A Ucrânia a bombardear jornalistas

(Bruno Amaral de Carvalho, in Telegram, 16/08/2022)

(Quem vê as nossas televisões já deve ter reparado que os mísseis russos só atingem hospitais, escolas, maternidades e outras infraestruturas civis… Como se isso fosse possível nesta época de alta tecnologia que eles dominam até melhor que o Ocidente. Em contrapartida os mísseis ucranianos acertam sempre em alvos militares, de acordo com os nossos comentadores de trazer por casa.

Na verdade, este testemunho de quem está lá, no terreno, arriscando a vida, dá conta que não é assim. A Ucrânia dispara sobre alvos civis, no caso jornalistas e os nossos órgãos de informação censuram tais factos.

Já não chegava as guerras serem deploráveis. Temos ainda que viver com a censura instituída de novo, e curiosamente, instituída em nome da Liberdade. Os déspotas fazem sempre isso.

Estátua de Sal, 16/08/2022)


No meio de sucessivos bombardeamentos, há ideias que não desaparecem por si e não consigo parar de pensar nisto. Há quase duas semanas, um hotel cheio de jornalistas foi atacado em Donetsk. Durante este ataque, morreu uma mulher que caminhava junto à entrada do Donbass Palace. Meia hora depois, havia ainda mais jornalistas no local a fazer a cobertura do que tinha acontecido. Eu estava entre eles quando esta zona voltou a ser atacada. Três projécteis caíram a 50 metros de distância do hotel matando outras quatro pessoas, entre as quais uma professora de ballet e a sua aluna de doze anos.
Para além da morte de civis, algo que deve chocar qualquer um de nós enquanto cidadãos independentemente do lado da guerra, o silêncio absoluto sobre um ataque contra este hotel cheio de jornalistas é algo que mostra uma parte sinistra desta guerra. Ninguém, nenhum governo ou sindicato, condenou esta agressão contra quem trabalha para mostrar o que aqui se passa.
Por curiosidade, resolvi perguntar a Javier Couso, irmão de José Couso, repórter de imagem espanhol que morreu no Iraque, em 2003, depois de um ataque norte-americano contra um hotel com jornalistas, qual foi a reacção das instituições e sindicatos à morte deste jornalista e de Taras Protsyuk, repórter de imagem ucraniano ao serviço da Reuters. Nesse mesmo hotel, em Bagdad, estava Carlos Fino, da RTP, e Carmen Marques, da TVI. Os Estados Unidos afirmaram que estavam a responder ao fogo de um franco-atirador, algo contestado por vários jornalistas no local.
Segundo Javier Couso, a maioria dos sindicatos espanhóis condenou o ataque contra este hotel, onde as forças norte-americanas sabiam que havia jornalistas, e exigiram uma investigação. A própria Federação Internacional de Jornalistas condenou este ataque, assim como o Sindicato dos Jornalistas, em Portugal.
Também não havia qualquer posição militar no Donbass Palace. Felizmente, desta vez, não houve vítimas entre os jornalistas, ao contrário do que já aconteceu do outro lado da linha da frente, algo que mereceu, e bem, o repúdio do sindicato português e da Federação Internacional de Jornalistas. A dúvida que permanece é sobre o silêncio em relação a um ataque contra um hotel cheio de jornalistas e o que fica no ar, uma vez mais, é se este silêncio terá a ver com o facto de estarmos a cobrir a guerra a partir do lado russo. A defesa da liberdade de imprensa e do pluralismo exige que nos posicionemos contra qualquer agressão que ponha em causa o trabalho de qualquer jornalista em qualquer parte do conflito. Foi nesse sentido, enquanto sócio, que enviei esta mensagem à direcção do Sindicato dos Jornalistas na esperança de que haja um pronunciamento sobre este ataque ao nosso trabalho enquanto repórteres em Donetsk.

Bruno Amaral de Carvalho
Donetsk, 16 de Agosto.


