Os militares e a análise da guerra no espaço público

(Carlos Matos Gomes, in Blog DasCulturas, 10/03/2022)

Esta guerra na Ucrânia é como todas a outras. É um facto político recorrente. Pode ser analisado recorrendo a métodos racionais ou emocionais. Para os militares esta guerra é analisada recorrendo à racionalidade. Qual é o objetivo da guerra: «Destruir o inimigo ou retirar-lhe a vontade de combater» (Clausewitz — A Guerra). Quando uma parte destrói o inimigo a guerra termina com uma rendição; quando uma parte entende que é mais ruinoso jogar no tudo ou nada, que perdeu o ânimo para combater a guerra termina por negociação.

Os militares reconhecem a ineficácia de insultar os contendores, exceto para os implicados no fragor do combate e da batalha, como escape das ansiedades. Os militares também sabem que a análise de uma guerra não depende da bondade e ou maldade dos propósitos dos contendores, mas do seu potencial, o que inclui equipamento, treino, comando e combatividade. Os militares sabem que resultado das guerras entre Atenas e Esparta, das invasões romanas, napoleónicas e nazis, a batalha de Trafalgar, ou de Lepanto, a ocupação das Américas e de África não foi determinado pela moral, nem pelos princípios da guerra justa, já de si um conceito bastante difuso, que hoje surge associado a um outro que é o do Direito Internacional, aplicado segundo as conveniências e os preconceitos, de forma amoral, porque hipócrita.

A análise que os militares portugueses têm em geral feito nos órgãos de comunicação vem sendo contestada pelos maximalistas e pelos belicistas por colocarem em causa o facto de eles utilizarem os instrumentos de estudo da guerra e não os slogans e as palavras de ordem estabelecidas pelos que estão por detrás deste conflito, disfarçados de defensores de princípios morais e éticos!

Os militares da craveira intelectual da maioria dos que mais têm aparecido nos órgãos de comunicação social e com a sua experiência nos conflitos europeus — Kosovo, Bósnia, Sérvia, Iraque, Afeganistão — em organizações militares e políticas internacionais, sabem que a moral — O Bem e o Mal; e a ética, o que deve ser feito — nunca são elementos levados em consideração na decisão de desencadear uma guerra, nem no planeamento e na condução de operações. Sabem, isso sim, que os argumentos morais e éticos constrangem as pessoas, que são munições de ação psicológica para ganhar as opiniões públicas, fortalecer as forças amigas e desmoralizar as inimigas. Os militares sabem que os argumentos morais podem ser e são quase sempre utilizados retoricamente como propaganda para mascarar motivos menos nobres e os que detêm maior poder militar, económico e comunicacional utilizam-nos sem considerações de ordem moral.

A maioria dos militares que vêm analisando esta guerra no espaço público têm colocado os argumentos de ordem moral no campo das ações de propaganda e das ações de guerra psicológica, utilizadas por ambos os beligerantes. Este desmascaramento dos «Bons» choca com a narrativa pré-estabelecida pelos manipuladores oficiais, incluindo jornalistas. Daí a acusar os militares de “putinistas”, isto é, de vendidos ao inimigo, aos «Maus», foi um passo. A falsa moral é como a falsa virtude: tenta acusar os outros antes de ser desmascarada.

Os militares convidados pelas TVs e rádios são dos que leram Tucídides e a sua Guerra do Peloponeso (uma excelente tradução do coronel David Martelo). Conhecem o episódio em que os atenienses navegaram até à ilha de Melos para sufocarem uma revolta (416 ac) e quando os Mélios lhes disseram que estavam a lutar pela liberdade (um argumento moral), o general de Atenas respondeu que podiam combater e morrer ou render-se, adiantando que: « os fortes fazem o que têm poder para fazer e os fracos aceitam o que têm de aceitar.» (um argumento realista).

A análise militar não parte da interrogação se sou dos bons ou dos maus. O bom e o mau depende do lado em que se encontram os contendores, dos seus interesses e objetivos. Os militares partem das perguntas: Sou suficientemente forte para lutar (de que meios disponho)? Que hipóteses tenho de vencer (que meios dispõe o meu inimigo, qual a relação de forças? Que perdas me são aceitáveis?

O que os militares têm feito é equacionar o mais realisticamente possível com as informações disponíveis as opções dos contendores. Do outro lado, do lado dos seus detratores, encontram-se os pontas de lança de bancada, cada um com as suas razões para defender a sua dama, mas de facto sem nada ajudarem as verdadeiras vítimas da agressão, cujo sofrimento é utilizado em nome da moral, mas sem moral, e sem nada contribuir para deter os agressores, antes pelo contrário, criando condições para estes justificarem a escalada de violência.


