“Conheci muito bem o seu pai, foi meu aluno”

(Pacheco Pereira, in Público, 300/03/2019)

Pacheco Pereira

O actual tema das “famílias” é um típico tema de campanha eleitoral. Há quem o trate a sério e há quem com ele faça campanha eleitoral. Não gostaria de me misturar com uma direita que, como não consegue criticar o núcleo duro das políticas do governo, na economia e nas finanças, atira ao lado. Acontece que não tem qualquer autoridade para falar, até porque tem demasiadas “famílias” bem mais perigosas do que aquelas que criticam e, sobre elas, nem uma linha. Acresce que têm também o mesmo tipo de “famílias” governamentais e arredores do PS. Admito que, no passado, mais diluídas do que a actual concentração governamental.

Contei outro dia, na “Circulatura do Quadrado”, uma cena que todos os alunos de Direito que tiveram Marcelo Caetano como professor conheciam. Caetano chegava à primeira aula e chamava os estudantes um a um, e interpelava-os com variantes da mesma conversa: “conheci muito bem o seu pai”; “você não é sobrinho de X? É que ele foi meu aluno”; “é da família X? O seu tio esteve comigo nos Graduados da Mocidade Portuguesa”; “o seu pai ainda está em Moçambique?”, etc., etc. De vez em quando, empancava num plebeu e não sabia o que dizer. Mas a concentração de alunos, filhos, sobrinhos e parentes de outros antigos alunos na Faculdade de Direito de Lisboa era muito grande. Estávamos numa época em que na universidade havia apenas 4% de estudantes de famílias operárias e camponesas. Aliás, mesmo após 45 anos de democracia, ainda existem problemas com as “famílias”, em particular filhos de professores na Faculdade de Direito, que suscitaram um conflito a que não se deu muita atenção pela necessidade de as provas escritas serem anónimas para evitar favorecimentos “familiares”.

Veio o 25 de Abril e o recrutamento político democratizou-se significativamente. Partidos como o PSD, o PS, o PCP trouxeram para a vida política gente que vinha de “baixo” ou do “meio”, mas essa democratização não foi tão longe como se pensa. Uma divisão social profunda continua a existir na sociedade portuguesa, só que a parte que cabe aos políticos eleitos e aos governantes é a parte de baixo da cadeia alimentar das “famílias”.

A obsessão populista com os “políticos” esquece que a maioria deles não tem qualquer poder significativo e, ao concentrar-se neles, ajuda a permanecer discretos os verdadeiros poderosos. E esses continuam a “mandar” em Portugal. E não estou a falar do DDT mais conhecido, mas no “círculo de confiança” que dos negócios à advocacia, aos lóbis, às empresas, aos think tanks e fundações subsidiados, controlam tudo o que é importante na decisão económica, social e política em Portugal. Há um “círculo” parecido na cultura e nos media, com relações próximas com o que referi antes, mas esse fica para outra altura.

Esse “círculo de confiança” é informal, mas controla escolhas de pessoas, ou nomeando-as para lugares estratégicos ou vetando-as, talvez o mais importante poder que tem, e acumula uma enorme quantidade de informação, pura e dura, sem distracções, que lhe vem da circulação dos seus membros pelos lugares de poder, quer políticos, quer nos conselhos de administração, quer nas comissões de remuneração, quer na pseudo-governance nas empresas, quer nos escritórios de advogados de negócios –​ sempre os mesmos a serem contratados pelo Estado ou contra o Estado –, quer nas empresas de auditoria ou de consultadoria financeira, nos grandes bancos, no Banco de Portugal, nos clubes desportivos, nas ligações obscuras na União Europeia, etc., etc. Essas é que são as “famílias” perigosas e também estão no governo, como de costume nas áreas mais sensíveis.

A chita

Há, no entanto, um outro factor preocupante, mas com esse pouca gente se interessa: é que tudo lhes facilita andar mais depressa. É que, sem pôr em causa o mérito de muitos membros dessas “famílias”, quando se lhes analisa o currículo profissional, académico ou de lugares públicos ou privados, se percebe que, face a outras pessoas de idêntico mérito, elas sobem mais depressa e isso tem a ver com os círculos de conhecimentos e amizades que os partidos proporcionam ou com o papel de instituições como a maçonaria no PS ou fundações, lóbis universitários ou mediáticos, na direita, ou as relações certas com as “famílias” certas.