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7 pensamentos sobre “A Ucrânia a bombardear jornalistas

  1. Pois é, propaganda não é só manipular e mentir, é também ocultar informação para que as pessoas não possam formar a sua opinião livremente, e este caso foi especialmente abjecto pois tivemos a «imprensa livre» a esconder um ataque aos próprios jornalistas!…

    Mas ocultar informação actualmente é como tapar o sol com uma peneira, ela existe e é só procurá-la, e só não o faz quem não sabe ou não o quer fazer. A RT por exemplo publicou logo no próprio dia um relato pormenorizado feito por uma jornalista canadiana que estava no hotel no momento do ataque e que termina assim

    «Se, ao bombardear um hotel cheio de jornalistas, Kiev quis intimidá-los para que não reportassem os crimes de guerra da Ucrânia, isso não funcionará. A maioria dos jornalistas que reportam aqui faz isso porque, ao contrário das lágrimas de crocodilo do Ocidente pelos conflitos que eles criam, nós realmente preocupamo-nos com a vida das pessoas que aqui vivem.»

    O relato está aqui, acessível só com VPN claro
    https://www.rt.com/russia/560241-ukraine-bombed-donetsk-hotel-journalists/

    • A RT é dos melhores canais a cobrir rapidamente o que se passa em todo o Mundo. Usa também a sua peneira para tapar o Sol do que se passa dentro da Rússia, mas sinceramente quem é que nãp o faz?

      Para ficarmos informados temos de ver notícias aqui e ali, cruzar informação, confrontar pontos de vista diferentes.
      Não há uma imprensa da mentira e outra da verdade. Há pontos de vista, prioridades, omissões, e narrativas.
      Se escolhermos só uma, estamos a pedir para sermos enganados.

      A partir do momento que a RT é censurada (em violaçãp da Constituição Portuguesa, mas em “boa” obediência ao regime Bruxelas/Washington) isso quer dizer que não nos querem bem informados. E a RT até mentia menos do que a CNN nos tempos das guerras USAmericas/NATO.

      Dizes bem que quem quiser vê o Sol atrás da peneira, que “basta” procurar pela informação. Sim, eu gosto de fazer isso. Tu gostas de fazer isso. A EatátuaDeSal também. Etc. Mas somos a minoria, que em Portugal é uma minoria aind mais pequena. A esmagadora maioria não o faz, ou porque não sabe, ou não tem tempo, ou por comodismo.

      Existem os curiosos que questionam, e os superificiais que comem e calam. É da natureza humana, e quem mente/manipula/omite sabe muito bem disso, e trabalha a sua agenda/propaganda com base nisso.

      Neste momento, a maioria em Portugal acha que este Bruno é um “comuna putinista”. A verdade (como a que a Amnistia Internacional finalmente admitiu) incomoda. A NATO é “defensiva”. Os EUA “não são imperialistas”. O Putin um dia acordou e “apeteceu-lhe iniciaf uma guerra não-provocada”. Os Azov, Sector Direito, etc são “democratas”. Os Ucranianos do Donbass e arredores são só “separatistas pró-Russos”. E o grupo Wagner PMC é que é o único “grupo nazi”, e se foi para o Mali foi para fazer “terrorismo”. Etc.

      Podia continuar esta lista até me doerem os dedos. E podia fazer outra de igual tamanho com as omissões da imprensa mainstream. E isto é só sobre este assunto. Depois podia fazer listas de tamanho semelhante sobre N assuntos.

      Como daquela vez que a Isabel Santiago na RTP chamou “protestos violentos dos naciobalistas” a Catalães independentistas sentados no chão, e no mesmo canal todos chamavam “activistas pró-democracia” aos violentos grupos de Hong Kong a partir montras, a pegar fogo em zonas civis, a atacar polícias com flechas e cocktaisl molotov, e a agitar bandeiras do ex-colono UK, e do então POTUS Donald Trump. Foi por esta altura que comecei a deixar de ver a RTP, quando notei que nem sequer a TV Espanhola manipulava tanto sobre este assunto.

      Em Portugal temos o Bruno Amaral de Carvalho, o Fumaça, o SetentaEQuatro, a EstátuaDeSal, a ViagemDosArgonautas, o AbrilAbril, o GeoPol, os esporadicos artigos de opinião que ainda vão saíndo timidamente nalguma imprensa mainstream (ex: Major-General Carlos Branco), e pouco mais.

