Uma democracia cansada, triste e zangada

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/09/2021)

Pacheco Pereira

Escrever sobre impressões é arriscado e corre o risco de ser inútil ou, pior, ser uma colecção de lugares comuns. Não há nenhum medidor do “cansaço”, da “tristeza”, da “zanga” no sentido do título, a não ser estudos de opinião, sondagens, num terreno muito mais subjectivo do que objectivo. Mas há sinais. Maus sinais. Comecemos pela razão por que eu não digo que é Portugal, nem “o país”, nem “os portugueses”, o sujeito, mas sim a democracia. E aqui as coisas pioram muito, porque o estado da polis, que seria o primeiro remédio se estivéssemos a falar do país, ou o local onde em democracia se poderiam “arranjar” as coisas que estivessem estragadas, andando mal, tudo o resto tende a ser pior. Voltemos ao pathos, ao logos e ao ethos.

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Estamos em plena campanha eleitoral e o único elemento positivo é o próprio facto de haver várias dezenas de milhares de pessoas que se candidatam por todo o país. É a manifestação de massa mais relevante na democracia portuguesa nestes dias. Mas, fora isso, mesmo os grandes candidatos, ou que já ganharam, ou que têm meios e recursos, ou que têm fortes expectativas de ganhar, não conseguem colocar na rua um número mínimo de pessoas, fora os funcionários e os profissionais das campanhas.

De há muito tempo que se verifica esta situação e as chamadas “arruadas” são tão ficcionais como a Carochinha. Se olharmos para as janelas, que é um critério que ajuda a perceber a mobilização, cada vez há mais… nada. Até porque os candidatos, prudentes, escolhem ruas apertadas e trajectos curtos em zonas onde não há pessoas. Na televisão parece resultar, mas, fora os militantes, não está lá ninguém. E nem essas pessoas colocam autocolantes, sinal em desuso de pertença a uma campanha, e quando os têm tiram-nos mal se afastam do grupo. É relevante esta substituição da mobilização e contacto pessoal pelo marketing, ou seja, pela propaganda? Numa democracia, é. A democracia precisa do empenho da gente comum por aquilo em que acredita, precisa de um bom pathos. Não há.

O resto vai no mesmo sentido. Com a treta do Facebook e das redes sociais, lá colocam, por obrigação, uns simulacros de programas, que online ninguém lê. Seria interessante ver o que era lido em papel e o que é lido online, mesmo texto, mesma dimensão, mesma intenção. Suspeito seriamente que nem metade. Eu não estou a dizer que liam muito em papel, mas o que lêem online é para aí metade. O congresso do PS gabou-se de não ter quase nada em papel, para proteger as árvores… e não se preocupa com o facto de que moções e programas, que já eram pouco lidos quando se podiam folhear, agora nem isso. Isto tem como resultado que o elemento racional da actividade política, o seu carácter argumentativo, fica completamente dominado pelo espectacular. Só que a democracia precisa da razão, precisa de um logos que funcione. Não tem.

Cartaz do Chega colocado na Amadora e em Lisboa Arquivo Ephemera

O que sobra é a radicalização. Em muito momentos da história assistimos a processos de radicalização, e nunca dão bom resultado. Sem querer ir mais longe do que o invocar de um exemplo perfeito, a democracia republicana de Weimar na Alemanha acabou assim, metade por metade, excluindo-se uns aos outros, esmagando o centro. Até ao momento em que uma das metades chegou aos 75%, e acabou com tudo o resto, o que sobrava da outra metade e o que estava no meio. Após menos de 15 anos de uma democracia débil, demorou menos de um ano para os vencedores da radicalização mudarem tudo o que queriam, varrendo o resto.

Hoje, o mau pathos em política está na radicalização, por isso é que o cartaz do Chega aqui reproduzido é um dos cartazes icónicos destes tempos. Não sei se a vaca voadora é a do António Costa e a ambiguidade do voo do animal se destina a vê-lo ir para longe (para a Venezuela, dizem os radicais…) ou se o Chega acha que dando Red Bull à vaca ela voa com eles em cima para o poder. O cartaz é mau graficamente e ambíguo na mensagem, mas de facto o único sector que hoje toma o Red Bull são os populistas radicais do Chega, dos antivacinas, dos teóricos das conspirações e por aí adiante. E em frente deles há muita gente abúlica, o primeiro passo para a impotência. Porquê? Indiferença conta, medo também, mas acima de tudo porque não tem exemplos daquilo que mais falta à democracia hoje e está na base da crise de representação: virtude. Onde é que está o ethos? Não está.