É como as chitas, correm muito, são muito eficazes a caçar, mas casam demasiado entre elas e ficam mais expostas às doenças. As explicações patéticas de alguns dos membros do PS que vêm explicar por que razões casam com “camaradas” de partido mostram a doença das chitas em todo o seu esplendor, vivem no partido, convivem no partido, casam (e descasam) no partido, adormecem no partido, acordam no partido.

Nos partidos não se deve viver a não ser com muita moderação. E fora deles é que estão a maioria das “famílias” dos predadores. As chitas vão passar, os predadores invisíveis vão continuar lá, na sombra. E diversificam os casamentos e divorciam-se menos. Sabem muito. Estes jovens ambiciosos do PS não sabem nada.



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As múltiplas singularidades de Cavaco Silva

(Carlos Esperança, 30/03/2019)

Cavaco, político singular, que transformou o órgão de soberania unipessoal – PR –, em órgão matrimonial, e o Palácio de Belém em domicílio de três gerações, foi à Covilhã (UBI) proferir uma conferência sobre “A singularidade da construção europeia e o futuro do euro”, na companhia da singular prótese conjugal, D. Maria.

Do mérito da conferência não houve notícias. Houve da censura ao Governo onde não precisa das quintas-feiras, e quaisquer outros dias lhe servem para fustigar a Geringonça cujo fracasso previu com a certeza da solidez do BES, de Ricardo Salgado, em cuja vivenda se preparou, com a presença conjugal, a sua candidatura a PR.

Com o habitual rancor e falta de memória, quem engendrou escutas do PM e esqueceu o cartório notarial onde fez a permuta da vivenda Mariani pela Gaivota Azul, quem logrou comprar ações da SLN, não cotadas em bolsa, e arranjar comprador, com elevadas mais-valias, referiu-se às relações familiares do atual governo. O homem, que não lia jornais, afirmou: “segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido”.

Com as jugulares externas intumescidas pela raiva, a atingirem o calibre das internas, mais turbado pelo rancor do que pela senilidade, esqueceu-se de que, em 2015, foi ele a dar posse aos governantes com relações familiares, que continuam no atual executivo, e que, desde o primeiro dia, se sentam no Conselho de Ministros: os ministros Eduardo Cabrita e Ana Paula Vitorino, marido e mulher, e José Vieira da Silva e Mariana Vieira da Silva (pai e filha), ele como ministro e ela então como secretária de Estado adjunta do PM e hoje ministra da Presidência, já estão com assento no Conselho de ministros.

Esqueceu-se. Já, em tempos, se havia esquecido de ter preenchido a ficha na Pide onde a ortografia revelou impreparação cultural e as considerações sobre a madrasta da mulher, a despropósito, definiam o carácter. Quis agora ser a vuvuzela da direita que, após três anos, descobriu a arma de arremesso que todos os órgãos da central de intoxicação da direita disparam diariamente, enquanto aguardam que o País arda.

A primavera acordou da hibernação o homem singular que mantém o ódio e a falta de memória de quem precisa de que alguém nasça duas vezes para ser tão sério como ele.
Compreende-se a preocupação com os laços familiares de membros do atual governo. Os membros dos seus governos não precisaram disso para fazerem bons negócios, nem ele próprio, ou os do governo Passos/Portas e Maria Luís por que tanto se bateu. Ele mesmo, há três anos com a pensão de PR, cujo vencimento foi proibido de acumular, não precisou de nomear o genro para qualquer cargo. Os negócios vieram ter com ele.

Espera-se que a pala de Siza Vieira, na Expo, não lhes caia em cima.

Apostila – A escritura de Cavaco omitiu a vivenda em construção há nove meses, e a permuta realizou-se sem tornas, com a curiosa coincidência de 135 mil euros (isenta de sisa), sendo posteriormente obrigado a pagar 8.133,44 euros de Imposto de Sisa (taxa de 10%), em resultado da diferença entre os valores patrimoniais dos bens permutados, definidos pela própria Administração Fiscal.


