Razão, excitação, cansaço, desintoxicação

(Pacheco Pereira, in Público, 19/03/2022)

Pacheco Pereira

(O Pacheco Pereira anda preocupado com o fanatismo e a histeria irracional que por aí anda, uma epidemia russofóbica à solta, impulsionada pelas televisões amestradas pelas agências de inteligência dos EUA, e pela censura imposta pela União Europeia. Eu também estou preocupado e cada vez mais.

É por isso que publico no final do texto um vídeo de uma entrevista de um coronel americano ao um canal de televisão, também americano, que nos dá uma visão da guerra na Ucrânia que as nossas televisões nos ocultam. Como em qualquer julgamento justo, é preciso ouvir as duas partes: a defesa e a acusação. Só nos permitem ouvir uma, logo algo está mal nas nossas ditas democracias.

Estátua de Sal, 19/03/2022)


Não basta ter uma boa causa, é preciso transformá-la em políticas democráticas, no contexto da vida pública em liberdade, e defrontar muitas questões de que a emoção não só não cuida, como cala.


Cobrir, em termos comunicacionais, uma guerra como a da Ucrânia é muito difícil. Implica novas regras de boa comunicação e deontologia jornalística, mantendo as antigas, adaptadas a um conflito com características inéditas. Muitas imagens da guerra actual parecem-se com outras relativamente recentes: bombardeamentos da faixa de Gaza e no Iémen, ataques na Bósnia, na Sérvia, na Líbia, na Somália, na Guerra do Golfo. Do mesmo modo, a presença da memória da II Guerra Mundial, principalmente na imagem das cidades devastadas sem distinção entre prédios “civis” e objectivos militares, parece também servir de comparação. Eu insisti no “parecem” porque penso que esta guerra tem características novas e problemas novos, todos muito centrados na comunicação social.

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Há, para já, duas coisas que são novas, até porque a velha máxima de que a quantidade gera a qualidade é relevante, entendendo-se como qualidade não um conceito valorativo, mas uma nova forma de identidade, e que são: a presença maciça da comunicação social, produzindo ou incorporando na sua informação milhares de vídeos, e aquilo a que a CNN americana e a portuguesa chamam “breaking news”, ou seja emissões de quase 24 horas por dia sobre o mesmo assunto, com a excepção nacional, obviamente, do futebol.

Não sei quantos jornalistas estão na Ucrânia e nos países limítrofes, com excepção da Rússia onde não podem trabalhar a não ser clandestinamente, mas devem ser várias dezenas. Isso significa uma cobertura intensiva, desigual no seu valor e dependente do conhecimento, medo e comodismo do correspondente, e que tem sido muito centrada nos refugiados, numa primeira fase, e agora nas destruições civis. Por razões óbvias, as informações sobre a guerra propriamente dita são escassas e muito dependentes do acesso aos campos de batalha. Aqui não há jornalistas “embebidos” como na guerra do Golfo nas unidades militares, quer nas russas, quer nas ucranianas, e é também neste terreno que há muita desinformação dos dois lados.

Sabemos pouco sobre a frente de batalha, mas isso é normal na condução de operações militares. O que é grave é que essa ignorância não pareça ser sentida como importante, no meio da multidão de imagens muito mais “populares”.

A transmissão principalmente nas televisões, o meio mais poderoso na sua comunicabilidade e empatia, de 24 horas por dia, levanta sérias questões de qualidade do jornalismo e da sua função de dar a todos, em democracia, informações rigorosas para poderem ter opinião e decidirem. Uma guerra é um tema emocionalmente forte, e 24 horas de guerra por dia presta-se a dois efeitos aparentemente contraditórios: um, um efeito de viciação; outro de cansaço. Quer num caso, quer noutro, o rastro comunicacional torna-se essencialmente emotivo e pouco racional, o que o deixa muito propício à manipulação. No contexto de mentalidade, cultural, social e política, actual torna-se mais um factor agravante da radicalização numa sociedade que já o é em demasia.