      Mas mesmo que alguém ainda faça questão de se alimentar na imprensa mainstream (na qual a Portuguesa se destaca pelas faltas ainda maiores de honestidade e de qualidade), tem pelo menos de ir bebendo também nas fontes alternativas, e nas internacionais. Caso contrário, fica completamente manipulado.

      Isto até acontece na simples e quase inocente forma como se dá cobertura a esta e não àquela região. Nunca mais me esqueço quando numa semana emnque havia certo furacão, na TV portuguesa só passavam alertas sobre a chuva e ventos intensos que “ai ai que podem atingir a Florida”, mas não se passou um único segundo (RTP, SiC, TVi) a falar da destruição que já tinha ocorrido entretanto noutros países da região.
      Esta USAmericanização enoja-me. E esta prioridade dada ao “homem branco ocidental”, principalmente se for de um país rico, é inaceitável.

      Neste momento, segundo o SouthFront, a Turquia dá início à sua operação militar na zona invadida do Norte da Síria, novamente em redor de Aleppo já se ouvem explosões, e os alvos prioritários são os Curdos, das chamadas SDF (Syrian Democratic Forces) que tanto jeito deram contra o ISIS e para os EUA ocuparem a zona Este do país.
      Na imprensa Ocidental mainstream vai ser nota de rodapé, e na Portuguesa vai ser 100% omitido. Só há uma invasão, a Russa e mais nenhuma! E quem disser o contrário, verá a sua “colaboração” cancelada. É assim em NeoLiberalismo: zero direitos laborais. Por isso ficou tão fácil manter os jornalistas todos na linha.

      Mas lixaram-se, havia um Jornalista, que por acaso é Comunista e sabe do que é preciso abdicar pessoalmente para poder fazer o que está certo, para lhes fazer frente.
      E se não “colaboram” com ele em Portugal, ele vai mostrar o seu trabalho profissional noutras paragens, como no tal jornal da Galiza.
      Por isso repito: tenho cada vez mais admiração, e espero que a coragem nunca lhe falte.

      Ah, quase esquecia, uma sondagem online (vale o que vale) no Sapo, sobre o caso Assange, mostra que mais de 50% não querem saber da liberdade de imprensa e não acompanham o caso mais importante desde que há a chamada Democracia. Mostra que cerca de 15% estão totalmente alinhados com os EUA e a censura. E que só 30 e poucos % é que concordam com a ação colocada em tribunal pelos advogados de Assange para processar a CIA por o ter espiado/perseguido.
      Assim vai o Ocidente, rumo ao seu triste futuro.

      • Muitas verdades como sempre, subscrevo. A verdade realmente incomoda e muitos não conseguem lidar com ela, podem descobrir que viveram sempre numa ficção que lhes foi impingida e isso não é fácil… «You can’t handle the truth!» dizia o Jack Nicholson numa cena famosa… mas é bastante irónico que, pelo menos em termos de informação, o Ocidente esteja cada vez mais parecido com a antiga União Soviética.

      • Quanto a ver ou deixar de ver os canais portugueses, confesso que não perco um. Vejo diariamente, religiosamente, os noticiários das 20:00 da RTP-1, SIC e TVI. Como os vejo gravados, não perco muito tempo, porque faço fast forward e páro apenas naquilo que me interessa, mas é a melhor maneira de topar os truques e aldrabices da máfia merdiática e seus donos nos incansáveis esforços que fazem para nos aldrabar. São sessões de vigarice sem vergonha, mas altamente pedagógicas, elucidativas das direcções para onde nos tentam empurrar e das que conclusões que querem obrigar-nos a tirar. O primarismo manipulatório é por vezes tão cretino e idiota que algumas “sessões” se tornam autênticos sketches cómicos. Nada como a parelha de palhaços Rogeiro/Milhazes, por exemplo, para me arrancar uma boas gargalhadas, tão transparente é o esforço, inglório, para me comerem as papas na cabeça. A sério, dou comigo a gargalhar com a estupidez simplória daqueles dois palhaços, ambos pobres… de espírito, mas provavelmente ambos ricos na carteira, pois aquele género de trabalhinho é certamente bem pago.

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