Deus não dorme. Os portugueses também não

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/02/2022)

Miguel Sousa Tavares

A vantagem de haver eleições ao domingo e escrever à quarta-feira é que, aqui chegado, já tudo foi dito e escrito e, embora nada de novo possa ser acrescentado, é possível reflectir não apenas sobre os resultados mas também sobre as reflexões alheias. E isso é, pelo menos, o mais divertido, sobretudo no que respeita à opinião da “esquerda lux”, com presença avassaladora nos media portugueses, quer a nível de colunistas de opinião, quer mesmo a nível de jornalistas. É, aliás, uma tradição eleitoral nossa a de ser bem mais divertido do que ouvir os vencedores explicarem as razões da sua vitória ouvir os vencidos explicarem porque é que, afinal, não perderam — nem a eleição nem a razão. Assim, tudo ouvido e tudo lido, eis o que guardarei para memória futura.

A VITÓRIA DE ANTÓNIO COSTA. Foi dele e não do PS. Com Ana Catarina Mendes ou Fernando Medina, o PS teria ganho, mas sem maioria absoluta; com Pedro Nuno Santos teria perdido. Com António Costa ganhou o PS do centro e também, como ele disse, “da estabilidade, da segurança e da certeza”. E da sorte, na qual o homem é um fenómeno. Apesar de uma péssima campanha, com objectivos ziguezagueantes e truques de feirante, Costa beneficiou da sorte em tudo: na ajuda das sondagens, no castigo dos eleitorados do BE e do PCP e em todas as repartições de votos devido ao método de Hondt (em Bragança, roubou um deputado ao PSD por 15 votos!).

A RESPONSABILIDADE DE RUI RIO. É quase nenhuma. Rio esteve em alto nível no debate com Costa e fez uma campanha “limpa”, ao seu estilo. O único erro foi não ter sido veemente (aos gritos, se necessário) na demarcação do Chega, permitindo que Costa e a extrema-esquerda usassem essa ligeira ambiguidade para uma ampla deturpação. Mas a verdade é que a missão patriótica de conter o Chega lhe coube toda a ele, ao mesmo tempo que lhe cabia a tarefa impossível de ganhar as eleições sem o Chega e contra o Chega, num país em que, com a breve excepção do traumático pós-Sócrates, existe uma consolidada maioria de votantes de esquerda e centro-esquerda. Não conseguiu ganhar nem evitar a maioria absoluta do PS, mas foi ele que deteve o crescimento do Chega — ele e não a esquerda.

E teve mais votos do que em 2019 e apenas um deputado a menos.

E sem cair na tentação de louvar-se da herança e dos tempos do PSD de Passos Coelho, de que, pese a alguns espíritos saudosistas do partido, não creio que a grande maioria dos portugueses tenha saudades.

AS SONDAGENS. Ao contrário do que foi conclusão apressada, as sondagens não se enganaram — elas decidiram, o que é coisa diferente e dá que pensar muito. Quando, até à antevéspera das eleições, indicaram ou que o PSD podia ganhar ou que o PS iria ter apenas uma maioria relativa e teria de negociar talvez com o PSD, os abstencionistas da extrema-esquerda decidiram-se e decidiram as eleições.

Em vez de ficarem em casa para castigarem o BE e o PCP com a sua abstenção, foram votar PS, afastando as hipóteses de uma vitória do PSD ou de um entendimento ao centro sob liderança do PS.

O CASTIGO Mas o BE e o PCP — que se justificaram com tudo e mais alguma coisa — não se podem queixar das sondagens. Se os seus potenciais votantes se mobilizaram para ir às urnas devido às sondagens — e foram-no —, também poderiam ter escolhido votar nos seus partidos de origem e não no PS, e esse voto também teria evitado a vitória do PSD.

Se não o fizeram foi porque não perdoaram o chumbo do Orçamento e a crise que desembocou nestas eleições.

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Aliás, a teimosia com que BE e PCP insistiram durante toda a campanha e depois dela em tentar vender a versão de que foram o PR e o PS quem provocou a crise e as eleições excedeu a desonestidade intelectual, entrando mesmo no terreno da simples tentativa de passar um atestado de estupidez aos portugueses. Ainda por cima reincidente, pois ainda nos lembramos de quando, em 2011, os mesmos partidos se juntaram à direita para, com igual pretexto, chumbar o PEC IV, forçar a queda de um Governo socialista e trazer a direita para o poder. Desta vez nem sequer deixaram o OE ir à especialidade: o killer instinct está-lhes na massa do sangue. Dizem que o OE “não era bom”, uma razão legítima.

Sucede, porém, que não era o deles, era o de quem tinha ganho as eleições…

Agora, o PCP vai para as ruas, via CGTP (que logo tratou de o anunciar), e o BE vai ter muito que cismar.

O CHEGA. Parece que há 385.559 devotos da extrema-direita, saudosistas do fascismo ou do salazarismo, racistas, protonazis ou outras coisas que tais: os votantes do Chega. Parecem muitos, mas não me impressionam por aí além: em 25 de Abril de 1974 eram muitos mais, infinitamente mais. Cinquenta anos de democracia, apesar de todos os queixumes e da confusão entre democracia e prosperidade, não fizeram esta falange negra crescer além dos 7% da população — bem menos do que em Espanha, França, Alemanha, Itália e em tempos em que o sinistro papel desempenhado pelas redes so ciais ajuda determinantemente ao crescimento deste vírus. E se 12 deputados do Chega na AR são uma vergonha para todos os outros de nós, também tenho a esperança de que quatro anos a olhar de perto para as caras daquela gente e a boçalidade política daquele grupo sirva para apressar o fim da doença.

