A UE e as sanções

(Jorge de Freitas Monteiro, in Facebook, 21/03/2022)

1. O ataque russo à Ucrânia não poderia passar sem sanções.

2. Numa primeira fase os Estados membros da UE da Europa Ocidental resistiram à imposição de sanções que pudessem prejudicar as suas economias mais do que o nível que consideraram razoável e apropriado.

3. Foi o período, que agora parece longínquo e para citar apenas alguns exemplos, em que a Itália pretendia excluir os produtos de luxo, a Bélgica os diamantes e todos eles o corte da ligação da Rússia ao SWIFT.

4. Sob pressão americana, coadjuvada pelos Estados membros de leste, a UE acabou por impor sucessivos pacotes de sanções que configuram um nível de sanções inédito.

5. Escapam de momento apenas alguns sectores nomeadamente o energético.

6. Há no entanto pressões americanas sobre os Estados membros da Europa Ocidental, como sempre apoiadas pelos Estados membros de leste (que, neste como noutros aspetos, vêm funcionando segundo uma lógica de cavalo de Tróia), no sentido de uma rutura de toda e qualquer relação comercial com a Rússia, incluindo no sector energético.

7. A verificar-se, uma tal ruptura significaria a paralisação largos sectores da economia de alguns Estados membros.

8. Ao contrário do que é habitualmente afirmado as sanções não foram impostas pela “comunidade internacional”, isto é pelas UN ou sequer por uma maioria de Estados a nível mundial.

9. Impuseram sanções os países da NATO, da UE e alguns países com alianças militares fortes com os US: Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e a Nova Zelândia. A Suíça, tal, como Singapura, depois de recusar num primeiro tempo, cedeu às pressões exercidas a adotou também um pacote de sanções. A Turquia e Israel recusaram-se a fazê-lo.

10. É fácil verificar que de entre os países que impuseram sanções os países da UE e os outros países europeus são de muito longe os que mais sofrem o seu impacto. Na realidade são os únicos que realmente o sofrem enquanto os US poderão até beneficiar com elas graças ao novo mercado que se abre para o seu gás de fracking vendido à Europa a pelo menos o dobro do preço do gás Russo.

11. Segundo a Sky News a família média britânica verá o seu rendimento anual diminuir em mais de 3000€ em resultado das sanções. Com algumas variações o mesmo acontecerá no resto da Europa com os mais pobres, países, famílias e indivíduos, a serem os mais sacrificados.

12. Não foram feitas contas sérias e muito menos estudado o impacto profundo das sanções adoptadas, nem a nível da UE nem a nível de cada um dos seus Estados membros.

13. É geralmente aceite que vamos ter uma depressão económica acompanhada da subida em flecha dos preços dos alimentos, dos combustíveis e de forma global de uma inflação generalizada que vai reduzir substancialmente o poder de compra dos salários. O desemprego vai aumentar com as falências e a redução da produção em numerosos sectores. As finanças públicas vão de novo entrar em desequilíbrio. Em resumo, uma espécie de 2008/2011 só que para pior.

14. Se por um lado é óbvio que os governos que decidiram impor as sanções já adotadas (e as que possivelmente estão para vir) não poderiam dispor de um mandato explícito dos seus eleitores nesse sentido (a situação era impossível de prever) é igualmente óbvio que a adoção de sanções desta dimensão inédita com um impacto igualmente inédito na vida dos cidadãos europeus coloca um problema de legitimidade.

15. À medida que os efeitos expectáveis das sanções se fizerem sentir na Europa a questão da legitimidade será cada vez mais evocada, com consequência imprevisíveis para a imagem da UE e para estabilidade dos governos e dos próprios regimes democráticos.

16. Tudo isto ainda poderia ser justificável se as sanções produzissem o efeito desejado de forma rápida, neste caso o fim do ataque russo e a queda de Putin.

17. A experiência demonstra o contrário, as sanções não só nunca atingem os objetivos que se propõem atingir como frequentemente acabam por reforçar os regimes que pretendem enfraquecer. Estes passam a poder apresentar as sanções não só como explicação para as suas falhas mas também como elemento mobilizador e de unidade contra um inimigo externo.

18. Em síntese a UE adotou um conjunto de sanções que lhe foi imposto, que são segundo toda a probabilidade inúteis, cujo fardo suporta de forma completamente desproporcionada em relação aos seus aliados, sem se colocar as questões de custo, de legitimidade e de estabilidade a prazo do consenso social indispensável.

19. Neste momento em que estão em cima da mesa propostas para novas sanções ainda mais prejudiciais aos interesses europeus seria indispensável que os Estados membros da Europa Ocidental se coordenassem para resistirem às já habituais pressões externas e internas, cada vez mais reforçadas por uma opinião pública sabiamente condicionada no sentido da escalada da guerra e das sanções.

20. Isto sob pena de daqui a uns meses vermos os mesmos que agora clamam no conforto dos seus sofás por mais sanções a manifestarem-se violentamente na rua contra os respetivos governos e contra a UE.


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3 pensamentos sobre “A UE e as sanções

  1. Uma análise muito realista do panorama actual, sem dúvida. É importantíssimo que exista a Estátua de Salpara contrariar o que diz o Lobo disfarçado de pastor ao rebanho de lunáticos em que se transformou a União Europeia. Ainda existirem vozes lúcidas que desmontam o pensamento único vigente é tão salutar. A União Soviética ficou com a fama de ditadura, mas agora a União Europeia bem que copia o que tanto criticava à URSS. Não aprendeu a lição, daí o afã tão grande com “o fim da história”. Só que a História não acabou e estão hoje a começar a escrever-se páginas tão importantes que mudarão a precepção do mundo nos próximos meses e décadas. Aqui dou mais uma achega para o conhecimento de outras opiniões.neste mundo multipolar que finalmente emerge: https://russtrat.ru/en e este video do realizador Nikita Mikhalkov traduzido para português: https://disk.yandex.ru/d/tFhbkMiNW-wGWw/Portuguese.mp4

  2. ah e tal as sanções são más para a europa e os europeus vão pagar o preço mais alto … Novidades?!!
    É evidente que é assim, e é verdade que podem nem ter qualquer resultado, mas o certo é que sempre é melhor do que passar a viver em esconderijos subterrâneos!
    Tenho lido muitos artigos aqui no blog, mas nenhum me responde às seguintes perguntas:
    – havia ameaça de guerra nuclear antes da invasão da Ucrânia?
    – Onde vai para a Rússia se não for parada na Ucrânia?
    Porque se se entende que devemos deixar a Ucrânia sem apoio e abrir as pernas ao Putin, quer isso dizer que depois pode vir a Polónia, a Moldávia, a Estónia, etc.?
    O mundo não é preto e branco e podemos ter opinião e analisar.
    A questão aqui é que a Europa já está efectivamente em estado de guerra e só não vê isso quem não quer…

  3. AINDA AGORA ,a procisão vai no “adro”com diregentes que em nome do Povo,para o qual não tem mandato,embarca em “aventuas” que trarão,dificuldades ao Povo mais pobre ede baixos rendimentos e verão a sua Vida já dificil depauperar e tb a de seus filhos ,pq aqueles bem instalados pouco serão afectados …..

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