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6 pensamentos sobre “Uma democracia cansada, triste e zangada

  1. É apenas uma Democracia que vai atingindo a idade adulta. “Arruadas” Em Bristol, Manchester ou Birmingham? Em Lille, Lyon ou Marselha? Olhar para as janelas em Rotterdam, Valencia ou Munique? Quem controla a informação é a questão fulcral. Quem tem os meios financeiros e o know how para establecer focus groups que digam o que dizer, a quem, o quê e como, usando as plataformas online. Desde a aparição da Cambridge Analytica que isto é a infancia da arte, Já não se trata em persuadir os eleitores a votarem em determinado sentido, trata-se de mudar a maneira como pensam. É isto “Democracia” ? Creio que não, mas é o que há. Preparem-se.

  2. As eleições são como o carnaval. Antes aparecia nas ruas, com máscaras, pantominas, fantoches; hoje zero. A tv e os mandarins partidários que a infestam garantem a fantochada eleitoral

    Só se sabe haver eleições porque os media, para compensar a sua pobreza intelectual e poupar em custos, todos os dias apresentam as mesmas caras, dos tipos dos partidos, do governo que, em regra nada dizem para além de vacuidades e parvoíces

    O facto de nos outros países, de “democracia de mercado” a situação ser aproximada só pode ter uma leitura. De um lado os fantoches que ainda conseguem ficar sérios quando falam de democracia, procedem a promessas e parvoíces; e a plebe que sabendo nada se alterar sem esforço preferem enterrar-se no sofá, enfiar o nariz no telemóvel ou na tv

    Há seis anos que publico, com maior ou menor detalhe, como se constrói a decisão democrática; como se consegue um sistema judiciário que não recheado de patetas e aldrabões; como se consegue uma representação responsável devidamente corrigida ou substituida, por voto, que não policiado e condicionado por uma Constituição autocrática, pastosa, anti-democrática recheada de autoritarismo. Por exemplo (artº 10º nº 2), fica claro que fora dos partidos ninguém pode concorrer para deputado na AR; como os não-membros de partidos são 97 ou 98% da população estamos conversados sobre democracia

    https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/09/democracia-eleicoes-democraticas-onde.html

    https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/09/camaras-exemplo-de-gestao-neoliberal-e.html

    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/01/presidente-da-republica-figura.html

    VL

  3. O problema é que se permitiu a radicalização do outro lado.

    O Pacheco ofende-se com o cartaz da vaca, que até é engraçado e não tem nada demais. Mas nunca se ofendeu com o cartaz do MRPP a incitar à morte dos ” traidores” nem ao SOS racismo a apelar à morte do homem branco nem à senha iconoclasta de destruir os monumentos nacionais.

    Incentivar os extremistas de um dos lados acaba, por saturação da população, por dar força aos extremistas do outro.

    Se bem que considerar exemplo de extremismo uma brincadeira com uma vaca com asas…

  4. Outra coisa, o exemplo de Weimar 1933 é correto.

    Mas o exemplo de Moscovo 1917 também.

    A Rússia estava a evoluir para uma social democracia à semelhança do que aconteceu com os países nórdicos mas os radicais comunistas liquidaram a democracia e toda a esperança de uma evolução pacífica.

    Também ali se derrubou uma democracia através da radicalização, a única diferença é que foram os fascistas de esquerda a derrubar a democracia.

    Lenine derrubou a democracia russa tal como Hitler derrubou a democracia alemã.

    Hitler e Mussolini não passaram de imitadores “do outro lado” e nunca teriam conseguido chegar ao poder não fosse o impacto que o radicalismo leninista teve na Europa extremando as posições.

    De certa forma podd dizer-se que Lenine provoccou a II guerra mundial com a revolução comunista de Outubro.

    Não fosse essa revolução antidemocrática Mussolini e Hitler não teriam tido modelo nem motivo para a sua revolução reactiva.

    E mesmo que tivessem inventado tudo sozinhos, sem o exemplo da ditadura de partido único implantada por milicias, NINGUÉM LHES TERIA LIGADO PUTO. O fascismo não só não teria tomado o poder como nunca teria passado de uma pequena seita de meia dúzia de fanáticos dos bas fond da politica.

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