mendes.

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Tesourinhos de campanha

(J Nascimento Rodrigues, in Facebook, 19/01/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

Entrei quase calado (só o Javier Cotrim e o Ganda Nóia me tiraram do silêncio dos inocentes), mas vou menos mudo ao sair.


Abstract: O Tó-Zé saiu das Caldas sem Chaimite mas com uma ganda vontade de fazer o gesto ceramizado por Rafael Bordalo. Resumo a correr, para não dizerem que estou na Lua sonhando vê-la toda nua:

1- O submarino meteu logo ao fundo o ‘facilitador’ no primeiro round, que acabou no quinto dos votos;

2- O submarino descobriu que o povão não está aí nada virado para nenhuma geopolítica e que a sua entourage não era propriamente recomendável (na Madeira, então, nem o inefável Alberto João o tirou dos 8% e em Oeiras ficou em terceiro sem chegar aos 15%).  Espera-se, agora, que entre no clube dos comentadores da geopolitica dando brilho à Armada num mundo mediático minado por majores-generais.

3- Pinto Livre ficou atrás do Manuel João-o Catita, consumando a segunda grande asneirada do maître d’école seu chefe Talavera (há terceira borrada será a morte do artista?);

4- Katerine e o P-C-P tiveram o bom senso de copiar Barreirinhas Cunhal, mas sem recomendarem – sequer na segunda volta – tapar os olhos e engolir o sapo – o que gastronómicamente foi um salto revolucionário;

5- Javier Cotrim acabou num inconseguimento e já mostrou que não sabe a diferença entre democracia e iliberalismo, o que se estende, como doença infantil, àquela malta “liberal” que, na tradição de alguns pais fundadores, tipo brigada do reumático de Mont San Pèlérin, se baralha sempre no tema. Nisso não são muito diferentes da doença infantil de Mélanchon em França.

6- Por fim, BlackMountain, que não foi a jogo físico, mas por via de terceiros, acabou por descobrir um terramoto. A base eleitoral do governo está esfrangalhada, já nem é de pés de barro, e, tal como os ‘liberais’, não sabe mesmo onde fica a linha vermelha entre regime e regime change (do qual será o primeiro a sofrer as consequências, caso os iliberais cheguem – literalmente falando – cheguem ao trono de Belém; não lhe dou duas semanas para cair da cadeira em São Bento, nesse cenário). Acha que se pode retirar da contenda, emigrando para São Bento como se lá fosse fazer uma sabática com um visto de asilo.

7- O Tó-Zé começou como derrotado, indesejado, desamorado,  desajeitado, espetado no meio daqueles óculos gigantes, quase nada dizendo aos costumes, mas passou pelos pingos da chuva. Tenho de lhe tirar o chapéu que não tenho. Lá, da quase província berço do Zé Povinho, saiu como Dom Sebastião. É obra. Nem Soares imaginaria, e muito menos o Rafael Bordalo.

8- Veremos se o Tó Zé tem a endurance para superar a dupla batalha ganha por Soares ao derrotar a intentona soviético-cunhalista de regime change e depois a batalha contra a onda conservadora que representava Freitas na ocasião. [Refira-se que o próprio Freitas acabaria como compagnon de route de Soares e do PS e escreveria esse magnífico Afonso III, o bolonhês].

Agora a coisa é mais complicada: Tó Zé enfrenta uma intentona de regime change iliberal num contexto mundial de avançada de três impérios iliberais, um deles saindo das entranhas da mesma Aliança em que temos os Azores e Synes.

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A minha análise eleitoral

(João Gomes, in Facebook, 19/01/2026)


As eleições presidenciais de 18 de janeiro deveriam ter sido um exercício de maturidade democrática. Um momento de reflexão sobre o lugar de Portugal num mundo em convulsão, sobre o estado do seu tecido social e sobre as escolhas políticas que nos trouxeram até aqui. Em vez disso, assistimos a uma campanha onde o essencial ficou à margem e o acessório ocupou o centro do palco.

Falou-se pouco de saúde, apesar do SNS em exaustão. Falou-se pouco de salários, apesar da perda continuada de poder de compra. Falou-se pouco de habitação, apesar de ser hoje o principal fator de exclusão social. Falou-se, isso sim, de estilos, de perfis, de imagens televisivas e de promessas vagas de “mudança”.

É neste vazio que o populismo cresce. Não porque ofereça soluções, mas porque aponta culpados. Grita contra um “regime”, acusa a esquerda de políticas que não governou, promete rupturas que não cabem na Constituição. E fá-lo com eficácia mediática, mas com uma fragilidade estrutural evidente: quando chega o momento da escolha concreta, nem sequer consegue mobilizar todos os seus próprios eleitores.

A candidatura de Ventura é o melhor exemplo disso. Passou à segunda volta, é verdade, mas fê-lo por fragmentação do campo político e não por adesão maioritária ao seu projeto. Ficou aquém da votação do Chega nas legislativas de 2025, revelando que muitos dos seus eleitores recusam vê-lo como Presidente da República. Um “vencedor relativo”, sustentado mais pelo contexto do que pela convicção popular.

À direita tradicional, a AD repetiu um erro conhecido: confundiu exposição mediática com capital político. Apostou num candidato sem ligação às preocupações reais dos portugueses, esquecendo que o desgaste do governo não desaparece numa urna presidencial. O resultado foi um desinteresse claro do eleitorado.

O PS, pelo contrário, beneficiou da serenidade. António José Seguro não empolgou, mas tranquilizou. Surgiu como um candidato de centro, capaz de conter excessos de um governo impopular e de servir de travão institucional. Foi essa normalidade – quase anacrónica – que lhe permitiu captar votos do seu partido, de indecisos e até de eleitores desiludidos da direita.

Cotrim de Figueiredo confirmou os limites do liberalismo eleitoral: sólido na sua base, insuficiente para conquistar os indecisos. Gouveia e Melo, apesar do perfil “não partidário”, revelou que neutralidade sem proposta clara raramente mobiliza em massa.

À esquerda, os resultados foram previsíveis e, por isso mesmo, preocupantes. BE, PCP e Livre continuam a representar valores fundamentais da democracia portuguesa, mas insistem numa fragmentação que já não corresponde à realidade social nem geracional do país. A defesa isolada de identidades ideológicas pode ser moralmente coerente, mas eleitoralmente ineficaz.

Se a esquerda não encontrar uma forma de convergência pragmática – uma frente ampla de defesa da Constituição, do 25 de Abril e do Estado social – arrisca-se a perder relevância não por falta de razão, mas por incapacidade estratégica.

Estas eleições não produziram um mandato claro. Produziram, isso sim, um aviso. O populismo não venceu, mas também não desapareceu. A democracia resistiu, mas mostrou fissuras. E os partidos tradicionais continuam a confundir o país real com o país dos estúdios de televisão.

A lição é simples, embora desconfortável: enquanto a política não voltar a falar dos problemas concretos das pessoas, continuará a ser substituída por gritos. E os gritos, mesmo quando altos, raramente constroem o futuro.

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