Uma grande família

(José Soeiro, in Expresso Diário, 29/03/2019)

José Soeiro

(Pois é. As verdadeiras famílias, as que contam, as do dinheiro graúdo tem o pé direito no PSD, o pé esquerdo no PS e o dedo do meio no CDS a benzer os euros. Os grandes escritórios de advogados são todos “primos” uns dos outros, os do PS jogam à bisca com os do PSD e querem continuar a usar o Parlamento para fazer leis por encomenda que beneficiem os seus clientes. O piorio do centrão continua a funcionar, isso sim, uma verdadeira FAMÍLIA de respeitáveis mafiosos.

E nesta matéria, António Costa não consegue fazer melhor que o PS de outras eras.
Já nem questiono se alguma vez quis ou se alguma vez teve poder para fazer diferente.

Estátua de Sal, 30/03/2019)

Paulo Rangel, atolado na desventura em que se transformou o PSD e no vazio de diferenças entre a sua política europeia e a de Pedro Marques, encontrou nos laços de parentesco de assessores e Governantes o tema central da sua campanha. Só que, como lembrou e bem Adriano Campos, o rei da “caça à família” foi até há pouco tempo o sócio e advogado do Cuatrecasas, um escritório que assessorou as privatizações da ANA e da TAP no anterior Governo, que participou da resolução do Banif, que deu apoio à elaboração das escandalosas parcerias público-privado com a Ascendi na rodovia (essas mesmo que valeram a tantos portugueses, além do buraco no Orçamento do Estado, as cartinhas do Fisco, feito cobrador de fraque de uma entidade privada). Famílias há muitas e as que resultam dos negócios são tanto mais eficazes quanto se escondem em formas de afinidade e vínculo que não precisam da consanguinidade para ativarem os mecanismos de proteção e de cumplicidade de quem pertence ao mesmo clã.

Na verdade, enquanto PS e PSD trocavam acusações tonitruantes sobre o parentesco dos membros dos gabinetes, preparavam nos bastidores um entendimento de última hora que surpreendeu os que acreditaram que as juras de amor à transparência eram, desta vez, para levar a sério. De que falo? Da proposta do PSD que – apresentada sem aviso e contra a anunciada intenção de aumentar as restrições à acumulação da função de deputado com outras que podem entrar em conflito com aquela – visa permitir que os deputados que são advogados, membros de sociedades de advogados ou que vêm do setor financeiro intervenham no processo legislativo, mesmo que as suas sociedades estejam envolvidas nos processos abrangidos por essa legislação. Como diz o Público, o que os deputados do PSD fizeram foi, em conjunto com os do PS que garantiram a sua aprovação, “abrir alas àquilo que antes queriam evitar”.

Nada disto é novo. Só mostra como, neste campo, nada mudou. Lembro-me bem de como no passado, por exemplo, deputados dos grandes escritórios se juntaram para chumbarem uma proposta do seu próprio Governo que obrigava os estagiários na área do Direito a serem remunerados. Ou de, mais recentemente, nos trabalhos para rever a legislação laboral, os deputados próximos do setor do trabalho temporário mexeram os seus cordelinhos para que o PS não aceitasse mexer em nada de essencial no setor. A ordem reina.

Claro que, para desviar o assunto, ouviremos falar da “importância da regulamentação do lobbying”, conversa que é pura areia para os olhos, quando, no essencial, PS e PSD se juntaram para garantir a continuidade das portas giratórias entre interesses económicos e poder político que têm sido uma característica estruturante do capitalismo português.

Vai de vento em popa o país de Maria Luís Albuquerque e da promiscuidade com os fundos abutre, de Adolfo Mesquita Nunes e da Galp rentista, de Carlos Peixoto e dos escritórios dos vistos Gold, de António Vitorino e da EDP, de Carlos Moedas e dos CTT privatizados (logo dirigidos pela sua mulher, depois do negócio ruinoso da privatização).

O centrão e o mundo dos negócios sempre formaram uma grande família.