Ventura tem razão: Sampaio estava nos seus antípodas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/09/2021)

Daniel Oliveira

Cumprindo o papel institucional, que já percebeu que lhe é exigido em momentos demasiado emotivos para as suas pantominices, André Ventura fez o elogio fúnebre de Jorge Sampaio. Deixou para dirigentes do Chega de segunda linha expressões como “espero que a terra lhe seja leve mas que não apareça, nos próximos cem anos, mais nenhum Jorge Sampaio”. Teve, mesmo assim, a honestidade de dizer que “o Chega está nos antípodas do pensamento político de Jorge Sampaio”. É importante sublinhá-lo, quando se desenham falsos unanimismos em torno de uma figura querida dos portugueses. Mas não são apenas meras diferenças de opiniões, mas clivagens morais profundas. De nada serve recordar Sampaio se isso não tiver um significado político para o que queremos e o que não queremos.

Não é seguramente em torno do momento mais polémico da vida política de Sampaio, quando deu posse a Santana Lopes e, quatro meses depois, dissolveu o parlamento, que se desenham as grandes clivagens com o seu percurso. A análise política e constitucional pode divergir, mas não estão em causa valores fundamentais. Não é seguramente por isso que Ventura está nos antípodas de Sampaio. Estará, antes de tudo, porque ele foi um corajoso antifascista, que arriscou a liberdade em nome da democracia que Ventura aproveita mas combate. Estará, porque ele era um homem de valores. Mas a maior diferença está mesmo no percurso de Jorge Sampaio depois de ter sido Presidente da República.

Para dar sustento ideológico à impostura que levou à guerra-negócio no Iraque, os neoconservadores penduraram-se sem grandes pruridos intelectuais nas teses do “choque de civilizações”, de Samuel P. Huntington, alimentando com oportunismo a islamofobia que o atentado de 11 de setembro viria a potenciar. Tão poderosa, generalizada e transversal como, no passado, foi o antissemitismo. Que deu jeito a conflitos armados que nada tinham de civilizacional e força a toda a extrema-direita ocidental.

Com a autoridade de ter impedido a participação das Forças Armadas portuguesas no atoleiro iraquiano (apenas foram efetivos da GNR), e já depois de ter sido enviado especial para a Luta contra a Tuberculose, Sampaio foi nomeado em 2007, por Ban Ki-moon, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. Um organismo que nasceu de uma proposta de Zapatero e que tinha como principal objetivo desanuviar tensões e criar pontes entre o chamado mundo ocidental o mundo islâmico, combatendo a força do islamismo político radical e da islamofobia no ocidente. Depois da “problemática, contestada e danosa invasão e ocupação militar do Iraque”, como há um mês a descreveu Sampaio, esta era uma tentativa generosa (apesar de pouco frutuosa nos resultados) de combater o caldo político criado.

Apesar de simbolicamente menos relevante, a Plataforma Global para Estudantes Sírios, que o próprio Jorge Sampaio queria que se alargasse agora aos afegãos, teve muito mais efeitos práticos, com muitos jovens fugidos da guerra a terem a oportunidade de seguir o seu percurso escolar, com bolsas universitárias, dando massa critica a uma Síria com futuro e alimentando relações de cumplicidade e solidariedade entre culturas diferentes. Graças a Jorge Sampaio, mais de uma centena de jovens estudantes sírios frequentaram o ensino superior em universidades portuguesas e não só.

A ideia de que as inevitáveis tensões entre culturas se combatem ou atenuam pelo conhecimento mútuo e a solidariedade está nos antípodas dos que aproveitam o medo e a incompreensão para ganhar força política. 

Sampaio não estava nos antípodas dos cultores do ódio por mera divergência política circunstancial. Porque ele era de esquerda e Ventura é de direita. Está nos seus antípodas por ter querido sempre fazer parte das soluções e não ser mero beneficiário de cada problema. Sampaio está nos antípodas éticos e não apenas políticos de Ventura. Representa tudo o que Ventura nunca poderá representar. Poderá ter muitas vezes estado em minoria e não poucas terá desagradado muita gente. Mas, no fim, conta com aquilo que está reservado a poucos: ao respeito dos homens bons.

Quem vive obcecado pelo sucesso raramente conquista a glória. Sampaio tinha o que dá a muito poucos o acesso à imortalidade. Não é o oportunismo que saca uns votos pelo ódio primário. Os que se contentam com tão pouco só são recordados se chegarem demasiado longe. E sempre pelas piores razões.


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3 pensamentos sobre “Ventura tem razão: Sampaio estava nos seus antípodas

  1. Um texto bem explicativo do que verdadeiramente distingue a atitude, a acção de uma política de esquerda da acção de direita, pena não denunciar como alguma “ingenuidade” da esquerda tem sido “usada” pela direita para se perpectuar no poder.

  2. É impressionante ver como Daniel Oliveira e tantas outras figuras menores da Esquerda comem na mão de Ventura e da Direita. O ganha-pão deles é devido unica e excusivamente à existencia da Direita! Devem sentir o orgulho muito ferido, quando pensam nisso…

    • Caro Zink.

      E quando não têm inventam fascistas.

      Já não falo do pobre Trotsky, o criador do exército vermelho assassinado à picaretada sob a acusação de fascista ou da declaração da internacional comunista que a social.democracia é uma forma de fascismo.

      Falo de casos mais recentes.

      Assim o Daniel Oliveira foi metido no saco dos fascistas pela Insupeita Joacine que declarou que ele tem um discurso de extrema direita.

      Nem sei como a estátua publica os textos de extrema direita do Daniel Oliveira.

      Já começo a desconfiar que a cara estátua também seja um fascista infiltrado.

      But last but not least, a esquerda descobriu outro perigoso fascista que quase passava desapercebido.

      O ASTÈRIX !!!!!!!!!!!!!!!!!!

      Em escolas do Canadá livros do Astérix e também Tintin e Luky Luke foram retirados das bibliotecas e destruidos por serem racistas fascistas e machistas.

      A ideia era queimar os livros em grandes fogueiras nas escolas, como os nazis faziam.

      Mas a pandemia interronpeu o projeto e queimaram apenas trinta em cerimónia de auto-de fé filmado para serem “educativamente” visionados pelos alunos. Assim tipo Hitler jugend mas de esquerda.

      Os outros, milhares de livros foram destruidos para reciclagem.

      Podemos dormir tranquilos com esta esquerda nada chalupa a descobrir fascistas em todo o lado.

      Cuidado ó estátua, tu podes ser a seguir ao Daniel e ao Astérix.

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