Numa democracia, as emoções têm um papel decisivo e tudo as favorece, enquanto a necessidade da razão tem uma vida difícil. As emoções moldam a opinião pública com facilidade, e a razão, não. A comunicação social, principalmente a televisão, que é claramente preponderante mesmo em relação ao papel das chamadas “redes sociais”, comunica facilmente a emoção, e com 24 horas em cima, com uma repetição sistemática de imagens fortes, esmaga a razão. Não podemos deixar que a razão se refugie apenas na reacção do medo, ele próprio uma emoção. O caso da discussão sobre a “zona de exclusão aérea” é um desses casos.

Uma repetição sistemática de imagens fortes, esmaga a razão.

Podemos achar que toda esta imersão emotiva é por uma boa causa, a causa da indignação colectiva contra a violência agressiva de Putin e dos seus crimes, mas não basta ter uma boa causa, é preciso transformá-la em políticas democráticas, no contexto da vida pública em liberdade, e defrontar muitas questões que a emoção não só não cuida, como impede. Políticas de alianças e defesa, políticas energéticas, políticas de independência alimentar, políticas de emigração e refúgio, políticas face à pandemia, políticas externas para além do teatro europeu, políticas de liberdade e contra a censura, tudo numas circunstâncias em que a guerra actual mudou quase tudo. Tudo isto devia estar a ser discutido desde já, para além dos anátemas e da arregimentação, mas isso pode ser mau para as audiências, porque, quer por viciação, quer por cansaço, as pessoas não estão para aí viradas.

Mas sabem qual é alternativa? A alternativa é usar a superficialidade das emoções para fazer uma caça às bruxas, ou para fazer passar pseudo-argumentos que são uma patetice mas circulam. Como, por exemplo, dizer que os ucranianos estão a resistir aos russos porque como povo já tinham resistido à obrigatoriedade da vacinação. Os portugueses pelo contrário, como foram que nem cordeirinhos vacinar-se a mando do “Estado”, não levantariam um dedo se fossem invadidos pelos espanhóis. O desmame das “breaking news” vai ser complicado, mas é necessário.

O autor é colunista do PÚBLICO


FRANCAMENTE, HÁ MENOS DANOS NA UCRÂNIA DO QUE INFLIGIMOS AO IRAQUE QUANDO ENTRAMOS LÁ

Trecho de entrevista do coronel aposentado dos EUA, Douglas McGregor, à Fox Business. Ele deixa os americanos desconcertados com uma visão mais realista da guerra do que a divulgada pelo governo Biden. Confira.

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27 pensamentos sobre “Razão, excitação, cansaço, desintoxicação

  1. Este coronel Douglas McGregor é um Trumpista fascizante, racista e xenófobo. Não me junto com esta gente. A Rússia está a cometer uma agressão bárbara contra o povo ucraniano. A guerra deve parar de imediato e a Rússia deve retirar as suas tropas. Posto isto é verdade que há muitos mais responsáveis pela situação a que se chegou, sendo que quem invade e está a agredir é a Rússia. Volto a dizer que não quero misturas com gente da laia deste coronel.

  2. Gostava que publicasse uma entrevista de um qualquer coronel Russo, a um canal de televisão, também Russo, que lhes desse, aos russos, uma visão da guerra na Ucrânia que as televisões deles lhes ocultam.

    Partindo do principio pouco provável que a Estátua,dado o seu facciosismo primário, publicasse essa entrevista, tal missão seria impossível, pois esse hipotético entrevistado, a existir, seria imediatamente apodado de traidor, esmagado como um mosquito e o órgão de comunicação social que lhe desse antena seria imediatamente encerrado.

    Esta múmia de salitre parece aquele soldado obtuso que marchava de passo trocado e, pensando que ia bem, repreendia os outros por não acertarem o passo com ele desconhecendo que ele é que era o trôpego.

  3. O video merece ser visto e os comentários só comprovam que a Estátua de Sal está a fazer um serviço público. Continue por favor!

  4. Curiosamente (?) o José Pacheco Pereira publicou dois interessantes artigos no Público, antes deste agora transcrito pela Estátua de Sal (ES), que não mereceram ser divulgados neste site, o seu título era “Tempos Interessantes”.
    Qual o motivo? Talvez por serem bastante críticos e condenarem a invasão da Ucrânia ou por simples distração da ES?
    Quero acreditar que foi pelo segundo motivo, pois “censurar” as opiniões contrárias à sua “linha editorial” seria uma coisa muito feia… e não era serviço público.

