O declínio da civilização e o renascimento do fascismo

(Carlos Esperança, 19/10/2018)

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Os cínicos afirmam que cada povo tem o governo que merece, mas julgo mais acertado pensar que, em democracia, cada povo escolhe o governo que quer. O difícil é livrar-se dele quando a democracia estorva quem escolheu.

Há quem pense que a democracia é o governo das maiorias, independentemente do seu comportamento, dos atropelos à liberdade individual, do respeito pelas minorias e pelos direitos humanos.

Não se pense que os mais sinistros governantes não foram, em algum momento, os mais desejados, fosse por desespero, ignorância ou maldade de quem os elege.

Quando, em 3 de junho de 1989, o Aiatola Khomeini, um dos mais sinistros criminosos pios de que me lembro, voou para o Paraíso, foi chorado por uma multidão em transe de sofrimento, e eram genuínos a dor e o sentimento de perda pela horda de fanáticos que o idolatravam. O histerismo coletivo opera milagres, transforma déspotas em veneráveis e criminosos em salvadores. A liberdade não é uma aspiração universal nem a democracia um sistema maioritariamente desejado.

Duterte, o atual PR das Filipinas, quando tomou posse em 30 de junho de 2016, vencera as eleições a incitar a população a fazer execuções sumárias, tal como ele já tinha feito, a drogados e traficantes. Há milhares de suspeitos executados sem qualquer julgamento, e a população apoia-o.

Bolsonaro é a versão brasileira de Rodrigo Duterte e fica-se com a sensação de que não terá mais votos porque os eleitores desconfiam de que não seja tão mau como divulga, receosos de que não pratique as patifarias que promete.

A Europa, onde a União Europeia e a sua civilização estão a ser desafiadas pela Polónia, Itália e Hungria, onde os partidos neonazis de muitos outros países já se apresentam sem disfarces, está em risco de se desintegrar e perder a herança iluminista de que é guardiã.

Hoje mesmo, com consequências imprevisíveis, o Tribunal de Justiça Europeu paralisou a reforma do Tribunal Supremo da Polónia. A inédita decisão, após uma petição da CE, emitiu uma medida cautelar contra a reforma polaca, impedindo a jubilação obrigatória dos juízes do Supremo Tribunal decidida pelo PR e a nomeação de novos juízes cujo número e nome pretende ser ele a decidir.

O grotesco PR pretende, com a sua discricionária decisão sobre a idade de jubilação dos juízes, afastar cerca de um terço, e impor a configuração e a ideologia do ST.

Entretanto, enquanto os ditadores decidem, os cidadãos conformam-se, ficam abúlicos ou tornam-se coniventes.

Bastaram sete décadas para a amnésia coletiva. Trump é apenas o detonador de uma nova ordem que renasce da herança genética da década de 30 do século passado.

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A guerra colonial e a ditadura salazarista

(Carlos Esperança, 18/10/2018)

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A ausência de um combate determinado aos crimes da ditadura conduz à sua amnésia e ao branqueamento dos próceres que suprimiram as liberdades, estabeleceram a censura, desterraram, perseguiram, prenderam, torturaram e assassinaram os opositores.

Para lá da miséria, do analfabetismo e da repressão, a guerra colonial iniciada quando os impérios coloniais já tinham percebido a inutilidade da guerra contra os movimentos de libertação, foi a derradeira e demencial tentativa de perpetuar a ditadura.

Sabe-se a quantidade de mortos e estropiados dos soldados portugueses, mas ignora-se o sofrimento e o número de vítimas de populações autóctones e dos combatentes do outro lado. Surpreendente não é o silêncio do que nos envergonha, é o ruído que ainda fazem os fascistas sobre a guerra que Portugal perdeu e a nostalgia demonstrada pelo “nosso Ultramar infelizmente perdido”, numa demente falsificação da História e na tentativa de reabilitar a ditadura e os seus cúmplices.

Quando os militares de Abril escreveram a mais bela página dos últimos cem anos da nossa História, já a Guiné era um país independente reconhecido internacionalmente. A ocupação de Angola e Moçambique, para além do esgotamento dos recursos humanos e materiais, era intolerável à luz do direito internacional, e a tentativa de uns colonialistas, que se reviam no exemplo da África do Sul e da Rodésia, não passava de uma aventura trágica votada ao fracasso.