O LIBERALISMO FUNCIONA E FAZ FALTA? Tal como em 2019, com muito poucos meios, a Iniciativa Liberal fez a melhor e mais inteligente campanha eleitoral. Aquilo que, à falta de imaginação, a “esquerda lux” chama o “darwinismo social” da IL foi o sucesso em conseguir pôr o país a discutir temas até aqui arredados da discussão pública. E, com razão ou sem razão, em muitos deles a coisa não vai ficar por aqui, porque, ao contrário do Chega, a IL vai ter o grupo parlamentar mais jovem e mais qualificado e absolutamente virgem de passado político. Sanitariamente avessa à extrema-direita e claramente demarcada da direita conservadora, a IL poderá vir a ser a grande surpresa desta legislatura.

OS DESAPARECIDOS. Creio que, sem menosprezo por alguns bons deputados que tinha e teve no passado, nenhum eleitor lamentará o desaparecimento dos bancos do Parlamento dos deputados dos Verdes. Porque os Verdes, de facto, nunca existiram enquanto partido autónomo, dotado de vontade própria. Um partido que estava há décadas no Parlamento sem nunca ter ido a votos e apenas como muleta de outro não existe politicamente. E de verdes tinham muito pouco. O PAN não acabou, mas quase. O partido que se afirma da Natureza e dos Animais só recolhe votos entre os donos de gatos e cãezinhos das cidades. Nesta interrompida legislatura tentou apressadamente reconverter-se em partido ambientalista, tirando vantagem da ausência quase absoluta de verdadeiros protagonistas nesta área. Mas já estava marcado pelo seu extremismo animalista e pela sua funda ignorância do que seja o mundo rural e as leis da natureza e acabou reduzido a uma merecida insignificância. A morte anunciada do CDS foi diferente e mais séria, foi como a morte de um estimável tio-avô às mãos de um sobrinho sequioso por se apropriar da herança. O jovem “Chicão”, sempre secundado pelo seu fiel cangalheiro e parceiro de golpes Anacoreta Correia, revelou-se um ditadorzinho, temente aos desafios e ao mérito alheio, indiferente à história do partido e sem uma ideia naquela cabeça. Em dois anos, afastando alguns dos melhores deputados da AR, cortando com toda a gente de valor, não tendo outro projecto do que mendigar uma boleia no porta-bagagens do PSD, ele conseguiu a proeza de, pura e simplesmente, liquidar o partido.

Demissionário, mas não arrependido, ainda ameaça ensombrar o velório, prometendo “não fazer aos outros o que me fizeram a mim”. Como disse? O GOVERNO Desde o segundo Governo de Cavaco Silva que não tínhamos um horizonte de governabilidade tão desanuviado. Tal como Cavaco, António Costa vai dispor de quatro anos de confortável maioria absoluta, sem estar sujeito a acordos ou chantagens de nenhum outro partido, sem oposição interna ou externa que o possa incomodar, com dinheiros europeus em abundância, uma iniciativa privada ansiosa por participar e a pandemia e a crise económica a darem sinais de se tornarem brevemente passado.

Foi a escolha dos portugueses, uma escolha impensável e para lá das melhores expectativas de António Costa. Os portugueses deram-lhe uma oportunidade raríssima na história da governação: poder ir além da babugem da política e fazer-se ao mar largo da busca de um horizonte de esperança para o país. Só lhe resta estar à altura disso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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4 pensamentos sobre “Deus não dorme. Os portugueses também não

  1. Não sei em que se fundamenta o Miguel Sousa Tavares (MST) para proferir a afirmação ” de que a “esquerda lux”, tem uma presença avassaladora nos media portugueses, quer a nível de colunistas de opinião, quer mesmo a nível de jornalistas”.
    Afora a boutade de “esquerda lux” (francamente não consigo no léxico político encontrar um tal conceito de esquerda)
    ao contrário do que MST afirma, a esquerda (PS, PCP e BE) é largamente minoritária nos media portugueses.
    Basta uma atenta leitura dos jornais (Expresso, DN, Observador, jornais económicos, e até mesmo o Publico) e ouvir as televisões (SIC, TVI, CMTV e a nóvel CNN Portugal), para alguém intelectualmente honesto reconhecer que o comentário político é maioritariamente dominado pela direita.
    Algum equilíbrio entre os diversos quadrantes políticos existe apenas na RTP, mas mal fora que uma televisão pública, paga por todos os contribuintes, não o tivesse.
    Estranho seria, aliás, que os media dominados por grupos económicos privados (Impresa, Media Capital, Cofina, Sonae, etc.) dessem voz maioritária à esquerda.
    Mas enfim, o prestígio e o estatuto a que MST se alcandorou nos media, permite-lhe produzir afirmações (em seu entender inquestionáveis) mas que não correspondem minimamente à realidade.

    • Ridículo é que, MST não tenha ouvido o António Saraiva na CNN, a afirmar que, foram os patrões e não só, a garantirem a maioria absoluta a António Costa.
      E disso, não ouvi qualquer opinador ou jornalista a dar-nos conta e o porquê dessa confissão do representante dos patrões..

  2. QUANDO MST,entra em delirio .por exemplo,quando afirma que a CS é dominada pela esquerda ,a suaopiniao e necessariamente uma opinião “livre e qualificada” ,mas senescencia prega-nos partidas ,como por exemplo a “cegueira e as pataratas “,precisa de intervenção ,pois pode “cegar” de vez em nem sequer um Oftalmologisla o salvará,sei que no Expresso terásempre coluna ,pq dar tiros no escuro qualquer cego de ocasião aí tem “abrigo”…..

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