    • Meu caro. Aqui nao ha censura como de vê pelo seu comentário e de outros, contrarismente ao que acontece na Uniao europeia, portugal incluído, já que estamos impedidos de ver a versão da guerra do lado oposto. Quanto ao Pacheco, publico o que acho bem, tendo em conta que só me obrigo a publicar pelo menos um artigo por dia, e dentro desses limites, faço as mimhas escolhas. Dá-me trabalho e ninguém me paga para publicar seja o que for. Mas se quiser comtribuir para ajudar a Estatua, go on! Todas as dádivas são bem vindas.

      • Impedidos? Eu estou na Europa e ainda ontem vi isto que deixo em baixo. O que é que quer mais: tradução em simultâneo para português dos discursos de Putin (com a sua linguagem de carroceiro) depois do telejornal e, já que agora tantos são tão sensíveis ao Lebensraum, dos discursos de Nuremberga lá mais para a meia-noite?

        Vladimir Pozner: How the United States Created Vladimir Putin (On September 27, 2018, Yale’s Program in Russian, East European and Eurasian Studies)

      • Quer a versão da “guerra” do lado do agressor? (a palavra “invasão”, embora seja a que reflete a realidade, ainda queima a boca a certos comentadores, porque será? Adivinhe quem quiser…).
        Se estivesse em 1939-45 também estaria interessado na versão (?) do lado do Hitler para apurar a verdade do que se estava a passar? Penso que não.
        Sugiro então que melhore as escolhas, está a fazer o mesmo do que acusa os outros. Está a dar apenas o lado daqueles que acham o Imperialismo Americano Mau e o Imperialismo Russo Assim Assim… Olhe que são ambos maus, muito maus. Diversifique, só lhe dá mais credibilidade.

  5. Fui sempre adepto do Estátua de Sal porque é um palco onde se defende a democracia e a liberdade e um mundo mais justo. A paz, a concórdia e a boa convivência universal são valores estruturantes imprescindíveis desse mundo mais justo.
    Por isso, tenho de confessar, surpreendeu-me, e uma vez mais aqui o afirmo, o posicionamento algo confuso deste blogue acerca deste conflito, como se momentaneamente se tivesse perdido numa estranha encruzilhada.
    O Pacheco Pereira fala aqui da relação entre a emoção e a razão e do critério do seu doseamento na interpretação dos fenómenos da nossa existência.
    Assim, penso que não se pode levar a mal que os órgãos de comunicação social se “emocionem” quando um estado invade e agride outro estado nesta Europa em que vivemos destruindo cidades, ceifando vidas e provocando tragédias humanitárias que julgávamos irrepetíveis no continente.
    O exercício da razão naturalmente que entra em toda a análise e busca de explicação e resposta para os nossos desacertos com a vida. Tudo o que acontece tem uma relação directa ou indirecta, próxima ou remota, com factos ou circunstâncias anteriores. Realmente, conforme tem lembrado este blogue, nada é “preto ou branco”, não é possível estabelecer uma divisória nítida entre os “bons e os maus”.
    Não é prioritário recuperar, realçar e trazer para a ordem do dia os erros dos que se têm como os “bons” para assim relativizar-se a gravidade da conduta do agressor, quase que a caucionando. Esta é a sensação que se colhe quando se assiste ao critério que tem presidido à escolha dos artigos que o Estátua de Sal tem publicado sobre este conflito.
    Sim, não há “bons e maus” rigorosamente separados. Mas, em boa consciência, não é possível não reconhecer onde neste conflito estão os maus quando um país independente é inesperadamente invadido e agredido. E mormente quando o agressor congeminou a sua acção de forma bem antecipada (há cerca de 2 anos, segundo os cálculos), fria e calculada. No silêncio de gabinetes, foi concebida a destruição, o aniquilamento e a morte de criaturas humanas que o agressor até tem na conta de irmãos. O que seria se o não fossem.
    Estátua de Sal, os cálculos e acertos geopolíticos são importantes, mas perdem lugar quando vemos destruir cidades e matar civis inocentes. Mais, o alarme deve soar quando vemos que tudo está a acontecer no centro da Europa e assistimos a tragédias humanitárias que nos transportam para os tempos da II Guerra Mundial.
    E tudo fica sombriamente carregado quando vemos no Kremlin uma figura que tem tudo de sinistro.
    Parafraseando o secretário geral da ONU, “em nome da humanidade”, tenhamos como prioridade CONDENAR o causador desta guerra e exigir o seu termo imediato.
    Cada um fará as contas que entender com a sua consciência e os seus alinhamentos ideológicos.
    Mas outra surpresa que me tolhe é ver este blogue, que supostamente é de esquerda, tomar posições ou enveredar por um caminho que parece caucionar a conduta política dum tirano, um ser que veste o figurino da extrema-direita pura e acalenta projectos que em nada se diferenciam do Nazismo. Para mais, veja-se que na Rússia o comunismo deixou de morar há cerca de 30 anos, e nem mesmo durante a sua vigência se pode considerar que ali pontificavam os valores da esquerda, a verdadeira, sinónimo de liberdade, justiça, igualdade e equidade, que julgo ser o farol deste blogue.