Surpreende que, 44 anos depois, ainda surjam trogloditas crispados a acusar de traição as negociações de paz na guerra que nunca devia ter começado e a perturbar as relações entre países que souberam pôr a amizade dos povos acima da violência do regime que a todos oprimiu, aqui e lá.

Em vez de se homenagearem as Forças Armadas, que cumpriram o seu papel patriótico e conseguiram retirar de três teatros de guerra, sem uma única baixa, um caso único no mundo, a direita já se sente confiante para as perturbar e humilhar.

A deslocação do poder bélico das Forças Armadas para as forças de Segurança faz parte da agenda que começou no afastamento dos militares de Abril, prosseguiu com o fim do SMO e acabará na subordinação partidária. A esquerda não tem o direito de se imiscuir nas FA, cujas missões estão constitucionalmente consagradas, mas exige-se-lhe que não as deixe confiscar nem humilhar.

Com a agressividade com que a direita antidemocrática renasce na Europa, e no Mundo, é dever dos democratas denunciarem o passado e manterem-se vigilantes.

Sofrerei de daltonismo político?

(Carlos Esperança, 17/10/2018)

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Não garanto que alguma vez, por grave distração, não tenha passado por um sinal vermelho sem o ver, mas não o confundo com o verde, mesmo com acuidade visual atenuada.

Já em política não estou tão certo de que algum fenómeno catatímico interfira na minha visão, apesar de ser exigente com a conduta de quem nos governa, quer dos partidos da minha simpatia, quer dos adversários.

Quando o atual governo iniciou funções, foram constituídos arguidos os secretários de Estado que aceitaram a viagem a uma Empresa, à vista de todo o país, para um jogo da seleção nacional de futebol, o que levou à demissão das funções para que lhes sobejava competência. O próprio ministro das Finanças esteve em risco, por ter solicitado dois lugares no camarote da direção a um clube para ver um desafio de futebol, uma paixão a que não é imune um doutorado por Harvard. Na minha opinião, os primeiros não deviam ter aceitado. No caso do ministro pareceu-me pura perseguição partidária.

No anterior governo, uma secretária de Estado que negociara Swaps com o Estado numa empresa privada, viu sair colegas por esse motivo, mas permaneceu e, à falta de melhor, chegou a ministra das Finanças. Saiu para um fundo abutre, em Londres, acumulando o lugar de deputada. Passos Coelho chegou a PM após a fraude com fundos europeus na Tecnoforma, o pedido de salário como deputado em exclusividade (não concedido), a falta de pagamento às Finanças e à Segurança Social. Saiu como catedrático.

Autarcas acusados de corrupção pela revista Visão, em que se destacam Marco António e Luís Filipe Meneses, continuam tranquilos à espera da prescrição dos crimes que a revista lhes imputou. O País só queria saber se foi calúnia ou se a PGR não soube.

Durão Barroso era PM e foi em jato privado ao Brasil, com a família, para uma estadia numa ilha paradisíaca, a convite de um amigo com negócios com o Estado. Foi de férias no iate de um magnata, quando estava indigitado para presidente da Comissão Europeia, e acabou, depois de suspeitas e furtivas reuniões, como CEO de Goldman Sachs, em Londres.

Paulo Portas, desde as trapalhadas da Universidade Moderna, da falência fraudulenta da empresa de sondagens Amostra, da falta de recibos de pagamento aos sondadores e do atraso de pagamentos às Finanças, comprou submarinos sem que fosse averiguado o destino das comissões que levaram a condenações dos corruptores alemães.

Com exceção de Cavaco Silva, uma referência ética, incorruptível, incapaz de intrigas e de rancores, com um passado imaculado como investigador da Gulbenkian, assiduidade inexcedível na docência de uma Universidade pública, que alia uma invulgar cultura ao inexcedível sentido de Estado, com exceção de Cavaco – dizia –, sobre as referências da direita pairam suspeitas que nunca foram investigadas.

Provavelmente sofro de facciosismo político. Aliás, nunca disfarcei o posicionamento político.