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2 pensamentos sobre “Os militares e a análise da guerra no espaço público

  1. Essa é que é essa. Remove-se a propaganda e o que sobra da “imprensa livre” portuguesa? NADA.

    Quem queria a paz, não tivesse tentado expandir a NATO, não tivesse violado acordos de paz de Minsk, não tivesse armardo batalhões nazis que recusaram parar a guerra de 8 anos no Donbass, não tivesse desenvolvido laboratórios químicos e biológicos, tivesse aceitado a autodeterminação da Crimeia em vez de ameaçar reconquistá-la pela força, não tivesse votado na ONU a favor da glorificação do nazismo, e bão tivesse ido a Munique fazer uma autêntica declaração de guerra com armas nucleares à mistura.

    Quem analisa esta guerra com a estupidificação discursiva do “Zelensky herói, Putin mau” é quem quer mais guerra. Quem pede exclusões aéreas e maos armas no conflito, é quem quer mais guerra. Quem chama “genocídio” a cerca de 800 mortos nesta invasão (recuso chamar civis a quem está com a arma numa mão e o cocktail molotova na outa), mas fechou os olhos a +13 mil mortos em Lugansk e Donetsk, não tem moral nem legitimidade para se fazer de vítima. E quem chama a isto uma “guerra não provocada” e diz que 2 milhões de mortos no médio oriente foram “operação pela liberdade e democracia pós 11-Setembro” pode estar tudo menos bem intencionado.

    Mas a propaganda funciona e a mentira espalha-se depressa numa população cuja ignorância só tem par no nível de lavagem cerebral. Já há, segundo sondagens, quase 40% de Portugueses com vontade da NATO entrar na guerra (dando início à última guerra mundial, pois será aquela das armas nucleares), e só 7% dos portugueses culpam os que tornaram a guerra em algo inevitável: 4% EUA, 2% Zelensky, 1% UE, 1% NATO. Se isto se verificar também noutros países deste bloco, então eu traço já o nosso destino: estamos perdidos.

    Que a paz venha o mais depressa possível, que as vítimas de facto civis sejam as menores possíveis, que o modus vivendi seja obtido com um acordo de paz e neutralidade com tanto sucesso como o acordo URSS-Finlândia, e que os rapazes russos abram covas bem fundas para o Batalhão Azov enquanto essa paz não chegar.

    Depois, no médio prazo, que o fim do império dos EUA seja também rápido, e de preferência só com guerra civil e de secessão, sem se espalhar além fronteiras. E que a Europa perceba que só tem hipótese neste século se se virar para África e Ásia em geral, para a normalização das relações com a Rússia, e só recuperará legitimidade e credibilidade na verdadeira comunidade internacional, se deixar de apoiar Israel e todas os crimes de guerra da NATO e aliados, ao pé dos quais o que a Rússia está a fazer é um grão de areia.

    Quanto aos ignorantes que são presa fácil destas 3 vergonhosas semanas de propaganda falsa e ódio russofóbico, tenho só uma coisa a dizer-lhes: ainda vos faltam 20 anos desta situação na Ucrânia para chegarem à razão e ao nível de ódio que eu tenho à NATO em geral e aos EUA em particular. A vossa hipocrisia, de quem bateu palmas pelos bombardeamentos na Sérvia, festejou as invasões no Médio Oriente, é negacionista desses crimes de guerra e do Apartheid em Israel ou do genocídio Curdo, e chorou contra o fim da invasão do Afeganistão, bateu um record mundial que dificilmente será ultrapassado.
    Se bem que esta notícia do juíz que deixou um criminoso nazi à solta para ir dar “ajuda humanitária” ao Batalhão Azov anda perto desse record… E aquela de agora chamar “defensores dos valores europeus” a Duda e Orbán, se não é record Mundial, é pelo menos record Europeu…

    PS: que os generais racionais continuem a ter voz, pois são o melhor que se aproveita destas 3 semanas. Já em termos mais emocionais, senti inveja do espetáculo que adeptos Sérvios fizeram num estádio em Belgrado (e que simbolismo!) a manifestarem-se contra TODAS as guerras, numa chapada de luva branca exemplar às hipócritas manifestação ciano+amarelo que por cá mais parecem ajuntamentos do clube da fans da NATO ou um crowdfunding ao ar livre para dar inícuo à Última guerra mundial.

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