    De resto, é hora de todos se consciencializarem que o que está a acontecer em plena Europa tem um potencial de gravidade e perigosidade que em nada o equipara a outros acontecimentos mais recentes cuja responsabilidade é imputada ao Ocidente.

  6. Muito bem. Concordo a 100 % com a sua reflexão. Lamentável que a Estátua de Sal se tenha tornado no cãozinho da His Master’s Voice. O blogue é dele e tem todo o direito de ser ( e é, e muito ) faccioso. Mas nós, que gostávamos de ler artigos interessantes, também temos o direito de: 1) deixar de seguir a His Master’s Voice; 2) Manisfestar a nossa tristeza.

  7. Subscrevo inteiramente o comentário do Aguinaldo Faria.
    Também me faz pena esta deriva da Estátua de Sal traduzida na escolha “criteriosa” dos artigos que tem publicado, na análise da invasão da Ucrânia.
    Claro que tem todo o direito de defender a sua narrativa, como nós temos todo o direito de a criticar (lá pelas bandas do Putin arriscávamos 15 anos de cadeia, mas isso pouco importa…).

  8. Leio aqui vários comentários de pessoas, além de mais sabedoras do que eu também naturalmente bem informadas, sobre o conflito em curso na Ucrânia. Leio e reflicto. Será que estou a ajuizar mal sobre este problema? Se o papa Francisco diz que a OTAN estava latindo às portas da Rússia, o que quererá ele dizer? O prof. da Univ. de Chicago, John Mearsheimer escreve em ‘The Economist’ ‘Porque é o Ocidente o principal responsável pela crise ucraniana’. E confirma esta opinião em entrevista, legendada em português, disponível em ‘Embaixada da Resistência’ e noutros sítios da net. E por que será que os EUA arvorando-se em donos do mundo pretendem impor uma linha vermelha em relação ao acordo em matéria de segurança estabelecido recentemente entre a China e o governo das Ilhas Salomão? Hipocrisia? Dois pesos e duas medidas? Em vez de promoverem uma guerra por procuração para atingir a Rússia, não deveriam os EUA reforçar as relações bilaterais entre os dois países, reduzindo os meios e contingentes militares próprios e da NATO junto das fronteiras da Fed. Russa, reactivando os acordos e tratados internacionais de controle de armamento e de desarmamento, que os EUA abandonaram unilateralmente? E agora, em vez de lançarem mais achas para a fogueira, com mais dinheiro e mais armas para a Ucrânia, não deveriam ajudar a um cessar fogo e a negociações sérias para se tentar chegar à paz? Ou tudo isto não passará, no fundo, de uma guerra de há muito em curso dos EUA contra a China?

  9. É capaz, mas os Americanos nunca foram bons a Geografia!!
    Queriam uma guerra com a China, mas falharam o alvo por uns milhares de km!
    É preciso meter-lhes um mapa no nariz e dizer: “Oh amigos! É para a esquerda, não é para a direita!”

    Mas, a simplificar desta maneira, ainda diziam que para a esquerda acabava o papel e que caíam no vazio do espaço, portanto, o que é que há de se fazer??

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